Nosso Nome Na Lista.
73 Capítulo 73 - A Palavra Com F
Notas iniciais
Capítulo 73 – A Palavra com F
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Sou tomada por uma onda de raiva tão forte que eu empurro Micha.
— Você não vai fazer isso comigo – eu avisei.
Ele parece surpreso. De verdade, pelo modo como arregala os olhos e me fita como se não entendesse ao que eu estava me referindo.
— Você não vai usar a minha vida para tentar reparar alguma culpa que o senhor esteja sentindo – eu deixei bem claro. – Tenho uma vida aqui, pai. Tenho namorado, tenho amigos... o senhor não pode simplesmente decidir me levar para Alemanha como se eu fosse uma mochila... não vou passar por isso de novo.
Ele abre a boca, mas nenhuma palavra saí dela porque não tem o que dizer.
Tento segurar a raiva que percorre o meu corpo naquele momento, e me limito a negar com a cabeça e caminhar para fora daquela casa velha e poeirenta, de volta para o táxi. Mas a verdade é que eu entro no táxi tão irritada que fecho a porta com mais força do que deveria.
Meu deus... parecia muito incrível essa conversa. E a pior parte é que eu acho que entendo o que está passando pela cabeça dele: provavelmente, Micha está apenas procurando uma solução para os meus problemas. Mas a verdade era que meu pai não entendia nada do que eu estava vivendo e muito menos que eu estava aprendendo a lidar com esses problemas, “sozinha”.
— Letty... – Ele diz assim que entra, em tom baixo e calmo. – Eu só estou pensando no que é melhor para você.
Ele responde dessa forma, como se já houvesse tomado a decisão e não houvesse nada que eu pudesse dizer que o faria mudar de ideia. Fico com tanta raiva que lágrimas se acumulam nos meus olhos e olho pela janela. O pior, é que por mais raiva que eu estivesse sentindo por ele novamente tomar uma decisão sem sequer perguntar o que eu quero, eu não consigo descontar nele... porque ele me parece incrivelmente culpado e perdido. Como alguém que não sabe o que fazer.
Mas isso não é uma coisa que pode se decidir assim. Sem me consultar.
Pais são muito estúpidos às vezes.
No meu caso, quase sempre.
Pelo menos, ele não tenta tocar no assunto de novo (talvez porque eu estivesse realmente irritada e uma continuação seria o suficiente para eu sair do carro em movimento).
Quando chegamos ao seu hotel, enfim, sou surpreendida por três coisas: a primeira é uma mensagem de texto da Dra. Wanda, dizendo que soube do ocorrido, me dando condolências e se dispondo a me ouvir (seja no escritório, ou em qualquer lugar) se eu estiver precisando e eu nunca imaginei como receber uma mensagem assim pudesse quase me fazer chorar (de um jeito inesperadamente bom); a segunda, é que o quarto que meu pai está alugando dessa vez é quase um apartamento (com sala de estar, cozinha e dois quartos); a terceira, está no motivo pelo qual meu pai está pagando por um quarto tão grande: as duas mulheres que nos recebem assim que entramos no apartamento.
Ambas possuem os cabelos tão loiros que parecem quase brancos, olhos claros e rostos aflitos. A única diferença é que uma é mais velha que a outra. A mais nova eu reconheci prontamente como Hazel, a mais nova e minha irmã postiça. Era mais bonita pessoalmente, alta, de pernas longas, e com aquele estilo europeu chique que você só consegue ter morando na Europa. A outra, eu supus, deveria ser Grettel, a mulher dele.
Sou surpreendida por uma onda de raiva que não sei de onde vem.
Eu só não acredito que ele as fez vir para cá também, e me sinto um pouco mal e esquisita quando elas lhe abraçam assim que ele passa pela porta. Talvez esquisita não seja a palavra. Talvez eu me sinta... deslocada. Como se nunca houvesse passado pela minha cabeça que, ah sim, meu pai TEM uma outra família... e que eu não fazia parte dela.
Quando eles conversam em Alemão, não faz com que eu me sinta melhor.
Hazel é a primeira a se virar para mim, enfim se dando conta que eu estava ali do lado do meu pai, e mostra o que eu poderia chamar de “carinha de cachorrinho confuso”. E não diz nada antes de me envolver em um abraço apertado e caloroso, que quase me tira o ar dos pulmões.
— Eu sinto tanto – ela diz num inglês com leve sotaque. – Não consigo imaginar como isso deve ser difícil para você... e sinto muito por nos conhecermos dessa maneira.
Não sei o que responder, mesmo que eu esteja ouvindo muito frases como essas.
Não consigo abraçá-la de volta, porque eu estou olhando para o meu pai com uma cara que eu espero que diga: “o que diabos elas estão fazendo aqui?”. As duas não percebem porque, logo seu abraço em mim é substituído pelo da sua mãe. Um aperto se forma no meu peito, quando ela murmura quase as mesmas palavras, porém, em um sotaque mais forte. E eu sei porque esse aperto está ali: porque elas parecem muito sinceras... mesmo assim... não gosto de tê-las ali.
— Obrigada... – eu murmuro, com muito custo.
E ela me solta, mostrando um sorriso... gentil.
A sensação de outra mulher sendo gentil comigo que não a mãe de Quentin é muito estranha. Como se de repente eu houvesse entrado em uma realidade paralela onde todo mundo gosta de mim... ou pior: sentem pena. Ou pior ainda: fingem que gostam.
— Hum.... Letty, como você deve imaginar, essas são Grettel e Hazel – Meu pai diz, parecendo sem graça. Provavelmente, estranhava a sensação que dois mundos diferentes estavam se encontrando pela primeira vez. – Elas... fizeram questão de vir depois que... souberam o que houve.
“Fizeram questão de vir” a frase ecoa na minha cabeça de maneira estranha.
— Por quê? – A pergunta escapou da minha boca sem que eu conseguisse controlar.
Era óbvio que eu sabia o porquê: porque elas sentiam pena. Sentiam pena da garota que encontrou a mãe morta na banheira e que agora estava mais sozinha do que... alguma coisa que vive sozinha. Sem ter para onde ir, sem poder se sustentar, sem ter como continuar a viver sua própria vida sem perturbar as pessoas em volta.
Não sei se minha pergunta as irrita, mas elas ficam surpresa com ela.
— Hum.... bem... acho que.... Somos parte da sua família – Grettel diz, em seu forte sotaque alemão. – Eu, pelo menos, sinto como se você fizesse parte da nossa.
Me pergunto como alguém que até então nunca havia me visto antes pode achar que eu faço parte da família dela. Mais do que isso, me pergunto, afinal, o que faz uma família? Laços sanguíneos? Não tenho nenhum com elas. Laços de afeto? Tão pouco.... Não sei o que a faz pensar que sou da família deles.
Eu não queria ser grosseira e muito menos insensível, mas, por algum motivo, usar a palavra com F foi a gota d’água para mim. Porque pessoas que não sabiam nada estavam agindo como se soubessem. Então, antes que eu consiga me controlar, eu me ouço dizendo:
— Família? Vocês não são minha família...
Aquela voz não parecia minha. Ela estava cheia de raiva.
— Letty... – Meu pai me alertou.
— EU NUNCA TIVE A MERDA DE UMA FAMÍLIA! – Eu gritei para ele. Então eu me virei para aquelas duas... imagens de perfeição e simpatia. Meu deus, que raiva eu sentia delas. – MINHA MÃE ME ODIAVA! Você sabe o que é isso?! Eu ARRUINEI a vida dela! E o meu pai?! Ele nunca esteve aqui... agora ele acha que pode chegar, com a sua família alemã perfeita, agindo como se me conhecesse e tomando decisões POR MIM!
Elas me olham com choque. Até meu pai está me olhando assim, e eles não conseguem pensar em nada para me dizer... porque não tem o que responder. Qualquer um poderia dizer que tudo aquilo era verdade. Não uma distorção e nem uma invenção.
Eu não percebo as lágrimas em meus olhos até que elas transbordam. E então minha raiva se transforma em uma tristeza profunda. Uma tristeza que estive tentando, o tempo todo, não sentir. Fingir que ela não estava ali.
— Minha mãe acabou de morrer... e você traz elas para cá? – Eu pergunto, meneando com a cabeça. – Ao invés de só passar um tempo comigo... você precisa delas?
Eu me sinto patética. Eu sou uma pessoa patética.
— E- eu não sou tão forte, Micha... – Eu digo. – Eu não aguento ser rejeitada vezes e mais vezes... e só ser trazida para perto... quando não tem mais outra opção.
— Letty...
Eu nego com a cabeça. Não quero mais ouvir o que ele tem a dizer, por isso, eu apenas saio de novo pela porta que eu acabei de entrar e vou embora.
Eu acho que o ouço gritando meu nome..., mas não consigo ouvir nada além do tom patético que ecoa na minha cabeça.... Uma voz que murmura: você nem sabe para onde ir, você nem tem para onde ir, você está cansada...
De fato, eu estava cansada... de muitas coisas.
Eu só quero caminhar até que tudo desapareça... até que toda essa confusão desapareça. Até eu estar tão cansada que não consiga mais pensar nas últimas horas, porque quando eu pensava.... Tudo o que vinha era: em um instante, eu tinha a quase certeza de que minha vida entraria nos eixos... e no instante seguinte... sentia como se tudo houvesse sido arrancado de mim. E enquanto eu ando, penso no meu pai (que esteve sumido por anos, mesmo que minha mãe o tenha feito acreditar que eu o rejeitava) aparecendo agora, querendo me levar com ele... e com sua família de pessoas estranhas e perfeitas.
Um peso aperta meu peito, quase me roubando o ar.
Há algumas semanas ele nem falou nada sobre morar na Alemanha (talvez visitá-lo), mas nada sobre que ele queria morar comigo. E isso, eu percebo, é uma das coisas que mais me magoam. Não que eu quisesse ir... eu só queria me sentir querida em algum lugar, ao menos uma vez na vida.
E é isso o que me torna uma garota digna de filme de drama: chorando na rua e caminhando sem rumo por ruas que eu nem sabia onde ficavam. Faltava apenas a chuva começar a cair, mas o fim de tarde estava bonito. Sem nuvens no horizonte. Cansada, eu me jogo em um banco do lado de fora de um café, e pego o meu celular.
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Dra. Wanda chega na cafeteria minutos depois da minha ligação.
Foi difícil dizer exatamente aonde nos encontrarmos, porque eu não sabia onde estava, mas depois de dizer o nome da cafeteria ela pediu para que eu a esperasse. De alguma forma, ela conseguiu (provavelmente digitando o nome da cafeteria no GPS do celular). E foi um alivio ser encontrada por ela.
— Oi, Letty – ela diz, sentando-se à minha frente. – Já pediu alguma coisa?
Neguei com a cabeça.
— Não quero nada – confessei.
Mesmo assim, ela me ignora e pede um café e um chocolate quente para a garçonete. Então se vira para mim com um sorriso simpático. A psicóloga fora do escritório não era uma mulher diferente: usava as mesmas roupas em tons calmos e que poderiam muito bem vestir uma professora do ensino médio.
— Eu sinto muito pelo que aconteceu – ela começou. Como todo mundo. A frase mais ouvida dos últimos dois dias. – Não consigo imaginar o como isso está sendo difícil para você – Bingo! – Como você está se sentindo?
Eu penso sobre sua pergunta por muito tempo.
Tempo suficiente para a garçonete chegar e depositar as bebidas quentes na nossa mesa. Wanda não parece impaciente. Se há uma coisa que a psicóloga parece, é sem pressa nenhuma. Como se eu tivesse todo o tempo do mundo para encontrar uma resposta para essa pergunta tão simples.
— Perdida. Indesejada. Com raiva... e sozinha... Se juntar tudo isso deve dar algo muito perto de “miserável” – eu respondi com sarcasmo.
Dra. Wanda, mostra um meio sorriso debochado. Provavelmente pensando em algo algo a ver com eu usar o meu sarcasmo para ridicularizar os meus problemas a fim de fazê-los parecer menores do que eram (algo que ela disse algumas semanas atrás). Então leva sua xícara de café aos lábios.
— E o que causou tudo isso, Letty? – Ela pergunta suavemente.
Eu penso numa resposta simples..., mas não há.
— A última coisa que a Sra. Victoria disse para mim... foi que eu sempre fui a sua maior decepção. E eu comecei a me perguntar o quão verdade isso seria... até o ponto dela-... fazer o que fez – eu confessei. – Estou com muita raiva... de tudo.
— Bom... Sentir raiva é bom... – ela diz, colocando a xícara no pírex.
— Não parece – eu confessei. – Porque... parece que sempre que eu sinto raiva-...
Um suspiro pesado escapa dos meus pulmões.
— Você sabe porque sentimos raiva, Letty? – Wanda perguntou.
Neguei com a cabeça.
— A raiva... é um sentimento ligado a várias coisas, mas principalmente à frustração. Já vi em muitos casos, principalmente àqueles que envolvem uma morte repentina, as pessoas sentirem raiva. E por que não? Você nunca esperou que sua mãe fosse morrer desse jeito... e quando coisas inesperadas acontecem... nós ficamos frustrados – Ela explica, calmamente. – Por isso a raiva é um dos estados do luto.
Eu pensei nisso, e talvez ela tivesse razão.
— Eu... antes que percebesse, comecei a sentir muita raiva de mim mesma – eu admiti. – Porque, primeiro senti raiva dela... por ela ter acabado com o meu psicológico... e ter decidido simplesmente-.... Senti como se ela tivesse feito isso só para me atingir... e isso me deixou com muita raiva... e ao mesmo tempo... assustada comigo mesma... porque sinto como se.... eu sempre tivesse falhado com a minha mãe... porque eu nunca fui a filha que ela quis de mim.... E porque eu arruinei a vida dela.... Quando eu senti raiva dela... me senti muito culpada.
— Interessante – ela comentou, apoiando o cotovelo sobre a mesa, e a mão em seu queixo. – Você prefere sentir raiva de si mesma do que da sua mãe?
Eu franzi o cenho.
— Me parece injusto sentir raiva da minha mãe – eu admiti. – Ela estava sofrendo com muita coisa... e eu... sinto que tornei tudo mais difícil para ela.
— Relacionamentos, Letty, são uma via de mão dupla. Você não sentia como se ela estivesse tornando tudo mais difícil para você também? – Wanda questionou.
Pela primeira vez, me vejo sem resposta. Era óbvio que eu achava que ela tornava as coisas difíceis para mim. Insuportavelmente difíceis..., mas por algum motivo, eu sentia como se devesse apenas aceitar minha parcela de culpa em tudo. Não me parece justo simplesmente apontar o dedo para minha mãe e lhe dizer tudo o que ela deveria ter feito quando viva.
— Se você fosse exatamente o que ela esperava de você... como acha que seriam as coisas? – Wanda perguntou com curiosidade.
Eu abro a boca, mas a resposta não vem.
Porque eu tento imaginar esse cenário.
Tento imaginar que eu sou alguém bonita e agradável como Ellen. Tento me imaginar... vencendo os concursos de Miss Primavera, namorando o cara popular do colégio e sendo uma das garotas mais quentes de St. Justine... tento me imaginar conversando, horas e horas, sobre maquiagens, roupas e famosos com a minha mãe..., mas essa fantasia parece impossível.
Porque eu lembro das rixas de Ellen com mamãe... e em como Ellen se sentia oprimida por ela. Como nem mesmo Ellen era o bastante para ela. Ellen podia ter aguentado por muito tempo as imposições da minha mãe..., mas até ela, em algum momento, começou a ficar infeliz por isso.
— Não seriam diferentes... – Eu percebi. – Porque mamãe... a filha que mamãe queria... era impossível.
Sinto um peso saindo do meu peito de repente e eu respiro fundo.
— Letty, você realmente acha que ela realmente fez o que fez, pensando em você? Em te atingir ou te castigar? Ou simplesmente, por ela mesma? – Wanda perguntou.
Eu respirei fundo novamente. As frases de seu bilhete de suicídio piscaram na minha cabeça como um letreiro em neon. Ela não fez isso por minha causa, nem por ninguém.... Ela fez por ela mesma. Por puro egoísmo. Não porque se sentia sozinha..., mas porque não suportaria morrer “feia e seca” como ela havia dito.
— Foi por ela mesma – eu murmurei, com certeza. Então acrescentei com sarcasmo: — Ela nunca faria nada por mim.
E por mais que sempre doesse pensar nisso... dessa vez não doeu.
— Voltando a sua raiva... sentimentos existem em nós por um motivo... por isso eles precisam ser sentidos e entendidos – a mulher falou. – Você precisa encontrar alguma coisa para canalizar essa raiva, Letty. Quando você não encontra... apenas explode.
— O que você faz? – Perguntei.
— Muai Thai – Ela responde. – Nada melhor do que socar alguns rapazes para me fazer sentir com menos raiva.
Eu seguro um riso que quer sair, porque pensar na minha psicóloga socando pessoas é um pouco... surpreendente.
— Sabe... eu não te chamei aqui por causa da raiva ou para saber da sua habilidade no Muai Thai – eu admiti, colocando minhas mãos na caneca com chocolate quente à minha frente. A sensação morna me deu um pouco de alívio. – Apesar de ser uma informação útil.
Wanda deu um sorriso antes de esperar pacientemente eu continuar.
— Meu pai voltou... porque mamãe morreu e trouxe a sua família alemã perfeita – eu digo, fazendo desenhos em círculos na caneca. – Ele decidiu, do nada, que queria me levar para morar com ele na Alemanha...
Ela arqueou uma sobrancelha.
— E isso não te deixa feliz? – Ela perguntou.
Eu franzi o cenho e olho para o tampo da mesa.
— Nenhum pouco – Admiti. – Eu fiquei com muita raiva... porque ele nem perguntou o que eu queria. Eu tenho toda uma vida aqui: estou a um semestre de acabar com o ensino médio, tenho o meu namorado, os meus amigos.... Eu fiquei com raiva do que ele decidiu, porque ele nem me perguntou o que era melhor para mim. E eu não sou a mesma pessoa de quando ele foi embora.
Wanda assentiu com a cabeça.
— E também... Quando eu vi ele com elas... me deu uma raiva... e então elas disseram que vieram porque “éramos uma família” – Soltei um suspiro pesado. – Senti tanta raiva... porque eu percebi... que ele apenas decidiu isso porque não tinha outra saída.
Ela continuou em silêncio, como se esperasse que eu continuasse.
— Ele nunca sugeriu me levar para a Alemanha... até ela morrer – Eu disse. – Porque ele tem uma outra vida lá... uma vida melhor... uma vida que eu apenas iria estragar, como sempre...
Lágrimas começaram a se acumular nos meus olhos de novo e eu desvio o olhar novamente. Para qualquer lugar que não as fizesse transbordar.
— Quando aquela policial me perguntou se havia alguém a quem eles podiam ligar para me ajudar... foi tão difícil pensar em alguém – eu confessei. – Falei no meu pai por instinto, mas ele estava em outro País. Ele mora em outro país... E eu nunca me senti tão miserável e sozinha quanto naquele momento.... Acho que por isso eu sou tão dependente de Quentin.... Porque ele é, realmente, a única pessoa que sempre está lá por mim. Ele é mais minha família do que... qualquer um.
As lágrimas enfim caem, e ela me passa um lenço por sobre a mesa.
— Letty... ele te disse isso? Que você apenas estragava as coisas? – Ela pergunta, com suavidade. – Ou você está apenas supondo, com essa sua cabeça cheia de coisa?
— E qual a diferença? – Eu pergunto, apesar da resposta ser óbvia. – Ele deixou bem claro isso... só não vê quem não quer.
— Letty, quando a gente fica supondo coisas... geralmente elas parecem bem pior do que a verdade em si – Ela explicou pacientemente. – Além do que... você nem deu uma chance para a família dele... família tem a ver com criar afeto e laços... e nós só criamos laços quando permitimos.
O que ela diz parece ter sentido.
— Isso parece algo que Quentin diria – eu murmurei. – De uma maneira meio... me dando sermão.
Mais um sorriso se forma nos lábios da psicóloga até que seu telefone vibra sobre a mesa. Geralmente, isso acontecia, mas Wanda não atendia, apenas se esticava para ver o visor e saber quem ligava. Dessa vez, ela diz:
— Falando no diabo.
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