Nosso Nome Na Lista.
66 Capítulo 66 – Existencialismo VS Rolas nas Parede
Notas iniciais
Capítulo 66 – Existencialismo VS Rolas nas Parede
— Meu deus, isso é tão empolgante! – Quentin murmurou esfregando as palmas das mãos com agitação.
Meu namorado parecia uma criança travessa prestes a descobrir o maior segredo da humanidade e eu tive que desviar o olhar dele para não rir. Infelizmente, à minha frente estava Yvonne, abrindo a porta do colégio com a chave que havia “pegado emprestado” da tia sem que ela soubesse. Faço uma careta, tentando não verbalizar o como a presença dela era desnecessária, mas o como ela havia feito questão.
“Vocês nem conseguiriam entrar se não fosse por mim” ela havia argumentado.
Eu não achei um argumento válido (pois meio que subestimava a nossa criatividade), mas talvez eu já esperasse isso dela... por isso apenas desisti e falei: “tanto faz, que seja”. E Quentin obviamente concordou porque ele concorda com tudo, seja por ser legal demais ou porque apenas ache que não é ninguém para proibir as pessoas de fazerem o que elas quiserem.
— Abri – ela diz de repente. – Vamos.
Eu achava que era muita gente para uma “invasão discreta” ao St. Justine, mas isso não pareceu incomodar os outros como incomodava Luc e eu. Diferente do víamos na televisão, não nos esgueiramos pelos cantos em posição de espiões altamente treinados pela CIA ou MI6. Apenas caminhamos pelos corredores vazios e arrumados – recém varridos, com certeza – que cheiravam à detergente, prestando atenção em cada movimentação e sons.
Tomando cuidado para não sermos surpreendidos por alguém indevido, como o zelador. Felizmente, não há sinal dele, e eu me pergunto se ele estaria limpando alguma sala de aula ou algum corredor nos fundos (perto do refeitório).
O banheiro feminino pareceu muito pequeno conosco lá.
— Então... é aqui – Luc diz, torcendo o nariz, como se esperasse mais.
Talvez alguma marca na parede escrito: “Território da mente mais maligna do colégio” ou “espaço destinado à Lista! Fique longe mortal! ”. Mas não, era um lugar comum: paredes brancas, pias desconfortáveis, boxes verdes... nada de novo.
— Então é aqui – eu confirmei, abrindo os braços amplamente.
— Parece o banheiro masculino... só que sem mictórios e sem as rolas pela parede – Quentin comentou, parecendo decepcionado, então me perguntei o que ele esperava.
Yvonne deu uma risada e abriu a porta de um dos boxes, onde também haviam pichações. O mais recorrente eram garotas ofendendo garotas... o que não é mais bonito do que rolas na parede, na minha opinião.
— Como alguém tão sem-sal quanto Brucena Letterman só consegue caras bonitos? Alguém sabe o que ela usa? – Yvonne diz.
— COMO É QUE É?!
Ela aponta para uma pichação da porta, com um sorriso engraçado. Mostrando exatamente o que seria um diálogo recalcado à minha pessoa... um diálogo na porta do banheiro, que comédia. Tento não me sentir ofendida, mas Quentin diz:
— “Deve ser porque ela tem peitões”.
Dou uma cotovelada nele, enquanto sinto meu rosto corar. Acho que o bati tão forte que ele tosse e aponta para a porta.
— É o que estava escrito em baixo, sua maluca! – Ele responde. – Eu só li!
Ellen e Yvonne riem, mas eu não vejo graça nenhuma. Na verdade, eu fico indignada com o nível dos comentários sobre mim ali. Talvez fossem melhor do que a última lista? Talvez, mas não deixavam de ser igualmente venenosos e recalcados. Perguntei-me o quão mal-amada tem que ser uma pessoa para julgar os casais felizes por que andam por aí.
— “Vocês já sentiram como se não existissem? ” – Luc leu. – “Como se as pessoas não te conhecessem de verdade, ou como se não quisessem te conhecer de verdade? ”.
— “Já”... “é porque eles não querem”... “será que você existe mesmo?” – Ellen riu com tristeza. – Parece um poema existencialista e doentio.
Todo mundo concordou em silêncio. Menos Quentin.
— Tá vendo? É disso que estou falando – Quentin diz cutucando Luc como se fosse o seu bom e velho amigo. – No banheiro feminino é tipo: existencialismo, quem eu sou? Quem é você? Para onde vamos? Enquanto no banheiro masculino é só... rola.
Luc olha para meu namorado com o canto do olho, mas pela segunda vez, sinto que há uma vontade mínima de sorrir ali.
— Tem coisas mais pesadas aqui... – Ellen comentou, dando uma olhada. – Mas... não acho que devam ser lidas em voz alta.
Eu não preciso olhar para saber o que ela está falando.
Há todo o tipo de coisa escritas nos banheiros do colégio, você só precisa prestar atenção. Lembro que uma vez entrei em um que estava falando sobre estupro. As alunas picharam falando sobre isso... e eu lembro que achei incrível porque (diferente de como elas agiam para falar mal de mim) estava uma apoiando a outra. Várias relatavam coisas que nunca contaram para ninguém e eu lembro que pensei: “o que custa as pessoas serem assim cara a cara? Por que elas precisam de UMA PICHAÇÃO para serem sinceras? ”.
Todos ficamos em silêncio de repente, como se isso fosse muito pesado, e é graças a esse momento de respeito que nós conseguimos ouvir barulhos e corremos para nos escondermos. Infelizmente, não se tratava da garota da lista, apenas de uma zeladora que veio checar tudo, e então foi embora, mas mesmo assim não saímos dos nossos lugares.
.
— Você tem certeza disso?
A pergunta foi feita em uma voz trêmula e baixa, coberta pela incerteza. Não era uma voz conhecida para mim, e nem dava para ver quem falava pelos furos da porta do armário onde Quentin e eu havíamos nos escondido. Foi um péssimo lugar porque o cheiro de detergente e produtos de limpeza eram quase insuportáveis.
— Vai dar para trás também? – Responderam agressivamente.
— Não, mas... – Ela suspirou. – Ele não vai gostar disso.
— Fica de olho lá fora. Eu cuido disso sozinha, medrosa.
Pelo barulho da porta, a segunda pessoa obedece quase que imediatamente e sai, deixando sua parceira sozinha. Ela aparece no meu campo de visão: cabelos castanhos, saia jeans, camisa colorida... mas não há cartolina em suas mãos. Há apenas uma lata de spray... como as que usam para...
Puta que pariu.
Eu só não pulei em cima dela porque Quentin me segurou pela cintura.
Sério, vocês percebem o quanto essa situação é completamente absurda, né? Quer dizer, eu tenho que ESPERAR uma filha da puta fazer uma PICHAÇÃO me denegrindo para então eu poder FAZER ALGUMA COISA. Eu só posso supor que elas perderam a cabeça de vez e eu estou louca para que isso exploda com essas piranhas todas.
De onde estamos nós conseguimos ler perfeitamente, sendo pichado com tinta vermelha: “LISTA DE ÓDIO ETERNO À BRUCENA LETTERMAN”. E então eu me perguntei porque, quando as pessoas te odeiam, as frases parecem tão idiotas? Quer dizer, não há explicação, não há argumento, só há algo do tipo: “ninguém gosta de você”, “se mata”, “vê se morre”... Quer dizer, e o pior é que frases assim são repetidas tantas vezes e reforçada por meio de atitudes horríveis que você só consegue pensar que isso é verdade.
Sem conseguir me conter mais, dou um chute na porta do armário e saio de lá.
A garota se vira para trás, assustada.
Mas eu? Eu não estou nem um pouco surpresa... como Quentin está.
— Ora, ora... Olá Frannie – eu digo com sarcasmo.
Yvonne sai de dentro de um dos armários com o seu iPhone de última geração que tira até fotos das estrelas como se fosse um telescópio (sei lá, os amantes do iPhone amam tanto o celular que ele deve ser capaz de fazer isso mesmo) apontado para a garota com a lata de spray na mão e a pichação ao fundo e diz:
— Diga X, piranha.
Acho que a minha arqui-inimiga adorou sua frase de efeito porque ela pareceu esperar muito que alguém dissesse o quanto ela pareceu legal dizendo aquilo e tirando uma foto. Não que eu fosse fazer isso, obviamente, porque Luc e Ellen estão empurrando a segunda garota para dentro do banheiro e fecham a porta para que ninguém saia de lá.
Não me surpreendo quando vejo a segunda bully daquela manhã olhando para nós com expressão de pânico.
— O- o que é isso? – Ela gagueja, confusa.
— O que você acha que é?! – Eu pergunto cruzando os braços com indignação e me aproximando dela. – Te pegamos, em flagrante. É você quem posta a Lista, não é?!
Os olhos dela olham assustados para a porta, como se procurassem uma saída, mas encontram apenas Luc e Ellen bloqueando a passagem, e então ela olha desesperada para Quentin. Mas incrivelmente não diz nada. Provavelmente pensando no que dizer.
— Não.... E- eu... eu não posto a Lista, está maluca?! – Ela pergunta rindo de nervoso. – Quentin, você acredita em mim, não acredita?!
Olho para ele, esperando alguma coisa, porque, afinal é a vizinha dele, mas a verdade é que meu namorado está olhando para a lata de spray, e então olhando para ela, como se ligasse várias coisas na cabeça dele. Como se estivessem fazendo várias conexões que até agora não pareciam fazer sentido... até agora.
— Eu não acredito – ele respondeu. – Não acredito que JUSTO VOCÊ fez isso.
Ela olhou para ele com choque.
— Por que você faria isso?! – Ele perguntou, incrivelmente com raiva. E eu acho que nunca vi Quentin com tanta raiva assim na minha vida. – Nós crescemos juntos! Por que você faria esse bullying à minha namorada?!
— POR QUE EU DEVIA SER A SUA NAMORADA! – Ela gritou de volta.
Eu arregalei os olhos para a garota à minha frente. Coisas que eu não sabia: primeiro, que a vizinha da casa da frente de Quentin havia crescido junto com ele (o que fazia sentido de certa forma); segundo, que ela aparentemente se achava muito importante para ele, mas, mesmo assim, ele NUNCA havia sequer COGITADO em me apresentar para ela (não que eu quisesse, mas não é isso que namorados fazem? Apresentam-se para as pessoas importantes da vida um do outro?).
— Eu te conheço a mais tempo que essa daí – Ela acusa, olhando para mim com desprezo. – Eu te conheço melhor que TODO MUNDO! E você... nós sempre fomos tão bons amigos... você sempre foi o meu melhor amigo...
Quentin pisca, atônito.
— AMIGOS?! Eu só levava suas compras para você! Cortava a sua grama! Dizia bom-dia! Nós não éramos AMIGOS — Ele respondeu, com choque e raiva. — Então... você começou a atacar a Letty... por ciúmes?
Quentin está horrorizando e furioso, se isso for possível.
Mas a verdade é que, de certa forma, eu conseguia imaginar a situação.
Quer dizer, imagina você crescer sendo vizinha do Quentin. Ele é bonito, charmoso e tem esse jeito atencioso com todo mundo que às vezes me mata de ciúmes e me dá nos nervos (como quando eu o vejo com Yvonne, Ginie e essa vizinha maluca aí) ... não é difícil se apaixonar por ele e começar a inventar Fanfics na cabeça.
A garota parece desamparada, como se não acreditasse.
— ELA BEIJOU O SEU IRMÃO! — A garota gritou apontando para mim acusadoramente. — Ela está te fazendo de idiota, Quentin!
Ele deu um passo para frente como se quisesse estrangular a garota, mas então eu estico meu braço como se quisesse que isso impedisse. E de algum modo, deu certo, mas ele não para de olhar para a garota. Como se quisesse amassar a cabeça dela contra a parede.
— As coisas não começaram assim... – A garota perto de Luc e Ellen diz, de repente, como se soubesse que sua amiga não conseguiria explicar. – Era só uma brincadeira.
— Uma brincadeira? – Yvonne perguntou, cruzando os braços.
— Nós três nos reunimos na minha casa e começamos a montar uma “Lista das Pessoas mais Legais do St. Justine” – ela continuou, encolhida e de cabeça baixa. Como se estivesse envergonhada, ou com medo do que aconteceria. – Era só uma brincadeira. Como quando em “Garotas Malvadas” elas têm o “Burn Book”... não era para ninguém saber... era para ficar só entre nós.
Como ninguém disse nada, ela apertou as mãos e continuou:
— Só que Frannie achou que seria engraçado pegar a folha e colar na parede do banheiro para as garotas. Para ver se concordavam ou não... – Ela soltou um soluço e disse: — Juro que não era nada pessoal. Nunca foi pessoal... Só perdemos o controle.
— Só “perderam o controle”? – Luc pergunta irritado.
Ele só não avança nela porque Ellen segura o braço dele. O espírito animal dele seria um daqueles cachorros fila com uma coleira de spikes ao redor do pescoço e uma corrente como guia na mão de Ellen.
— Não sabíamos que as pessoas iam agir desse jeito! – Ela insistiu. – Não sabíamos que as coisas iam se tornar o que se tornou... até que Joshua se intrometeu e....
— QUEM?! – Luc e eu perguntamos furiosos, fazendo-a se encolher.
— Josh – Frannie repetiu. – Ele foi o primeiro a descobrir da lista.... Achamos que ele ia contar para todo mundo, mas, para a nossa surpresa, ele pediu para que continuássemos com ela... desde que atendêssemos à algumas exigências dele.
Yvonne soltou um suspiro de irritação.
— Então o maldito realmente manipulou os resultados – ela disse como se estivesse indignada. Como não entendi, ela se virou para mim e disse: — Isso nunca foi legítimo.
“Claro que não! É uma LISTA! Escrita por pessoas ANÔNIMAS! Num BANHEIRO FEMININO!” Eu quis lhe responder. “COMO ISSO PODERIA SER LEGÍTIMO?!”. Talvez eu só não tenha respondido porque Yvie estava sendo legal e não merecia uma resposta daquele nível... eu acho.
— Só alguns – A outra garota acrescentou. Olhando com receio para Luc – O seu, por exemplo...
Ellen segurou o braço dele com mais força, como se previsse o ataque de raiva que ele teria. Um ataque que surpreendentemente não veio. Não na forma de uma explosão, mas na forma de uma incredulidade gélida.
— E o seu... – Frannie disse, olhando para mim com raiva. – Depois da festa.
Eu arqueei uma sobrancelha para ela.
— Eu NUNCA te colocaria na Lista boa por vontade própria – ela diz para mim, com nojo. – Não pela forma como você não desgrudava do Quentin como um carrapato nojento. Completamente desesperada por atenção.... Com esse teu jeito de Sad Girl.
Oi? Eu? Sad Girl?
Sinto vontade de perguntar da onde as garotas tiram que eu perseguia Quentin?! ELE que quis passar as primeiras semanas GRUDADO em mim... e eu aceitei porque tínhamos conversas interessantes.
— Mas Josh mandou – ela admitiu irritada, mas sorrindo ao dizer: — E então ele mandou que acabássemos com você... quando você humilhou ele no corredor na frente de todo mundo... porque você anda com aquelas aberrações.
Pergunto-me de que aberrações ela está falando até que eu me lembro de quando ele chamou Paloma e Olivia de lésbicas nojentas e eu fiquei furiosa. Lembrar disso me causa raiva. Não há nada mais ilógico em pleno 2018, chamar lésbicas de aberrações.
— E foi assim que isso... – Yvonne aponta para a garota perto da porta. – Se tornou isso...? – Ela pergunta apontando para Frannie e sua pichação. – Que ridículo. Estou desapontada.... Sério, vocês dão importância demais para Brucena.
Estou sem palavras, mas eu meio que concordo com Yvonne. Parecia que as pessoas me davam importância demais, ou pior que isso, me davam essa importância, porque se importavam demais com Quentin.
— A verdade é que não foi só por causa de Josh – a outra garota respondeu. – Desde que Quentin chegou ao colégio, Frannie perdeu o foco da brincadeira... Apesar de queremos colocar outras pessoas, ela SEMPRE tinha que colocar ele... e nós concordamos porque, bem, ele merece mesmo... – Ela admite com um sorriso envergonhado. – Mas quando ela atacou a Brucena pela primeira vez... não teve nada a ver com Josh.
— Heather! – Frannie protestou, traída.
— Foi por isso que Riley pediu para não fazer mais parte! – Heather acusou, com raiva para Frannie. – Por que o que era NOSSO se tornou um jogo SEU! E depois você aceitou as ordens de Josh!
Dei uma olhada para Quentin. Parecia que estávamos assistindo a uma novela mexicana e estávamos sem pipoca, lamentavelmente. Respirei fundo e senti que precisava de um melhor esclarecimento dos fatos.
— O.K. Deixa eu ver se entendi – Eu pedi, olhando para as duas. – Três amigas começaram isso como uma brincadeira. Uma das amigas POSTOU a brincadeira para que TODO MUNDO participasse da brincadeira. Só que TODO MUNDO levou a brincadeira À SÉRIO. E então elas “perderam o controle”... e mesmo assim NÃO PARARAM por DOIS ANOS...
Eu ergo as mãos, querendo saber se só eu achava isso um absurdo.
— E então... o que era impessoal tornou-se PESSOAL porque esse cara aqui entrou no colégio? – Eu perguntei apontando para Quentin. – E aí você obviamente quis favorecer ele porque ele é a sua paixonite de infância... e obviamente quis acabar comigo porque, bem, eu sou a namorada da sua paixão de infância... o que fez uma das amigas CONSCIENTEMENTE abandonar o jogo.
Frannie fica vermelha.
— E então como se não bastasse, JOSH descobre que VOCÊS fazem a lista e então chantageia vocês para MANIPULAR os resultados – eu digo, cruzando os braços com estupefação. – E como ele me odeia, ele obviamente INCENTIVA o seu ódio contra mim nas últimas listas, o que faz sentido porque as duas últimas listas foram bem mais cruéis que a primeira...
— Gente... que rolo – Ellen solta com a mão na boca.
Eu também estou surpresa, mas então olho para Quentin e ele ainda parece furioso. Seu olhar não sai de cima de Frannie. Quase sinto como se ele a estivesse matando lentamente em sua cabeça.
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