Nossa História
1 Existências Desnecessárias
Notas iniciais
Olhando para a vida que tivemos desde que nascemos, sabíamos que era preferível nunca termos nem existido. Pode ser que em algum outro mundo, talvez uma dimensão diferente, tivéssemos uma família de verdade, amor, amigos, esse tipo de coisa que se tem quando se pode afirmar que é verdadeiramente feliz. Mas a esperança de ter ao menos um pouco disso havia desaparecido desde nossos 10 anos.
Naquele instante, já tínhamos 12, andando de mãos dadas com os nossos pais na rua, a cabeça sempre baixa para não deixar que outras pessoas percebessem nossa expressão de dor, ordens da mamãe e do papai. Minha mão direita apertava com força a do meu irmão, ele precisava de mais reconforto que eu, que já aceitei a nossa situação e planejava fazer algo quanto a isso, nem que custasse a minha vida. Já Dipper... pode-se dizer que ele estava em estado de negação, tinha mais medo do que raiva, e passava mais da metade do dia no canto do quarto, sentado, sem qualquer expressão em seu rosto. Admito, de vez em quando, eu saía e o trancava ali dentro na hora de dormir, porque eu tinha medo do que ele era capaz de fazer se perdesse de vez a cabeça.
Eu não queria que ele perdesse a cabeça, eu queria consertá-lo, trazer de volta o meu irmãozinho. Foi mais por isso do que por mim mesma que criei um plano de fuga. Ele era perfeito, somente precisaríamos usar um dos hábitos de consumo excessivo de nossos pais, enganá-los, então correr para o ônibus mais próximo, arranjaria dinheiro da bolsa da nossa mãe.
E foi assim que aconteceu, peguei na mão de Dipper e corri o mais depressa que consegui. Mas houve um único cálculo em que errei, que foi não ter contado ao meu irmão sobre o plano, por isso ele foi pego de surpresa e nem perguntou o que estava havendo antes de gritar. Eu deveria ter levado em conta que Dipper não confia em mim, acho que me odeia, na realidade, eu nunca soube por que.
Porém, não permiti que o escândalo e a raiva dele me impedissem de arrastá-lo até o ônibus, com os nosso pais correndo atrás da gente. Sibilei para que meu irmão se calasse, que estávamos fugindo, mas isso não adiantou. O motorista do ônibus não nos deixou subir com Dipper esperneando daquele jeito, então nossos pais nos alcançaram. Meu coração estava a mil à essa hora, e quase chorei quando fui pega. QUASE. Eu era forte, não seria vencida ali.
No caso do Dipper, ele havia parado bruscamente de se mexer ao se dar conta do que realmente estava acontecendo. A mente dele sempre foi lenta, não deveria culpá-lo por só entender quando era tarde demais. Mesmo assim, a culpa era dele, e ele sabia disso. Isso o destruiu, de novo, em saber que estávamos tão perto de nunca mais sofrermos, e ele ter estragado o que poderia ter sido a nossa única chance.
Ao chegarmos em casa, fomos jogados com brutalidade para dentro do quarto e trancados lá, até duas horas terem se passado e nossa mãe entrar com uma corda e uma cinta. Não reagimos, é o que se faz quando você passa anos apanhando sem razão alguma e tudo só piora se você irritá-los mais. Minha pele e a de Dipper ardia e arrebentava, a dor era dividida entre nós igualmente, mas apenas a minha voz era ouvida naquele quarto, após os 10 anos, Dipper nunca mais havia expressado dor ou chorado. Quando ele apanhava, era como se nossos pais estivessem golpeando um cadáver, era algo horrível de se presenciar.
Não dormimos naquela noite por conta da dor insuportável, mas ficamos restringidos ao quarto mesmo assim, de porta trancada e sem comida. Eu e Dipper não nos falamos naquele dia, nem no outro, que foi quando finalmente recebemos um pouco de comida e água. Somente depois de a poeira abaixar, na terceira noite, é que ele enfim resolveu que era hora de falar algo.
De início, murmurou palavras sem sentido, fitando o chão no canto dele, então o ignorei. Na segunda tentativa, uma hora depois, vi uma lágrima no olho dele só pelo simples esforço de falar, ele é tão esquisito.
—Eu sinto muito...
Bufei e me cobri até o pescoço com o cobertor, mas com cuidado porque mesmo depois de dias, algumas partes do meu corpo ainda doíam.
—Tanto faz, idiota. Ainda teremos mais chances... Então só se concentre em não estragá-las também. Você podia no mínimo parar de ser patético e me ajudar com o plano — Minhas palavras deixavam muito claro que eu guardara rancor dele.
—Tch.
Na língua do meu irmão, "Tch" poderia querer dizer tantas coisas. Ele pode estar irritado, ou magoado, ou impaciente, ou te desprezando, ou achando graça, ou não sabendo o que dizer... É por isso que era preciso ter uma boa leitura de rosto para entendê-lo melhor nessas horas, e eu tinha. Desta vez era uma mistura, ele estava irritado, magoado e ainda por cima não sabia o que responder.
—E você pode parar de chorar toda vez que ele te batem, é irritante.
Bem, então ele encontrou o que dizer, uh? Preferia que ele só tivesse ficado calado.
—Como acha que vou conseguir fazer isso?! — Rosnei, jogando o cobertor para o lado e sentando-me para encará-lo com raiva — Você só consegue porque tem algum problema na cabeça, mas eu sou uma pessoa normal! Não simplesmente se acostuma com a tortura!
—Tch — Ele abraçou mais forte os joelhos — Tanto faz...
Não consegui decifrar dessa vez se era frustração ou mágoa que havia ali, porém, de qualquer jeito, deixei-o imerso em pensamento para voltar a me cobrir e a ignorá-lo até o dia seguinte. É claro que eu o amava, mas as vezes ele tornava isso tão difícil, não podemos ser verdadeiros irmãos se ele não gostar de mim de volta, e se ele me odiar mesmo, quer dizer que nunca estivemos sofrendo juntos, eu estava sozinha desde o início.
Senti minha perna ser agarrada com unhas fortes, entrando tanto na minha pele que a cortou por bons 5 centímetros de cima para baixo enquanto eu caía no chão. Gritei e tentei chutá-la para conseguir fugir correndo novamente, mas aquela mão parecia não se importar com a dor, estava determinada a não me deixar ir. Virei-me no chão para ver quem era, comecei a chorar ao ver o rosto do meu pai sorrindo daquele jeito para mim. Não, de novo não...
Olhei ao redor, a procura de alguém para gritar por ajuda, mas aquele lugar estava tão escuro, eu nem consegui reconhecer a textura do piso, podia ser grama ou concreto, não conseguia me concentrar na questão, eu procurava agora pelo meu irmão. Ele já atacou nossos pais para me salvar, talvez, só talvez, ele fizesse isso de novo, mesmo depois de tantos anos e mesmo depois de ter levado o "tratamento especial" como punição... Não, ele nunca foi o mesmo depois daquela vez, talvez seja por isso que ele me odeia tanto? Ele me culpa? Arrepende-se de ter me salvado?
De repente, encontrei-o, mas... A condição dele quase me fez gritar de pavor e desmaiar, consegui apenas com muito esforço me manter calma, aquilo não poderia ser real... Não poderia... Dipper estava muito longe, mas eu conseguia enxergá-lo claramente, balançando no teto, o pescoço amarrado com uma corda o prendendo lá. Os olhos azuis dele estavam abertos, tão sem vida quanto ultimamente, olhando para mim mas sem se mexerem.
A raiva estourou no meu peito e me levantei, indo chutar meu pai com a outra perna. No entanto, congelei ao ver aquele outro cenário. Meus pais estavam do lado de Dipper, amarrados ao teto do mesmo jeito que ele. Não senti alegria nem alívio, eu senti nojo, porque os cadáveres deles estavam tão próximos do meu irmãozinho. Não pensei em mais nada além de ir até lá e jogar fogo neles, e tirar Dipper de lá.
Mas assim que tentei cortar a corda dele com os dentes, senti mãos me agarrarem dos dois lados. Gritei e tropecei para trás, só que não caí da cadeira que eu nem percebera que estava ali, meu pai e minha mãe estavam me segurando, com sorrisos macabros no rosto, o aperto deles era forte, machucava. Tentei me livrar, socá-los e chutá-los, o que deu certo, mas acabei caído no chão... Não, no chão não, aquilo tornou-se água, comecei a me afogar, não conseguia me lembrar de como nadar. Sufoquei e sufoquei com aquela água suja, até alguém me puxar para cima.
Repentinamente, eu estava em outro lugar escuro, minha mãe me segurando pelo cabelo. Ela tinha era puxado a minha cabeça para fora de um tanque, mas não demorou muito para que a enfiasse ali de novo e esperasse até que eu me afogasse de novo para me puxar mais uma vez. Isso não era real... Isso era uma lembrança, não era? Por que estou revivendo uma lembrança? Desse jeito sinto que vou morrer... assim como daquela vez.
Abri os olhos com a mão no peito, arfando e suando frio. Não percebi que haviam lágrimas nos meus olhos até piscar, então as enxuguei e me levantei, correndo em seguida até o canto do meu irmão, onde ele sempre pegava no sono sem perceber. Sacudi-o e o vi se sobressaltar, então encolher-se para se proteger, parece que alguém também estava tendo pesadelos, mas eu não tinha tempo para isso.
Peguei nos ombros dele, tentando lhe chamar atenção, e sussurrei assim que ele levantou o olhar para mim, franzindo a testa.
—Tenho um plano, vamos matar eles e fazer parecer suicídio.
Ele piscou rápido, de olhos arregalados.
Seria amanhã, amanhã seríamos livres, ou eu mesma iria matar Dipper e me matar. Eu era forte o suficiente para ter a coragem de fazer isso, não hesitaria, mesmo querendo viver e amando tanto meu irmão.
Seríamos livres de uma forma ou outra no dia seguinte.
—Mabel, você é louca...
Não pude evitar mas me sentir ofendida.
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