Forte Pavor

A essa altura, a lua já ia bastante alta e a corte deslocou-se até o pátio externo para que pudesse ser dado início ao festim. Seis monumentais auroques estavam assando havia horas, girando lentamente em espetos de madeira sobre os braseiros. Enquanto os ajudantes de cozinha os untavam com manteiga e ervas até a carne começar a crepitar e avermelhar-se contra as chamas. Mesas e bancos tinham sido montados na ala coberta, e neles tinham sido colocadas grandes barris de hidromel, morangos frescos e pão preto.

Larra e suas irmãs tinham recebido lugares de grande honra como dignos de princesas e à esquerda do estrado elevado onde o rei, seu próprio irmão se sentava com a mãe deles, agora chamada de rainha-viúva.

Quando Eddard Bolton se sentou à sua direita, a garota sentiu sua garganta apertar lembrando-se do segredo que o primo tinha lhe confidenciado. O desejo que possuía em lhe reivindicar a mão e pediu permissão para corteja-la.

Vestia um gibão de um profundo tom rosa escuro quase se tornando um tom purpura. ornamentado com uma fileira dupla de pedras vermelhas que lembravam gotas de sangue, e trazia em volta do pescoço uma estreita corrente feita de ouro e rubis. Os cabelos eram tão bem arrumados e perfumados, apesar dos fios brancos que tinham lhe surgido prematuramente. Larra olhou para ele e estremeceu, com medo de que a ignorasse após a atitude grosseira que tivera quando o deixou sem resposta.

A verdade é que naquela ocasião enrubesceu sua face, tanto que procurara Elenya para confidenciar-lhe o ocorrido acabando por flagrar a dama de companhia em uma conversa com Lorde Harrold Hornwood. Ela a deixaria para retornar para casa, fora aquilo que entendera do pouco que escutara. Perderia uma das suas poucas amigas na vida, porém não podia sentir-se traída até porque compreendia o desejo dela em retornar para junto da família. Elenya sempre desgostou de Forte Pavor e uma parte de Larra conseguia entender as razões.

Mas, em vez de tocar o assunto ou perguntar-lhe a respeito foi que Eddard apenas sorriu e beijou-lhe a mão, podia não ser belo e galante como qualquer príncipe das canções, mas também Larra nunca fora sonhadora ao ponto de desejar um homem perfeito. Apenas desejava alguém gentil que lhe amasse e a tratasse bem.

Não esperava acabar encontrando alguém de seu próprio sangue que possuísse tais características. Homens Bolton não eram conhecidos por demonstrar afeição, mas aparentemente Ned era diferente deles. Foi então que o primo disse:

— As estrelas estão bonitas está noite – disse Eddard – Mas todas perdem o brilho quando comparadas a sua beleza, querida senhora. – Ele lhe sorriu enquanto lhe fazia um carinho em sua mão por debaixo da mesa — Agraciou-nos com sua bela voz esta noite, nunca escutei uma melodia tão doce e uma voz tão adorável.

— Agradeço o galanteio, milorde. Suas palavras foram muito gentis... – Respondeu Larra tentando permanecer modesta e calma frente ao inicio do flerte embora seu coração cantasse. – Irá partir para a guerra com o senhor seu pai, Ned? – questionou-se mais para saber se o primo permaneceria em Forte Pavor – Talvez por feitos em batalha acabe por consagrar-se um verdadeiro cavaleiro. Julga que haverá chances para nosso lado, milorde?

— Não – disse Eddard – Não desejo tornar-me cavaleiro nem um herói de guerra. Meu pai dará conta dos lobos por conta própria, ou talvez seu primo Desmond tenha tal honra. Apenas servirei como um médico em batalha, remendando e cortando homens feridos. Colocando-os de pé enquanto ainda podem empunhar uma espada em mãos. – Ele estendeu tirou a mão dela e colocou-se a cortar a carne que havia em sido lhe servida.

— Um dever nobre que toma para si, milorde – respondeu Larra.

— Nobre? Meu pai não reconhece o que faço como nobre – disse Eddard – Queria um filho que fosse um gênio em batalhas e empunhando espadas ou lanças como um guerreiro. Infelizmente, eu vim para sua vida como o herdeiro de seu nome. E minhas mãos habituaram-se a outro tipo de laminas e meus interesses desviaram-se das artes militares, seguindo para algo menos comum e mais... Peculiar – Então dera uma mordida no pedaço de carne que levara até a boca com o garfo e mastigara. Estava mal passada e os sucos da proteína molharam seus lábios – Sou um homem de interesses incomuns – Limpara os lábios no guardanapo – Escolhi para mim uma missão bastante necessária de ser feita.

— E dentro de alguns anos, quando tiver idade para ser o senhor de meu castelo que meu pai há de deixar-me quando morrer – continuou Eddard após engolir a porção que possuía em sua boca – Terei controle sobre as finanças. E assim eu investirei em minhas pesquisas e estudos, eu poderei tratar das doenças e enfermidades da melhor maneira que encontrar. E lhe darei sua saúde de volta, vossa alteza.

— Ela não precisa de um curandeiro – disse Ellyn metendo-se na conversa com seu atrevimento – Precisa de um marido para cuidar dela de outra maneira. Não pense em trata-la como uma enferma que precise de cura.

— Ellyn – repreendeu Larra – Esse não são modos de comportar-se – A irmã mais nova encarou mais velha – Peça perdão ao nosso primo que apenas estava tentando ser gentil comigo.

— Ele falou que você é doente – disse Ellyn – Não consigo ver gentileza nenhuma nisso. Você não está doente, é apenas uma garota frágil... – Branda encarou a irmã gêmea e sussurrou-lhe algo no ouvido que foi o suficiente para a outra apenas virar-se volta a mesa e resmugar qualquer coisa consigo.

— Lamento por minha irmã, milorde. – respondeu Larra.

— Uma personalidade forte – disse Eddard – Certamente um traço que herdara da mãe de vocês – Ele sorriu dando de ombros como se achasse graça – Não há o que se perdoar, vossa alteza. Não tomei como ofensa alguma... – Foi então que ergueu a mão para chamar um criado que trazia um jarro e serviu-se de uma taça.

Ela olhou ansiosa para a mãe esperando que ela lhe encarasse e lhe desse alguma permissão para que enchesse seu cálice com a bebida. Por conta da saúde era ao menos uma taça de vinho, porém já havia a bebido no inicio do banquete.

Foi então que Eddard fizera um sinal para o criado indicando a princesa, foi assim que o copeiro se inclinou e encheu também a taça de Larra que lhe fez um aceno de cabeça, agradeceu-lhe amavelmente, mas não disse uma palavra.

— É hippocras – disse Eddard – É feito de vinho, especiarias e mel. Quando passei meus anos em Vilavelha aprendi sobre a bebida e me tornei um apreciador. – Ele tomou um gole da bebida — A grande coisa sobre hippocras é que o equipamento, o conhecimento e a experiência necessários para confeccioná-los são mínimos. – Ele mexera um pouco o cálice entre as mãos e o cheirou — Trata-se de uma simples infusão de especiarias e ervas no vinho. Isto significa que se você tem os ingredientes necessários... – Ele tomou um segundo gole curto — Não é nada muito difícil, colheres de medição e algumas taças especiais para que se possa fazer o seu hippocras.

Larra levou aos lábios e tomou um curto gole. Sua língua deliciou-se com o sabor até então estranho e que parecia bastante incomum. O doce do mel parecia dançar com o do vinho vermelho e as especiarias. Incluindo canela e cravo que seu paladar conseguiu distinguir.

Os criados mantiveram as taças dos convidados cheias toda a noite. Mais tarde, Larra não conseguiu se lembrar de sequer de ter provado outro vinho que não o hippocras. Não precisava de vinho, nunca precisou.

Cantores sentavam-se perante o patamar do menino rei, enchendo a noite de música e melodia por meio das flautas, harpas e alaúdes. Um malabarista manteve um conjunto de facas em uma dança de aço que rodopiava no ar.

O bobo privado do rei, o simplório de rosto repleto de furúnculos que era chamado Espinhento, dançou por ali equilibrado em um barril vazio e deitado. O bobo estava vestido de cores variadas, fazendo pirraça de toda a gente com tão hábil crueldade que Larra perguntou a si mesma se o homem seria mesmo débil como parecia.

Até mesmo Ellyn com toda sua carranca foi impotente contra ele. Quando cantou em falsete a canção intitulada As Donzelas Desabrocham no Verão, numa clara imitação de uma moça de nascimento nobre mesmo nos gracejos e maneiras de portar as mãos. Ellyn gargalhou tanto que derramou vinho no vestido.

Enquanto Eddard revelava-se a alma da cortesia. Falou toda a noite com a princesa, como se ninguém mais lhe chamasse atenção. O primo estava mostrando-se bastante agradável e gentil com os elogios que lhe brindava em suas palavras, fazendo-a rir com alguns comentários interessantes.

Larra ficou tão cativada que esqueceu toda a educação e atenção que recebia que acabou por ignorar as gêmeas, sentada à sua esquerda.

E durante todo o tempo os pratos iam e vinham. Uma espessa sopa de cevada e veado. Saladas de ervamel, espinafre e ameixas, salpicadas de nozes esmagadas.

Depois da carne vermelha assada na brasa vieram os pratos mais leves e dessa vez Larra poderia comer por tratar-se de algo mais limpo. Eram salmões pescados no fim da tarde no rio, cozidas em vasilhames de barro com verduras e legumes.

Eddard a ajudou a partir a dura crosta escamosa para expor a carne branca que se encontrava no interior do pescado. Era bastante habilidoso com a faca, poderia observar pela maneira como manejava. E, quando foi trazida a torta foi o próprio rapaz que a serviu. Cortando uma porção digna e sorrindo ao depositá-la em seu prato.

Ainda havia outras opções de pratos para serem oferecidos e provados, mas Larra já estava tão satisfeita que não conseguiu comer mais que dois pequenos bolos de limão depois da fatia de torta de carneiro. Por mais que os adorasse doces. Perguntava a si mesma se poderia arriscar um terceiro quando o irmão começou a gritar e levantando-se.

Rowen estava tornava-se mais agitado a cada momento que se passava daquele banquete. De vez em quando era que Larra a o ouvia rir ou rugir uma ordem por cima da música e do tinir dos pratos e talheres, mas estava longe demais para entender as palavras do mais novo. Agora todos o ouviam.

— Não vou aceitar a paz – trovejou Rowen numa voz que se destacou quando a música dos bardos finalizou-se – Eu sou o rei agora e você não pode continuar me tratando como uma criança – Ele dirigia-se para Rainha Bethany, sua própria mãe – Tire essa ideia da cabeça porque não vou fazer. Eu quero guerra... Quero o homem que matou papai morto e seu corpo para que eu mesmo esfole — Larra ficou chocada ao ver seu irmãozinho de pé. Com uma carranca furiosa e o rosto vermelho, como a criança mimada que era.

— A senhora não me diz mais o que fazer, mamãe – continuou Rowen em seu desrespeito a sua progenitora – Não mais, não quando a coroa foi colocada na minha cabeça e agora reinarei no lugar de papai. Sou eu aqui o rei, entende? Não vou deixar que você me dê ordens a fazer algo que não quero fazer. Eu é que governo aqui e se digo que não escreverei nenhuma carta estúpida, então eu não irei mesmo!

Toda a gente o olhava. Larra viu Lorde Sandor Ryswell ao lado de sua filha, havia Lorde Harrold Hornwood bem como Ethan Bolton, que silenciaram sua conversa. Assim como também Lady Wylla Dustin, a esposa de seu falecido tio que falara tão estranhamente com ela e lhe tocara os cabelos com um olhar enigmático mais cedo antes da coroação do irmão.

Todos senhores grandes e renomados, mas ninguém fez um movimento para interferir afinal tratava-se agora de seu soberano. Por mais que aquilo fosse um chilique de infantilidade.

O rosto da rainha era uma máscara, tão vazia de sangue que poderia ter sido esculpida em gelo e suas mãos estavam fechadas em e com os dedos entrelaçados no vestido. Queria estapeá-lo por aquela ofensa e estaria em seu direito, porém estavam diante de olhos de vassalos e não subemeteria aquela cena.

Foi então que a rainha ergueu-se da mesa e recolheu as saias. Lançou um último olhar para seu último filho e saiu em silêncio, seguida por um bando de criados. E logo atrás seguiu Lady Dustin e sua filha, Celinn.

Lorde Ethan aproximou-se do sobrinho-neto. E foi então pousou a mão no ombro do rei, mas este o empurrou com a violência que lhe era permitia de sua baixa estatura e idade. O Lorde das Águas Chorosas dera um par de passos para trás, então que tropeçou e quase caiu sobre os bardos se estes não o tivessem se preocupado com dar-lhe algum apoio para que mantivesse firme. O rei soltou uma gargalhada aguda e debochada.

Lorde Ethan era um homem imponente e desfez-se das mãos dos bardos que o seguravam. O tio de seu pai possuía o rosto era bem barbeado de pele lisa, havia removido a barba grisalha com a qual tinha chegado a Forte Pavor. Tinha um rosto forte e comum, mas não tão simples. Embora tivesse estado em batalhas, não mostrava cicatrizes.

E, mesmo que tivesse passado dos quarenta tinha quase nenhuma ruga marcando a expressão, apenas com escassas linhas para mostrar a passagem do tempo. Seus lábios eram tão finos que, quando os pressionava, pareciam desaparecer. Havia algo sem idade nele, uma quietude que no rosto de Ethan Bolton que era difícil de definir. A raiva e alegria eram muito parecidas em seu semblante.

Tudo o que ele e filho tinham em comum eram os olhos. Aqueles olhos que são feitos de gelo e tão frios, por mais que Eddard fosse amistoso com ela ainda assim possuia aquele mesmo olhar de seu progenitor. E Larra se perguntava se Ethan Bolton alguma vez chorara. O Lorde das Águas Chorosas, um homem frio que se duvidava de ser capaz de derramar lágrimas.

Se havia chorado pelo sobrinho morto como dissera que havia feito, será que as lágrimas correram geladas sobre sua face? Este não é um homem com quem se deva brincar. Bastava olhar para Ethan Bolton para perceber que havia mais crueldade em seu ser do que mostrava aos outros ao seu redor e que poderia muito bem disciplinar o garoto que agora ria dele.

Mas o autocontrole estava falando mais alto naquele momento. Mais razão do que emoção e era algo bom. Em seu lugar, Ethan Bolton estendeu a mão para o sobrinho que pareceu confuso com o olhar que lhe era lançado e meio receoso do que aconteceria caso o tio lhe tocasse. Foi então que Ethan levara a mão a coroa vermelha que o menino usava e a moveu um pouco, assim endireitando-a na testa de Rowen.

— Estava com a coroa torta, vossa graça – disse Ethan e o garoto pareceu menos estressado e com a expressão parecendo menos tensa frente as palavras do mais velho.

— Reconheço que é um grande cavaleiro, meu tio. Mas eu ainda posso ordenar que cortem vossos dedos caso toque em mim novamente sem eu deixar. Lembre-se disso, meu tio – apontou para a coroa vermelha sobre seus cabelos negros – Deem-me razões, para que esqueça quem você é. Para que lhe tire as terras que possui... – Era uma ameaça, Larra não podia acreditar que seu irmãozinho estava ameaçando o Lorde das Águas Chorosas.

— É como diz, vossa graça – disse Ethan com a voz no mesmo tom calmo de sempre – Agora se me permite, creio que não lhe dei vosso presente de coroação — Sua voz estava rígida. Lady Rowena adiantou-se, sorrindo. Entrava no salão principal e trazia em uma coleira um cão de caça, o animal tinha uma pelagem negra e as orelhas cortadas para que ficassem erguidas para cima e pontiagudas.

— É bastante conhecida a ligação que homens desenvolvem com seus cães, meu sobrinho. – comentou Ethan – Especialmente homens de nossa linhagem que tem uma tradição inclinada para caça. – Ele suspirou — Seu pai não está aqui para ajuda-lo no que se diz respeito a tornar-se um homem e tornar-se um senhor para nossa casa e reino, Rowen. Mas eu estou disposto a fazê-lo... – o garoto tinha já se ajoelhado e agora brincava com o cachorro que havia recebido – Concorda com meu pedido, vossa graça?

— Claro – disse Rowen sem olhar para o tio – Concordo sim.

— Concorda em fazer de mim aquele que lhe ajudará a reinar? – perguntou Ethan – Concorda em fazer de mim seu regente? – E um burburinho surgiu dentro da corte enquanto o pequeno rei brincava com seu cão – Vossa graça?

— Oh, sim... Regente, você diz? – disse Rowen voltando o olhar para o lorde de pé ao seu lado – Que seja assim. Será então meu regente, tio.

— Não – disse Rainha Bethany retornando ao salão principal acompanhada de Lady Wylla e Celinn logo atrás – Eu sou a mãe dele e não haverá qualquer outra pessoa que possa ser melhor regente do que eu. Sou capaz de falar e tomar decisões até que meu filho tenha idade suficiente para fazê-la por si próprio. Não irei me calar enquanto vejo tentando manipular meu menino bem debaixo do meu nariz e dos olhos de todos.

— Não entenderia o que minhas palavras significam, vossa majestade — disse Ethan — Porém, peço para que evitemos qualquer especie de escândalo nesse momento inoportuno. Então, controlemos nossos temperamentos e tom de voz, como deve perceber somos pessoas civilizadas e de sangue real afinal.

— Rowen, vem comigo... – ofereceu Rowena ao pequeno rei – Vamos leva-la para passear... – E o garoto saiu com uma das mãos segurando a coleira de sua cadela negra enquanto a outra segurava a mão da prima.

— Onde está levando meu filho? – perguntou Rainha Bethany, porém Rowena não lhe respondera – Volte aqui, não se atreva... – Mas foi interrompida quando sentiu-se com Ethan próximo de si – Você... Para onde sua filha está levando o meu?

— Para onde não possa ouvir sua voz – disse Ethan segurando a rainha para que não fosse atrás dos três que deixavam o salão. E os burburinhos começaram perante os presentes – Vossa majestade, se me permite gostaria de explicar-me. Aqui, para que todos possam me ouvir e ver que minhas intensões são boas.

— Se explicar? – disse Rainha Bethany.

— É fato que saberia administrar e tomar decisões em nome do Rei Rowen – respondeu Ethan – Não há duvida que seja capaz, mas a vontade de vossa graça deve ser levada em consideração bem como o que é melhor para o reino nesse momento. Seu filho não quer a paz, um ato admirável para um garoto na idade dele e eu compreendo bem o que o faz pensar assim, perdeu o pai de uma maneira trágica e seu sangue clama por vingança.

— Meu filho tem 10 anos — disse Rainha Bethany — Estamos falando de uma criança do verão que ainda não compreende o quão uma guerra é devastadora. Royce não precisa de alguém que o vingue porque ele não pensou nos filhos quando foi até Winterfell e atacou. Sacrificando a paz por interesses próprios — Um burburinho surgiu novamente entre as pessoas.

— Estamos em guerra e um regente que sabe lidar com batalhas e lutará em nome do trono vermelho é melhor do que uma mulher que não compreenderia como é por não vivenciar na pele. — disse Ethan — Com todo o respeito, vossa majestade.

— Respeito? Tudo que dissera até então fora um completo avesso dessa palavra – respondeu Bethany – Está ofendendo-me ao dizer que sou incapaz de lidar com situações como está... – porém foi interrompida pelo lorde.

— Não, eu estou apenas proferindo a verdade – respondeu Ethan – Não a julgo incapaz, porém se me ouviu bem poderá compreender que eu mencionei a guerra. Em tempos de paz creio que seria uma regente excelente, porém não nos encontramos em paz nesse momento.

— Essa conversa não deve ser tomada aqui diante dos olhos de todos – disse Lady Wylla Dustin – O regente ou a regente deve ser decidida entre os lordes. E não aqui no meio da festa de coroação do Rei Rowen.

— De acordo – disse Rainha Bethany – Ao nascer do sol nos reuniremos para decidir.

— Não poderia ter dito de outra forma, vossa majestade – respondeu Ethan – Até a alvorada quando a decisão será tomada por nossos aliados – Então voltou o olhar para os bardos – Retornem com a música afinal ainda estamos em uma festa.

...

Gargalo

O local de reunião era uma extensão coberta de relva e semeada de cogumelos cinza-claros, o chão lamacento e lodoso do Gargalo e as pedras irregulares e meio afundadas que serviam de calçamento para o caminho que levava a Fosso Cailin.

Os olhos de Evan fitaram e pudera perceber a presença de tocos recentes de árvores abatidas em ambas às margens do pântano. O Dustin certamente tinha cuidado daquilo recentemente para impedir uma aproximação discreta ou emboscadas, porém também poderiam estar utilizando da madeira para outros fins. Talvez como munição para as catapultas e balastras que havia no castelo arruinado, uma possibilidade que mais tarde o arqueiro iria discutir com Rodrik quando estivessem a sós.

— Somos os primeiros a chegar, Evan — disse Aeron Forrester quando refrearam os cavalos por próximo do lugar combinado – Meu irmão logo irá vir acompanhado de seus homens de confiança.

Meio caminho até Fosso Cailin fora o combinado na carta em que Errold Dustin tinha enviado ao acampamento através de um mensageiro. Um encontro entre comandantes sós entre ambos antes que os dois exércitos acabassem por se enfrentar.

A bandeira com as correntes prateadas em fundo carmim ondulava e batia no topo da lança que um dos guarda-costas de Evan transportava. Enquanto no escudo de Aeron encontrava-se o símbolo de sua família entalhado na madeira de pau-ferro: Uma árvore com uma espada em seu interior. Dali não conseguia ver Fosso Cailin muito menos o norte propriamente dito como a névoa embaçava sua visão.

Não via os corpos mortos dos batedores que tinham desaparecido há dias atrás quando descobriram sobre a tomada do castelo, mas era capaz de sentir que estava próximo deles ao menos o que sobrara dos infelizes. O cheiro de putrefação era forte no vento que soprava do leste e havia corvos sobrevoando os céus cinzentos do Gargalo. Foi então que seus olhos encontraram e soube que estava amargamente certo.

Em uma gaiola de ferro, pendurados numa árvore na outra margem da estrada, dois homens mortos apodreciam na atmosfera úmida do pântano. Evan parou e forçou o olhar para dar uma averiguação neles.

— Quem eles eram, Aeron? – perguntou Evan ao amigo – Serviam a sua família e a seu irmão – Pensou em pegar o arco e flecha e atirar contra os corvos que estavam alimentando-se dos cadáveres engaiolados, mas uma parte de si se conteve em respeito aos mortos.

– Bons homens – respondeu Aeron com pesar nítido na voz – Serviam em Ironrath e eram os melhores caçadores que tínhamos. Deixaram viúvas e órfãos... — Montado em corcel negro, o rapaz estava muito mais perto dos mortos. – Após as negociações garantirei que os corpos sejam retirados e um fim mais digno seja dado aos dois. Para que possam descansar em fim na paz dos Deuses Antigos.

Karl, um dos guardas tirou meio elmo em sinal de respeito assim revelando sua cabeça nua, era careca e brilhante. Logo usou a mão enluvada para as moscas que vieram pousar na superfície lisa de suas têmporas. Havia centenas delas pousando sobre os mortos, e mais ainda vagando preguiçosamente pelo pântano.

Sor Edric Piper, coçou o nariz pelo odor fedido que vinha da carne em decomposição. O rapaz se mantinha logo atrás de Aeron Forrester de prontidão com escudo e espada na bainha como um verdadeiro herói das canções. O Cavaleiro de Donzelarrosa tinha removido o elmo em respeito aos mortos, porém o retornara novamente para a cabeça assim ocultando os cabelos negros e suas orelhas protuberantes.

— Esse Dustin deve ser um homem ruim, para ordenar que os dois morressem dentro de uma gaiola de corvos. – comentou Edric Piper enquanto erguia a viseira do elmo que usava – Um tratamento cruel para homens que apenas estavam cumprindo ordens e não fizeram mal algum.

— Há senhores nobres de nascimento e os senhores nobres de nome – comentou Evan Umber – Alguns não precisam de muito motivo para mandar um homem à morte. Mas os infelizes morreram antes de serem colocados nas gaiolas, acredite estão ai mais como um aviso do que por outras razões.

A gaiola de ferro quase não era grande o bastante para caber um homem, mesmo assim os dois haviam sido enfiados lá dentro. Estavam rosto com rosto, com os braços e pernas entrelaçados e as costas contra as barras negras de ferro alaranjado de ferrugem. Feridas cobriam seus corpos e vermes comiam o interior pútrido. Os corvos comiam a ambos, tanto cadáveres quanto vermes.

— Esta luta não é nossa, milorde — tinha dito Billius Burtley, um dos escudos protetores que tinham acompanhado Evan ao sul — Eu sei que Lorde Umber não desejaria que o filho se pusesse em risco.

— Estamos todos em risco mesmo que retornemos para casa depois do fim da guerra — ele lhe respondeu, talvez com rispidez em excesso. — Acredita que desejo estar aqui, Bill? Meu pai me ordenou que permanecesse em viagem para o sul e que permanecesse longe da guerra. Era a letra da minha mãe na carta, mas as palavras de meu pai que ditavam que eu não era bom o bastante para lutar ao seu lado. E eu lhe mostrarei que não apenas entrarei nessa guerra como lhe trarei os números de que precisa para ganhar.

— Desacatar as ordens de seu pai não o fará com que goste mais de você – disse Aeron Forrester ao amigo – Deveria fazer como lhe é pedido e seguir para o Vale de Arryn para aquele torneio que ouvimos falar que ocorrera.

— E você não seguirá comigo pelo que sei – disse Evan ajeitando-se no cavalo – Seguira para o norte para junto da sua família para proteger o lar em que cresceu. – Ele encarou o amigo que voltou os olhos verdes para o arqueiro — Proteger sua irmã e sua cunhada enquanto seu irmão luta ao lado de seu pai e de Lorde Godric Glover.

— Estou seguindo as ordens de meu pai assim como deveria fazê-las – respondeu Aeron – Foi o que meu pai desejou que eu fizesse. Que servisse como o Castelão de Ironrath e protegesse nossa fortaleza do pior que poderia abater-se sobre nós.

— Nada mais justo. Que seja Rodrik a espada enquanto você é o escudo dos Forresters. Porque é assim que um pai deveria criar os filhos. – falou Evan — Mas o meu sempre teve os olhos em Jon e deixou-me faminto de atenção... – Ele fez um silêncio frente aquela frase que acabara de dizer – O filho renegado provará que vale mais do que imaginam.

— Meu lugar não é atirando minhas flechas contra alvos de feno em um torneio sulista qualquer – continuou Evan – Faço isso por diversão e distrair-me do tedio. Porque receber reconhecimento por um talento é algo que todos desejam não é mesmo? Mas apenas pense qual é o maldito castelo que possui menos arqueiros do que os outros no Norte? São poucos os guardas de meu pai que são autorizados a aprender arquearia, no entanto, nenhum dos filhos recebeu tal incentivo.

— Meu pai quando descobriu que eu praticava quebrou meu arco e flecha na minha frente. Eu era apenas uma criança e tinha encontrado algo que gostava e era bom... – continuou Evan — Uma guerra é uma mudança de rotina completa e me faz retornar para casa porque é lá que me faço necessário. Meu lugar é em Última Lareira, com os soldados para mantê-la segura e longe do alcance de nossos inimigos ou em batalha, com meus pais e irmão. Reuni um exercito a fim de provar meu valor e será isso que farei.

— E que bela aliança – disse Aeron – Envolvendo uma corda em seu pescoço apenas esperando pelo momento em que seja estalado. Porque foi isso que fez quando teve a brilhante ideia... – Ele suspirou – Provar o seu valor não vale o preço de sua honra.

— Ainda que talvez esteja o seu engano, meu amigo – respondeu Evan – Minha honra não é aquilo que mais prezo. Se desejarmos algo não se pode temer sujarmos nossas mãos um pouco... – ele sorriu – Ou fazermos sacrifícios para obtermos ganhos. As decisões mais difíceis e arriscadas geralmente trazem as melhores recompensas.

Evan sabia que não seria coisa fácil lidar com o momento em que a verdade viria à tona. Quando Lorde Hugh Tully descobrisse como foi enganado tão facilmente, ele sofreria com as consequências só que até lá haveria semanas e até meses quem sabe. E até lá, quem garantiria que continuariam de pé? Hugh era um homem gordo e velho demais para lutar, mas Duncan era o problema caso o pai perecesse em uma guerra em que Evan acabou por enfia-los até a goela.

Porém, o pior seria a reação de Grey Jon ao perceber o que o seu filho havia feito. Seu pai ficaria furioso, mas provavelmente o perdoaria ao fim da guerra quando o lado deles vencesse. Porque Evan tinha sido ousado e astuto no que havia feito. Era fato que forjar uma aliança entre sulistas e nortenhos poderia ser considerado um trunfo na guerra que não deixaria de ser recompensado.

Rei Brandon era um homem bom e iria agradecer aos lordes sulistas por seu apoio na causa com alianças e gratificações generosas. Talvez conseguisse arranjar um casamento com Duncan Tully com a princesa mais nova, não a noiva de Karstark e sim a outra. Qual era o nome mesmo? Sybill, lembrou-se no final das contas.

A menina mais nova dos seis filhos legítimos do rei era a menos notada ou de alguma importância. Nunca seus filhos ou netos teriam alguma pretensão sobre Winterfell. Mas talvez o fato de ser notada ou mesmo valorizada tivesse outras razões. Talvez fosse pela idade, ninguém espera muito de uma menina de oito anos.

Mas era um nome que importava e ela era uma Stark no final de contas. Tudo bem que teriam de esperar por anos para que se casassem, quando florescesse como uma donzela, Duncan já seria um homem com seus trinta anos na época, só que mesmo assim era o melhor que via que um segundo filho de Correrio conseguiria como esposa.

Atrás de dos relevos íngremes e encharcados pela natureza pantanosa se erguia as elevações pedregosas que eram as ruinas de Fosso Cailin, conseguia-se ver a grande Torre dos Filhos erguendo-se para o céu, com a sua coroa intocada voltada para o sul.

— Senhores — chamou Edric Piper para os seus companheiros ao lado. Sete cavaleiros tinham emergido do nevoeiro, ordenando-se em uma fileira de cavalaria que saia do portão aberto do castelo em ruinas e agora se dirigiam para eles em passo lento. — Deve ser Errold Dustin, o herdeiro de Vila Acidentada.

— Sem dúvida de que é ele — respondeu Evan Umber os observou avançando. Só podia ser Errold, já que seus guardas empunham o estandarte dos Dustin de Vila Acidentada. Era de um amarelo-vivo com os machados negros cruzados e a coroa no topo.

Rodrik Forrester seria o último a chegar. Tinha lhe dito isso quando Evan e os outros haviam partido. Não pretendia montar a cavalo antes de ver Errold bem adiantado no caminho de Fosso Cailin até eles. O primeiro a chegar teria de esperar pelo outro, e Rodrik Forrester não esperaria. Errold havia os convocado então que esperasse e mostrasse que honraria sua palavra e que não mostrasse que se trataria de uma possível emboscada.

É um tipo de jogo que os comandantes jogam, disse a si mesmo. Evan viera de bom grado para demonstrar que não estariam planejando nenhum jogo oculto e colocou-se na linha de frente também para testar a confiança colocada sobre Errold. Bem, ele não era um comandante, portanto, não necessitava jogar como os outros apenas para provar algo para si mesmo. E Evan Umber tinha prática em esperar pelas coisas, muitas delas até mesmo inutilmente.

Enquanto Errold ia se aproximando, ela viu que ele usava cota de malha, uma placa peitoral e um gorjal ocultando-se no pescoço. Em seu gorjal havia os símbolos dos machados coroados de sua casa. Em seu cinto era dotado de topázio amarelo, e uma grande obsidiana cortado em forma de quadrado estava incrustado no cabo da espada que usava. Uma espada muito valiosa, porém o arqueiro acreditava que o rapaz loiro nunca a tivesse empunhado em uma batalha real. Além disso, seu vestuário era simples: Botas gastas sujas em lama, calções de tecido grosseiro marrom.

Os estandartes portados pelos porta-bandeiras tremulavam ao vento tornando-se uma visão bastante poética, porém apenas tentando impor algum poder que o rapaz não possuía.

— Lorde Evan — disse Errold Dustin com uma cortesia e um sorriso cínico – Bons ventos o trazem de volta ao Norte – Ele acenou com a cabeça quando refreou o cavalo – Senhores... -Inclinou a cabeça, com os cabelos loiros mais volumosos do que o arqueiro se recordava.

—Errold Dustin —respondeu Evan Umber – Não esperávamos que fosse você quando vimos os estandartes, milorde. Eu esperava por tratar com o seu irmão, Lorde Desmond Dustin. Ele deixou-lhe tomando conta do castelo após ter o conquistado? – provocou o arqueiro e o outro não demonstrou muito agrado pelo questionamento que recebera.

Sob a barba loura por fazer, seu magro maxilar apertou-se com força, mas não a incomodou em responder-lhe com a mesma acidez com que fora questionado. Por esse fato, Evan sentiu-se devidamente compreensível que havia o desagradado ao tirar-lhe seu mérito. Um filho mais novo sempre viveria a sombra do mais velho, Evan sabia muito bem como era não receber reconhecimento e sabia o quanto isso incomodava. Era como dar soco na face do último filho de Lady Dustin.

— Não esperava encontrá-lo retornando para casa, milorde. – respondeu Errold – Não é um pensamento esperto em querer entrar em uma terra em guerra, talvez ter tomado Fosso Cailin seja minha forma de ajuda-lo a manter-se vivo. Vê? Não sou uma pessoa ruim, mantenho as pessoas vivas enquanto conquisto algo que não tem serventia para ninguém. Um castelo em ruínas não serve para muita coisa além de bloquear a estrada.

— Não esperava estar aqui – disse Evan – Mas é um mal necessário que importunos como este tenham que acontecer para que nós entendêssemos que cada um tem nosso papel. Infelizmente, alguns acabam mostrando-se apenas uma tentativa falha de ser algo que não são. Não me amedronta como faria se fosse o seu irmão na minha frente – Ele abriu um sorriso – Seu irmão é um grande comandante e um líder reconhecido.

— Enquanto você? Francamente, facilite as coisas e abra o portão para que passemos que fingiremos que nada aconteceu. – continuou Evan — Fique com o castelo, ninguém precisa dele. Apenas precisamos da passagem então... – Ele indicou o Fosso Cailin — Faça essa gentileza por nós. Abra os portões e nada acontecerá.

Seus olhos azuis claros olharam-no com desconforto. Então sorriu parecendo divertir-se com o que acabara de acontecer e Errold compreendeu bem o jogo que terceiro filho de Última Lareira. Aquele não era um homem dado a cortesias fáceis, porém parecia divertir-se com uma troca camuflada de ofensas.

— Lamento que nos encontremos assim, meu caro — disse Errold — muito embora não seja meu amigo, há algo em nós filhos mais novos que deveria ser valorizado. Nossa busca pelo que é nosso e ambição que possuímos para ascender ao poder... – Ele sorriu prepotente – Busca comprar o amor de seu pai com um exercito? Que tocante e triste. Se tivesse nascido em outra família, talvez pudéssemos ser amigos e eu lhe ensinaria melhor como se joga.

— Nunca fui seu inimigo, milorde. – respondeu Evan – Na verdade, sua existência para mim nunca me afetou de nenhuma forma. Mas não olhe para mim como se me conhecesse. Poderíamos muito bem ataca-lo em seu castelo em ruinas na calada da noite. Quando os soldados Umber e Forrester o manteriam prisioneiro naquele castelo que se orgulhou tanto em conquistar.

— E nós poderíamos derrota-los em seu acampamento as margens do Ramo Verde – disse Errold – Eu poderia fazê-lo meu prisioneiro ou entrega-lo aos Bolton de Forte Pavor. Já deve ter escutado as lendas não? Sobre os mantos de pele humana que usam para aquecerem-se no inverno. Ou nós poderíamos acorrenta-lo e fazê-lo destruir-se a si mesmo nas masmorras de Vila Acidentada. Tornar-se um fantasma faminto, mostrando o quanto é capaz de ser quebrado por sua presunção.

— Mas não estamos aqui para trocar falsas ameaças – disse Evan – Estamos para tratar de assuntos mais relevantes então vamos parar com os jogos de querer mostrar quem tem o pinto maior e mais grosso. E vamos ao que interessa.

— De acordo – falou Errold – por mais divertido que seja ficar aqui o cutucando ainda assim creio que não iria agradar-me ver que deixei o meu castelo para simples conversa fiada – Ele então olhou para Evan – Mas caso queira, podemos dividir uma boa taça de vinho um dia. Tenho uma safra que creio que seria capaz de apreciarmos juntos... – Ele deu um meio sorriso – Além é claro de outras coisas a mais que poderia ser de seu interesse – Então mordeu o lábio e Evan teve de erguer uma sobrancelha para aquele comentário.

— Perdão? – perguntou Evan – Em algum momento eu fiz parecer que dividiria uma taça de vinho com você? Não somos amigos íntimos nem ao menos nos gostamos. Você é indiferente para mim. E estamos em lados opostos nessa guerra... – ele riu debochado – Confraternizar com o inimigo não está em meus planos para essa guerra.

— Uma pena que nos veja assim, meu caro. Porque a meu ver seriamos capazes de nos entendermos melhor – disse Errold – Eu e você temos pensamentos parecidos e desejos semelhantes. Posso sentir isso começando porque por alguma razão, milorde, sua companhia me é agradável. Alguns dos meus camaradas costumam ser enfadonhos as vezes e a conversa que vemos tendo estar divertindo-me gradativamente. Então, devemos começar a tratar de assuntos mais pertinentes como eu ter um exercito em minha porta?

— Às ordens de Rodrik é para que apenas vocês dois conversem sobre este assunto —respondeu Aeron — Lorde Evan cumpriu seu dever, não nego. Teria alguma vez feito menos do que isso? Porém, é com meu irmão com quem deve tratar. Ele é o comandante em frente a nossa comitiva.

— É triste ver um segundo filho doutrinado para ser tão passivo frente a um primogênito – debochou Errold – Somos treinados para servir e obedecer, porém são raros os que conseguem livrar-se dessa coleira colocada em nós. O que torna seu irmão melhor do que você, Forrester? Os deuses fizeram todos iguais, porém os homens nos fazem diferentes uns dos outros com injustiças que chamam de costumes e tradições.

— Julgar alguém merecedor de mais apenas porque nasceu primeiro é uma tolice... – continuou Errold então se voltou para Evan – O que torna Jon mais merecedor ao titulo de herdeiro de seu pai do que você, meu caro?

— Isso foi vontade de meu pai – respondeu Evan secamente — Jon nunca quis o cargo, nosso pai o colocou-o nessa responsabilidade quando deveria ser o nosso sobrinho a herdar.

— Sim, a história é conhecida por cada nortenho que tenha ouvidos para escuta-la – disse Errold – De como depois de uma viagem a Essos, Gerion Umber retornou casado com uma mulher myrish e um filho recém-nascido. Ele descumpriu com a aliança de casamento que o uniria com Dacey Mormont. Uma aliança entre o herdeiro de Última Lareira e a prima do Lorde da Ilha dos Ursos. – Ele riu olhando a face do arqueiro a sua frente — É estranho pensar que seu pai deveria ser o seu avô? Mas mesmo que tenha sido indesejado, seu sobrinho é que deveria ser chamado de herdeiro e não Jon. E isso é revoltante não é mesmo? Esse favoritismo do seu pai?

— Jon não tem culpa – respondeu Evan.

— Mas o aceitou de bom grado como qualquer outro homem mais esperto aceitaria. Afinal, todo filho deseja ser o herdeiro de seu pai, concorda? – disse Errold – E você sente isso lhe consumindo as entranhas. Pensando que aquilo devia ter sido seu. – Então se ajeitou no cavalo — Mesmo assim, dou-lhe minha palavra, que poderia ter o castelo de sua família se assim o desejasse e não se importar-se com os nomes que lhe chamariam.

— Está lhe propondo traição? – questionou Aeron parecendo ofendido.

— Estou apenas lhe dizendo a verdade – falou Errold – Homens espertos são capazes de quaisquer meios para conseguirem aquilo que almejam e eu sou capaz de lhes mostrar isso pessoalmente.

Como adoram essas pessoas em coloca-lo no mesmo nível deles, pensou Evan, esses homens que querem usurpar dos irmãos o que pensam ser deles por direito. O terceiro filho Umber apenas desejava reconhecimento e fazer um nome para si, não sonhava com o senhorio da Última Lareira. Mas se lhe viesse que fosse com naturalidade e não porque foi tomado de outra pessoa.

Já chamavam Jon de usurpador e falso herdeiro por conta do pai ter o privilegiado com o titulo. Mesmo que se rebelasse contra o irmão sabia que os homens não o seguiriam. Evan não era um líder e sim alguém que trabalhava por trás como um conselheiro, como estava fazendo naquele momento com Rodrik Forrester.

— Lamentável o seu silêncio – respondeu Errold – Esperava mais do que fazer-lhe ficar sem palavras. A verdade é que estou disposto em provar-lhes minha boa vontade em um acordo a ser feito entre nossas casas.

— E quando será isso, Lorde Errold? – disse Aeron – Não fala em nome de sua família e sim seu irmão. E pelos boatos que correm ao sul das Gêmeas é de que Desmond Dustin sitiou a maior cidade nortenha enquanto encontramos seu irmão menor aqui em Fosso Cailin. Porto Branco fica longe de sua Vila Acidentada, mas apenas alguns dias de onde estamos. Poderia ter o apoiado em sua conquista e invés disso, o encontramos aqui.

— Alguns homens sabem reconhecer aonde são necessários, Forrester. – disse Errold – Uma pena que nem todos tenham o bom senso de perceber que estão sobrando em algum lugar – Então lhe lançou um olhar bastante sugestivo.

— Mas é franco, rapaz. Muito bem, responderei com franqueza. Para tomar a cidade, meu irmão não necessitava de mim e nem eu queria ajuda-lo. – continuou Errold — Eu precisava conquistar Fosso Cailin para que o Norte ficasse impedido de receber visitas desagradáveis fosse por terra ou mar. E meu irmão ou minha mãe não possuíram essa inteligência em ver essa pequena falha no plano. Eu, portanto, devo consertar essa falha dele.

— Os homens depositam sua lealdade onde desejam e creem que sejam merecedores, milorde. – disse Evan — Esses senhores juraram fidelidade a seu irmão e a Casa Dustin. – apontou para os guardas que rodeavam o herdeiro de Vila Acidentada — Se o senhor e seu irmão tiverem sua desavença...

— Estes não, estes são leais a mim. Não tenho qualquer desavença com Desmond – respondeu Errold — Se ele se mostrar um aliado para mim, porém escolhas podem ser feitas e novos aliados podem surgir. Sou seu irmão mais novo, e seu herdeiro... – Ele olhou atentamente para Evan e Aeron — Desejo apenas o que é meu por direito. Garantir o que me pertence e a minha família. Nós devemos lealdade e obediência, a uma coroa e pretendo recolher sabiamente qual dos reis que devo servir. Meus objetivos são bastante claros para mim, meus caros — o loiro estudou o rosto do rapaz de cabelos cacheados — E que causa a traz até este lugar, Lorde Evan?

Este nunca se curvará por completo, pensou Evan, no momento em que dobrar o joelho já se ergue com um punhal em mãos quando menos esperamos. Errold lhe incomodava desde a maneira como olhava e as palavras que proferia, não é um homem de confiança para se ter ao lado.

— Sirvo ao Rei do Inverno – respondeu Evan tentando ser convincente – A Última Lareira e a minha lealdade não oscila de um lado para o outro, milorde. E o que me trás aqui é o fato de nosso caminho estar bloqueado por sua pessoa.

— Os reis não têm amigos — respondeu Errold bruscamente — Só súditos e inimigos. Um homem deve lutar por si mesmo não por uma família ou uma coroa qualquer que nunca irá ser posta em sua cabeça. O que leva um homem a se sacrificar por ganhos vazios?

— A recompensa por saber que estamos cumprindo com nosso dever e honra — gritou uma voz autoritária atrás de Evan. – A recompensa por saber que sua família está salva, suas terras são mantidas e você é capaz de proteger as pessoas com quem se importa — Ele olhou por cima do ombro e viu o cavalo elegante de Sor Rodrik Forrester galopando o caminho por entre a neblina – Essa é a recompensa, milorde. Não lutamos por nós mesmos e sim por aqueles que amamos... – Os guardas que acompanhavam Evan e Aeron abriram caminho dando lugar para aquele que se aproximava – É pelo que vale a pena ser mantido.

Rodrik Forrester estava magnífico em seu peitoral de aço brilhante e cota de malha pesada. Sobre os ombros se prendia o manto de cetim forrado de arminho prateado. A espada embainhada presa em seu cinto e o escudo de madeira de pau-ferro com o brasão talhado nele lhe estava preso ao braço esquerdo.

Rodrik havia escolhido Willas Frey, seu cunhado, para transportar seu estandarte. Embora rapaz escondesse o rosto e as formas por trás de uma armadura que não mostrava qualquer vislumbre de quem se tratava. No topo da lança com três metros e meio, a árvore de pau-ferro empinava-se, branca sobre o negro, quando o vento vindo do pântano enrugava o tecido.

A saudação do herdeiro de Vila Acidentada fora seco.

— Sor Rodrik Forrester – disse Errold Dustin – Finalmente me agracia com sua presença.

— Errold Dustin – respondeu Rodrik — É mesmo você, milorde? Quando vi tantos homens lhe acompanhando é difícil de distinguir até que meus olhos pousam em você que parece destoar nessa armadura. Preferia tratar com seu irmão, porém já que foi você que aparentemente conquistou Fosso Cailin creio que não haja outro modo senão iniciarmos nossa negociação.

— Tenho de garantir-me, sor – respondeu Errold – Não sou cavaleiro consagrado como você nem tão habilidoso em armas quanto deveria. Você sabe o que dizem, não é mesmo? O guerreiro afia a espada enquanto o sábio afia a mente. Um tolo eu seria se viesse sem proteção... – Ele encarou o grupo a sua frente que tinha multiplicado com a chegada do cavaleiro e seus homens de confiança – Como vê estão em vantagem numérica e não seria esperto vir sozinho quanto sei o quão felizes ficariam de travarem uma batalha bem aqui e colocarem um fim em toda essa situação.

Evan pronunciou-se, intervindo:

— Esperemos que não haja batalha. Nós três partilhamos interesses que podem chegar a um consenso final... – disse Evan – Não somos inimigos de Vila Acidentada bem como Ironrath ou Última Lareira de nada lhe servem.

— Mas será um dos primeiros lugares que seu rei irá atacar – respondeu Errold – Porque a rainha vermelha possui Vila Acidentada como sua casa na época de donzela. Os Dustins são a casa mais ameaçada frente a essa guerra que é travada em nosso reino. — Rodrik Forrester o estudou. Expressão neutra sem qualquer sorriso ou emoção em sua face.

— O Trono do Norte é legitimamente dos Starks – disse Rodrik — Todos os que negam isso são inimigos do rei e traidores. Um homem esfolado não pode reinar enquanto o lobo uiva... – Ele fitou o rapaz loiro a sua frente – O inverno está chegado e chegará mais cedo para alguns do que para outros.

— Palavras belas – disse Errold – Frase de efeito funcional, porém fraca. Já ouvi melhores sinto muito em admitir isso... – Ele riu — Deveria encontrar alguém para escrever seus discursos já que deve saber falar melhor se planeja liderar. Você lembra-me um pouco Desmond, um cavaleiro em aço e um brilhante guerreiro. Mas não sabe colocar as suas palavras e saber usa-las ao seu favor. — Rodrik Forrester cerrou o maxilar com uma expressão tensa no rosto.

— Jurei que nunca lidaria com você enquanto estivéssemos no sul – respondeu Rodrik – Nossa guerra é no Norte e é assim que iremos travar. Minha espada permanecerá em minha bainha a menos que seja ameaçado. Gostaria de manter essa promessa, porém adoraria que me desse uma razão para não fazê-la. Se tiver propostas a fazer, faça-as agora senão vou embora.

— Muito bem. – disse Errold — Proponho que desmontemos, apertemos as mãos como nobres que somos e que sua comitiva passe pelo Fosso Cailin com a condição de que eu possa unir-me a seu exercito e siga para Winterfell. Em troca, garantirão a mim as posses da terra de minha família... – Ele sorriu – Façam-me Lorde de Vila Acidentada.

— Irá servir ao nosso rei? – questionou Rodrik Forrester desconfiado – Trairá sua família? Sua mãe? Seu irmão? O Norte o tomaria como um vira-casaca, sempre lembrariam de sua traição ao seu sangue.

— Irei servir aquele lado que for me proporcionar maiores recompensas – disse Errold Dustin – Se derem a palavra de confiança de vocês que Rei Brandon honrará aqueles que lhe servem. Que me permitirá manter as terras de meus antepassados então dobrarei de bom gosto o joelho em frente dele. – Ele fez um silêncio esperando a resposta do cavaleiro que o fitava.

— Quero tempo para pensar melhor em sua proposta – falou Rodrik Forrester – Uma decisão dessas deve ser discutida com os outros lordes que me seguem juntos para o Norte. Mas lhe darei uma resposta ao nascer do sol... – Ele encarou-o – Espere por nosso corvo levando nosso veredito final.

— É, você não é como Desmond – disse Errold Dustin – Meu irmão é melhor do que você. Você é apenas a sujeira nas botas do Lorde de Vila Acidentada.

Quando Errold e seus cavaleiros deram a volta em seus cavalos e partiram a galope estrada acima foi que os pássaros pousados sobre as gaiolas se ergueram como uma nuvem negra tão espessa que cobriram as silhuetas do herdeiro de Vila Acidentada que partia em direção de Fosso Cailin.

— Sor? – perguntou Evan – O que faremos?

— Aguardaremos que minha irmã tenha conseguido a confiança de nosso avô – disse Rodrik – Posso não ser inteligente como você ou Errold para um discurso bonito – Ele encarou o arqueiro — Minha cabeça pode ser dura como uma muralha de castelo, mas eu entendo de guerra. Entendo que números são necessários. E que ganhar tempo é fundamental, porém esse é um recurso contado agora que este encontro terminou.

— Há chances de vencemos um ataque sem os Reed? — questionou Aeron.

—E entendo que Desmond Dustin levou a maior parte de seus homens consigo para a guerra e deixou apenas alguns para protegerem Vila Acidentada. – disse Rodrik — O irmão patético pegou esses homens destinados a proteger seu povo e os trouxe para cá. E o meu instinto diz que um homem como aquele não é de confiança... Deixar seu povo e castelo indefeso em meio a uma guerra. Ele apenas está atrás de ganhos pessoais nem pensa direito no que tem feito. – Virou-se em direção de Evan Umber – O que me diz, milorde?

— Digo que é mais esperto do que imagina, sor – respondeu Evan Umber – Porque cheguei a mesma conclusão por conta própria. Ele trama contra nós e nos trairá no momento em que atravessarmos aquele portão para o Norte.

— Alguns homens são menos espertos do que acham que são – respondeu Rodrik Forrester.

Notas finais
Se você achou que viu Errold flertando com o Evan, creio que viram corretamente haha. Sério, acho que o Errol finalmente encontrou alguém como seu igual e meio que encantou-se deixando de lado o seu narcisismo consigo mesmo. Porque eu estava indo para leva-lo com assexuado ou bissexual (a ficha dele dizia que a sexualidade dele era meio confusa e ele não sabia do que gostava), acabou que eu o fim amar a si mesmo primeiramente antes de tudo como um bom egocêntrico faria. Mas esse interesse por Evan pode ser apenas intelectual mesmo haha. Quase certo de ser. Tanto faz, é apenas confuso como deveria ser. Até mais. Deixem seus comentários.