Notas iniciais
Capitulo novo para vocês, dessa vez veremos um pouco da festa nortenha de casamento para quem estava achando que não teria. Boa leitura.

Winterfell

Rian Mormont nem havia esquentado seu lugar a mesa quando o Rei Brandon e a Rainha Lyra fizeram a sua entrada no salão principal. O Jovem Urso ficou em pé com os demais lordes em respeito ao casal real que tomava o lugar no patamar mais alto, enquanto via Edwyn Karstark que levava sua nova noiva de braços dados por um tapete com vermelho até o estrado. Logo atrás do casal seguia Torrhen Karstark, um tanto solitário sem a senhora sua esposa ou qualquer outra dama que lhe pudesse acompanhar.

Atrás vinham os outros noivos em seus mantos vermelhos, por mais que dificilmente alguém acabasse por lembrar-se daquele casamento como também sendo de Godric Glover e Marilyn Umber, não quando um dos casais que se uniam possuía uma noiva de sangue real. Mas ali estavam vindo com toda a dignidade que havia entre os dois tentando mostrar-se merecedores de admiração.

A garota tinha quinze anos, recém-florescida, o senhor seu marido tinha dezoito anos e era o mais novo entre os senhores nortenhos. Ela tinha características ândalas com os seus cabelos loiros e a pele pálida enquanto ele era um rapaz de cabelos castanhos escuros como era típico dos primeiros homens.

Seu manto de noiva se arrastava atrás dela em uma onda carmesim. Parecia tão quente e pesado que Rian perguntou-se como ela conseguia vestir aquilo. Ela parecia muito triste para uma noiva, mas quando olhava para Atena não via muita diferença no olhar da prima.

Então veio Lorde Grey Jon Umber e sua senhora. Vinha Matthew Stark acompanhado de Lady Mary Umber, os dois pareciam o casal mais deslocado que se poderia ter visto alguma vez na vida. Que bom que aquele momento era apenas para fins de cortesia.

Mas ainda assim, conseguiam ser uma visão melhor do que Catryona Mormont e Noah Stark que vinham logo atrás. O Jovem Urso ainda não conseguia digerir a situação de que o segundo marido de sua irmã seria alguém tão pior quanto o primeiro.

Brandon Umber entrara acompanhado de Sybill Stark e o rapaz concluiu que esse par era uma forma de mostrar união entre as famílias que concediam a festa. Provavelmente, se a irmãzinha mais nova de Godric estivesse ali teria entrado com Hoster, porém o terceiro príncipe entrou sozinho.

Quando Grey Jon Umber quase tropeçara ao tentar sentar-se em sua cadeira foi que Rian desviou o olhar para o Lorde da Última Lareira. Este parecia ter exagerado na bebida, embora o banquete propriamente dito ainda não tivesse começado.

Quando todos chegaram ao estrado, as mesas principais estavam tão lotadas quanto os bancos. Noivos e noivas sentaram-se em grandes almofadas felpudas com revestimento de pele de urso em tronos duplos de carvalho entalhado.

Os demais se acomodaram em cadeiras de espaldar alto com braços caprichosamente esculpidos. Na parede atrás deles, quatro estandartes enormes estavam pendurados nas vigas: As correntes cruzadas dos Umber, em vermelho e prata, o lobo gigante dos Starks, nas cores cinza e branco. O sol prateado em fundo negro dos Karstarks e o punho de prata em fundo vermelho dos Glover. Coube Lorde Torrhen Karstark comandar os brindes.

— Ao Rei Brandon – começou Torrhen Karstark simplesmente.

Helman Tallhart ergueu sua taça de vinho. Rian Mormont bateu sua taça na dele, na de Tyr Karstark e Fillipus Flint em seguida nas dos demais. Todos beberam em honra de Brandon. Com exceção de sua avó que manteve a taça intacta na mesa.

— A rainha Lyra – disse Lorde Umber. Rian respondeu como muitos dos Mormonts presentes na sala com louvor e animo, afinal tratava-se de sua tia por sangue.

— Ao meu filho, Edwyn Karstark – disse Torhen Karstark proclamou na sequência. – Que os nossos bons deuses lhe garantam vida longa e muitos filhos.

Beberam novamente.

— A minha filha, Marilyn Umber, a bela noiva e nova Senhora de Bosque Profundo. E minha querida filha tão amada. – disse Grey Jon Umber em seguida — Que os bons deuses antigos a tragam fertilidade e que meu bom genro conheça a graça de ser um pai – Falou o gigante com sua voz enquanto lançava um sorrisinho para a garota.

— Vou querer um neto antes do final do ano. – disse Dacey Mormont brincando — Gêmeos seriam ainda melhores. — Risadas soaram contra as vigas e os convidados beberam mais uma vez. O vinho era saboroso, o Jovem Urso lambeu os lábios com o sabor tinto e doce. Então o Lorde da Ilha dos Ursos disse para quem quisesse ouvir de sua mesa:

— Não duvidaria muito se acabasse acontecendo – disse Rian Mormont após o brinde – Lady Dacey é uma mulher fértil, teve quatro filhos todos vivos. Se Marilyn herdou da mãe é bem provável de antes que a guerra termine termos um novo herdeiro de Bosque Profundo.

— Bem, vamos ver se ela consegue fazer o que sua irmã não fez – riu Cregan Cassel de outra mesa em um tom que Rian não deveria ter ouvido se não tivesse se esforçado. O Jovem Urso xingara mentalmente e apertara a taça em mãos.

Brindes se seguiram a brindes, alguns propostos por algum dos pais dos noivos e alguns por outras pessoas. Beberam por Atena Karstark, a esposa em manto cinzento. Beberam a mãe de Lorde Godric Glover e a seus irmãos, que permaneceram em seu lar e assim não puderam comparecer ao casamento.

Bebeu a saúde de Jenyver Karstark, irmã de Edwyn que não comparecera ao casamento bem como a sua mãe. Rian Mormont bebeu e bateu sua taça com gosto contra a de seus companheiros de mesa, mostrando-se animado por sua noiva ter sido lembrada.

Beberam a memória do pai e irmão de Godric Glover. Quando as pessoas brindavam por George, o Jovem Urso virara o vinho que existia em sua taça. Não brindaria aquele cretino e pode perceber que Lizbeth fizera o mesmo. Que Matthew também o fizera de maneira discreta, porém não passou despercebido pelo olhar do primo que olhou para o fato confuso. Ele sabia as razões que tinha, mas nunca imaginou que Matt tivesse algum desafeto com o falecido.

Mas Catryona brindou ao marido falecido e isso pode ver, a mais afetada pelo cretino bebia em sua memoria. Rian perguntaria mais tarde a irmã porque fazia aquilo. Mas naquele momento viu que vinham mais brindes.

Brindaram em memoria de Rodwell Karstark, o filho falecido de Lorde Torrhen e irmão de Edwyn. Sim, Rian pensou, lembrando-se do bom amigo que se fora. Bebo alegremente por ele e bateu sua taça com a de Tyr Karstark que se encontrava a sua frente.

Rei Brandon ergueu-se e propôs o brinde final.

— A minha filha desaparecida, Brie Stark. Onde quer que seja que os deuses antigos estejam olhando por você, minha menina e que venha para casa em breve para junto de sua família. – Disse Rei Brandon – Mas onde quer que seja sei que uma parte de você permanece conosco e sorrindo esta noite como costumava fazer. A Brie Stark, a princesa de Winterfell.

— A Brie Stark, a princesa de Winterfell – responderam em conjunto os presentes no grande salão. E taças chocaram-se e as pessoas beberam.

Rian Mormont não tinha a intenção de beber tanto ainda mais um da antes de seguir em marcha para a libertação de Porto Branco. E isto ocorreria logo pela manhã seguinte, mas as taças eram sempre enchidas novamente após cada brinde, e ele descobriu estar com sede.

Mas ele não era o único, bastava olhar para Tyr Karstark que parecia tão insaciável quanto o Lorde da Ilha dos Ursos. Ainda mais para um homem ferido, tinha de lembrar-se desse fato como era a primeira vez que o viam fora do quarto.

Felizmente, o brinde do Rei Brandon a filha ausente foi o último. A Rainha Lyra se levantou levemente para agradecer a todos e o seu marido finalizara para prometer a todos uma vitória gloriosa em Porto Branco. E por fim proclamara.

— Que o banquete comece!

Uma leitoa assada a pururuca, um pavão assado e um grande cordeiro com crosta de amêndoas moídas e ervas. Vieram vinhas de porco salgada com pão preto sendo distribuído pelos criados que passavam por entre as mesas com bandejas, pão fresco de cevada embebido em leite de amêndoas e queijo amarelo agradavelmente apimentado. O pedaço da leitoa que provara estava bem crocante e dourado. Um prato bem servido e recheado ao lado da carne suína com cebolas, ervas, cogumelos e castanhas assadas.

Havia bacalhau branco em um empadão, com algum tipo de molho marrom saboroso que Rian não conseguiu identificar do que poderia ser. Além disso, havia purê de ervilhas, nabos amanteigados, cenouras regadas com mel e um queijo branco maduro que cheirava tão forte Rian preferiu recusar e manter-se apenas na bebida. Quando o peixe viera também dispensara apesar de seus companheiros dizerem que estava ótimo.

— Vivo em uma ilha – respondeu Rian – Se quisesse comeria peixe todo o dia isso é como se a frequência com que os comesse já não fosse grande o bastante – E eles riram enquanto dessa vez os barris de cerveja preta eram desenrolhados e os homens começavam a servir-se.

— Nunca recuso uma taça de vinho ou um corno de cerveja – respondeu Tyr Karstark quando Meistre Aston pediu para que se controlasse por conta de seu ferimento recente — Pode levar muito tempo até que tome outra. Ainda mais quando estamos em guerra, então meus amigos. Vamos festejar enquanto ainda estamos todos reunidos. — E Tyr deu uma palmada na bunda de uma das criadas depois desta ter lhe servido — Obrigado, querida — E sorriu para a moça — Acho que já encontrei companhia para a cama hoje a noite, o que acham rapazes? — Riu o loiro e alguns outros homens.

O cavaleiro de Karhold havia se erguido de seu leito para os festejos bem como Benjen Snow, que desde a Batalha das Colinas Solitárias se encontrava sobre a observação do Meistre Aston. O homem não parecia feliz com o animo do rapaz.

— Apenas não exagere, detestaria ver o meu trabalho em você se mostrando inútil — Respondeu Meistre Aston para que apenas as pessoas mais próximas conseguissem ouvir enquanto limpava os lábios manchados de vinho.

Aston não era nortenho, seu sotaque denunciava-o como sendo originário da Campina. Ele possuía os cabelos loiro arruivado, deveria estar na altura de seus cinquenta anos e tinha as correntes largas que pendiam sobre seu peito com os elos chegando quase a cintura. Os elos do conhecimento diziam, cada qual com seu respectivo significado.

— Como está minha prima? — perguntou Rian ao meistre — O estado dela é grave? — Era uma pergunta que o lorde da Ilha dos Ursos tinha evitado fazer, por mais que sua avó tinha lhe confessado que a prima do rapaz encontrava-se bem.

"Ela é uma ursa afinal das contas, um ferimento leve daqueles não iria derruba-la não é como as mulheres do continente", foram as palavras da Ursa Maior. Mas sua avó era uma mulher perigosamente confiante e nunca admitiria demonstrar fraqueza. Anna poderia estar em um estado delicado e ainda assim ela diria que a garota era uma verdadeira Ursa da Ilha. No entanto, Meistre Aston era um homem mais racional e daria uma resposta clara fosse ela boa ou ruim.

— Sua prima levou um golpe de espada — disse Meistre Aston — Um corte, não uma estocada. Foi um ferimento feio, no entanto. Parte do seio se foi, o corte no entanto não foi mais grave por conta de não ter tido a lâmina penetrada ou atingindo algum orgão vital. A maior perda foi na aparência simétrica que... Infelizmente não será mais a mesma. Mas eu estou tratando dela da melhor forma que posso. — Rian não sabia daquela parte sobre a mutilação da prima, estava chocado. — Ela está bem, consegue ficar consciente, o leite de papoula ajuda com a dor que sente. Ela pediu para vir, mas ela não conseguiria ter forças nem ao menos para se vestir quanto mais para aproveitar a festa.

— Tenho certeza de que ela está bem — disse Rian — Que fez o seu melhor.

— Ela perguntou se a lança dela estava segura — disse Meistre Aston e o Jovem Urso riu — Eu não entendo como ainda quer saber daquele objeto.

— Mormonts — riu Rian — Mulheres Mormonts são bastante apegadas com suas armas. Diziam que a Mãe Ursa tinha tomado como segundo marido o machado após se ver sozinha para criar o filho. Alguns dizem que o sujeito a abandonou, outros falam que morreu na Longa Noite lutando contra os Outros e tem mesmo aqueles que dizem que ela casou-se com um urso e que o manto que usa é feito da pele dele após a morte. Algumas pessoas ainda gostam de acrescentar que foi ela mesma que o matou com o machado após ele ter tentado comer o bebê.

— Por que os Mormonts não podem ter um ancestral normal? — disse Tyr Karstark e o Lorde da Ilha dos Ursos deu de ombros. Enquanto rasgava uma coxa de pernil com os dentes.

O jovem urso comeu bem, não lhe faltava apetite. Enquanto comiam, flautas e alaúdes enchiam o ar com melodias alegres, e a conversa se voltou para a guerra para qual partiriam na manhã seguinte.

— Lorde Desmond Dustin é bem-visto ao longo do Norte – disse Fillipus Flint, que parecia conhecer bem inimigos de guerra – É esperado que seja um adversário difícil para se enfrentar logo de frente. Lorde Harrold Hornwood, não deve ser desconsiderado. Nem Lorde Sandor Ryswell, apesar da idade o velho é bem perigoso. Fora isso, esse exercito não detêm cavaleiros ou lordes tão fortes que devam ser temidos. Lorde Locke e Lorde Whitehill são coisinhas asquerosas e perigosas são os melhores do tempo em que atuavam, mas estão passados da época de guerrear. Mas o poder financeiro dos Locke lhes tornam financiadores de mercenários para que lutem por aqueles ratos esfolares.

— Embora nenhum deles seja páreo para o tio de Royce Bolton, Lorde Ethan. Um serzinho desagradável, aquele lá. – continuou o herdeiro de Atalaia da Viúva — Ganhou a mão da filha de Lorde Locke após ter matando os outros três pretendentes dela, ao menos é o dizem, e certa vez foi me dito que o sádico havia esfolado toda uma tripulação de homens de ferro sozinho em uma noite. Não que eu esteja com pena dos piratas, mas sejamos sinceros que esfolamento é uma pratica selvagem.

— O nosso lado também é bastante perigoso, meus caros. – Helman Tallhart se pronunciara – Não podemos esquecer-nos de Rei Brandon, o Olhos de Lobo como o chamavam quando ainda príncipe. Eu estava lá com ele durante a guerra e o vi lutando ao lado daquele animal que o acompanhava e devo dizer que por momentos fera e homem pareciam apenas um.

— Isso é verdade – respondeu Gerold Forrester sorrindo – Aquele animal era uma fera assustadora. Lembro-me de como Brandon enviava o animal na frente junto com a vanguarda e nas emboscadas de pelotões. E como depois encontrávamos gargantas estraçalhadas e o lobo se banqueteando com os cadáveres.

— O que aconteceu com o lobo? – questionou Meistre Aston – Sempre achei que o animal tivesse morrido em batalha. Porque Rei Brandon partiu de Winterfell acompanhado pela fera e retornou sozinho.

— Dizem que após a guerra o Rei Brandon libertou o animal na Mata dos Lobos para que voltasse para sua alcateia – disse Helman Tallhart – É bem provável de ter acontecido como o animal nunca retornara para casa.

Todos na mesa lembravam-se do lobo, mesmo os mais novos. Rian Mormont tinha uma vaga lembrança do animal que acompanhava o marido de sua tia, há vinte anos o jovem Lorde da Ilha dos Ursos já era nascido bem como Tyr Karstark. Tinham seus seis anos cada um, por conta desse fato as lembranças eram vagas e por vezes quando escutavam mais pareciam historias dos mais velhos.

— Aquele lobo faria uma boa diferença nessa guerra – pronunciou Gerold Forrester e os outros concordaram – As crianças do verão pensam que são lendas antigas. O jovem Lorde Godric Glover, por exemplo, pensa que é apenas mais uma lenda em cima do nosso rei.

— Eddie pensa o mesmo – respondeu Tyr Karstark – E pelos Sete Infernos às vezes eu mesmo tenho dificuldade em me lembrar do lobo. Parecem historias inventadas apenas para aumentar a grandiosidade que é um rei coroado em meio à guerra. – Ele bebeu – Mas além dele ainda possuímos outros heróis ao nosso lado.

— Como seu tio, por exemplo. – disse Rian Mormont – Aquela cicatriz em seu rosto não foi por outra razão se não ter salvado a vida de Rei Brandon em campo de batalha. Dizem que se lançou na frente da espada de Doughall Dustin.

— Não foi bem assim – riu Tyr Karstark – Ele apenas empurrou Brandon para fora do caminho do cavalo do Dustin e a lâmina lambeu o rosto dele. Quase ficou cego, porém por sua bravura foi que conseguiu a amizade do rei lobo e boas propostas de casamento para ambos os filhos.

— Não subestimem Grey Jon Umber – disse Benjen Snow – O velho gigante matou quarenta homens na Batalha da Baia das Focas.

— E a cada ano a conta dele fica maior – comentou Tyr Karstark rindo – Os dias de Umber se foram. Olhe para ele. Quase nos sessenta, está lento e gordo, sem falar que o jeito que fala gritando diria que até um pouco surdo também.

— Bem verdade o que dizem, só espero que não digam isso em voz alta próxima dele – uma voz atrás de Rian – Posso unir-me a conversa, sores. Um banquete de casamento sempre parece ser animado, mas temos de encontrar as companhias adequadas.

Rian Mormont virou-se para encontrar Lady Mary Umber, em pé atrás dele. A moça ruiva encontrava-se com um meio sorriso nos lábios. Não se encontrava em um vestido como as outras damas e sim trajes bem masculinos lhe vestiam. Um gibão de seda verde que tinha mangas longas e caídas forradas com cetim vermelho, tão compridas que as pontas passavam dos joelhos. Uma pesada corrente de prata envolvia seu peito, cravejada com imensas ametistas azuis cuja cor combinava com seus olhos.

— Lady Maryanne – cumprimentou Benjen Snow tentando oferecer seu lugar, porém a moça fizera um sinal para que se mantivesse sentado.

— Chame-me de Mary apenas, Benjen. – disse Mary Umber – E o mesmo vale para vocês meus companheiros, se iremos cavalgar juntos para a batalha então creio que devamos nos conhecer melhor e deixar formalidades de lado.

– É uma dama ou uma guerreira? – perguntou Fillipus Flint.

— Posso ser o que eu quiser, milorde. – respondeu Mary Umber — Posso fazer belas músicas tanto com o aço de uma espada quanto com a afinação de minha voz, tanto faz os meus talentos particulares. Minha mãe veste sua armadura tão graciosamente quanto o vestido e nunca foi questionada sobre tal. E lutei a batalha das Colinas Solitárias e matei uma boa quantidade de homens.

— Isto é verdade – disse Tyr Karstark – Eu estava lá e a vi com o sangue na espada. Ela sabe o que diz e talvez seja por conta desse fato que Lorde Umber tenha optado por leva-la em batalha ao lado dele e da esposa.

— Assumirei o lugar que deveria ser de Jon – respondeu Mary Umber – Não sou um homem, porém nenhum pedaço de carne pendurado entre minhas pernas me fará menos capaz em um campo de batalha do que os outros cavaleiros e soldados.

— Você não é como as outras ladies – sorriu Rian Mormont.

— Todo o bom grupo de guerreiros necessita de sua donzela para inspira-los então por que não uma que pegue em armas tanto quanto um homem ou até melhor do que um? – disse Mary Umber — Posso me juntar a vocês? Como irmã da noiva meu lugar seria entre meus pais, sendo que o bom rei foi generoso o bastante para nos colocar no estrado. Mas prefiro a companhia dos meus companheiros de armas e da família – A ruiva deu uma batidinha no ombro de Tyr Karstark – Seja um bom camarada e abra espaço, primo. — E o loiro abriu espaço para que a dama se sentasse entre o rapaz e Rian.

— Está atrasada para comer, milady – respondeu Rian.

— Não importa, já comi o bastante. – disse Mary Umber — Sei onde é a cozinha de Winterfell e ainda tem um pouco de vinho, não é mesmo? – a ruiva tinha um cheiro agradável que inundou as narinas do Jovem Urso. Ela cheirava a laranjas e limas, com um toque de menta que acreditou vir do hálito da moça.

— Permita-me, milady – ofereceu Rian Mormont erguendo a jarra e servindo um cálice para a moça ruiva. A donzela da Última Lareira sorrira docemente para o lorde e batera a sua taça contra a dele.

— Agradecida, milorde – respondeu Mary Umber enquanto retornava a beber um pouco de vinho. – Muito doce não é mesmo? — E por alguma razão, o Jovem Urso sentiu-se bem em observa-la enquanto o fazia.

— Sim, de fato é mesmo – respondeu Rian Mormont sorrindo para Mary. Enquanto voltava-se para beber de seu próprio cálice. Lembre-se da sua noiva, Rian. Uma voz soava em sua cabeça com certa insistência. Agora você é um homem comprometido, não pode ficar tão animado perto de outras moças. E assim, serviu-se de mais vinho.

...

Seu esposo bebeu um tanto considerável e quase não comeu o que haviam lhe servido. Escutava sempre que alguém se levantava para fazer um brinde e às vezes fazia um brusco aceno de apreço, mas fora isso daria para dizer que seu rosto era lívido e fitava o vazio. Perguntava-se o que passava pela mente de Edwyn Karstark agora que era um homem casado.

Sua mente parecia funcionar além do que deveria que era se focar nela, mas não podia culpa-lo como não lhe estava dando muita atenção também. De qualquer forma, não desejava a atenção dele não naquele momento em que sentia-se tão deslocada e triste frente a tudo que acontecera e iria acontecer. Ele não é um Bolton, tinha que lembrar-se. Edwyn não é como Richard, por mais que detenha a mesma cor de olhos que era tipica dos esfoladores. Uma herança maligna de uma avó já morta, tinha de lembrar-se sempre.

O banquete pareceu prolongar-se sem fim após os brindes. Embora Atena não tivesse provado nada da comida, como nada aquilo parecia descer-lhe. Queria que aquilo acabasse e, no entanto, era receosa de como seria o seu fim aquela noite.

Pois, ao fim do banquete viria à noite de núpcias. Os homens iriam leva-la para sua cama nupcial, despindo-a no caminho e fazendo piadas grosseiras sobre aquilo que a aguardava entre os lençóis, enquanto as mulheres prestariam o mesmo serviço com Edwyn.

Só depois de serem enfiados nus na cama é que os deixariam a sós e mesmo então os convidados permaneceriam à porta do aposento nupcial, gritando para dentro sugestões obscenas. Não achava que seria capaz de suportar que arrancassem sua roupa e estava certa de que rebentaria em lágrimas à primeira brincadeira lúbrica. Homens a tocando, mãos estranhas lhe molestando maliciosamente era algo que a aterrorizaria.

Ela era uma mulher forte, sabia disso, mas em momentos em que se sentia indefesa e só a lembrança lhe causava pânico. Richard Bolton tinha a quebrado em mil pedaços, a deixado amedrontada pelo resto da vida com a lembrança de um pesadelo vivido.

Se pudesse falar com Edwyn e dizer para que intervisse quando fossem fazer essa cena ou quem sabe o pai o fizesse por ela. Não, ele não poderia, ainda era seu pai e rei, porém agora Atena era uma mulher casada e quem deveria cuidar e zelar por ela era o marido.

Quando os músicos começaram a tocar, Edwyn apoiou timidamente a mão sobre a dela e aproximou a boca de seu orelha para sussurrar-lhe:

— Minha senhora, quer que lideremos o baile? – disse Edwyn carinhosamente. A boca dela reprimiu-se e tirou sua mão debaixo da dele.

— Poderiamos deixar para que os outros noivos o façam, não acha? – sugeriu Atena – Meus pés não estão habituados a dançar e não quero passar vergonha frente aos convidados.

— Como quiser senhora. — respondeu Edwyn afastando-se e indo cochichar no ouvido de Godric e pareceu compreender o pedido. O Lorde de Bosque Profundo murmurara qualquer coisa para sua esposa e ela assentira assim ambos foram para o centro do salão. Outros convidados rapidamente se juntaram ao Lorde e Lady Glover.

Seus pais dançaram juntos, Rei e Rainha pareciam flutuar magnificamente e olhavam um para o outro com uma intensidade que mostrava que o sentimento entre eles ainda permanecia o mesmo depois de anos. Matthew dançou com Lady Lizbeth, enquanto podia ver Noah dançando com a pequena Louise em um dos cantos do salão. A menininha sorria enquanto seus pezinhos estavam sobre as botas do pai e ambos moviam-se no mesmo ritmo.

— Se algo acontecer comigo — disse Noah um dia após o desaparecimento de Brie quando encaravam as crianças brincando no Bosque Sagrado — Quero que cuide de Lou como se fosse sua filha — A mais nova encarou o irmão surpreso com o pedido repentino — Eu as vezes tenho medo de não ser capaz de vê-la se tornar uma mulher...

— Você está bêbado — disse Atena — Pare de dizer besteiras — Ela socara o irmão — Um dia você estará levando Louise para a árvore-coração. A verá casada e feliz, também chorara por ela como o pai bobo que você se torna quando está na presença da menina. Mas se esse dia não chegar, então saiba que a Louise estará em boas mãos.

— Obrigado, Thea — agradeceu Noah — Você é a mais próxima de uma mãe que eu vejo para Louise. Quero que ela cresça para se tornar uma mulher como você, minha irmã.

— Se os deuses te ouvirem sua filha não sairá alguém como eu — riu Atena encerrando a conversa aquele dia. No salão principal, os olhares de irmão e irmã se cruzaram no instante em que o lobo boêmio rodopiava a filha que ria ao lado do pai. Ele cochichou algo no ouvido da menina que assentiu e correu na direção da tia e seu novo marido.

— Tia Thea — disse Louise — Por que está triste?

— Eu não estou triste, pequena — sorriu Atena enquanto pegava a menina no colo — Estou apenas um pouco cansada.

— Mesmo? — perguntou Louise.

— Sim, mesmo — disse Atena.

— Ainda não tinha parabenizado os noivos — disse Noah vindo logo atrás e se colocando de frente para o casal — Que sejam felizes nessa união se puderem e peço que tenha paciência com minha irmã, milorde. Atena tem uma personalidade forte, mas é mais frágil do que quer que os outros vejam. Seja cuidadoso com ela, Eddie. — Atena teve vontade de dizer algo, porém lembrou-se que estava com Louise em seu colo e seria errado xingar o pai na frente da criança — Quem diria irmã, não assustou ao seu noivo como acreditei que faria. — o rapaz agora a encarava — Ele não desistiu de você realmente proferiu as palavras... — Edwyn enquanto se erguia da cadeira para apertar a mão do cunhado.

— Principe Noah — disse Edwyn enquanto apertavam as mãos — Agradeço pelas palavras, tenha certeza de que farei o que posso para ser um bom marido para sua irmã. Espero que esteja gostando da festa de casamento...

— Já estive em melhores — riu Noah — Alguns até bem mais animados, mas é o primeiro que a Lou participa. Minha menina está bem feliz com tudo nessa noite e é o que importa.

— Compreendo, sua filha é linda — disse Edwyn elogiando a bastarda o que fez com que Noah abrisse um sorriso enquanto brincava com os cabelos da filha.

— A de vocês também será — disse Noah — Um dia — E Atena olhou confusa para a troca de olhares que houve entre os dois — Não podia haver homem melhor para casar-se com minha irmã. Tem a minha benção, por mais de que não vale muito não é mesmo?

— Suas palavras são bem vindas, vossa alteza — disse Edwyn.

— Chame-me de irmão — disse Noah o que surpreendeu Atena — Ou Noah, se preferir. Os deuses sabem que gosto mais de você do que certos sujeitos com quem divido meu sangue.

— Eu perdi alguma coisa? — disse Atena, mas os homens apenas sorriram um para o outro e Noah deu de ombros.

— Eu apenas estou feliz por você minha irmã — disse Noah — Não posso?

— Tia, que bonito — disse Louise apontando para a coroa de rosas do inverno que a princesa ainda usava — Flores azuis.

— Então vou dar elas para você — disse Atena — Você quer? — A menina abriu um sorriso e assentiu enquanto a noiva retirava a coroa de si. A princesa olhava para a sobrinha com carinho, ver Louise lhe fazia pensar em Amanda. Sua filha ainda era nova demais para comparecer ao casamento, sua presença talvez tornaria a situação melhor ou pior. Dependia muito dos pensamentos que iriam vir a sua mente enquanto a visse a menina no salão principal.

— São as favoritas dela — riu Noah enquanto via Atena colocando a coroa de flores na cabeça de Louise — Olha só, se não é a rainha do amor e da beleza. Assim papai ficará com ciumes... — A menina riu enquanto abraçava ainda mais a tia que lhe depositou um beijo no rosto da pequena.

— Papai, olha... — disse Louise — Sou princesa também.

— Sim, você sempre foi — disse Noah rindo enquanto pegava a garota no colo — A princesa do papai — E fez carinho na bochecha dela — Agradece a tia pelo presente e dê boa noite para ela e seu novo tio — Edwyn sorriu para aquele comentário.

— Boa noite — disse Louise enquanto Noah inclinava a filha para poder dar um beijinho no rosto de Atena — Boa noite — E então Edwyn se inclinou na direção dela para receber um beijo da menina também.

— Não vou beija-los, mas digo que desejo uma boa noite para o casal — disse Noah — Só vou por essa pequenina aqui para dormir e depois retorno para o resto das comemorações. Creio que não estarão mais aqui quando eu voltar — E encarou Edwyn — Eu fiz como me pediu, Eddie.

— Que bom, Noah — disse Edwyn — Agradeço por sua ajuda — O príncipe se assentiu enquanto saia do salão principal levando sua bastarda. Atena olhou para o marido enquanto esse retornava a sentar em seu lugar e quando este notou seu olhar a encarou — Alguma coisa errada, milady?

— Diga-me você — disse Atena — Que está cheio de segredos com o meu irmão — Ele fez como se não compreendesse — Noah não é de gostar tão facilmente assim das pessoas.

— Não sei porque a surpresa — disse Edwyn — É bem fácil das pessoas gostarem de mim, milady. — E voltou a fitar a frente do salão novamente a deixando irritada, porém decidiu não arriscar-se em insistir no assunto para não provocar uma discussão ali. Novamente, voltou a encarar os casais que dançavam as músicas cantadas pela cantora e os bardos.

O Senhor e a Senhora da Última Lareira moviam-se mais calmamente. Lady Cibele Cerwyn pediu a Sor Caston Cassel, irmão de Lorde Cregan, por uma dança e o cavaleiro aceitou seguindo para o salão ao lado da herdeira de Castelo Cerwyn. Finn Flint, o escudeiro de Noah, dançava com Helga Tallhart, a filha do mestre-de-armas.

Maege Mormont juntou-se aos dançarinos com Clarence de Cerwyn, o cavaleiro a serviço de Lady Cibele Cerwyn e o homem a frente de seus soldados em batalha. Brandon Umber convidara Sybill para dançar e após algum incentivo de Catryona foi que a menina aceitou e agora as duas crianças traçavam alguns passos em meio aos adultos.

Mary Umber pediu por uma dança a Rian Mormont, porém o Jovem Urso recusou-se e procurou levantar-se de seu lugar e retirar-se do salão principal. No lugar do Lorde da Ilha dos Ursos foi que a ruiva dançara com Tyr Karstark.

Catryona fez par primeiro com Lorde Karstark, depois com Lorde Forrester e por fim com o príncipe Matthew, que dançava com uma graça simples e com um sorriso discreto entre os dois. Havia um brilho a mais nos olhos da Mormont que a faziam ainda mais bonita enquanto fitava o futuro cunhado.

Atena por vezes suspeitava de haver algum sentimento entre eles, porém não parecia ser do feitio do príncipe herdeiro qualquer especie de ato desonroso, era estranho imagina-lo cometendo algum erro por mais que o desejo estivesse ali. O desejo de cobiça e luxúria, era algo que exalava da tensão que havia entre eles. A troca de olhares entre os dois primos enquanto dançavam era uma prova disso, os cochichos ao pé do ouvido. Será que haveria algo a mais? Não, Matthew não teria capacidade de entregar-se a algo que não fosse correto.

Foi então que os viu parando de dançar quando a música mudou. Depois sumiram em meio aos convidados um ao lado do outro, estranhamente por um momento foi que Atena pareceu ter visto ambos de mãos dadas. Aquilo a incomodou um pouco, porém desviou o olhar para outros convidados.

Atena ficou sentada com as mãos no colo, observando o modo como à outra noiva se movia nos braços do marido. Ela ria por conta do vinho que havia ingerido e estava visivelmente ébria e sacudia os louros caracóis enquanto bailava. Ela parece feliz, pensou, mas está apenas entorpecida pela bebida. É triste, teve de admitir a si mesma.

Afastou o olhar, dirigindo-o para onde o Noah ainda dançava com sua filha. O príncipe agora girava a menininha nos braços nem se preocupando com o ritmo da canção tocada pelos bardos.

— Lady Atena — Lorde Torrhen Karstark estava em pé junto ao estrado.

— Milorde – respondeu Atena educadamente.

— Dá-me a honra? – pediu o homem grisalho lhe oferecendo a mão — Se o meu filho lhe consentir? – Edwyn recebera o olhar da princesa e respondera com um aceno. E para não desagradar o sogro ou ao pai que observava a cena foi que a moça aceitara aquela dança.

—Obrigada pelo convite, milorde. — disse, ao pegar na mão dele.

— Este casamento não é dos mais animados que já estive – respondeu Torrhen Karstark – Deve compreender que quando fizemos a aliança entre nossas casas, seu pai e eu não esperávamos que fossem acabar chegando a frente a árvore-coração ainda sem possuírem qualquer sentimento um pelo outro.

— Eu... – começou Atena.

— Quando seu pai fez a proposta imaginávamos que seriam outros filhos unindo-se, porém o destino quis que fossem você e Edwyn – disse Torrhen Karstark – E uma parte de mim sabe que não será fácil para vocês dois como teria sido para sua irmã e meu filho falecido. Mas eu tenho esperanças de que vocês possam ao meus conviver em harmonia.

— É muito amável por dizer isso, milorde. – disse Atena – Mas não creio que compreenderia que eu e seu filho nós... – porém foi interrompido pelo sogro.

— Ele é um bom rapaz – falou Torrhen Karstark – Eu sei que minha esposa e eu acertamos em sua criação e sabemos que ele terá o cuidado de trata-la como merece. Ele é um bom rapaz e será bem vinda em Karhold. Tratarei como minha filha e sei que minha Jenny adorara ter uma irmã, os bons deuses sabem que ela necessita de uma companhia feminina que tenha uma idade aproximada da dela.

Aquilo era tão encantador e bonito que Atena foi obrigada a rir, apesar de tudo. Agora compreendia que talvez Edwyn não fosse uma pessoa que escondesse algo, como Torrhen possuía a mesma gentileza natural do filho. Depois, sentiu-se absurdamente grata por ter aceitado dançar com o Lorde de Karhold.

Sem saber como, o riso tinha lhe dado abertura para que ao final da música fosse a vez de Edwyn aproximar-se talvez tomado de novo por alguma esperança, ainda que por pouco tempo já que assim que aceitou a mão da esposa foi que pode ver o sorriso se desfazendo provavelmente pela feição que ela lhe dirigira. E uma nova música iniciou-se enquanto começavam a dançar.

Ele tentou manter-se sorrindo, deixou que a música os dominasse. E ambos acabaram por perder-se nos passos, parecendo não muito harmônicos enquanto dançavam. Edwyn parecia um tanto nervoso não conseguindo guia-la com segurança. Até que por fim foi ganhando confiança e melhorando suas ações como um dançarino.

E foi então se movendo no som de flauta, gaita de foles e harpa, no ritmo do tambor e nas cordas do alaúde. E viu-se dançar de um lado para o outro e de tempos em tempos nos braços do marido, quando a dança os juntava. E rodopiavam pelo salão com graciosidade ao ritmo da música cantada pela cantora.

— A senhora minha esposa está muito preocupada com o que vai acontecer está noite — disse Edwyn em voz baixa numa dessas vezes e Atena não pode deixar de pisar no pé dele. O fazendo reprimir uma careta.

— Sinto por isso – disse Atena enquanto retornavam para a dança.

— A senhora está assustada e não a culpo. – respondeu Edwyn – Eu a compreendo milady e quero que saiba que pode sentir-se segura que não irei faltar-lhe com respeito. Nem ao menos toquei meus lábios aos seus em frente a árvore-coração porque senti que não estivesse preparada para tal contato. Somos estranhos, não quero que continuemos assim pelo resto de nossas vidas. Não é assim que eu imaginava meu casamento em meio a uma guerra...

— Eu nunca imaginei-me casar-me em qualquer outra situação que fosse – falou Atena com sinceridade – Sinto muito.

— Uma noiva no seu casamento devia estar mais do que bem, mas não é uma noiva comum não é mesmo minha senhora? — disse Edwyn com um olhar acolhedor e a voz dele cheia de gentileza. — Parecia à beira das lágrimas e eu compreendo a causa.

— Não creio que possa compreender – disse Atena.

— Sim, eu não compreendo, mas a entendo agora minha senhora e sei como devo agir – disse Edwyn – Sou um homem cuidadoso e paciente, não espero que me ame de imediato eu nem sei se poderei amá-la também. Casamos por dever, minha senhora. Mas não quero um casamento frio e sim quero que sejamos ao menos amigos. – Ele a puxou para junto de seus braços.

— Somos jovens ainda e tenho esperança que possamos conviver um com o outro de bom grado... – continuou Edwyn aproximou-se de seu ouvido novamente e sussurrou – Seu pai me contou o que aconteceu. E digo-lhe que estou bem com toda a situação, não a desprezo nem me sinto desonrado como pode pensar que eu me sentiria. A verdade minha senhora, é que estou preocupado com seu bem estar e agora a compreendo melhor.

A música afastou-os antes de Atena conseguir pensar numa resposta. Foi a vez do pai vir dançar com ela, após o noivo ter partido. Rei Brandon encontrava-se elegante apesar da aparência meio abatida, olhos fundos denunciavam noites mal dormidas e o rosto mais magro do que o habitual encontrava-se oculto embaixo da barba grisalha.

— O senhor está péssimo, papai. — disse Atena o que o fez sorrir com discrição — Está tudo bem?

— Eu que deveria te perguntar isto, não é mesmo? — disse Rei Brandon — Minha menina tão corajosa, forte e verdadeira. Amo-te tanto que uma parte de mim doí por fazê-la estar nessa situação contra sua vontade, mas o apoio dos Karstarks é indispensável para nós nessa época de guerra. E meu acordo com Torrhen sempre valeria, de renovar nosso sangue com uma união entre as famílias. E um Stark sempre honra com a sua palavra.

— Você contou para Edwyn sobre mim — disse Atena — Como pode fazer isso? Eu deveria saber, mas você preferiu fazer sem minha autorização. Quebrou sua palavra comigo, pai. Revelou ao meu marido meu segredo mais intimo.

— Sim, porque ele é seu marido que por essa razão fiz — disse Rei Brandon — Ele poderia ter quebrado com o acordo no momento em que soube, mas ele não é um rapaz ingenuo e imaturo que pensam que é. O coração dele é bom o suficiente para aceita-la e ver que não foi culpa sua, minha pequena loba. E fez com que eu visse que não havia marido melhor para eu escolher para você... Um que será capaz de curar as feridas que ainda existem aqui — Ele apontou para o coração da filha — Perdoa-me pelo meu erro, Thea? — Ele a chamara pelo apelido de infancia, um jogo sujo demais mesmo para o pai dela. A arqueira sorrira enquanto depositava um beijo na mão do pai quando a música acabou e a próxima dança iria se iniciar.

— Perdoarei sempre você, meu pai — disse Atena — Mas quanto a... — ela ia perguntar sobre a cerimonia de cama nupcial — Eu estou assustada com essa parte, meu pai.

— Não se preocupe, filha. — disse Rei Brandon — Seu marido pensou em você a esse respeito e saberá como agir para evitar sua exposição. Ele que irá cuidar de você agora, é isto que significa o manto que está usando — referia-se ao manto cerimonial que encontrava-se preso nela pelo broche em formato de sol. — Agora tenho de ir, minha pequena loba.

Foi Lorde Umber quem surgiu à sua frente, com o rosto vermelho e o cheiro de bebida exalando nele, ele não era o mais cuidadoso no que se dizia respeito a dançar. Após quase esbarrarem em outro casal foi que o parceiro de dança foi trocado. Viera depois Lorde Glover que a fez rir com qualquer comentário bobo e agradável no meio da conversa que tiveram. Então Tyr Karstark e depois o Príncipe Hoster.

— Brandon disse que quer casar com a Sybill — disse Hoster, seu irmão que tinha apenas dez anos — Ele quer casar-se com a nossa irmã?! Pensei que fosse meu amigo, mas apenas está interessado nela.

— Não vejo porque não pode ser os dois – ofereceu Atena – Isso só aumentaria ainda mais a proximidade entre vocês como amigos. – E o príncipe ainda parecia pensativo frente aquelas palavras até que por fim respondera.

— Mas papai pensou em negociar um acordo com Lady Manderly para unir a Sybill com Elric Manderly quando estiverem em idade – respondeu Hoster – Brandon é o terceiro na linha de sucessão ao senhorio de Última Lareira, isso por enquanto até Jon ou Evan terem filhos. Não seria um casamento bom para ela não é? O garoto Manderly é melhor por mais que seja um bebê chorão. – Atena tinha que concordar que o irmão parecia mais esperto do que muitas crianças em sua idade ao menos compreendia de politica como estava demonstrando – E eu sei que posso derrotar Elric se ele fizer algo de ruim com a Sybbie enquanto com o Bran não sei se teria a mesma chance.

— E por que não? – perguntou Atena.

— Ele é mais velho e mais alto – respondeu Hoster – Eu estou melhorando com a espada, mas não sei se serei capaz de ficar melhor do que ele. – A moça rira do irmãozinho mais novo – E a Sybill está muito estranha desde que a Brie se foi.

— Não diga isto — disse Atena repreendendo-o — Ela ainda continua triste. Mas não diria que está fora do que seria esperado. Afinal, ela estava lá Hoster... — A princesa fez uma pausa — Ela viu Brie sendo levada. E isto a abalou muito...

— Hoje ela falou sobre um sonho que teve – disse Hoster a cortando antes que continuasse dizendo o que pretendia – Que tinha sonhado que nevava cinzas e que havia um boneco de neve que derretia em mãos quentes. E que lágrimas se congelavam nos olhos de um lobo negro.

— Espera, está dizendo que ela falou com você? – questionou Atena dando-se por si pensando nas palavras da mais nova – Falou com você diretamente e não contou para ninguém?

— Eu contei para a mãe – disse Hoster – Levei a Sybill até ela e tentei que ela repetisse o que me falou. Mas não fez, então acho que mamãe achou que talvez eu estivesse mentido. Porque ela me repreendeu por eu não está respeitando a tristeza da minha irmã. Só que não estava é a verdade. Sybill falou e me contou desse sonho que tivera na noite passada. – E Atena ficou com aquilo trabalhando em sua mente em silêncio.

— Ouvi papai e mamãe conversando a respeito de casamentos para mim e Sybill. – continuou Hoster — As opções que possuíam. Ele falou que eu poderia me casar com Gwyn Glover, não sei se gosto dessa ideia.

— Por que não? – perguntou Atena.

— Aquela garota chata que queria que eu brincasse de Entre-No-Meu-Castelo com ela – respondeu Hoster — Esse jogo é para beijar não é? Isso é nojento – ele fez uma careta – Troca de baba.

— Eu sei que pode acabar gostando dela — disse Atena.

— Como você pode acabar gostando do Eddie? – disse Hoster antes de os pares voltarem a trocar. Atena sentiu vontade de dar um tabefe na nuca do mais novo por fazer com que ela pensasse novamente no esposo.

Finn Flint disse-lhe que estava bela e Helman Tallhart desejou-lhe muitas crianças saudáveis e longos anos de alegria. E então a dança deixou-a novamente frente a frente com o seu noivo, Edwyn Karstark.

— O que me disse antes, milorde. – disse Atena fazendo-se de ingenua – Ao que se referia?

— Posso explicar melhor enquanto estivermos fora do salão – disse Edwyn – Temo que esteja próximo da cerimonia dos lençóis e eu não creio que queira participar tanto quanto eu – E ela esticou a cabeça para observar ao redor enquanto aceitava-se ser guiada pelo rapaz para fora do salão.

...

Rian Mormont se afastou da mesa ao recusar o pedido de Mary Umber para uma dança.

— Preciso de um pouco de ar – falou Rian enquanto erguia-se sobre os próprios pés — Por favor, me deem licença.

— Volte logo, sor – disse Mary Umber – Não sou como as outras ladies que aceitam uma recusa para uma dança. Fica devendo-me uma próxima musica – E sorrindo saiu acompanhada de Tyr Karstark.

— E você não vai querer perder as núpcias – respondera Tyr Karstark ao amigo.

Lá fora, o vento da noite lambia a nuca de Rian como a língua de algum grande animal. Estava esfriando, seria bem visto ter permanecido no salão principal perto da lareira ou quem sabe encontrar alguma outra forma de aquecer-se. Uma fogueira, talvez quem sabe. Não o corpo de uma mulher, não depois da carta que mandara para Jenyver Karstark.

As pedras cinzentas de granito do pátio parecia se mover embaixo de seus pés ou talvez ele que estivesse balançando por encontrar-se mais bêbado do que um cão.

Quando o vento ergueu os estandartes por uns instantes presos aos estrados da varanda superior. O lobo gigante dançara ao ritmo do vento em uma flamula cinzenta em meio a noite. Rian Mormont pode sentir o cheiro do banquete oferecido aos soldados no pátio coberto. Saiu em busca do pátio externo afastando-se dos sons de conversas e risadas que os guardas compartilhavam.

Encontrou-se do lado de fora dos canis, onde os cães de caça sentiram o seu cheiro e começaram a latir e uivar. Voltou pelo mesmo caminho por onde viera, passando pela forja. Uma das criadas passou correndo por ele, sem fôlego de tanto rir, o ferreiro careca corria atrás dela. O homem ficava caindo, até que finalmente a mulher teve que voltar para ajudá-lo a se levantar. Passou pela entrada do bosque sagrado e sentiu-se tentado em entrar ali como saberia que teria algum sossego como ninguém pensaria em orar em meio a uma festa.

O que eu preciso realmente é de uma latrina, não posso desonrar os meus deuses urinando de frente para a árvore-coração. Havia alguns arbustos ali perto, embaixo de uma escadaria de pedra clara. Aquilo vai servir.

Tateou o caminho até lá por conta da escuridão e soltou o calção. Sua bexiga estava prestes a explodir. A urina saía sem parar do membro meio enrijecido. Em algum lugar acima dele, uma porta se abriu. Rian ouviu passos na escada, o roçar de botas nas pedras.

— Que porra de plano merda que você colocou diante de nós. – Uma voz soara enquanto desciam as escadarias — Estaríamos ofendendo o direito do hospede caso façamos... – Então pararam — E o Rei se descobrir com quem temos tratado...

— Quero mais eu o rei se foda – insistiu uma voz familiar – É mais fácil falar de vitórias do que conquistá-las. Ele está velho e amoleceu depois que se casou e teve filhos. Ele não é mais o guerreiro que devemos seguir, onde está o Olhos de Lobo que amedrontava os inimigos? Eu lhe digo: Morto. Desde que a coroa foi colocada sobre sua cabeça.

— Fale baixo — alertou o outro — Mesmo assim, não devíamos...

— Sim, devíamos sim foi parte do acordo. — soou o outro — E um homem sabe reconhecer acordos bons quando estes surgem e o que ganharemos será muito maior do que recebemos.

Quando saiu de debaixo da escada, os dois senhores estavam bem do outro lado do pátio. Quase gritou por eles, mas o bom senso o impediu. Por mais que desejava fazê-los mostrar os rostos, isto apenas o colocaria em perigo. Estava sozinho e desarmado e, além disso, meio bêbado e com as calças na mão. Talvez mais bêbado do que queria admitir.

Alguém planeja trair o rei ou seria sua ebriedade falando mais alto? Então voltou seu caminho em direção ao salão. Não para agir com a espada, mas para ficar de olho já que estava bêbado demais para defender até mesmo a si próprio quanto mais ao seu regente.

Teria de avisa-lo, no entanto, sendo que tinha que esperar que acreditasse nele. Pediu aos deuses que suas orelhas tivessem ouvido coisas que não existiam, não estava em condições de lutar nem o restante dos convidados estaria. E então retornou para dentro do castelo.

Notas finais
Edit: Eu relendo o capitulo vi que tinha um paragrafo que citava o Noah dançando com a Catryona e sendo interrompido por Matthew. Isto seria um erro de continuidade que acabei consertando. Não é tão importante assim, mas caso alguém me apontasse nos comentários era bom responder o mal entendido. Deixem seus comentários. Até mais.