Notas iniciais
Boa leitura para todos. Até lá embaixo. Edit: Eu editei uns trechos da conversa que ocorre entre os dois personagens próximos do final, decidi tornar a atitude entre eles um tanto mais agressiva e menos passional. Espero que caso releiam consigam notar a diferença.

Bosque Profundo

Lyonel estava meio adormecido quando ouviu passos. A princípio pensou que fosse sonho, quem seria dessa vez? Rodwell Karstark novamente com um buraco no lugar do coração e respingando água do Rio Karlon tal qual o seu cadáver após o combate? Não, não seria ele não quando desejava que fosse.

Passara-se tanto tempo desde que ouvira algo mais que o som da própria voz ou dos ratos que corriam pelas masmorras. Lyonel sentia-se febril, com os lábios secos e rachados. Quando a pesada porta de madeira abriu com um rangido e a súbita luz fez seus olhos doerem quase como se sentisse que estava ficando cego.

O Meistre aproximou-se novamente tratou-lhe de trocar as ataduras, limpou o ferimento com água limpa e atirou-lhe uma cataplasma sobre a ferida. Então lhe estendeu um cantil, e ao tirar a tampa o odor do vinho veio nauseante até as narinas do prisioneiro. Tocou o couro de bode, sentiu-o gelado e fresco e salpicado de umidade.

Lyonel agarrou-o com as duas mãos e virou-o em seus lábios avidamente. Era vinho barato, mas naquele momento nada importava por mais aguado que fosse ainda assim lhe saciava a sede. O liquido roxo escorreu da boca e pingou através da barba rala que lhe crescia. Bebeu até pensar que ficaria maldisposto.

— Quanto tempo faz? – perguntou Lyonel numa voz fraca quando não mais conseguiu beber.

O Meistre era um homem com ar de espantalho, magro e barba desordenada lhe crescendo pelo queixo pontudo. Estava vestindo seu manto cinzento e as correntes que lhe envolviam o pescoço.

— Não se fala – disse enquanto arrancava o cantil dos dedos de Lyonel – Eles querem lhe ver em breve, milorde – Ele tirara um pouco de carne seca e colocara entre os dentes do rapaz loiro que passara a mastigar — Será levado ao salão principal e apresentado ao visitante de Bosque Profundo que chegará em breve.

— Por favor – disse Lyonel – Apenas me tirem daqui ou acabarei morrendo... – o Meistre lhe olhou com alguma pena antes que o carcereiro viesse retira-lo dali. Foi quando a porta fechou-se com estrondo. Lyonel piscou quando a luz desapareceu, baixou a cabeça até o peito e enrolou-se com os braços contra os joelhos.

Já não era capaz de distinguir a diferença entre estar acordado e estar dormindo. A lembrança caiu sobre ele na escuridão, tão viva como um sonho. Era novamente primavera, e ele tinha de novo seus oito anos e descera as trilhas da floresta de Hornwood ao lado de seus amigos a cavalo. Aprofundando-se entre a imensidão das árvores. Via o profundo verde das clareiras e cheirava o pólen no vento e o cantar dos pássaros. Todos tinham vindo comemorar o nascimento de Elenya, as atenções estavam voltadas para a nova bebê que a família tinha recebido pela graça dos deuses antigos.

Dias ensolarados, noites frescas e o gosto doce da liberdade que tinha ao estar ao lado de outras crianças da sua idade. Lembra-se dos risos e gargalhadas bem as discussões quando um deles insistia em discutir sobre algum assunto trivial qualquer, talvez tenha sido Harald ou Harrion que propuseram a brincadeira chamada caçador e caça. Que consistia em esconder-se enquanto os outros vinham procurar, se a caça conseguisse escapar era a vencedora.

Quando chegara a vez de ser ele a caça já sabia o lugar que se esconderia enquanto procuravam por si. Porém, não esperava tombar-se de frente com aqueles homens estranhos que estavam esfolando coelhos quando o encontraram. Estavam vestidos com peles pesadas e eram cabeludos e com barbadas compridas mal alinhadas além de federem bastante. Não precisou esforçar-se para compreender que se tratava de selvagens.

Quando dera por si tinha sido agarrado e recebido uma pancada na cabeça, depois fora carregado e levado até outro lugar ao lado de outras crianças em uma jaula de madeira. Os homens passavam o dia andando ou caçando, mesmo atacando camponeses e desavisados e roubando deles o que possuíssem.

As crianças só tinham suas atenções à noite antes de dormir quando vinham escolher um dentre eles para serem usados naquela noite maldita. Lyonel achou que morreria quando foi escolhido e desejou morrer quando terminaram o que pareceu levar a noite inteira. Jogaram-lhe na jaula de madeira não se importando com o sangue que lhe escorria pelas coxas.

— Que os deuses me salvem – chorou Lyonel – Estou enlouquecendo. Os deuses não se dignaram a responder quando peço para que limpem minha mente de memorias ruins e me façam esquecer.

Cada vez que o carcereiro lhe trazia água, dizia a si mesmo que se passara mais um dia. A princípio suplicava ao homem alguma notícia sobre o mundo fora de sua cela. As únicas respostas eram grunhidos e pontapés.

Mais tarde, quando começaram as dores de estômago foi que começou a suplicar por comida. Não fazia diferença; não era alimentado com regularidade. Mais do que uma vez ao dia não lhe era um presente. Apenas lhe davam o necessário para que não perecesse de fome, o suficiente para mantê-lo vivo.

De fora de sua cela chegou-lhe o chocalhar de correntes de ferro. Quando a porta se abriu, rangendo, Ned pôs a mão na parede úmida e empurrou-se para a luz. O clarão de um archote o fez desviar o rosto.

— Comida – falou Lyonel já esperando pelo pão e mel que lhe traziam.

— Vinho – respondeu uma voz enquanto o seu portador se aproximava com um odre em mãos. Não era o carcereiro nem o meistre, no lugar era outro que não se recordava de ter visto ainda.

Um homem em manto verde com capuz enquanto quem seguia ao seu lado reconheceu como se tratando de Gideon Glover, o castelão de Bosque Profundo. Já vira o homem em outra ocasião distinta como o festival da colheita em que todas as casas nortenhas se reuniam. O Glover manteve-se em pé segurando a tocha enquanto o encapuzado aproximou-se do prisioneiro.

— Beba o quanto quiser, rapaz... – falou o estranho que lhe enfiou um odre de vinho nas mãos do Hornwood. O rosto do homem era estranhamente familiar, mas Lyonel precisou de um momento para identificá-lo. Sua mente estava cansada, porém quando dera por si encarando o símbolo do urso negro bordado no manto de viagem soube quem era aquele homem a sua frente.

— Sor Donnel – disse Lyonel Hornwood vacilante quando o reconhecimento chegou. Tocou o rosto do homem e lhe encarou os olhos verdes profundos – Não estou sonhando, realmente está aqui... – O que faz aqui? O que desejam de mim?

— Desejo que beba seu vinho – disse Donnel Mormont – Beba um pouco, milorde. – E as mãos de Lyonel apalparam o odre até leva-lo aos lábios. Lyonel experimentou um gole.

— O que o trás até Bosque Profundo, milorde? – falou Lyonel – É o senhor que será a espada que me trará justiça em nome do seu rei? – Debochou enquanto bebia um pouco mais de vinho – Talvez, pedir que escreva ao meu pai para informar-lhe de meu paradeiro e poder negociar minha libertação. – Dera mais um longo gole — Ou quem sabe simplesmente veio ver o primeiro grande prisioneiro dessa guerra sem sentido? Bem, olhe bem para mim para que possa descrever minha miséria em detalhes.

— Eu estou seguindo para Winterfell – respondeu Donnel ignorando as palavras do rapaz loiro – E virá comigo para se apresentar diante do julgamento do rei. Longe de eu executa-lo antes de ouvir as palavras serem proferidas, sem dizer que não está em meu direito lhe tirar sua vida.

— Alegra-me saber de sua honra – disse Lyonel.

— Por mais que sirvamos a lados diferentes, jovem Lyonel. – falou Donnel Mormont — Ainda assim não lhe desejo seu mal, porém é fato que se trata de um prisioneiro bastante valioso para continuar permanecendo nessa cela.

— Nós dois concordamos em algo afinal – disse Lyonel – Não quero ser tratado como um prisioneiro, compreende? Cometi erros em minha vida, então me deem a chance de servi-los para que possa pagar por cada um deles. – Ele tomou mais vinho — Consertar tudo que fiz de errado através de minhas ações... – Isso pareceu surpreender o Urso Espadachim e o Castelão de Bosque Profundo.

— Está delirando, rapaz? – disse Gideon Glover.

— Não nesse momento – disse Lyonel – Nesse momento encontro-me são e é assim que posso permanecer caso tirem-me desse calabouço e me devolvam alguma dignidade. – Ele ajeitou-se se colocando ereto para poder encarar o filho mais novo de Lady Maege no olho a olho — Acompanharei o senhor com gosto em sua comitiva até Winterfell, milorde.

— Não é como se estivéssemos lhe dando uma opção – respondeu Gideon Glover – É nosso prisioneiro, moleque. Fazemos com você o que bem entendemos o que Donnel veio fazer é vê-lo se estava em condições de viajar.

— O que está dizendo em palavras mais simples – disse Donnel – Use-as de maneira direta e clara para que possa entender bem se é o que estou compreendendo. Faça-me acreditar no que está querendo me dizer, meu jovem.

— Quero mudar de lado – disse Lyonel – Meu pai pode não querer enxergar, porém a verdade é que a Casa Bolton não merece reinar sobre o Norte. Eles destruiriam tudo o que foi construído até então e eu estou disposto a mudar toda a situação.

— Tratarei de trazer a minha casa para junto de seu rei, ao menos irei tentar convencer meu pai de que é o melhor a ser feito. Eu estou disposto a dobrar meu joelho e depositar minha espada diante de Brandon Stark. – continuou Lyonel.

— Quer mesmo que acreditemos que será tão fácil assim convencer Harrold Hornwood a converter-se para nosso lado? — Questionou Donnel.

— Não, tenho certeza de que não será — disse Lyonel — Mas devo tentar ao menos. Mas saibam que mesmo que o restante deles não jure lealdade, saibam que eu o farei. Não está em meu poder declarar minha casa como uma aliada ao trono de inverno enquanto meu pai viver, porém sou capaz de jurar minha espada a favor do Rei Lobo.

— Lutaria contra sua familia? — disse Donnel Mormont parecendo suspeitar das intenções do rapaz — Por que?

— Porque um filho não vive a sombra do pai — disse Lyonel — Porque nós caminhamos nosso próprio caminho sozinhos e são nossas atitudes no presente que ecoam em nosso destino no futuro. E também espero que com a vitória do lado de Brandon, minha família seja poupada das consequências que essa guerra trará a todos.

...

Mata dos Lobos

A Mata dos Lobos parecia não ter fim. Ashley Mormont conhecia os mapas tão bem como qualquer outra pessoa que havia estudado a geografia nortenha. Mas os planos de uma quinzena na trilha irregular que naquela região se passava pela estrada incutira profundamente nela a lição de que o mapa era uma coisa, mas o terreno por sua vez era outra bem diferente.

Tinham partido da Ilha dos Ursos no mesmo dia que a carta de Winterfell chegara avisando sobre o ferimento de batalha que Brianna conseguira ao cruzar com soldados da Casa Hornwood.

No meio de toda a agitação da partida acabaram por não perceber clandestinos no barco, Robert e Rickard, os filhos gêmeos mais novos de Donnel Mormont, tinham infiltrado escondidos a fim de acompanhar o pai e irmã nessa viagem. Quando encontrara ambos escondidos em meio aos mantimentos foi que Donnel estressou-se ao perceber a quebra do pedido que o homem havia feito aos dois.

— O lema de nossa casa é Aqui Permanecemos – falou Donnel – Fora dita aos Reis do Inverno pelo nosso antepassado quando recebemos o Senhorio da Ilha dos Ursos. Desde então sempre tem que haver um Mormont em nosso lar ancestral.

— Queremos saber como está nossa irmã – respondeu Rickard – Nos preocupamos com Brianna também, nos deixe acompanha-lo em sua viagem pai. Nós queremos estar ao lado dela... – O olhar do Urso Espadachim parecia repleto de duvidas, mas por fim manteve-se firme em suas palavras.

— Logo terão noticias de Brianna – disse Donnel – Eu prometo que enviarei um corvo dizendo o estado de sua irmã – Então abraçou a ambos os filhos – Logo estaremos todos juntos em casa novamente. Eu trarei Brianna em segurança para a Ilha dos Ursos não se preocupem. Até lá, cuidem de nosso lar e honrem nosso lema.

— Está zangado com a gente, pai? – perguntou Robert.

— Não, Robb. – disse Donnel – Eu deveria, mas não estou apenas estou desapontado. Vocês me desobedeceram quando se esconderam no barco. Pergunto-me se sou um pai tão ruim assim para nenhum dos meus filhos me obedecer.

— Eu lhe obedeço – respondeu Ashley sorrindo – Estes dois deixam se levar muito por influencia da Brianna. Não é sua culpa que eles estejam crescendo tão rebeldes assim... – Ambos os gemeos lhe encararam com um olhar sério.

— Chega – falou Donnel erguendo sua voz e chamando a atenção dos três filhos – Não aceitarei que meus filhos briguem na minha frente. Não preciso estar mais estressado do que já me encontro por saber que minha primogênita encontrasse ferida e está longe de mim.

— O navio já se foi – falou Robert astutamente – Não pode nos deixar aqui no ancoradouro – Ele parecia bastante animado com a observação que havia feito – Então terá de nos deixar acompanha-lo nessa viagem, pai.

— Não conte que será tão fácil assim, Robb. – disse Donnel sorrindo para o garoto – Nós iremos dar uma passada em um lugar antes de irmos para Winterfell e de lá, os dois seguirão de navio para casa. — Fora o que levara uma parada forçada em Bosque Profundo para deixar os rapazes com a missão de envia-los de volta para a Ilha dos Ursos.

Durante o tempo em que passaram naqueles domínios foi que foram informados pelo castelão de Bosque Profundo, Gideon Glover, de que havia um prisioneiro nas masmorras que talvez Donnel Mormont gostasse de dar uma olhada antes de partir. Foi assim que seu pai conhecera Lyonel Hornwood, o herdeiro de uma das casas aliadas aos Bolton. O provável responsável pelo ataque contra Brianna.

Não soube ao certo o que tinha sido dito na conversa entre o rapaz e o seu pai naquela cela, apenas que fora o suficiente para fazer com que Lyonel os acompanhasse em viagem quando partiram de Bosque Profundo. Haviam cruzado os portões da vila que circulava o monte em que se encontrava o castelo ancestral dos Glover, sua comitiva estava animada com o presente que seria dado ao Rei do Inverno que era aquele prisioneiro tão valioso.

Haviam saindo ao som dos gritos dos homens e do resfolegar dos cavalos, entre a algazarra das carroças e os gemidos da enorme gaiola de ferro que prendia Lyonel como um animal feroz que não era. Todos seguiam pela estrada enquanto uma neve ligeira caía ao redor.

Depois disso ficou mais frio, e muito mais silencioso.

Ao nordeste da trilha estendiam-se colinas de sílex, cinzentas e escarpadas, com altas torres de vigia erguidas em seus cumes rochosos. Provavelmente alguma ideia feita por um Rei do Inverno anteriormente, para assim garantir que a Mata dos Lobos permaneceria sobre a vigia de valorosos nortenhos.

Para leste o terreno era mais baixo, achatando-se até se transformar numa floresta ondulada que se estendia até onde a vista alcançava. Um mar de carvalhos e paus-ferros, pinheiros e olmos e mais árvores que desconhecia. Pontes de pedra transpunham rios rápidos e estreitos, e pequenas aldeias espalhavam-se em anéis em torno de castros com fortificações de madeira e pedra.

A estrada tinha algum tráfego de plebeus comuns em suas carroças ou montarias. Cada qual costumava saudar Donnel e os outros ao encararem os estandartes verdes com o urso negro. E a noite, para seu conforto, podiam-se encontrar rudes estalagens.

Mas após três dias de viagem de Bosque Profundo para Winterfell, as terras ainda povoadas deram lugar à densa floresta, e a trilha que cortava a floresta transformou-se num lugar solitário. As colinas tornavam-se mais altas e selvagens a cada milha, até se transformarem em montanhas pelo quinto dia no horizonte. Montes gigantes frios, azul-acinzentados com promontórios irregulares e neve sobre os ombros. Quando o vento soprava do norte, longas plumas de cristais de gelo voavam dos picos mais altos como se fossem estandartes.

Com as montanhas fazendo às vezes de moldura para a floresta ao oeste. A estrada seguia para leste então se desviava para sudeste através da floresta, uma mistura de carvalhos com sempre-verdes e árvores de pau-ferro frondosas, o sol parecia ter desaparecido em meio a floresta que parecia mais antiga e sombria que qualquer outra que Ashley tivesse visto na Ilha dos Ursos.

Mata de lobos, chamavam-lhe desde sempre. E de fato havia lobos naquele lugar como pode constar nas noites do grupo que eram animadas com os uivos de alcateias distantes e de outras não tanto assim. Os cães de caça cedidos pelo Castelão de Bosque Profundo acabavam por erguer as orelhas ao ouvir os uivos noturnos, alguns se agitavam, porém nenhum deles nunca levantava a própria voz em resposta.

Para Ashley, havia uma mão dos deuses para que aqueles animais não uivassem e atraíssem os lobos até eles. Já estava tendo problemas o suficiente para conseguir dormir em um lugar tão estranho quanto aquele e ter animais uivando o ladrando no acampamento não tornaria a experiência mais agradável. Porém, sabia que não entendia muito de animais para saber como se comportavam. Talvez os perdigueiros estivessem tão assustados quanto ela própria.

Àquela altura da viagem deu-se conta de quanto seu grupo era pequeno, era composto por dezoito membros, sem contar os cavalos e cães. Ashley viajava cercada por dois de seus homens, como era próprio a uma donzela nunca ser deixada sozinha.

Donnel Mormont tinha apenas nove guardas ao seu comando que seguiam em frente da comitiva ao seu lado e protegendo as carroças com os suprimentos de viagem. Mas havia o carroceiro que seguia transportando o prisioneiro. Até que a carroça que transportava a gaiola prendera a roda em um buraco e tombara para o lado, sem alternativa foi que retiraram o fidalgo prisioneiro e agora o arrastavam amarrado pelos pulsos ao longo da trilha.

Lyonel Hornwood deveria ser um homem bonito quando estivesse em melhores condições e roupas mais limpas, um rosto livre da barba e os cabelos não estando tão seboso quanto se encontravam. Mas mesmo com a aparência miserável era que o prisioneiro acorrentado ainda demonstrava sua dignidade intacta como um perfeito nobre.

Lyonel tinha uma voz fria e um temperamento calmo e mal educado pelo pouco que havia visto. Ele raramente conversa ou demonstra vontade de falar com alguém, preferindo ficar sozinho e quando engaiolado era comum vê-lo dormindo e acordando de seus pesadelos. Perguntava o que poderia estar atormentando-o e tirando seu sossego, quando acordado o prisioneiro ficava encarando para o vazio através das grades.

Ele dificilmente demonstrava surpresa ou alguma emoção sobre algo, tanto é que quando a gaiola tombara para o lado junto da carroça fora que o escutara rindo debochado no lugar de assustar-se. Ele quase não conversava com ninguém da comitiva, mas quando o faz é que se vê na necessidade de falar com alguém sempre trata a pessoa com o máximo de desdém o possível.

Uma atitude burra, no conceito de Ashley que imaginava que se continuasse agindo com um ar superior, seria bem capaz de que Lyonel não chegasse com vida em Winterfell. Alguns guardas poderiam acabar cansando-se de suas ironias e sarcasmos.

Quatro homens de Bosque Profundo, treze cavaleiros em suas montarias vindos da Ilha dos Ursos. Uma matilha com sete cães de caça. Uma filha acompanhando o pai e um prisioneiro acorrentado pelos pulsos e puxado por um dos homens montado.

Havia ainda seis cavalos puxando três carroças e uma gaiola com corvos oferecidos a seu pai pelo meistre de Bosque Profundo. Para o caso de precisarem de ajuda durante sua viagem, não que fosse ser preciso usar os pássaros negros ao menos a garota esperava que não. Sem dúvida que constituíam um grupo incomum, para a trilha que havia na Mata dos Lobos ou para qualquer outra.

Ashley reparou que Lyonel Hornwood observava Donnel Mormont e seus carrancudos companheiros de montaria com uma estranha expressão no rosto, que se parecia desconfortavelmente com desalento. Ou talvez fosse os pés doendo que o estivessem incomodando.

Lyonel tinha um ombro ferido e um cheiro fétido escapava da atadura que lhe cobria, os cabelos e a barba eram loiros e certamente encontravam-se cheios de piolhos, o vestuário era velho, remendado e raramente devia ter sido lavado. Era uma túnica que havia lhe dado em sua prisão quando removeram dele as vestes caras com que havia sido encontrado.

Não havia dúvida de que o rapaz cometera o erro de pensar que seria capaz de atacar o príncipe herdeiro. Se assim pensou, tudo que lhe acontecera naquele pouco tempo lhe constituíam um brusco despertar de suas capacidades reais.

Ashley sentiu pena do rapaz. Tomara uma decisão dura e arriscada ou talvez fosse mais correto dizer que alguém tinha feito essa escolha para ele e não tivera outra chance se não realiza-la. Mesmo Lyonel não teria deixado Hornwood apenas por capricho próprio, provavelmente alguém o havia ordenado que o fizesse e o envolvido em toda aquela tramoia.

Lyonel tinha pouca simpatia pelo pai dela. Donnel Mormont parecia ter começado a partilhar do desagrado dos Karstarks pelo Hornwood e não ficara contente quando o rapaz lhe declarara suas intenções em dobrar o joelho frente ao Rei do Inverno. Parte do Urso Espadachim certamente encarava aquilo como uma mentira e esperava que o rapaz loiro tentasse qualquer plano de fuga.

— Previno-lhe, Hornwood e que não irá encontrar sucesso caso planeje trair o rei nem há garantias de que Brandon acredite em suas palavras – disse Donnel Mormont encarando-o sobre o ombro. O olhando de cima de toda a sua altura que um homem montado a cavalo possuia – Mas mesmo assim caso queira tenho certeza de que encontrará boas acomodações nas masmorras de Winterfell.

— Não duvido de que encontrarei alguma maneira de provar que minhas palavras sejam verdadeiras para ti, milorde. – respondeu Lyonel Hornwood – Como talvez tenha notado, sou um homem que não irá a lugar algum. Não com o ombro ferido e com estas correntes me prendendo.

— Caso me perca creio que será difícil de explicar ao rei como conseguiu tal feito... – continuou Lyonel Hornwood — Mas não preocupasse que eu não iria a lugar nenhum mesmo que com as mãos soltas e uma espada na mão. Eu me provaria um homem mais útil para você como um companheiro de viagem do que um prisioneiro, mas claro que Mormont não são conhecidos por serem homens capazes de confiar em alguém.

Não se duvidava das palavras de um nobre. Mas claro que isso pusera um ponto final no assunto, mas seu pai não ficara feliz.

— Não vai gostar da viagem até Winterfell e estar diante dos outros lordes. Diante dos Karstarks... – Disse Donnel seriamente — Disso lhe asseguro. E que minha filha não tenha perecido por conta da ferida proferida por um dos seus soldados porque caso o contrário eu mesmo farei o meu julgamento a você por seus crimes, Hornwood. – Finalizara de modo conciso, e desde o momento do partiram do acampamento foi que fizera tudo que pôde para cumprir a promessa.

Pelo fim da primeira semana, as coxas de Ashley estavam em carne viva devido à dura cavalgada, a Ilha dos Ursos geralmente não era um terreno muito propicio para cavalgar sem necessidade por conta dessa razão que não o fazia com muita frequência. Ainda mais quando a lembrança da morte da mãe lhe assombrava às vezes quando vinha em sua mente.

Lady Myra Mormont, falecida após a queda de seu cavalo. A mãe de Ashley encontrava-se grávida, segundo contavam seguia para os últimos meses de gestação quando foi arremessada da cela e bateu a cabeça contra uma pedra. A causa fora por conta de o animal quebrar uma das patas devido a uma ferradura mal colocada.

Brianna tinha pegado algum trauma de cavalos depois daquilo por conta de estar junto da mãe no momento do acidente. Mas Ashley e os irmãos ainda cavalgavam, porém Ashley costumava evitar fazê-lo na Ilha dos Ursos apenas em suas raras visitas ao continente. Naquele momento estava tão cansada quanto nunca sentiu enquanto seguia na cavalgada.

Suas pernas ardiam de cãibras e sentia-se congelando até os ossos. Não se queixou. Maldita fosse se desse ao pai essa satisfação, afinal Donnel tinha perguntado se a filha se não queria retornar com os irmãos. A verdade é que Ashley tinha se arrependido de ter negado a proposta.

Ela queria estar em Winterfell para o encontro com a irmã. Para quando Donnel fosse broquear com a sua primogênita sobre sua ação estúpida e as consequências que obtivera por não obedece-lo. E Ashley não perderia a oportunidade em ver a mais velha recebendo um sermão, fora a oportunidade de ela mesma dizer algumas boas palavras para Brianna que estava tentada a dizer desde que as noticias do desaparecimento tinham lhe chegado aos ouvidos. E uma parte sua que ainda gostava da irmã, queria saber se ela estava bem.

Ao partir do Solar dos Ursos, trouxera consigo suas roupas mais quentes e logo descobriu que não eram nem de longe suficientes para a Mata dos Lobos. Ali na floresta fazia frio e estava esfriando ainda mais conforme as horas do dia avançavam. De noite, a temperatura caía bem abaixo do ponto de congelamento e quando o vento soprava era como uma faca a transpassar suas lãs mais quentes.

As chácaras e os castros eram cada vez mais escassos e menores à medida que prosseguiam para o leste, penetrando cada vez mais profundamente na escuridão da Mata de Lobos. Até que finalmente deixou de haver tetos onde pudessem se abrigar e foram atirados para a necessidade de se valerem de seus próprios recursos.

Lyonel tremia encolhido contra as raízes de uma árvore onde o tinham amarrado. Ashley sabia que talvez se arrependesse na manhã seguinte, porém aproximou-se do rapaz e lhe cobriu com um esfarrapado manto de pele de urso. Seu pai ao ver o ato nada dissera apenas a encarou, antes de dizê-la para seguir para debaixo da tenda que tinham armado.

Na manhã seguinte, o Hornwood ainda mantinha o manto que tinha sido agraciado durante a noite fria. O prisioneiro o havia envolvido ao redor dele inclusive lhe cobrindo a cabeça como um capuz. Um acréscimo a mais de trapo para seu visual de andarilho.

Ashley nunca fora de grande utilidade para montar ou desmontar um acampamento. Pequena demais, jovem demais, uma garota que estava sempre no caminho dos demais. E assim, enquanto seu pai e os outros erguiam abrigos rústicos, tratavam dos cavalos e faziam uma fogueira decente para manter os animais da floresta afastados, foi que se tornou seu hábito pegar um cobertor de pele quente e um odre de vinho e afastar-se um pouco para ficar sozinha para ler.

Na décima noite da viagem, o vinho era um doce da Árvore. Seu pai trouxera consigo ao longo de toda a viagem para Winterfell a fim de beber um pouco antes de dormir, não era um homem de vícios por conta dessa maneira não o bebia em excesso por mais que sua mente precisasse se acalmar. Ashley fora permitida a beber desde o último dia de seu nome, quando sua avó havia feito um brinde a ela por finalmente ter florescido como uma bela mulher.

Seu pai dizia que uma boa mulher não deveria beber mais do que seu marido, por conta desse fato que por mais que apreciasse o cheiro e o gosto de vinho que tentava não se tornar uma dependente da bebida. Era muito jovem para tornar-se uma bêbada.

E o livro, este estava praticamente devorando nos últimos dias. Chamava-se Lann, o esperto e outros Contos da Era dos Heróis. Recolhera alguns livros de sua estima os empacotara para a viagem até Winterfell.

Encontrou um lugar confortável longe do ruído do acampamento, ao lado de um córrego rápido cujas águas eram transparentes e frias como o gelo. Um carvalho grotescamente antigo a abrigava do vento cortante.

Ashley limpara a neve antes de sentar-se no lugar abaixo da copa desfolhada da árvore, enrolou-se em sua pele com as costas apoiadas no tronco. Levou o odre aos lábios e bebeu um gole de vinho e pôs-se a ler sobre a Durran e Elenei.

De acordo com a lenda, na Era dos Heróis, o primeiro Rei da Tempestade, Durran, conseguiu o amor de Elenei, ta filha do Deus do Mar e Deusa dos Ventos. Seus pais divinos proibiram seu amor, mas Durran e Elenei se casaram mesmo a contragosto deles.

A ira dos deuses foi terrível, destruindo a fortaleza de Durran na noite do casamento, matando toda a sua família e os convidados. Enraivecido, Durran declarou guerra aos deuses, desafiando sua vontade repetidas vezes.

Cada vez que o rei Durran construía um castelo para enfrentar o mar, os deuses vinham e destruíam. O rei Durran persistiu construindo mais e mais poderosas fortificações até que, finalmente, o sétimo castelo resistiu as tempestades na Baía dos Naufrágios.

Muitos acreditam que este castelo que resistiu, que viria a ser conhecido como Ponta Tempestade, só permaneceu, pois foi construído com a ajuda das crianças da floresta. Outros dizem que um jovem, que mais tarde viria a ser conhecido como Bran, o Construtor, auxiliou Durran na construção. A realidade ainda é desconhecida.

— Então, a garota gosta de ler – disse uma voz familiar – É o que tenho notado nesses últimos dias que quando não está com seu pai costuma estar com o nariz enfiado nos livros. Por que lê tanto, milady?

Ashley ergueu os olhos ao ouvir aquela voz. Lyonel Hornwood estava a alguns pés de distância, olhando-o com apenas algum mínimo de realidade. Estava amarrado em uma árvore com alguns cães de caça ao seu lado. Um dos cachorros inclusive tinha deitado em seu colo e agora o rapaz fazia algum carinho na cabeça do animal. Ashley fechou o livro sobre um dedo e disse:

— Uma dama não pode ter gostos para a leitura? – questionou Ashley.

— Não as que eu conheço ao menos. – disse Lyonel – Poucas as damas nortenhas que conheci têm algum interesse em ter algum conteúdo em suas cabeças por estarem mais preocupadas em coisas fúteis.

— Que tipo de práticas chama de fúteis? — questionou Ashley.

— Os mesmos de sempre, bordados e culinária, em casos até compreensiveis afinal faz parte da educação formal. Mas moda, flertes casuais e fofocas tolas que se espalham pelo castelo... Futilidades apenas. — disse Lyonel então apressando-se em corrigir-se — Não são todas é fato, algumas tem interesse por música ou artes, minha irmã tem interesse para arco e flecha e caçadas com meu pai. Mas dificilmente veria qualquer uma delas lendo.

— Talvez eu não seja como a maioria das moças que está acostumado a conviver – respondeu Ashley retomando a abrir o livro – A maioria dos homens que conheço também não aprecia muito ler. Alguns, inclusive, eu tenho alguma duvida de ao menos sabem juntar as letras para formarem palavras. — ela rira do seu próprio comentário — Tem o costume de ler, milorde?

— Sim, aprecio muito a leitura – disse Lyonel – Um leitor vive mil vidas antes de morrer, o homem que nunca lê vive apenas uma. – A garota a olhou com algum interesse após essa frase que era claramente a citação de algum livro que já havia lido, só tentava lembrar-se de qual deles seria.

— Sim, sem falar que instrução é algo que não pode ser perdido apenas compartilhado – disse Ashley – Conhecimento é poder. Uma mulher bem instruída é um achado raro, porém por vezes pouco valorizado por algum homem. — O rapaz observou-o com suspeita que incomodou a loira – Algum problema?

— Um homem teme aquilo que desconhece — disse Lyonel — Aquilo que é melhor do que ele ou maior para sua compreensão. Um homem fraco não sabe reconhecer que uma mulher pode estar igualmente consigo no mesmo nível de conhecimento ou relevância dentro de uma casa.

— Belas palavras — respondeu Ashley — Até quase esqueço que chamou o aprendizado doméstico de uma mulher serem coisas fúteis. Quando vocês homens veem caçadas, torneios e bebedeiras como diversão. Atitudes brutas que servem apenas para provarem suas virilidades.

— Desculpe-me por dizer, milady. Mas se crê que um homem prova sua virilidade nesses atos talvez não tenha conhecido homens como deveria — disse Lyonel — Não falo por mim, mas homens tendem a ocupar-se com aquilo que costumam fazer de melhor.

— E o que você faz de melhor, milorde? — questionou Ashley — Aparentemente, não emboscadas a principes — completou então o vendo encara-la por alguns instantes.

— Eu sou bom em pensar — disse Lyonel — Em idealizar coisas e coloca-las em prática, mas por vezes meus planos não saem como deveriam e isto volta-se contra mim.

— Rio Karlon — disse Ashley — Todos se lembram de que você foi o responsável por este confronto entre as duas casas pela detenção do direito as águas que vossa pessoa tinha detido com uma barragem ilegal.

— Como já mencionei, nem todos os meus planos saem como deveriam — respondeu Lyonel — E algumas consequências imprevistas ocorrem.

— Ou talvez você não seja tão bom em pensar quanto deveria — disse Ashley — Talvez haja algo que interfere nos planos que você cria. Quem sabe o problema não seja você mesmo? — Ele ficou em silêncio enquanto ela retornava o livro na posição de leitura, esperando que a conversa estivesse terminada. Porém, não foi o que acontecera.

— Deu-me esse manto de peles que estou usando como capa – disse Lyonel – Foi você a noite passada, não é mesmo? Admita que foi. – A garota permaneceu em silêncio — Você é notavelmente gentil para uma filha do seu pai, menina. Ainda mais com um desconhecido preso em correntes. Eu vi que era você, porque ainda não tinha pegado num sono completamente. Eu poderia a ter atacado naquele momento e a machucado se fosse um preso violento. Você tem o quê? Treze anos?

— Dezesseis – disse Ashley.

— Dezesseis, uma criança ainda... – falou Lyonel – Eu tenho vinte e um sendo que ainda cometo erros piores. Sempre me julguei um homem esperto pela minha mente, sou bastante estudado por conta das horas do dia que me dedico aos livros da biblioteca. A biblioteca da Ilha dos Ursos é boa? Extensa? Com grandes variedades? Duvido muito, são um pedaço de terra cercado por água, dificilmente as coisas chegam até vocês sem mencionar que sua família não possui tantos bens econômicos afinal o domínio territorial que possuem é limitado.

— Está insultando minha casa ou eu não compreendi bem? — falou Ashley ao que o loiro fez um sinal com a mão para que aguardasse e o permitisse continuar.

— Como eu ia dizendo, leio bastante em meu tempo livre e me aperfeiçoo como posso aqui — disse Lyonel apontando para a cabeça — Mas eu continuo sendo um tolo em pensar que estou livre de falhas e erros. Não sou um bom homem em batalhas, não quando estou sobre uma pressão e com a mente em outro lugar. Eu tenho projetos melhores do que participar de guerras e batalhas fúteis por um rei que não merece... A guerra é uma praga que destrói vidas e não leva a lugar algum.

— Mas ainda assim, aqui estou eu prisioneiro de guerra sendo levado para meu julgamento onde tentarei convencer ao seu rei de que posso ser um homem de confiança. Falhei em meu plano que teria sido perfeito se não fosse pela intervenção de alguém inesperado. Minhas intenções, porém eram nobres... – continuou Lyonel — Pergunto-me se ele acreditara em mim ou irá entregar minha cabeça aos Karstarks. Os deuses se existirem sabem que eu mereceria perecer pelas mãos de um deles. Seria justiça divina, por mais que eu não esteja feliz em encontrar isso como o meu fim.

— Eu sempre me orgulhei dos meus projetos – continuou Lyonel – Projetos agrários, de plantio e colheita. Da minha barragem com o meu sistema de irrigação ou do meu moinho movido água. Dos meus projetos de torres de vigia, meus navios por mais que não detenhamos terras no litoral. Mesmo um castelo, um sonho que iniciei em um projeto... Ainda detenho os meus rascunhos desenhados em carvão. – Ele sorriu — Reformas na fortaleza de minha família. Sou um homem esperto a minha maneira, conheço de esgrima como ninguém, mas isso não faz de mim um cavaleiro ou comandante em batalha como seu pai.

— Eu provavelmente não irei querer mais guerra na minha vida depois desta, espero eu que seja a última, caso o contrário creio que terei de aprender mais. – continuou Lyonel- E mudar minhas leituras para algo menos inofensivo e mais letal.

— Por que está dizendo isso? – falou Ashley – Por que está me dizendo essas coisas?

— Eu estou cansado de silêncio – disse Lyonel parecendo cansado – Às vezes um homem não pode ficar trancafiado em sua pobre mente sem abalar sua sanidade. Sem falar que caso eu morra quero que alguém saiba coisas ao meu respeito. Que eu não era só um homem que fracassa e traz sofrimento com tudo que faz.

— Não somos amigos – disse Ashley – Deveria contar essas coisas para alguém que se importe em ouvi-las – completou antes de erguer o livro para tampar a visão do prisioneiro a sua frente.

— Você também é diferente do restante de sua família – falou Lyonel –Mulheres Mormont são conhecidas por serem grandalhonas e brutas, lutam como homens e fodem com ursos na floresta. — a loira encarou-o enraivecida -Ao menos é que se dizem nas festas que ocorrem em Forte Pavor. Nunca acreditei nessas palavras, antes que pergunte.

— Detesto essa maneira que nos colocam todas como se fosse da mesma maneira – disse Ashley – Eu sou uma Mormont, mas não sou como o restante da minha família. Nunca serei uma espadachim como minha avó ou lutarei guerras como ela. Nunca empunharei uma lança como minha irmã. Ou mesmo terei grandes casamentos afinal, quem iria me querer? Não sou a mais bela quando comparada as minhas primas ou mesmo a minha irmã. Meu dote não é bom o bastante para muitas boas casas nortenhas. Porque não sou uma esposa valorosa que vá conseguir um bom casamento com algum grande lorde ou herdeiro, afinal quem iria querer casar-se com a segunda filha de um segundo filho?

— Meu pai foi um dos maiores cavaleiros e espadachins durante os seus vinte anos. – disse Ashley — Aconteceu que, mais tarde, minha mãe pereceria e ele teria de deixar de viajar em busca de aventuras e pendurar a espada a fim de criar a mim e meus irmãos, mas a vida está cheia dessas pequenas ironias. A mim faltam muitas coisas, milorde. Falta-me uma mãe, falta-me beleza, falta-me ser lembrada como alguém importante ou mesmo notada e que as pessoas vejam que eu exista.

— Minha irmã mesmo com o jeito selvagem dela é mais capaz de acabar melhor nessa vida do que eu. Mas essa triste realidade me abala? Não, mesmo que quisesse me entregar não posso. – continuou Ashley – Não sou a mais importante das ursas, não nasci para ser uma guerreira com um machado de guerra em mãos. Não nasci dessa maneira, porém ainda assim sou uma Mormont mesmo com todas as minhas diferenças. E devo cumprir minha parte pela honra da minha Casa, não concorda? Mas como? Bem, posso não ter nascido para uma disputa ou luta corporal, sou razoavelmente bem com um arco e flecha, porém nada letal e nem gostaria. Porque meu trunfo é minha mente.

— Possuo um entendimento realista das minhas forças e fraquezas. Todo o homem deveria gostar de ter uma mulher como eu que pense e não ir apenas por questões de beleza. Eu sei que sou capaz de cuidar de um castelo e de ajudar meu esposo governar. Sou instruída, as pessoas deveriam valorizar bem mais isso do que o exterior de uma mulher. – falou Ashley deu uma palmada na capa de couro do livro. – É por isso que leio tanto, Lyonel. Quero ter conhecimento porque é isto que me fará ter poder sobre meu marido por mais tolo que seja. Pode ser um cavaleiro sem qualquer direito de herdar algo, mas eu sei que se souber o suficiente posso fazê-lo tornar-se alguém.

O rapaz absorveu tudo aquilo em silêncio. Possuía o rosto bonito mesmo que naquele momento estivesse barbudo, era um Hornwood muito semelhante ao pai, nas poucas vezes em que a garota tinha encontrado com Lorde Harrold em eventos formais. Lyonel tinha um rosto comprido e solene, tinha um ar reservado e um olhar que nada revelava.

— E está lendo sobre o quê? – terminou Lyonel por dizer.

— Contos sobre a Era dos Heróis – disse Ashley e ela ergueu a capa do livro para que ele pudesse vê-la – Preciso de algo leve para distrair-me de toda essa ideia de guerra acontecendo. Tudo pelo que temos passado.

— Poderia ler para mim? – pediu Lyonel – Leia em voz alta para que possa escutar.

— O que gostaria que eu lesse? – perguntou Ashley – Qual dos contos?

— Bran, o Construtor – respondeu Lyonel e a garota deve ter lhe lançado um olhar de surpresa já que este rira – Eu gosto da historia, sobre como construiu a Muralha. Sempre foi uma das minhas favoritas.

— Nem poderia imaginar – falou Ashley então folheando até encontrar o conto e começar a lê-lo — Bran, o Construtor era...

— Há algumas coisas sobre mim que você nunca poderia imaginar, milady — respondeu Lyonel e Ashley sorriu enquanto continuava sua leitura. Tentando ignorar o sorriso que o herdeiro de Hornwood lhe lançara.

Notas finais
Aquele capitulo dedicado ao desenvolvimento dos personagens que foram pouco explorados até então. Adorei escreve-lo. (E a continuação do Lyonel o que o destino lhe reserva). Lyonel e Ashley (?) Até mais. Deixem seus comentários aqui embaixo.