North War – Interativa
35 Capitulo 34
Notas iniciais
Bosque Profundo
A palha no chão fedia a urina. O pior de tudo é que não era nem mesmo a sua própria porque já estava com aquele fedor quando fora jogado ali. A cela era um cubículo escuro com apenas a luz proveniente dos archotes do corredor lançando a claridade para que não encontrasse no breu total. Por mais que não houvesse muito que haver. Acreditem, Lyonel tentara assim que tivera forças para erguesse tatear em busca de algum sinal, porém tudo que encontrou foram paredes lisas de pedra.
Não havia janela, nem cama decente, se é que podia chamar-se o amontoado de palha fedorenta por esse nome, já que o herdeiro de Hornwood preferia dormir no chão a deitar-se ali e arriscar-se a pegar pulgas ou piolhos. Se já não tivesse pegado só de estar naquele lugar, não duvidava muito.
O lugar era tão precário que mesmo um balde para os dejetos não era retirado diariamente. Lyonel nunca pensara que se tornaria tão intimo de suas próprias necessidades fisiológicas que vinham ser trocadas apenas a cada dois dias.
O lugar era escuro, porém lembrava-se de paredes de pedra vermelho-clara. As pedras eram respingadas com manchas de mofo por conta da umidade do lugar. Vira tudo quando fora arremessado ali quando o pegaram.
Havia uma porta cinza de madeira rustica e grosseira, com dez centímetros de espessura e reforçada com ferro. Vira esses detalhes num rápido relance enquanto o atiravam como um saco de batatas e atavam seu pé com um grilhão e corrente preso a uma coluna no centro do quarto. Um reforço ao teto, provavelmente. Bastante instável, podia notar quando chutara a coluna e ela estremeceu fazendo com que poeira caísse sobre si.
Seus olhos ardiam pela ausência de luz. Como depois de a porta ser fechada com estrondo, nada mais era possível de se ver além da luz que entrava pela fresta da porta.. A escuridão era quase totalmente absoluta. Era como se estivesse cego e estava apavorado.
Preso novamente, feito prisioneiro mais uma vez. Porém agora estava sozinho e sua cela tinha se tornado ainda mais perturbadora. Não, não era mais perturbadora nada poderia ser mais perturbador do que o que acontecera a dez anos.
Seu corpo estremecia com o pensamento, ou talvez fosse o leite de papoula fazendo efeito e não ter sido o suficiente para fazê-lo adormecer. Não sentia mais dor, porém ainda assim sua mente pensava em como aquelas paredes pareciam fechar cada vez mais e ele via seu coração acelerando em pânico quando sua garganta parecia fechar-se pela ausência de ar.
— Ah, Rowena – resmungou Lyonel enquanto a mão apalpava uma parede fria de pedra, com a o braço latejando a cada movimento. — Você morrerá e serei eu a brandir a espada contra você. Da próxima vez, eu não irei vacilar.
Recordou a brincadeira dela no bosque sagrado de Hornwood, esperava que a garota tenha se divertido com ele porque naquele momento tudo parecia um jogo cruel.
Ela confiara mesmo nele ou só queria tira-lo de seu caminho? Depositara tanta confiança em alguém que desconhecia e pelo que? Para que? Os fios dela tinham se prendido nele como uma marionete. Ele tinha se feito prender, aceitara isso em busca de uma maneira de conseguir libertar-se. Porém, tudo veio por terra quando quem aparecera primeiro fora aquele estúpido cavaleiro de Karhold.
Como ele rira em seu azar daquele infortúnio dos deuses. Por que achou que daria certo? Simplesmente tratar com o príncipe e contar-lhe o plano, fazer dele um aliado em pacto secreto para derrubar a Casa Bolton? Mas enganara-se, fora descuidado e atraiu a atenção de alguém indesejado. Sentira a flecha do príncipe contra seu ombro no lugar do aperto de mão para selar o acordo. Morto por um quase aliado, por que parecia mostrar-se uma praga dos deuses? Será que sentem tanta a falta das suas orações para vir a testa-lo ou sentencia-lo a penitencias?
Talvez se tivesse tentando manter-se diplomático, quem sabe teria sido a melhor maneira de consegui algo. Mas sujara a espada de sangue no lugar de mantê-la embainhada, mas o que poderia fazer a não ser lutar contra Tyr Karstark e garantir que continuaria com a sua própria vida intacta. Bem, não tão intacta, afinal era só recordar-se do sangue perdido e da febre que viera logo depois. Então viera a traição.
Estava semiconsciente quando ouviu seus homens ao redor da fogueira conversando a respeito do que fariam com o nobre, alguns sugeriram poupa-lo de uma morte lenta e darem um fim nele enquanto outros sugeriram vende-lo aos lobos de Winterfell em troca de ouro.
Quase poderia reconhecer suas vozes e rostos sombrios banhados pelo fogo, mas por fim foi que todos acataram a ordem de um deles que eram para deixa-lo na floresta. E que os deuses antigos lhe garantissem uma morte rápida ou sua sobrevivência, foram as últimas palavras do bastardo antes de ser aclamado. E Lyonel sentiu o amargo lhe descendo pela garganta ao recorda-se daquela frase e de quem a proferira.
Aquilo partira de Harald Snow, o capitão da Guarda do Alce e um filho bastardo para Sor Harys Hornwood, o falecido tio de Lyonel. Traído pelo próprio sangue, estava ali algo que nunca o rapaz cogitara em sua vida por mais que sua familia e ele não fossem os mais próximos ainda assim sentia que a lealdade da linhagem sanguinea os manteriam unidos. Errara mais uma vez, o bastardo não era leal a ele e provavelmente não seria ao pai também.
Lyonel sabia que Harald Snow não gostava muito dele desde sempre. Desde que o herdeiro impediu que tomasse a força uma das criadas do castelo. Mas antes disso talvez já não fossem os mais próximos no que se dizia sobre primos, apesar de que foi ali que sentiu que foi a última gota para que o bastardo o desprezasse.
Lyonel exigira do pai alguma atitude frente ao ato da tentativa de estupro do capitão da guarda contra uma das criadas, porém Lorde Harrold Hornwood apenas punira o sobrinho tirando-lhe algumas regalias que possuía no lugar de envia-lo para a Muralha. Vestir o negro teria sido a solução, lembrava Lyonel, não estava pedindo para que o castrasse ou nada daquela maneira apenas que o tirasse de seu teto. Estupradores são mais monstruosos que assassinos, tirar a vida de um homem na guerra era algo compreensível, mas forçar uma mulher era algo deplorável.
Mas Lorde Harrold tinha prometido ao irmão antes deste perecer no combate contra os Karstarks de que cuidaria de seus meninos. O legitimo e o bastardo, Harrion e Harald. Com o bastardo não sendo tão mais velho do que o herdeiro de Hornwood na época que o pai perecera. Um homem já feito, porém e já livre para seguir seu próprio caminho, não era qualquer criança que necessitasse de proteção.
E Lyonel sabia reconhecer que o primo o odiava por conta de todo o confronto com os vizinhos de fronteira se dava por conta da interferência dele no Rio Karlon. O bastardo o odiava, mas eram família e esperava que isto valesse de alguma forma.
Errou em trazer Harald, devia tê-lo mantido no castelo porque sabia que o restante de seus homens não teria a coragem ou burrice de abandonar o filho de seu senhor para a morte certa. Sabia que não era uma pessoa fácil de agradar aos outros, mas gerar tanto rancor em alguém era algo que não estava em seu conhecimento.
Ouvira um deles, Dywen, que tentara argumentar e convencer a todos de que aquilo não era certo. Quando os ouviu socando o rapaz e o som de um corpo caindo no chão seguido de chutes foi que tentou levantar-se para impedir apenas servindo para que recebesse um golpe em sua cabeça e desabasse.
Quando acordara na manhã seguinte a fogueira já tinha sido apagada com a lenha reduzida a cinzas. Havia apenas sangue no lugar onde o guarda tinha sido espancado, mas nenhum corpo o que fez com que o rapaz loiro sentisse melhor. Vagou um tempo escorando-se nas arvores até desabar aos pés de um velho olmo.
Logo sentiu as lambidas de um dos cachorros e o nariz gelado do outro fugando em seu ferimento. Havia o trocar de um cavalo e relinchos ao fundo bem como o pisotear das folhas secas no solo da Mata dos Lobos.
Quando abriu os olhos pode notar uma moça desmontando de um cavalo de pelagem amarelada. E estava caminhando em sua direção, por um momento sua mente febril quis murmurar o nome da irmã.
Ela me achou como eu a achei daquela vez, pensou Lyonel com um sorriso bobo e delirante. Porém, ele não o pronunciou as palavras e o sorriso nem chegou a se formar por completo, porque no momento em que está tirara o capuz revelou seus cabelos castanhos escuros.
Seu nome era Lady Genna e estava caçando. Voltara com um belo e jovem alce, soltaria sarcasticamente para o meistre que viera trata-lo. E sua mente logo deduzira a que casa a jovem pertencia. Ela era uma Glover e estava certamente em Bosque Profundo. Aquele era um dos castelos mais próximos dentro da Mata dos Lobos. Com aquela família sendo leal aos Starks de Winterfell a gerações.
Bosque Profundo é um castelo antigo, mas não particularmente forte. Sua sede fica em uma colina com um topo achatado, juntamente com uma torre de vigia se levantava cinco metros a mais em altura.
Aquela torre era a estrutura mais alta desse lado das montanhas do Norte. Na parte debaixo da colina, existem cocheiras, uma forja e o curral. É defendido por uma vala seca e uma paliçada de troncos. O leste e oeste do castelo possuem campos de aveia e cevada.
Sim, ele sabia bem sobre os castelos nortenhos por conta de seus livros. Devorara assuntos referentes a construções, arquitetura e engenharia. A ideia de que homens poderiam erguer para si mesmo estruturas tão grandiosas fazia-o as vezes imaginar como desejava ser capaz de construir para si algo que durasse por gerações.
Talvez, fosse por conta disso que tivesse um fascinio pela Muralha, mesmo antes de Ron Umber salvar-lhe de seus sequestradores nas margens da Dadiva. Mesmo antes de os membros da Patrulha da Noite lhe abrigarem e o Primeiro Patrulheiro lhe cobrir com um manto negro como um pai faz a um filho.
Eu poderia ter ficado com eles, pensou Lyonel, poderia ter crescido dentro de Fortenoite ou Castelo Negro. Tomado uma vida simples para mim mesmo, lutando por algo que acredito ser o certo. Mas agora estava prisioneiro. Quem sabe fosse esse o julgamento que lhe dariam? Quando fosse colocado em frente ao rei e este determinasse que o prisioneiro de guerra deveria ir para junto dos corvos? Difícil dizer, naquele momento só enxergava a escuridão a sua frente.
Olhou ao seu redor e farejou o cheiro de umidade que partia das paredes em meio ao fedor de urina. Era quente e abafado, quase difícil de respirar por mais que os medos de Lyonel fossem a maior causa de tudo. O lugar parecia se fechar ao seu redor cada vez mais. Como mãos ao redor de uma garganta e a pressionando com força.
A masmorra ficava sob a Fortaleza dos Glover, mais fundo do que se atrevia a imaginar. Estava dentro de uma montanha e isso o fazia estremecer só com a ideia. Nunca imaginou-se debaixo da terra, porém agora o mesmo de todo aquele castelo desmoronar e ser esmagado ou então ficar sem ar por estar no centro de uma colina. Ser enterrado vivo praticamente, um medo que não tinha tomado por si mesmo até nota-lo. Seria uma jaula de onde não conseguiria sair e estava enlouquecendo ainda mais.
Maldizia-os a todos: Tyr Karstark, Harald Snow e seus homens, o príncipe Matthew, Rowena Bolton bem como seu pai, Lorde Ethan Bolton. Culpava até mesmo o Rei Brandon, que executara Royce Bolton e até aquele próprio infeliz era o culpado. O maldito que fizera uma estupidez que causara toda uma guerra desnecessária. Morrera para o rei lobo e deixara um legado de guerra. Mas, no fim das contas, culpava-se a si mesmo.
— Estúpido – gritou para a escuridão – Eu sou um estúpido. Lyonel Hornwood olhe para você agora e veja. Sou três vezes maldito, burro e estúpido. Seu grande burro... – socara a parede com seu punho fechado e encostara a cabeça na parede – Fui burro em não agir como devia.
O rosto de Rowena Bolton pareceu flutuar à sua frente na escuridão. Tinha os cabelos cheios de trevas, seus olhos brilhando em malicia e havia escárnio no sorriso, uma mulher perigosa que lhe prendera em sua teia de aranha.
— Devia tê-la matado ali — sussurrou para si mesmo. — Cortado sua garganta e visto a sangue escorrer em minhas mãos — Se referindo no encontro que ambos haviam tido lá atrás ainda no bosque sagrado, quando pressionara contra a árvore-coração e manteve sua espada embaixo da garganta dela.
Quando pensou em sua tolice e nas falhas em seu plano só fazia odiar-se ainda mais. Sua expressão de raiva poderia tê-lo feitor derramar lágrimas de fúria. E teria chorado de bom grado, mas as lágrimas não vinham. Chorar era algo que aprendera como demonstração de fraqueza, fora na época que era cativo há cerca de uma década e meia.
Seus raptores gostavam de vê-lo chorar assim como os outros meninos, chorar de medo ou de dor até soluçarem e perder a voz. Lyonel aprendeu conter-se e talvez tenha sido por isso que apanhara tanto naquela época por não deixar demonstrar fraqueza.
Bem, agora não conseguia demonstrar nada. Mesmo agora, era ainda o herdeiro de Hornwood e a dor ao lado de sua raiva tinham congelado dentro dele. Apenas sua fúria podia ser escutada dentro de si presa e enjaulada tanto quanto ele próprio.
Se se mantivesse muito quieto, esquecia-se mesmo do ferimento da flechada. O ombro não doía tanto, por isso fez o que pôde para permanecer imóvel em seu lugar na maioria dos dias apenas fitando as sombras que passavam pelo corredor. Não saberia dizer durante quanto tempo. Não havia sol nem lua. Não conseguia enxergar para fazer marcas nas paredes e vultos que passavam além da fresta que deixava alguma luz do corredor escapar.
Lyonel fechou e abriu os olhos. Não dormia a muito tempo, mas estava cansado e não havia diferença entre permanecer acordado ou entregar-se ao sono. Adormeceu, acordou e voltou a adormecer. Não sabia o que era mais doloroso, se estar acordado ou dormindo. Quando dormia, sonhava.
Eram sonhos escuros e perturbadores sobre selvagens e crianças presas em uma jaula de madeira, havia sangue e vidas quebradas por atos pecaminosos de dominação do mais forte sobre o mais fraco. Éramos apenas crianças e tiraram de nós o que nos restava de infância e alegria, maldita hora que se afastara tanto na floresta naquela maldita brincadeira de esconder-se dos seus amigos na época.
Eram sete os filhos de fidalgos que brincavam naquela época. Ele ao lado dos primos, Harrion Hornwood e Harald Snow. Também se recordava de Eddard Bolton, Errold Dustin, Barret e Lorcan Ryswell, este infelizmente já se encontrava a muito falecido. Não passavam de crianças em apenas uma brincadeira imprudente longe dos olhos dos guardas no Bosque de Hornwood.
Nunca imaginou que acabaria encontrando com selvagens na terra de seu pai e ainda mais não esperava ser levado por eles. Em seus sonhos sempre agradecia quando conseguia despertar antes de ter aquele par de mãos imundas lhe agarrando, mas nem sempre era assim apenas na maioria das vezes. Seus pesadelos geralmente vinham com força e ele acordava aos gritos.
Em seus sonhos ainda era um garotinho assustado, mas no melhor de seus sonhos quando ia até o final era capaz de ver. De visualizar enquanto espancava o agressor até a morte, todos os meninos juntos batendo com os porretes de osso ou madeira, mas tinha sido ele a dar o primeiro golpe que o derrubara no chão. Aquele era o melhor sonho, porém raramente lhe vinha a noite porque eram os ruins que pareciam gostar de consumi-lo.
Quando permanecia acordado em sua cela, nada havia a fazer a não ser pensar e os pensamentos despertos eram piores que pesadelos. Pensar em sua irmã era tão doloroso como uma segunda flecha lhe atravessando. Perguntava a si mesmo como ela poderia estar e o que estaria fazendo. Perguntava-se se voltaria a vê-la.
Sua irmãzinha, quando voltara de sua aflição que passara naqueles meses fora aquela garotinha que mal conseguia andar que havia lhe trazido alguma paz. Ainda crescera para se tornar um homem quebrado, mas não significava que não tinha perdido a capacidade de amar alguém.
As horas transformaram-se em dias, ou pelo menos era o que parecia. Sentia uma dor em seu braço, um formigamento embaixo das ataduras. Quando tocava o ombro, sentia a pele quente por debaixo do unguento e dos panos úmidos de vinho. O único som era o de sua respiração.
Após algum tempo, começou a falar em voz alta, só para ouvir vozes mesmo que apenas a sua. Falava com Harwin, seu irmãozinho caçula que nunca fora muito próximo por não saber lidar muito bem com crianças.
Olhar para Harwin o fazia lembrar-se dele próprio naquela idade, não gostava muito das lembranças de sua infância porque sabia muito bem onde elas terminavam. Mas era bom imaginar que poderia fazer diferente caso saísse dali.
Fez planos para se manter são, construiu castelos de esperança na escuridão. Ele faria um forte para Harwin e o ensinaria o que sabe tanto dos livros quanto da vida. Então o iria preparar para ser um bom senhor e quem sabe um dia deixasse para o irmãozinho tudo o que pertencia à família incluindo o titulo de lorde que era seu por ser o mais velho? Não sabia se conseguiria afinal casar-se com alguém ou mesmo dividir uma cama com alguma moça, parte de si sentia-se confuso se mesmo seria capaz de chegar tão longe quanto de produzir seus próprios herdeiros.
Era um homem casto e puro, por nunca ter deitado-se com nenhuma mulher em todos aqueles anos. Era por opção e medo de como seria no momento em que sentiria mãos tocando-o novamente.
Ele não era mais um garoto e não seriam mãos masculinas, mas mesmo assim lhe aterrorizava como se estivesse sendo uma criança novamente. Uma criança assustada novamente em uma jaula sendo feito de diversão para os outros. Era o favorito, todos gostavam de ter o garotinho da nobreza.
— Enya... — Chamou pela irmã — Fique segura.
Elenya e Harwin regressariam a Hornwood com o resto guarnição do pai e estariam em segurança. Isso depois de tratarem do que importava que no caso era prestar lealdade ao trono vermelho. Royce não era rei nem mesmo Rowen é agora. Mas ninguém compreendia isso, seu pai rebelara Hornwood quando as notícias lhe chegaram e como um fiel vassalo seguiu até Ethan Bolton bem como os senhores de outras casas aliadas que se juntariam a ele.
Tolos que lutam uma guerra e dividem um reino ao meio, o verdadeiro inimigo está Além da Muralha e reunido um exercito. Selvagens viriam e não seria a Patrulha da Noite sozinha que conseguiria detê-los, e no final de tudo mais crianças sofreriam nas mãos daqueles monstros. Mais crianças com o espirito quebrado como o dele. Para se tornarem homens frios e amargos como ele.
Seu coração ainda bate, mas pelo que Lyonel? Você nunca se permitiu em demonstrar nada além do que um escudo para proteger a si próprio. Seus erros batem em seu escudo e o rompem, finalmente tudo está voltando para você como a flecha que lhe acertou.
Deu por si a pensar cada vez mais em Rodwell Karstark, por alguma estranha razão. Via como ele fora na flor da juventude quando lhe ceifara a vida. Era alto e bonito, com o grande elmo com uma viseira guarnecida pelo sol do inverno, levava a espada e seu escudo de guerra na mão oposta. Estava montado no cavalo como um cavaleiro dos contos enquanto cavalgava em sua direção novamente por aquela maldita ponte sobre o Rio Karlon.
Ouviu seu riso na escuridão, viu seus olhos, castanhos como avelãs e dessa vez brilhavam. Diferente de quando removera o elmo de Rodwell e encontrara o par de olhos mortos lhe encarando com acusação.
“Olha para nós, Lyonel” disse Rodwell em sua alucinação “Deuses, como chegamos a isto? Você aqui, chantageado, derrotado, ferido, traído, abandonado e aprisionado. Enquanto eu morto por conta de um rio. É, acho que ainda assim estou melhor do que você não é mesmo? Nós merecíamos mais Hornwood, mais do que simplesmente morrermos jovens…”.
— Eu não vou morrer — falou Lyonel em um sussurro — Não irei morrer, não desejo a morte... — Ele desviara o olhar, mas voltara a encarar e notar que o fantasma de sua vitima ainda encontrava-se ali de pé em sua frente.
"Eu não queria morrer também, mas a morte chegou para mim bem como logo virá por você..." a voz de Rodwell era fria como a lâmina de uma espada. "São as decisões que tomamos em vida que determinam quanto tempo iremos viver, sendo que algumas escolhas dos outros acabam por nos afetar como a que você quando teve a escolha em me poupar, mas fincou sua espada em mim". Ele apontou para o coração.
Eu não queria tê-lo matado, Rodwell, pensou Lyonel. Não podia dizer aquelas palavras para ninguém além de si mesmo, não podia admitir que estava errado em deixar que as coisas se levassem tão longe.
— Não podia dizer que admirava o homem que tinha acabado de matar por sua coragem e honra, no lugar de tudo acabei escondendo atrás de uma falsa verdade. — falou Lyonel — Deixei que pensassem que eu era uma pessoa ruim livre de arrependimentos e que não reconhece os erros que comete, sua morte em meus braços foi o pior deles, Rodwell.
O fantasma de Rodwell havia o ouvido.
Rodwell o encarava com um olhar julgador. Estava molhado e respingando água pelos cabelos e pelo restante de sua face pálida, seu queixo gotejava bem como a mão que segurava a espada. Naquele momento não mais montava, apenas se encaminhava para perto dele em passos pesados e metálicos enquanto sangue escorria do buraco que se encontrava em seu peitoral da armadura.
“Seu tolo e vaidoso, maldita cabeça dura você tinha em não ter cedido” murmurava enquanto o sangue continuava a correr e cobrir o sol estampado na placa de metal “Havia água para todos nós se nos uníssemos e deixávamos as diferenças de lado”.
— Eu deveria ter o escutado – respondeu Lyonel.
“Sim, deveria, mas sempre foi orgulhoso demais para escutar algo que não viesse de si próprio. Sempre pensou que conseguiria abraçar o mundo sozinho e fazer a diferença sem apoio de ninguém”. O verdadeiro Rodwell nunca o conhecera tão bem para saber tanto a seu respeito, porém a alucinação partia dele dessa maneira jogava-lhe as verdades que ninguém tinha coragem de dizer.
— Eu estava pensando em meu povo – falou Lyonel – Estava fazendo o que um lorde faz, mas me esqueci de colocar-me no lugar de vocês que estavam sofrendo com o mesmo que nós. Sinto muito por tudo, Karstark.
“Agora é tarde para arrependimentos, não é?” riu Rodwell enquanto depositava a espada frente ao nariz de Lyonel “Arrependimentos não me trarão de volta a vida ou consolarão o coração de minha família pelo filho e irmão que perderam graças a você”.
— Sim, eu sei que não... – respondeu Lyonel.
“E sentir muito não faz diferença se não for provado” soou Rodwell “Mas você é orgulhoso demais para mudar não é mesmo? E admitir que esteja errado para outros é algo que não faz parte de você”. Ele embainhou a espada e ajoelhou-se, fazendo com que Lyonel pudesse encarar sangue que pulsava de dentro do buraco na armadura, onde antes havia o coração. O coração de Rodwell que ele transpassara na espada.
“Pode-se viver e ser feliz apenas com o próprio orgulho, Hornwood?” pronunciou Rodwell seriamente enquanto uma lâmina invisível lhe cortava o pescoço em uma ferida que lhe abria a jugular e fazia com que sua cabeça tombasse para o lado. Sangue começou a descer pelos lábios do fantasma pelo canto dos lábios.
“Será que sua inteligência é capaz de proteger a si mesmo e seus entes queridos?” Rachaduras correram pelo rosto através da pele de um ferimento na têmpora e do corte no pescoço. “Você tem de saber escolher, Hornwood e sabiamente não apenas por você como pelos com quem se importa”.
Naquele momento os olhos de Rodwell tornaram-se tão azuis quanto o gelo e fissuras que se abriam na carne, e ele ergueu a mão e arrancou a máscara. Não era Rodwell Karstark. Era Rowena Bolton, sorrindo cinicamente e zombando dele com o olhar.
“Acho que está na hora daquele beijo não?” Gargalhou Rowena aproximando-se dele.
A nova visão não estava mais na armadura de guerra do falecido Rodwell Karstark, dessa vez Rowena encontrava-se nua como viera ao mundo. Uma visão perigosa de tão atraente, foi quando abriu a boca para beija-lo, de seus lábios escaparam aranhas que dançavam por seu rosto e caiam em seu colo nu por entre os seios.
As aranhas eram criaturazinhas asquerosas e peludas sendo quase brancas. Centenas de pequenos seres de oito patas começaram a cair nele e cobri-lo entrando por suas vestes e o fazendo estremecer. Foi então que gritara e deu-se por si desperto de um pesadelo.
— Estou enlouquecendo – falou Lyonel – Estou enlouquecendo.
...
Winterfell
Era um dia festivo, mas ela não se sentia assim. Era como se a atmosfera feliz e emocionante ficasse toda do lado de fora do seu quarto e a grande e pesada porta de madeira trabalhasse como uma barreira para todas as emoções e alegrias.
Os corredores estavam barulhentos e através das janelas embaçadas pela chuva era que podia ver a movimentação no pátio do castelo. De fato, até mesmo os criados estavam animados com a celebração do dia do nome da princesa, também pudera haviam embaixadores enviados de várias casas imponentes do sul.
Todos os embaixadores tinham vindo oferecer presentes e ofertas para encantar a o rei do inverno e convence-lo a formar uma aliança matrimonial com os filhos de seus senhores. Toda a criadagem e vassalagem exalava a euforia e deleite frente a expectativa que seria do anuncio a ser feito no final da noite. Ela podia ver, mas não podia sentir.
Forram-se os anos em que Brie achava que seu destino como princesa e seu dever, eram além de obrigações também alegrias. A possibilidade de encontrar seu futuro e felicidade nos braços de outra pessoa, eram apenas ilusões tolas de uma garota repleta de expectativas e sonhos.
Era uma princesa e apenas servia ao seu dever com o pai e a honra de seu nome. Como tal deveria cumprir seu papel, teria de ser a filha obediente que nascera para ser eram certezas que nem mesmo Meistre Aston contestaria. Princesa Brie, a doce donzela de Winterfell e uma beleza única que ainda não tinha sido colhida. Seu prometido tinha lhe sido tomado a três anos e toda a felicidade tinha se esvaído de seu ser. Tudo se perdeu em uma nuvem de luto e tristeza como se sopradas pelo vento do inverno.
O que você deseja, minha irmã? As palavras ainda ecoavam sem uma resposta clara vinda de Brie afinal ainda estava perdida sem saber o que gostaria para ela. Aquelas palavras de Matthew retumbaram em sua mente como as gotas de chuva contra sua janela. Era como um tambor que batucava cada vez mais forte e o som parecia crescer cada vez mais.
Eu sua frente, ela olhava para sua imagem no espelho, mas não via nada além de seu rosto com uma expressão neutra e bem portada. Um cabelo impecável lhe fazendo parecer tão intocada como sabiam que era. O símbolo da pureza e da realeza que era ela, uma princesa para que o reino possa se orgulhar.
Quero ser uma boa filha! Este sempre foi o desejo de Brie, ser uma filha devotada e respeitosa. Ela sempre gostou disso, e seus pais não tornavam a tarefa difícil. Eram pessoas honradas e verdadeiras, e respeita-los era natural para ela.
Quando recebia uma ordem, qualquer que fosse qualquer que pudesse ser de um de seus pais, principalmente do Rei Brandon, os ouvia com atenção. E estes por sua vez faziam questão de ouvir os filhos e ponderar suas vontades, em exceção quando a situação exigia medidas extremas. Nestes casos ela obedecia sem contestar.
Mesmo quando não concordava com o pai, ela entendia que seus atos eram os atos de um rei fazendo o melhor para seu povo e sua família. E então, ela colaborava. Seja uma boa filha e honre pai e mãe, aprenda que é obediência e respeito para com as regras e deveres. Ela se impunha frente a si tudo o que sabia que lhe faria se destacar consideravelmente bem nas graças de sua família. E ela estava feliz com suas ações apenas pelo modo como os pais lhe tratavam em resposta, a confiança que depositavam nela e as responsabilidades que lhe distribuíam. Eles podiam contar com ela muito mais do que com seus irmãos, sendo que uma parte em Brie enchia-se de orgulho.
Seus irmãos nunca foram às pessoas mais fáceis de lidar, os Mormont e os Stark sempre foram famílias de pensamento forte e espírito livre e opiniões que deveriam ser ouvidas. Faziam e colocavam frente aos seus interesses e lutavam pelo que acreditavam, custasse o que custasse.
E a união pelo sangue das duas casas tinha trazido personalidades forte e arredias para a maioria de seus irmãos, mas não ela que parecia se destacar por ser tão diferente do restante daqueles com quem tinha laços. Em grande parte se devia porque Brie sabia seu lugar e conhecia o que significava fazer parte de uma dinastia milenar.
Brie não queria ser mais um dos casos de rebeldia familiar. E ela amava seus pais, amava-os tanto que poderia doar-se completamente para eles. O amor familiar era algo tão puro e natural para Brie, que ela não poderia rejeitar nenhum de seus impulsos em defender seus irmãos, ou obedecer a seus pais. Mesmo sua avó, que não era a pessoa mais fácil de lidar, nunca teria alguma queixa para fazer do comportamento exemplar de Brie.
Mesmo uma alma pacifica sabe o momento de agir e impor-se e no caso dela era a proteção com aqueles a quem amava, porque era isso que um ser repleto de amor era capaz. Amar incondicionalmente
O que você deseja, minha irmã? Ressoara novamente a voz do príncipe herdeiro.
Queria poder continuar em meu lar que é o norte e não seguir para o sul. Não queria ser desposada por um lorde sulista, não quando seu coração mantivesse vivo e batendo junto dos uivos dos lobos.
Suspirou enquanto encarava as correspondências que alguns dos pretendentes tinham enviado através dos embaixadores. Encarou as letras nos pergaminhos, porém os deixara de lado na penteadeira. Enquanto terminava de se arrumar pode ver que involuntariamente abriu sua caixa de joias em busca de itens que ela não sabia se eram os certos a se usar.
Ninguém tem como saber! Ela repetia aquelas palavras enquanto segurava-os perto do coração, com a mão fechada tão forte que os nós de seus dedos estavam brancos.
Respirou fundo abrindo a mão e colocando-os sobre a mesa. Delicadamente passou a ponta dos dedos na figura de um pingente em forma de “B”, brilhando em prata com um pedaço de fita cinza que ela tinha certeza que combinaria com seu vestido verde.
Estava novamente no Bosque Sagrado naquele dia, Rodwell a havia trazido até ali após conseguirem despistarem o irmãozinho mais novo da princesa. Era um pedido da rainha era que Hoster sempre estava presente durante os encontros da garota com seu prometido. Porém, aquele dia foi que de alguma forma que o herdeiro de Karhold conseguira enganar o jovem príncipe.
— Então nos encontramos sozinhos. — falou Brie tentando não demostrar o quão apreensiva estava — Lorde Rodwell, o que gostaria de me dizer?
— Não pretendia contar-lhe nada, foi apenas uma desculpa para tê-la só para mim. — respondeu Rodwell.
— Lorde Rodwell, sabe que uma dama não deve ficar sozinha na companhia de um homem. — Advertiu Brie.
—Nem se este for seu futuro marido? — Questionou Rodwell.
—Muito menos! – respondeu Brie parecendo incomodada com toda a situação e lhe ergue a sobrancelha em aviso.
—Me perdoe, minha loba dócil e honrada. – disse Rodwell beijando-lhe a mão com delicadeza — Queria apenas entregar-lhe um presente como um gesto de carinho que tenho por vossa pessoa.
— Rodwell, eu não… — disse Brie removendo sua mão da dele.
—Aceite, por favor! – insistiu Rodwell em um tom de voz contido e humilde — Se ser o seu noivo me permite alguma liberdade então esta seria que você aceite meu presente, por favor. – Ele tirou do bolso uma pequena caixa – Um agrado de muitos que virão ainda entre mim e você, minha senhora. – Então foi abrindo o pequeno pacote, Brie se deparou com um belo pingente. Sorrindo encantada, Brie encarou os olhos curiosos de Rodwell.
— É prata, pois representa a minha casa, mas é um B porque representa você. – respondeu Rodwell — Assim, enquanto eu estiver fora, você terá algo para lembrar-se de mim além de um estandarte velho pendurado em uma parede gelada.
— É lindo! Obrigada, meu senhor. – agradeceu Brie segurando a pequena caixa com ambas as mãos -
—Me permitiria a honra? – ofereceu Rodwell pegando o pingente em mãos e segurando as pontas da fita. Sorrindo ela virou-se de costas, dando permissão para que ele pudesse colocar o presente em seu pescoço. Quando o fez foi que sentiu os braços de Rodwell envolvendo lhe a cintura e por um momento ficou paralisada com o toque repentino dele.
—Se nos verem... – advertiu Brie.
— Se nos verem então eu cuidarei para que saibam que nada demais aconteceu entre nós – disse Rodwell – Estou apenas a abraçando minha noiva e minha futura senhora. Mal posso esperar por nosso casamento, Brie. Quero poder estar novamente com você nesse mesmo bosque sagrado e lhe cobrir com o manto de minha casa depois de fazer meus votos aos deuses antigos. Quero ensina-la a amar Karhold e poder ver a bela família que iremos construir um com o outro. É esse meu maior desejo... – Ele então a fez virar-se na direção dele e a beijou nos lábios.
...
Sorrindo minimamente, Brie levou as pontas da fita para aparte de trás do próprio pescoço e amarrou em um laço, em seu torno. A figura no espelho não parecia feliz, mas também não parecia triste. Parecia certo, ela queria uma parte de Rodwell dando-a forças para passar por esse dia e encontrar alguém que pudesse tomar o lugar dele. Seu amado tinha lhe deixado naquele dia, o primeiro beijo também fora o último entre os dois.
Olhou para a mesa em sua frente percebendo que um segundo objeto ainda estava ali, solitário, reluzindo em uma bela mistura de prata e verde, a cor favorita de Brie. Era rústica, mas ao mesmo tempo delicada como nada que Brie possuía, e representava uma amizade muito forte e mais antiga do que conseguia se lembrar.
Jon esteve presente em sua vida mesmo antes de Rodwell, e sempre foi seu porto seguro e seu amigo confidente. O protegido de seu pai tinha chegado a Winterfell como um pajem a ser criado dentro da corte e acabou por tornar-se muito mais próximo da princesa do que deveria. Um bom amigo com quem poderia contar e a quem amava como um irmão.
Abria-se com ele sobre Rodwell pelo fato de o garoto ser um grande amigo para os dois. Ela realmente não percebeu quando as coisas evoluíram daquele jeito, mas pensando bem agora, ela pode compreender Jon melhor. Quando ambos eram crianças costumavam brincar juntos de cavaleiro e bela donzela, ao final da brincadeira era que Brie depositava um rápido beijo nos lábios do rapaz. Ela gostava da brincadeira, porém sempre encarou como algo inocente não esperava que fosse fazer com que o herdeiro de Última Lareira tomasse sentimentos tão fortes por ela.
Quando Rodwell falecera foi que Jon veio procura-la. Ambos cavalgaram juntos em meio a estrada que ligava a Última Lareira até Karhold, estavam retornando da cerimonia funerária feita em honra do prometido e bom amigo que pereceu em combate. Fora quando pararam os cavalos para descansar e sentaram-se a sombra de uma árvore. Naquele momento foi que Jon confessou-lhe o que tinha sufocado por tanto tempo dentro de si.
— Eu a amo e sempre te amei – disse Young Jon – Sei que amava Rod, porém peço-lhe que veja que existem outros que podem ajuda-la a superar sua dor e fazer com que a alegria retorne ao seu coração um dia. Não lhe peço por isso por agora, apenas que veja que há outros homens que a amam. Alguns até a mais tempo do que poderia compreender e só agora criaram coragem para lhe dizer. Meu coração apenas tem lugar para você, minha princesa.
— Como ousa? – disse Brie amargamente – Como se vê no direito de dizer-me tais palavras nesse momento? – Jon parecera confuso com a resposta da garota e tentara toca-la, porém essa se esquivou dele – Tire as mãos de mim. Nunca mais encoste suas mãos em mim ou me diga algo... – Ela olhou para ele parecendo verdadeiramente magoada assim como ele – Não confunda a amizade que possuo com você por algo a mais. Onde está sua dignidade e honra? Ele era seu amigo e é assim que o trata em sua ausência?
— Por favor, vossa alteza... — disse Young Jon — Não queria ofende-la.
— Mas conseguiu, ofendeu-me e a memória de meu amado — disse Brie — Esperava mais de você, mas aparentemente minhas expectativas eram impróprias.
— Mas eu a amo com todo o meu coração — falou Young Jon Umber — Sempre a amei, vossa alteza. Tem de acreditar em mim e nos meus sentimentos pela senhora.
— Amor não basta e não é o suficiente — disse Brie com frieza — As atitudes falam mais alto, sendo que as suas foram terriveis para comigo. Onde está seu respeito por meu luto? Um homem egoista que pensa apenas em si mesmo não é alguém que quero do meu lado. Alguém que não me respeite...
— Eu a respeito, por favor... — disse Young Jon — Olhe para mim — Ela não o encarava mais — Me perdoe, vossa alteza. Perdoe-me por não conseguir aguentar por um momento melhor, sou uma pessoa melhor do que demonstrei. Você me conhece, vossa alteza.
— Não sei se o conheço mais, Lorde Umber — disse Brie sem encara-lo — Não é o mesmo de quando crescíamos juntos, eramos amigos só que nossa amizade aparentemente não é valorosa para sua pessoa. Eu não lhe amo assim e meu coração está muito ferido nesse momento para que possa pensar em outro que não seja Rodwell. E você não é ele e nunca será...
— Eu compreendo, vossa alteza – disse Young Jon – E lamento por minha ousadia e minha falta de bom senso, compreenda que foi uma falha minha e que não tornara a repetir-se e peço para esqueça minhas palavras.
— Agradeço se o fizer — disse Brie — Será o melhor para nós dois se for assim — Quando voltou-se para olha-lo pode vê-lo se afastar. Já tinha virado as costas para ela retirado-se sem dizer qualquer palavra a mais.
Arrependia-se deter agido como agiu, de ter dito o que disse. Se pudesse voltar no tempo teria feito diferente, embora ainda buscasse dizer qualquer coisa que tivesse o mesmo significado. Ela estava de luto. E sentia falta de Rodwell todas as horas de seu dia, e saber que nunca mais poderia vê-lo doíam em seu corpo tanto como em sua mente. Era uma dor física e emocional que a abalavam em todos os sentidos. Ela não tinha espaço em seu psicológico para pensar em sua situação ou em alianças naquele momento.
O que você realmente quer para sua vida? Perguntara a voz de Matthew.
As palavras dele voltavam a ela com força total agora. Ela não queria deixar o Norte, não queria ter brigado com Jon. E não queria ter perdido seu melhor amigo e sabia que poderia ter lidado com a situação de modo a não machuca-lo.
Ele era sua chance de ficar onde estava, o único que agiria em favor de mantê-la no Norte como o pretendente mais digno frente aos nortenhos que tinham se oferecido. E sabia que o amor já havia florescido em solos mais inférteis.
Seu amor por Rodwell tinha nascido de situações bem menos calorosas do que o relacionamento que tinha com Jon. Quando ficou noiva de Rodwell, foi uma escolha de seu pai, uma antiga promessa que tinha feito ao Lorde Torrhen Karstark em que uma aliança matrimonial seria feita entre uma das princesas com o herdeiro de Karhold quando ambos estivessem em idade.
Fora mais ou menos na mesma época em que Jon tinha retornado para junto do pai em Última Lareira e quando olhava agora poderia compreender a razão para que o rei tivesse tomado essa atitude. Ele estava preocupado que a filha desenvolvesse sentimentos por seu protegido e decidira assim separa-los. Rodwell tinha sido a decisão que seu pai tinha tomado por ela, mas Jon teria sido sua escolha.
Ela poderia amá-lo se nunca tivesse conhecido Rodwell. Esperava que ele ao menos comparecesse para que pudesse se desculpar. Não precisava fazer a proposta pela mão da princesa, apenas estar ali ao lado dela para que ambos pudessem entender-se antes dela partir para o sul. Não queria deixar coisas sem resolver com o rapaz. E o mais importante de tudo era que ela queria vê-lo!
Assustou-se quando a porta abriu de supetão e um corpo pequeno se jogou contra seus braços. Pode observar então os grandes olhos acinzentados da irmã mais nova e as sardas que lhe salpicavam o nariz.
— Sybbie, o que está fazendo aqui? – Perguntou Brie.
— Brie, aquele sapato aperta meu pé. – disse Sybill choramingando.
— Mocinha, damas não andam por aí falando de seus pés ou outras partes do corpo. – riu Brie enquanto a fazia sentar-se em seu colo e encarava um dos pés descalços da mais nova – Onde está o outro sapato, Sybill? – a pergunta foi respondida quando a prima delas apareceu no quarto da princesa. Catyrona trazia um sapato em uma das mãos.
— Brie, me desculpe foi tudo tão de repente – falou Catyrona – Estava em um momento do meu lado quando de repente ela saiu correndo do nada! – entrou no quarto estando visivelmente ofegante.
— Não tem problema, Catry. – respondeu Brie então sorriu para a prima confortando-a.
— Você está linda! – Catryona entrou no quarto fechando a porta atrás de si novamente.
— Obrigada, você está muito bonita também. – Respondeu Brie sorrindo de relance para a prima enquanto abraçava Sybill e lhe depositava um beijo na bochecha da pequena — E esta coisinha aqui também está muito linda para estar ai andando apenas com um sapato. – Então foi que a menina desceu de seu colo e sentou-se na cama — Me de o sapato dela, Catry.
Foi então que a garota entregou o sapato para a prima enquanto se sentava na cama de frente para ela e ao lado de Sybill. Brie apenas encaixou-o novamente e amarrou-o de forma que não apertasse os pés da mais nova, a caçula estava em um momento em que estava crescendo e logo muito dos sapatos e roupas teriam de ser trocados.
Brie sentia-se mal por não estar perto de sua lobinha para vê-la tornar-se uma donzela como ela. Atena se casaria com Edwyn e então Sybill seria a única princesa em Winterfell. Isso até que suas sobrinhas viessem, princesas legítimas e não bastardas. Do fundo de seu coração desejava que Louise fosse legitimada por mais que soubesse que o relacionamento de Noah com o pai poderia fazer com que este acontecimento nunca se realizasse.
— Gostaria que eu terminasse de ajuda-la a se arrumar? – ofereceu-se Catryona – Posso trançar seu cabelo – E a princesa sorriu para a prima.
— Obrigada – Brie agradeceu encarando Catry pelo espelho.
— Muito bem, lobinha. Apenas nada de sair por aí correndo com esse sapato, tudo bem? Ou você pode se machucar. – advertiu Brie após terminar de ajeitar os calçados da irmã menor, apenas soltou alguns laços e botões.
— Acho que ela não vai muito longe com eles abertos desse jeito. – Catry riu abertamente.
— Apenas não conte a Ursa Mãe, porque se ela souber vai se transformar em uma loba furiosa. – disse Brie para a mais nova que riu enquanto saia do quarto após saltar da cama animada.
A primeira princesa lembrava-se de ter comentado algo sobre a mãe ter costurado aqueles adornos no sapato quando ela tinha a idade de Sybill. E de como nunca ter se acostumado com eles quando tinha a idade da garotinha.
— Nervosa? – questionou Catryona.
— Eu deveria estar – respondeu Brie com um sorriso triste – E não é mesmo que eu deveria afinal vou ter de escolher para onde irei para qual desses embaixadores que vieram irei dar meu veredito. – Encarou o vazio – Minha segunda proposta de casamento é algo que eu jamais teria desejado.
— Eu compreendo você – disse Catryona – Você sabe que eu passei por uma situação muito parecida, lembra? Cheguei a casar-me e assim permaneci por cerca de 1 ano antes que minha viuvez viesse.
— Você aceitou meu irmão pouco depois no lugar de retornar para a Ilha dos Ursos – disse Brie – O que prova o quanto é uma pessoa muito boa, Catry. – Encarou a prima com um sorriso simples.
— Mais do que eu deveria e menos do que você imagina, prima. – disse Catryona suspirando enquanto entrelaçava os dedos nos cabelos da princesa — Menos do que você imagina... – Suspirou enquanto cruzava as mechas escuras de Brie segurando-o de um lado enquanto a outra ia deslizando. — É um belo par de presilhas.
— Foi um presente – Respondeu Brie ao notar que a caixa de joias ainda estava aberta e exibia o outro presente que ali havia guardado com tanto zelo – É a recordação de um amigo... — Abaixou os olhos, visivelmente constrangida.
— Amigo ou admirador? – perguntou Catryona fazendo a princesa enrubescer — Tem bom gosto esse gigante da Última Lareira.
— Como…? – questionava Brie até que foi interrompida.
— Quando ele veio na última visita ano passado para o Dia do Nome de Matthew – respondeu Catryona — Todos achamos que iria propor a você, principalmente seu pai. Ele tinha lhe trago um presente por mais que não tenha dito nada apenas o gesto já se provava bastante perspicaz. Isso agradou a rainha que já planejava um lindo casamento nortenho, mas fomos equivocados, não?
O silêncio foi a resposta que Catryona esperava. Brie não sabia mentir, não quando não era extremamente necessário. E seu silêncio foi a confirmação que dama de companhia precisava para compreender melhor o afastamento entre a prima e o melhor amigo dela.
—Eu não julgo você – Sussurrou Catryona no ouvido de Brie quando terminou de colocar as presilhas em seu cabelo – Não somos capazes de escolher quem amamos não é mesmo? Ninguém manda no próprio coração por mais errado que esteja.
— Mas amar o fantasma de alguém que já se foi – respondeu Brie – E magoar alguém que gosta de mim. Isso é algo que meu coração não sabe como pode lidar... – E uma lágrima correu pelo rosto da princesa.
— Brie? – uma voz a chama e quando se vira para encarar pode ver Sybill, no entanto não esta mais no vestido que estava usando antes.
— O que aconteceu, Sybbie? – perguntou Brie estranhando a irmã.
— Você consegue me ouvir e me ver? – Perguntou Sybill parecendo não acreditar. A garota parecia feliz e até meio emocionada fazendo com que a mais velha lhe encarasse parecendo confusa.
— Há algo de errado? – questionou Brie então notando que não estavam mais no quarto dela. Catryona e ela tinham desaparecido e agora as duas estavam em meio a um campo enevoado. E ao fundo atrás da irmã menor reluzia a Muralha, parecendo estar tão distante.
— Você tem que convencê-lo a te deixar voltar – disse Sybill em um tom desesperado – Não fique com ele e volte para nós, por favor. Nós sentimos sua falta, Brie. Queremos você em casa novamente com a gente. Quero minha irmã de volta.
— Eu estou aqui agora, não estou? – questionou Brie aproximando-se da mais nova e a segurando – Olhe para mim e veja que eu não vou te abandonar, lobinha. Estou aqui com você e nunca irei embora.
— Não está porque você se foi – respondeu Sybill insistente– Eles a levaram, Brie. Tem de se lembrar, por favor. E você tem que voltar para casa, diga a ele que não quer e para te deixar voltar para Winterfell para o lado de nossa família.
— Papai e nossos irmãos declararam guerra e mamãe vai precisar de você ao lado dela. — continuou Sybill — Hoster vai precisar de você assim como eu – A mais nova a abraçou – Eu estou tão feliz que está conseguindo me ver. Que está conseguindo me escutar. Eu tenho tentado, tentado também falar com você. Não estava conseguindo, por mais que tentasse e me esforçasse para me fazer notar, mas nada de você me escutar nem mesmo quando tentei avisa-la sobre a flecha...
— Sybill, o que está havendo? – perguntou Brie sem entender.
— Eu tenho tido sonhos, B. — disse Sybill — Sonhei que nevava em Winterfell, mas no lugar de neve eram cinzas que cobriam as pessoas e o patio do castelo. Sonhei com mãos quentes segurando um pequeno boneco de neve que se desfazia em fumaça. Sonhei com um lobo de pelo negro que chorava e uivava em dor. — Ela fez uma pausa — Eu não paro de sonhar sempre que eu fecho os olhos apenas eles vem.
— São apenas sonhos ruins — disse Brie — Você ficará bem.
— Eu não ficarei bem — gritou Sybill — Ninguém ficará bem. — gritou a menina parecendo assustada — Sonhei com corvos que devoravam ursos em um festim macabro até não sobrar muito além dos ossos.
— Sonhei com dois corações batendo juntos e então um deles parava e o outro continuava sozinho. Sonhei com sangue nas coxas de uma moça... Sonhei com sangue na boca de um homem. — continuou Sybill — Sonhei com um cadáver coberto de neve abandonado aos pés de uma árvore que ri.
— Sonhei com os olhos de nosso pai tornando-se brancos... — continuou Sybill então encarando a irmã mais velha — E sonhei com os seus olhos tornando-se azuis. — Aquela última frase, fez a alma de Brie congelar-se como se um mau agouro tivesse se abatido sobre ela.
— Eu não estou conseguindo te compreender, por favor, apenas me diga. – falou Brie enquanto depositava as mãos sobre os ombros da mais nova — Fale para mim o que está havendo?
— Ele está aqui – respondeu Sybill e novamente se desfez dos braços da irmã e saiu correndo. — Ele não pode me ver se não saberá... — Brie tentara ir atrás dela, porém a imagem da mais nova desapareceu junto da nevoa como se fosse feita de vento. Um bater de asas viera e foi então que Brie sentiu um pequeno par de patas pousando em seu ombro e uma voz soara em sua mente.
— Sua irmã não compreende – soou a voz rouca – Ela é nova e não entende o dom que vocês possuem. Ela me teme por eu lhe ser desconhecido, mas por mais talento que possua não é ela a escolhida. É você, Brie... – A princesa estendeu a mão e a ave levantou voo e pousou na ponta de seus dedos — Eu irei mostrar-lhe mais do que seus olhos podem compreender e você aprendera coisas que nunca pensou existirem.
— Quem é você? – perguntou Brie confusa.
— Sou aquele que deseja conhece-la, loba de Winterfell. – disse a ave – Você irá entender que está destinada a algo maior do que poderia sonhar e mal posso esperar para que nos encontremos. Eu e você... – E assim foi que o corvo levantou voo em meio a neve que caia.
Brie acordara então em sua cabana, abriu os olhos assustada e encarando o teto rustico de madeira e pele feitos pelos selvagens. Arrastou-se por sobre as peles grossas que lhe serviam de cama. Do lado de fora da cabana podia ver a claridade da luz do sol parecia ter surgido na alvorada.
E os ventos frios da cordilheira das Presas de Gelo que lhe atingiu a face quando se ergueu e sentou. Sua perna ainda doía, porém não tanto como antes. A marca da queimadura em sua perna era grotesca e manchava sua pele antes imaculada, tão horrível de se olhar e tão aflitiva em seu toque. E por alguma razão não era aquilo que a preocupava mais e sim o seu sonho. Seu sonho com sua irmã e como se encerrara. Como ela viu-se encarando um corvo com um olho a mais.
Fale com o autor