North War – Interativa
34 Capitulo 33
Notas iniciais
Floresta Assombrada
George Serry retornara a sua montaria após terminar de velar o corpo de um dos seus companheiros caídos. Eram agora apenas doze sobre seu comando como um deles tinha caído pelos ferimentos causados pela batalha contra os selvagens. Ainda conseguia sentir o cheiro da carne dele que tinha sido queimada na pira funerária que fizeram.
Seu nome era Asher Marbrand, vindo das Terras Ocidentais e um nobre de nascimento assim como ele. Morto por um golpe de machado que havia lhe tirado metade de sua mão e a infecção se espalhara rapidamente pelo restante do braço. George fizera o possível para mantê-lo vivo, pedira até mesmo que Dalen amputasse o antebraço quando a infecção subira. Até que por fim, o próprio George vendo-o ser consumido pela febre enfiara uma faca em sua nuca enquanto dormia.
Matar irmãos da Patrulha da Noite era algo que não estava nos juramentos, porém era algo que não estava sobre si decidir sozinho. Abandona-lo a própria dor e sofrimento enquanto as esperanças para o retorno para casa eram algo que os incomodava. Fizera o certo dissera a si próprio e seus companheiros lhe tinham falado quando perguntara se deveriam fazê-lo. Dar paz a um corpo e alma que sofre.
— O que faremos agora? – perguntou Marvel, o bardo.
— Toque para nós – disse George com um meio sorriso – Toque a favorita de Marbrand em sua honra e depois toque as que acharem necessárias. Apenas não nos deixe perder no silêncio de nosso luto.
— Como quiser, Georgie – falou Marvel enquanto pegava seu alaúde e começava a tocar as cordas enquanto cavalgava apenas mantendo o cavalo entre as pernas. A música era Sete Espadas para Sete Filhos. Foi assim pelo restante da manhã até que mais tarde os seus homens retornaram a falar começando de maneira bastante abrupta.
— Deveríamos regressar para Fortenoite e dar a noticia ao Lorde Comandante – insistiu Harlen de Hornwood quando os bosques começaram a escurecer ao redor do grupo. – Dizer que a princesa está morta.
— Os selvagens lhe assustaram Harlen? – debochou Sor Dalen Royce com não mais do que um meio sorriso em sua face magra e queixo agudo — Pois me parece que está querendo colocar o rabo entre as pernas em sua covardia.
Harlen não mordeu a provocação de seu companheiro de patrulha e uma parte de George agradeceu por isso. Bem, os deuses sabiam como estava sendo difícil o retorno para a Muralha após a expedição de que participavam ter se revelado um fracasso. O único de seu grupo que parecia feliz e relaxado era Marvel.
Marvel estava em sua música e com seu alaúde que era o bem mais precioso que aquele homem detinha. Marvel era um nome artístico que escolhera para si, chamava-se Marwyn só que já havia outro bardo conhecido por este nome. Era de nascimento simples que tinha encontrado nas canções o ganha pão.
O bardo era um homem velho, com mais de cinquenta anos e vivera mais de um quarto deles vivendo sobre o manto negro tendo sobrevivido a muitos os nobres melhores do que si, vira cavaleiros e bem nascidos chegarem e partirem.
Por sorte de George Serry foi que acabou por fazer de Marvel um amigo caso o contrário a vida seria mais difícil para si tendo de ficar entre Dalen e Harlen. Era bom ter alguém com temperamento leve e harmonioso tal qual as canções que tocava.
Marvel agraciava-os com a harmonia de sua voz que cantarolava A Noite que Terminou. Aquela era uma canção cantada no Norte. Em uma parte da música, a Patrulha da Noite avança ao encontro dos Outros na Batalha da Aurora. Havia irmãos de negro que a adoravam enquanto outros a odiavam, porém para George era sempre bom ouvir canções sobre o passado glorioso da organização que fazia parte.
George era realista em saber que sua irmandade estava se reduzindo a uma organização feita apenas a sombra do que um dia fora, porque a maioria dos lordes desacreditava nos antigos contos passados a gerações sobre os Outros e a Longa Noite. Pelos Sete Infernos, mesmo para ele era difícil conceber a existência de seres feitos em gelo. Mesmo assim, o serviço que faziam devia ser valorizado. Vira isso em seus quinze anos vestindo o negro.
Porém, cada dia mais o apoio diminuía e menos nobres vinham para juntar-se a irmandade. Para todos dos Sete Reinos, a Muralha cada vez mais se assemelhava apenas uma colônia penal, onde homens viviam e morriam sobre um juramento, como aquele era o preço para a revogação de seus crimes.
— Uma verdade dolorida é melhor do que uma mentira fantasiosa – respondeu Harlen – Nada temos a tratar com os selvagens que se escondem de nós nas montanhas. Se assim querem então que continuem e assim facilitam nosso trabalho.
— Mas estão mortos? – perguntou Dalen Royce com um sorriso em deboche – Não, dessa maneira acredito que valha apena continuarmos nessa expedição do contrário o rei dos selvagens pensara que o tememos. Pensará que pode atravessar a Muralha e roubar donzelas de seus castelos.
— Ouviu a selvagem – disse Harlen – Se ela diz que está morta então está. E isto servirá como prova suficiente, foi para mim e tenho certeza de que será para nossos superiores.
Ele encarou as suas costas onde Gregor Ryswell montava sua égua baia. Amarrada e atada a um castrado marrom vinha a selvagem que tinham capturado na Batalha da Escada dos Gigantes, tudo tinha sido muito rápido depois do lobo gigante ter sido avistado no acampamento e morto por George e Dalen em conjunto.
Não sem antes que a fera matasse dois dos seus patrulheiros, um deles na hora com a garganta rasgada enquanto o outro foi ferido e morrera mais tarde pelo ferimento. Fora a última parada que fizeram quando tiveram de reunir galhos secos para queimarem o corpo como mandava a tradição dos irmãos de negro.
Então corrigiu-se, a última parada antes do pernoite. Quando tomaram a decisão de que Asher Marbrand seria sacrificado em seu sono, como piedade pela febre que o torturava. Tinha que lembrar-se dos mortos que partiram na estrada afinal tinham dois cavalos a mais e um deles tinha sido cedido a selvagem feito prisioneira.
Maldição, seu relatório que teria de fazer a Benfred Penrose diria como ele tinha matado um irmão de negro em misericórdia e depois seria avaliado por Lorde Arthurus Arryn. Esperava a compreensão de que fizera aquilo não por prazer, mas porque seu dever pedia que o fizesse.
— Está olhando o que corvo? — grunhiu a selvagem em meio uma careta feroz e George voltou a olhar para frente após uma bufada pesada e cansada.
A guerreira selvagem era bonita, mesmo abaixo da pintura de guerra que lhe adornava o rosto mal encarado. Os cabelos eram negros como as asas de um corvo além dos olhos castanhos esverdeados. A mulher tinha chegado ao menos na casa dos vinte anos e estava com uma lança com ponta de osso. Deva*, era o nome que havia lhe dado quando fora lhe dar água para saciar sua sede.
Seus patrulheiros a tinham capturado por conta de um ferimento que um dos irmãos mortos tinha causado nela e ela acabou não conseguindo reunir-se com os companheiros selvagens. Tinham tentado interroga-la, porém não tinham conseguido muitas informações a respeito dela.
— É uma Thenn – disse Dagon Goodbrother que seguia logo atrás carregando a lança da selvagem como um troféu para si – Não se pode confiar em Thenns.
— O mesmo diz a respeito dos nascidos do ferro – Disse Tommen Reed que seguia no outro lado de Gregor Ryswell trazendo seu tridente apoiado em seu ombro e o capuz sobre a cabeça lhe protegendo do frio – Até onde eu sei – E com isso Goodbrother voltou-se encarando com frieza.
— Cale a boca, Papa-Sapos – disse Dagon Goodbrother então cuspindo no chão – Ela mente, mas não se preocupe que se me permitirem saberei fazê-la falar – E encarou a mulher com certa cobiça.
— Se a princesa estiver morta – disse Dalen Royce então sendo interrompido por Harlen.
— Não pode acreditar que ela ainda esteja viva — disse Harlen — Ainda mais na companhia de selvagens... As chances são poucas e o preço a ser pago muito alto.
— Se não estiver morta então estará em breve – retorquiu Will Turner, o aprendiz de tintureiro e vindo de Vilavelha – Nem consigo acreditar que sobrevivemos quanto mais ao Norte vamos, mais frio fica... — Ele bufara a fim de aquecer suas mãos manchadas – Esses malditos selvagens.
— Ela está morta – falou Tregar de Tyroshi em seu sotaque estranho que piorava ainda mais com seu nariz entupido – Esse maldito frio não é para donzelas da nobreza.
— Nem para essosi – debochou Dorian de Lagoa da Donzela provocando seu companheiro na outra extremidade do grupo – Como está sua nova manta, Tregar? — E alguns rapazes riram da provocação.
— Vá se ferrar – respondeu Tregar de Tyroshi com seu nariz vermelho contrariando com sua barba e cabelos azuis. Enquanto o antigo contrabandista envolvia-se nos pelos do lobo gigante que o grupo tinha abatido.
— Logo poderá aquecer seu traseiro na lareira de Fortenoite – respondeu Marvel, o bardo dando uma pausa em suas canções após terminar de cantar A Donzela de Inverno — Qual é a canção que desejam agora, meus companheiros?
— Vocês pensam que acabou? – falou Dalen Royce chamando a atenção de todos – Nós iremos retornar para a missão mesmo que seja apenas para matar alguns selvagens.
— Por favor, tente relaxar um pouco – disse Harlen – Quem decidira o que faremos é o Lorde Comandante Arryn. Não sabemos se ele irá nos enviar novamente em outra missão dessas... Até porque a selvagem insistira na historia de que a princesa está morta. Duvido que mude suas palavras a menos que queira.
— E a morte de uma princesa não fará com que Arryn levante armas contra Wolfgang Presas-de-Gelo? – falou Dalen Royce – Tomava-o como mais esperto para um caçador furtivo, Harlen. Não me admira que esteja vestindo o negro no lugar de estar ao lado de sua família...
— Dalen, já é o suficiente – retrucou George enfático em suas palavras ao companheiro de patrulha. O lorde patrulheiro de Escudo de Carvalho sabia que seria obrigado a intervir na discussão mais cedo ou mais tarde. Desejou que tivesse sido mais tarde – Temos uma longa cavalgada pela frente para suas tolas discussões – salientou o patrulheiro – Temos seis dias, talvez uma semana completa. E a noite está para cair então pararemos para levantar acampamento... — Sor Dalen Royce olhou para o céu de relance com desinteresse vivido em seus olhos – Acamparemos nada de vagarmos a noite e acabarmos perdidos — Marvel acabou retornando a cantar dessa vez escolheu Lobos nas Montanhas.
— Acampar mostrou-se uma péssima ideia da última vez – Respondeu Dalen Royce – Ou esquece-se de como perdemos dois terços de nossos homens na Escada dos Gigantes? Temos de continuar nosso caminho até Fortenoite em menos tempo.
— A noite sempre cairá e os cavalos precisam de descanso e nós também – falou George Serry — Isso acontece sempre todos os dias a esta hora. Você perde sua coragem no escuro, Dalen Royce?
— Então pararemos como deseja, milorde – respondeu Dalen Royce azedamente – Mas não venha culpar-me por não ter sugerido que continuássemos nossa viagem. Bem sabemos que faço como ordenado, afinal de contas foi em você o homem que Umber colocou no comando de nossa guarnição.
Depois daquilo Dalen Royce ficara mudo como era de seu feitio quando alguém conseguia vencer lhe em uma discussão. Era muito orgulhoso, isto é um defeito dele e que por sua vez George tinha notado com a convivência. Dalen estava sempre se vangloriando de seus feitos para seus amigos.
Era um pouco falso também, não com palavras e promessas, mas com expressões. George fingia não notar e fazer-se de ignorante, porém reconhecia quando alguém lhe faltava com a verdade e os anos de convivência o tinha feito perceber isso em Dalen. Como ás vezes ele está sorrindo, mas está com raiva por dentro. Perguntava se ás vezes ele parecia triste poderia estar na verdade repleto de alegria.
Mas Dalen era um homem com talentos. Era muito inteligente, passou alguns anos estudando mapas, livros e visitando regiões de Westeros antes de juntar-se a Muralha. Era por isso talvez ele tenha muitos amigos de outros castelos da patrulha da noite.
Era por conta desse fato que George tinha o tomado como seu navegador e segundo em comando. Muitos dos mapas que tinham em seu poder tinham sido feitos por Dalen Royce com a precisão de um cartografo armador, porém era melhor do que nada.
Por mais que fossem diferentes para George Serry era melhor que tivesse o outro patrulheiro como um aliado e amigo do que cultivar uma amizade. Já estivera com ele em batalha antes e sabia como o machado dele era eficaz contra os inimigos por mais que sua composição física pudesse dizer o contrário. Um machado é uma arma para brutos, mas se usado com fúria por um homem tomado pelo ódio é letal de qualquer maneira.
George conseguia detectar no conseguia detectar algo mais sob o orgulho ferido. Era possível sentir o gosto: uma tensão nervosa que se aproximava perigosamente do ódio quando Dalen fitava a prisioneira que trazia consigo. Harlen partilhava o desconforto do outro homem com quem estava discutindo anteriormente. Provavelmente ambos haviam encontrado enfim algo que concordassem e por sua vez o Serry notou que se tratava dele.
Quando vestiu o negro sabia que não seria amado nem adorado, a maioria deles não o conhecia e não gostavam de bons homens de honra como George Serry. Homens que prezam pela dignidade e honra geralmente tornam-se pedras nas botas ainda mais alguém com um intuído de liderança inflexível. Não podiam culpa-lo, tinha sido a educação que recebera para liderar quando ainda era herdeiro de seu pai.
Em seu passado, antes de ser um membro da Patrulha da Noite, George foi herdeiro da casa Serry. Seu pai era Lorde Hector Serry, o chamavam de O Leitor por conta de sua paixão por livros. O bom Lorde de Escudosul fora agraciado apenas dois filhos: George e sua irmã Talyssa. George pensou na irmã e isso lhe entristecia. Eles eram inseparáveis, ter um longe do outro era uma raridade enquanto cresciam.
George Serry era considerado o herdeiro perfeito, era um bom espadachim e se dava bem com as contas, sabia velejar em um barco e cuidar de um castelo. Seu pai o amava e o coração dele despedaçou-se quando tudo acabou acontecendo.
George era prometido a uma Bulwer e logo se casaria. Todos que o conheciam e o amavam, de nobres a plebeus com exceção de seu primo Alec que era invejoso e sempre se encontrou as sombras do primo mais velho. Anos tiveram de passar para que George conseguisse ver o que antes não via, fora cego em não ver os olhares de inveja que recebia do primo.
George seria Lorde de Escudosul enquanto Alec seria lorde de Porto Coral, uma pequena vila pesqueira. O pai de George sempre viu o sobrinho como alguém fraco e incapacitado para governar mesmo aquelas terras que tinha sido concedida para Lorde Joffrey Serry, irmão mais novo de Hector.
Com o passar dos anos a inveja se tornou raiva e a raiva virou um ódio. Alec queria tudo que o primo tinha e foi oque fez. Certa vez a Casa Serry de Escudosul foi até Porto Coral para uma visita ao o outro ramo da família. Fora aquela a chance que Alec precisou.
No meio do crepúsculo o jovem sedento em sua inveja pegou sua adaga e se dirigiu ao quarto de seu pai. Alec cortou a garganta do próprio progenitor e viu Joffrey morrer afogado no próprio sangue. Com o pai morto foi que se dirigiu ao quarto do primo George, guardou a adaga ensanguentada no meio das coisas do herdeiro que havia saído para uma cavalgada pelas praias de Porto Coral. O primo após ter feito o que fez retornou para o próprio quarto e dormiu calmamente.
Na manhã seguinte a noticia do assassinato se espalhou, os guardas vasculharam toda a pequena fortaleza e acharam a adaga ensanguentada. Foi um choque para todos, George tentou provar sua inocência, mas as provas apontavam para ele e Alec subornara o cavalariço que tinha preparado a montaria de seu primo na noite anterior. O garoto mentira sobre tê-lo visto na noite anterior e que o cavalo permaneceu o tempo todo em seu estábulo. Nunca soube quanto fora o preço que o valeu para que o garoto fizesse seu depoimento contra o herdeiro da Casa Serry.
Seu pai não seria capaz de manda-lo a forca. Talyssa acabou por conseguir convence-lo que mandasse o irmão para a Patrulha da Noite como forma de punição que não fosse à morte. E assim aconteceu, com um cavalo entre as pernas, sua espada na bainha e um pequeno punhado de ouro em uma bolsa de couro que George Serry se dirigiu para o Norte. O rapaz estava com grande tristeza no coração e certeza de sua inocência. Era apenas um garoto de dezesseis anos que tinha sido traído por seu próprio sangue.
Sempre foi um bom homem, mas a injustiça contra ele o mudou de uma forma. Geroge seguiu da Campina até o Norte indo a bordeis, que por sua vez eram locais que ele nunca frequentava, se entregando as bebedeiras até ficar bêbado. E dormir em seu próprio vômito e acordar com cães lambendo seu rosto. Tivera a sorte de encontrar com um corvo errante da Patrulha da Noite nas Terras Fluviais porque de nada mais lhe restava além da sua espada. Seu ouro acabara no último bordel e tivera de trocar sua montaria para uma noite decente numa estalagem e refeição quente.
Ele seguiu a viagem junto do corvo errante, seu nome era Karl Caron e levava prisioneiros das Terras da Tempestade para a Muralha. Foi quando finalmente aquela caravana chegou a Vila Toupeira, que lá George dormiu com sua última mulher. Não era uma prostituta que queria seu ouro, era apenas a filha do estalajadeiro local. Ela era uma boa moça e gentil, só que ele não esperava que aquilo gerasse uma criança no futuro.
Após uma longa viagem George se viu frente a frente com os portões de Fortenoite, treinou e virou patrulheiro. Um ano após de sua chegada à Muralha ele foi até Vila Toupeira indo ver se os rumores sobre selvagens nas proximidades da vila eram reais. Acabou não encontrando nada sobre selvagens, mas sim uma jovem com um bebê nos braços.
George no começo ele pensou que fosse alguma mentira, contudo as semelhanças dele com a criança eram grandes. A bebê tinha os seus olhos profundamente azuis índigo. O que logo fez com que o patrulheiro se afeiçoasse a menina e a aceitou como filha, o nome dela era Jeyne.
Como a criança havia sido feita antes dele ter feito seus votos, foi que o Lorde Comandante havia o deixado visitar a menina sempre que podia, sempre que George olhava para a criança ele via uma pouco de Talyssa nela. E se lembrava de sua antiga vida antes de usar o negro. Sua pequena Jeyne, o quão teria crescido desde a última visita? Encaminhava-se para se tornar uma moça e esperava que logo encontrasse um bom esposo, quem sabe já não o tivesse feito em sua ausência?
Esperava que não tivesse se envolvido com nenhum irmão de negro. Bem sabia que alguns homens da Patrulha da Noite mantinham relações não apenas com prostitutas, como com mulheres de boa família na Vila Toupeira.
E sua menina não merecia iludir-se com um homem que não poderia tomá-la como esposa em frente a uma árvore-coração porque já tinha proferido os votos e vestido o negro. Ela não cometerá os mesmos erros da mãe, desejava George com todas as suas forças. Talvez pedisse permissão para uma visita a sua menina assim que tivesse entregado a prisioneira selvagem ao lorde comandante.
— O Arryn nos disse para os encontrarmos e encontramos onde estão – disse Dalen para George se levantado na manhã seguinte – Tenho certeza de que era o grupo dela. Por mais que o Passo dos Guinchos seja um caminho melhor é na Escada dos Gigantes que um caminho mais adequado. Eu marquei o ponto do mapa onde acampamos e levando em consideração a distancia que estavam de nós.
— Temos uma dura cavalgada pela frente. – respondeu George — Não gosto desse tempo – Olhou para o céu cinzento — Se nevar, nós poderemos levar uma quinzena para regressar... – Harlen riu do comentário do seu superior – Alguma coisa que falei soou como uma piada?
— A neve é o melhor que podemos esperar aqui no Norte, George. – disse Harlen enquanto fazia carinho em seu falcão no ombro — Alguma vez viu uma tempestade de gelo, senhor?
Harlen fora um caçador antes de se juntar à Patrulha da Noite. Bem, na verdade fora um caçador furtivo. Os guardas de Hornwood tinham-no apanhado em flagrante nos bosques do próprio Lorde Alce. Estava carregando uma corça em seus ombros e retornava para casa junto do filho, conseguira ganhar tempo para que o garoto escapasse, porém acabou capturado. E Harlen apenas pudera escolher entre vestir-se de negro ou perder uma mão.
Quanto questionado por George porque não optara pela segunda opção, afinal manteria-se junto da esposa e filhos, a sua resposta foi: Eu seria um aleijado, onde estaria meu orgulho ao ser um peso para minha família no lugar de ser eu a prover o seu sustento?
Mas não era apenas aquilo e mais tarde quando conheceu-o melhor foi que o caçador lhe confessou a verdade. Fora visitado em seu calabouço por alguém a quem nunca tinha visto antes ou trocado qualquer palavra.
Lorde Lyonel Hornwood, herdeiro daquelas terras, veio falar em pessoa com o caçador furtivo e lhe convencera a vestir o negro sendo que em troca a família de Harlen não passaria fome. Compreendeu que era verdade quando sua esposa recebera uma vaca e um bezerro na pequena cabana em que viviam. Harlen vestira o negro e em troca sua família ganhou o sustento de que precisavam, parecia uma troca justa.
E George ganhara seu mestre de caça e batedor em batalhas. Ninguém conseguia se mover pela floresta tão silenciosamente como Harlen e os seus companheiros não tinham demorado muito tempo para descobrir seu talento. Porém, era fato de que deveria ouvi-lo quando falava sobre o tempo afinal era um dos poucos nortenhos em seu grupo.
— Partiremos então – falou George – Encontraremos alguma caverna ou outra espécie de abrigo que nos proteja da neve caso ela caia. De qualquer outra forma iremos nos manter em nosso caminho. — E a partir desse momento nada mais havia a fazer. A ordem fora dada e a honra os obrigava a obedecer.
Harlen seguiu à frente, com sua égua castanha escolhendo com cuidado o caminho por entre a vegetação rasteira. Os rastros dos cascos dos animais continuavam marcando-se na neve rasteira que acabou por cobrir o capim rasteiro.
Uma neve ligeira caíra na noite anterior, não chegara a ser uma nevasca de verdade como já tinham visto em outras execuções ao norte da Muralha. Os animais seguiam e faziam seu melhor pelo terreno da floresta. Em um solo irregular em que havia pedras, raízes e buracos escondidos por baixo de sua crosta de gelo. Irregularidades apenas na espreita dos descuidados e dos imprudentes acidentarem-se e algum cavalo perder uma ferradura ou quebrar a pata. Dalen Royce vinha logo atrás, com o grande corcel negro de batalha resfolegando de frio e impaciência.
O cavaleiro vinha com o seu machado de combate em uma das mãos pronto para golpear o que quer que possa surpreendê-los. Aquele cavalo era a montaria errada para uma patrulha, mas tentem dizer isso ao seu companheiro que se orgulhava do cavalo que o tinha acompanhado em seus últimos anos.
Não era o mesmo que viera montado quando se juntou a Muralha para vestir o negro, não aquele já tinha morrido na última primavera depois de servi-lo por toda uma vida. Este cavalo lhe tinha sido enviado pelo pai como um agrado pela colocação de Dalen como lorde patrulheiro de Portapedra.
O crepúsculo aprofundava-se. O céu sem nuvens tomou um profundo tom de púrpura com uma cor de rosa misturando-se ao laranja e depois se dissolveu em negro. As estrelas começaram a surgir. A lua minguante se ergueu como um sorriso.
George estava grato pela lua e as estrelas que os guiavam, as constelações era algo que tinha aprendido a ler graças a seu passado nas Ilhas Escudo. Um ilhéu sabe como navegar, como manejar velas e entender a orientar-se pelo vento e decifrar os mistérios de se navegar pelo mapa estrelar. Em algum lugar nos bosques, um lobo uivou.
Harlen levou sua velha castanha até para baixo de uma velha e retorcida árvore de pau-ferro e desmontou. O caçador olhou para o grupo que se aproximava e iam parando suas montarias ao redor do patrulheiro que olhava ao redor observando seu falcão que seguia em seu voo.
— Por que parou? – perguntou Dalen.
— É melhor acendermos as tochas – disse Harlen de Hornwood – A trilha nos levara logo depois daquela colina e então seguiremos em direção ao sul da mesma forma que temos feito. Mas a noite é escura e a floresta pode nos surpreender com o que esconde em suas sombras.
George fez uma pausa momentânea e virou seu cavalo em um meio-circulo para fitar as faces de seus companheiros. Por fim voltou-se para frente do caminho que tinham de seguir. Os olhos presos na distância e com o rosto pensativo calculando se valeria apena continuar seguindo mais. Faltavam apenas sete dias para chegarem a Muralha.
Um vento frio sussurrou por entre as árvores. E ele tinha apenas treze companheiros de viagem isso se contasse com a selvagem que tinham capturado. O grande manto de zibelina agitou-se nas costas como uma coisa semiviva.
— Há alguma coisa errada aqui – murmurou Gregor Ryswell pela primeira vez em muito tempo sem falar. O jovem nascido do ferro lhe sorriu cinicamente.
— É mesmo? – respondeu Goodbrother – Além de estarmos seguindo ordens de um reles caçador furtivo?
— Cale-se, e tente sentir também. Não sentiu? – perguntou Gregor Ryswell insistindo – Escute a escuridão. Sinta os cavalos, eles também conseguem perceber que algo de estranho está para acontecer. A floresta fala e está querendo nos dizer algo... – ele olhara para George — Os animais sentem e querem nos avisar. Não podemos prosseguir por esse caminho, milorde. Temos que mudar o trajeto.
— Estão cansados e com frio – disse Will Turner – Apenas isso.
George colocara a mão no dorso do animal que montava e vira o coração acelerado, sim. Eu consigo sentir o que você está tentando nos dizer, pensou George. O patrulheiro sentia um frio lhe percorrendo a própria espinha. Em seus quinze anos a serviço da Patrulha da Noite, nunca sentira tanto medo. O que era aquilo? O que era aquele frio que sentiu que estava tomando conta de si? Olhou para seus companheiros, Dalen parecia ter compreendido também.
— Vento. Ruído de árvores. Um lobo. – falou Dorian de Lagoa da Donzela — Que som te apavora tanto, Greg? – como este não respondeu foi que resolveram seguir caminho. Tommen Reed descera da sela e ajudara a Harlen a fazer fogo para as tochas.
O Reed passou uma tocha para o tyroshi e entregou a outra para escudeiro nortenho que ainda parecia desconfiado. As mãos de Gregor tremiam e a chama iluminava seu rosto pálido bem como os olhos assustados. George sabia da fama que o garoto tinha de ser louco, diziam que o viam falando sozinho as vezes ou então seus ataques de humor que oscilavam.
Mas o rapaz tinha um bom coração e não havia melhor pessoa para cuidar de cavalos sendo habilidoso fosse com a limpa de cascos e troca de ferraduras, crinas embaraçadas quanto para alimenta-los e prepara-los para viagem e longos passeios. Sem falar na capacidade que tinha de escolher os melhores cavalos para cada tarefa tendo sido quem selecionara a maioria dos animais para aquela expedição.
— Fogo é bom, muito bom. Há alguns inimigos que uma fogueira manterá afastados – disse Gregor a seus companheiros – Ursos, lobos gigantes e… — Ele parou naquele momento de falar e desviara o olhar para o lado – E mais outras coisas…
O capuz de Gregor engolia seu rosto, mas George conseguia ver a cintilação apreensiva nos olhos que se fixavam na floresta. Por um momento, temeu que o escudeiro pudesse dar meia-volta no cavalo e correr pelo caminho oposto ou mesmo em outra direção que não aquela que planejavam seguir. Era fato que Gregor já tinha tentado desertar outras vezes, mas por sorte foi que George, Marvel e Harlen estavam por perto para mantê-lo fiel a seus votos. Eles o abraçaram e o afastaram da influencia de terror que sofria nas mãos de Richard Bolton.
— Indique o caminho – pediu George para Harlen após receber sua tocha.
— Como deseja – disse Harlen. O caçador terminava por entregara mais uma para Dalen e guardava a última para si mesmo. – Por aqui – indicara com um aceno de mão enquanto retornava a montaria e começava a traçar novamente o caminho.
Harlen teceu uma trilha através de uma relva alta, depois subiu o declive da colina baixa onde encontrara uma árvore caída e tiveram de desmontar para que pudessem passar por baixo, tratava-se de uma árvore sentinela que tombara.
Continuaram seguindo o caminho sob a fina queda de neve que começara a cair sobre eles enquanto seguiam. O chão não estava dos melhores, era um solo úmido e lamacento que seria capaz de fazer com que os equinos escorregassem foi assim que alguns deles desmontaram e seguiram em frente com as tochas iluminando o caminho. Novamente o terreno era traiçoeiro com suas rochas e raízes escondidas, prontas para provocar tropeços.
A expedição não fez nenhum som enquanto subiam apenas era escutado o som de passos e qualquer conversa que tivessem de ter era feitas por sinais. Atrás de si ouvia o suave roçar metálico das espadas e machados daqueles que agora as empunham, havia soar do esmigalhar de folhas a cada passo e pragas murmuradas quando galhos se prendiam à espada e puxavam os mantos de peles dos patrulheiros que vinham na retaguarda.
A grande árvore estava mesmo no topo da colina onde sabia que estaria, era ali que tinham separado os grupos e cada um deles seguido por um caminho diferente. Donnel Umber e sua expedição seguindo em direção ao Passo dos Guinchos enquanto o grupo de George iria pelo caminho da Escada dos Gigantes. Aproximaram-se da árvore com os galhos inferiores não mais que cinquenta centímetros acima do solo e corvos empoeirados ali que levantaram voo assim que os viram se aproximar.
— Parece que não somos os únicos que retornarmos – disse Goodbrother, porém George fez um sinal para que se calasse – O que houve?
O luar brilhava acima da clareira, sobre as cinzas no buraco da fogueira de muito tempo atrás e sobre o abrigo coberto de neve, sobre o grande rochedo e sobre o pequeno riacho meio congelado. Tudo estava ali como tinham deixado quando partiram em missão, porém algo se aproximou e foi então quando viu as figuras saindo das trevas.
O coração parou em seu peito quando fitara aqueles que se aproximavam do outro lado. Por um momento, não se atreveu a respirar achando que eram apenas selvagens. Porém, alguns deles vestiam os mantos negros da Patrulha da Noite.
— Quem vem lá? – perguntou Dalen Royce preparando o machado. Os bosques responderam: um quebrar de galhos e o correr das águas geladas do riacho minúsculo que corria para o leste. E o ruído de apenas o crocitar dos corvos que sobrevoavam agora a clareira. As silhuetas não faziam som algum.
George levou a mão a espada ainda na bainha e puxou enquanto fitava ao seu redor com um movimento com o canto do olho. Sombras pálidas que deslizavam pela floresta, nem mesmo os selvagens poderiam ser tão silenciosos. Virou a cabeça, viu de relance uma sombra branca na escuridão e depois ela desapareceu em meio a escuridão ingressando cada vez mais até sumir.
Galhos agitaram-se gentilmente ao vento, coçando uns aos outros com dedos de madeira enquanto os homens da Patrulha da Noite desciam de suas montarias e iam formando instintivamente um circulo ao redor da selvagem prisioneira. Cada um dos patrulheiros encontrava-se de costas uns para os outros. George abriu a boca para dar uma ordem, mas as palavras pareceram congelar na garganta e tudo que saiu de sua boca foi uma densa nevoa de frio.
Mas ao vê-los se arrastando na direção deles pode notar braços faltando em alguns e como outros andavam mancando ou com ferimentos expostos e armas ainda atravessadas. Mesmo o crânio de um deles encontrava-se afundado e outro não tinha maxilar e gargantas cortadas ou com olhos sangrentos e vazios. E os que possuíam os olhos intactos, estes possuíam as pupilas brancas como o inverno.
...
Fortenoite
Young Jon estava novamente em Fortenoite sentado a mesa do Lorde Comandante e o resto das autoridades. Naquela noite houvera um novo discurso em honra dos irmãos caídos em batalha. Foi um brinde feito a em honra de Ron Umber e seus companheiros de negro abatidos. Um discurso em que o Velho Falcão exaltou os feitos de seu Primeiro Patrulheiro e canecas foram erguidas junto do grito de assim termina em suas palavras.
— Ron Umber veio até nós de Última Lareira — disse Arthurus Arryn — Era um grande homem não apenas em altura como em sua honra e coração. Ron fez se seu juramento em frente aos deuses antigos e serviu ao nosso lado por duas décadas de sua vida. Nosso Primeiro Patrulheiro deu sua vida e a sua honra à Patrulha da Noite. — Ergueu sua taça de vinho quente — E agora terminou a sua vigia.
— E agora terminou sua vigia — responderam os irmãos de negro erguendo suas taças assim como o Lorde Comandante.
Enquanto a maioria do salão estava mergulhado em conversas foi que Arthurus Arryn veio a ter com Young Jon Umber em particular algumas palavras. Ambos se levantaram e deixaram o salão juntos indo para o lado de fora para as passarelas que cruzavam o pátio principal.
— Gostaria de desejar-lhe meus pêsames pessoalmente como voltamos em silêncio da Floresta Assombrada – falou Arthurus Arryn – Ron era um bom primeiro patrulheiro, um braço direito e um amigo querido. Sinto a dor dessa perda como a de um irmão por mais que o sangue que corra nas minhas veias não seja o mesmo dele. – Então depositou a mão no ombro de Jon – Meus sentimentos estão com você e a sua família.
— Obrigado, senhor. – disse Jon – Eu creio que meu pai apreciaria suas palavras. Ronnel era como irmão para meu pai enquanto cresciam juntos em Última Lareira.
— Posso enviar uma carta a seu pai se não desejar fazê-lo certamente eu o conhecia melhor do que você – respondeu Arthurus Arryn – Chegamos quase na mesma ocasião. Éramos dois velhos de guerra que tinham decidido vestir o negro por razões semelhantes...
Jon sabia as razões que tinham feito Ronnel se juntar a Muralha. O Grande Ron tinha perdido toda a família, os seus dois filhos pereceram na guerra defendendo a Última Lareira de ataques dos aliados Boltons.
Alguns anos depois a esposa o abandonara depois que a filha foi sequestrada pelos selvagens. Uma história de vida difícil e trágica demais para um homem normal suportar mesmo um grande como era normal dos Umbers. Mas havia um antigo ditado que se dizia a respeito dos gigantes da Última Lareira. Sobre como seus corações eram enormes assim como eles próprios eram.
Grey Jon tinha tentado convencer o primo a ficar e lhe servir como o cavaleiro que era. Grande Ron poderia ser seu mestre-de-armas, castelão ou mesmo o capitão da guarda de Última Lareira.
Só que Ronnel desejara vestir o negro em luto pelas suas perdas. Não sabia o que tinha de semelhante na vida dele com a de Arthurus Arryn. Tudo que se sabiam sobre o Velho Falcão eram lendas, a verdadeira causa que o fizera trocar a coroa pelo manto negro era um mistério para a maioria dos homens.
— Nós dois perdemos pessoas que amávamos – disse Arthurus Arryn – Ronnel perdeu os filhos e eu perdi minha esposa. Nossa dor e no caso dele a raiva... – ele fizera uma pausa — Isso fez com que decidíssemos vir para cá passarmos o resto de nossos dias defendendo a Muralha dos selvagens.
— Então é verdade o que dizem – disse Jon – De que abandonou seu reino e sua família por conta do luto de perder a sua mulher amada – O velho assentira infeliz.
— Eu me casei duas vezes em minha vida, rapaz. – disse Arthurus Arryn – A primeira vez por obrigação quando meu pai me fez ainda um príncipe desposar uma jovem donzela como esposa. Tivemos filhos e vivemos de bom grado, porém não pude ama-la de verdade. Meu pai falecera, eu assumi meu trono e depois de três décadas casado foi que eu enviuvei pela primeira vez...
— Meus filhos já eram homens feitos e me deram meus netos. Mas eu ainda era um homem e apesar de velho me apaixonei por uma mulher mais jovem do que eu. – continuou Arryn – Eu me casei pela segunda vez por amor e não podia imaginar que poderia ser mais feliz. Eu amei minha esposa até o fim trágico dela em me dar uma filha... – Ele fez uma pausa – Eu lembro que eu não conseguia pega-la nos braços.
— Não podia olhar para minha menina sem sentir raiva dela por ter os mesmos olhos da mãe. – continuou Arthurus Arryn — Sem sentir que ela devesse viver quando minha amada tinha ido... – ele fez uma pequena pausa — Como um pai pode pensar algo assim da própria filha? — Jon ficara em silêncio sem saber o que dizer.
— O Ninho da Águia me fazia lembrar-se dela e dos momentos bons que tivemos um ao lado do outro. – continuou Arthurus Arryn suspirando — O peso de ser um rei começara a ser sentido nesses ombros cansados e eu simplesmente tive de deixar ir... Eu passei a minha coroa ao meu primogênito e lhe deixei a cargo meu reino e minha filha mais nova. Alysanne era seu nome como a mãe havia escolhido caso fosse uma menina.
— Desculpe-me por atrapalha-lo com isso, rapaz. – Falou o comandante dirigindo-se com o olhar para Jon – São apenas os devaneios de um velho cheio de arrependimentos em sua vida.
— O senhor e sua filha... – disse Jon então parando antes de terminar a frase – Desculpe-me, eu não deveria perguntar algo assim. Seria indelicado de minha parte insistir nesse assunto... Sinto muito.
— Eu e Alysanne passamos a nos corresponder assim que ela tinha idade para escrever – disse Arthurus Arryn – E eu percebi o quanto eu tinha sido um péssimo pai para ela me afastando dessa maneira. Mas os votos já tinham sido feitos não havia quando voltar atrás... – ele fez uma pausa — Ela morreu tem quatro anos sem que eu pudesse vê-la e abraça-la de verdade. Sem que eu pudesse pedir desculpas.
— Ela deveria saber – disse Jon – O quanto o senhor a amava.
— Rapaz, você já amou alguém tanto? – disse Arthurus Arryn – Uma mulher que não seja sua mãe ou irmã. Existe alguém que reconhece como a sua amada e que seu mundo não seria o mesmo sem essa pessoa – o velho encarou o fundo dos olhos azuis do ruivo — Você já sentiu algo assim antes?
Ele fez uma pausa e o rosto que viera a sua frente fora Brie. Jon a amava tanto quanto achava que poderia e seu coração tinha se quebrado só que mesmo assim os estilhaços tinham se reunido e ainda batiam mesmo por um amor que o ferira. Talvez estivesse sendo um tolo por ainda ama-la, mas mais tolo seria se deixasse um sentimento daqueles ir.
— Sim – disse Jon – Mas ela não me pertence e está tão longe quanto nós estamos das estrelas – E os olhos do ruivo fitaram o céu extremamente estrelado do Norte – É a princesa – então fitara o Velho Falcão – Seu nome é Brie.
— A princesa sequestrada? Sinto muito em saber disso, Jon. – disse Lorde Arryn parecendo verdadeiro em suas palavras – Não queria ser eu a lhe dar essa noticia, mas tem de ser assim.
— O que está querendo dizer com isso? – disse Jon.
— Devido ao que aconteceu – disse Lorde Arryn – As perdas que tivemos nessa expedição não haverá uma segunda expedição em busca da princesa. Eu estarei escrevendo ao Rei Brandon e anunciando que a Patrulha da Noite fez o possível para resgatar a filha e falhamos. – ele encarou o jovem de cabelos ruivos ao seu lado que parecia em choque – A sua amada vai ser declarada morta.
— Eu não posso aceitar – respondeu Jon – Por favor, não o faça apenas é o que lhe peço. — Aquilo simplesmente não podia ser verdade, pensou Jon, era uma mentira tinha que ser.
— Não há o que ser feito, meu rapaz – disse Arthurus Arryn – Perdemos homens demais para continuarmos insistindo nessa busca. Perdi meu braço direito no comando da Muralha e não posso deixar de ignorar os números que caíram nessa expedição.
— Não pode desistir, milorde. – disse Jon – É uma filha que nunca mais irá ver seu pai. – Ele gritava — Uma garota que se perdeu e não voltara para junto de sua família. Dê que vale a historia que acabou de me contar sobre como sente a falta de Alysanne se quando lhe pedem para salvar uma menina no primeiro obstáculo desiste?
— Reúna suas coisas e vá para casa – disse Arthurus Arryn – Vá para junto de seu pai e lute ao lado dele nessa guerra civil que se enfrentam os reis nortenhos. Será de mais utilidade ao lado do seu pai do que aqui na Muralha, tê-lo com nós foi um grande prazer. Porém, não pode mais permanecer como nosso hospede.
— Estou sendo expulso? – questionou Jon.
— Não, apenas sugerindo que vá – disse Arthurus Arryn se virando de costas para o rapaz – Se permanecer ao nosso lado acabara por sentir-se tentado a nossa causa. E por mais que saiba que precisamos de espadas valiosas e um pouco de sangue nobre em nossa irmandade, ainda assim... – Ele voltou-se para o ruivo — Meu coração de pai sabe que não é do desejo de nenhum pai perder seu herdeiro.
— Você não é meu pai – disse Jon.
— Mas conheço bem quem é – disse Arthurus Arryn – Pedirei para que lhe preparem suas coisas – O Velho Falcão colocou as mãos sobre os ombros do rapaz o consolando pela noticia enquanto ele permanecera em silêncio encarando os próprios pés.
— Não pode me enviar de volta se estiver vestindo o negro – respondeu Jon erguendo o olhar – Soube que precisa-se apenas da presença de um irmão juramentado para que me presencie fazer os votos em frente da árvore-coração e será fácil de encontrar alguém que aceite. Se for um irmão da Patrulha da Noite então poderei permanecer e irei na próxima expedição que fizer... – Ele olhou para o velho – Porque mente para mim, milorde. Mente quando diz que não irão atrás da princesa quando sei que irá.
— Sim, nós iremos – disse Arthurus Arryn – Mas não com você, Jon. E não permitirei que vista o negro – ele pegou o jovem pelas laterais da cabeça e o fez encara-lo – Seu pai o ama e quer ao seu lado e a vida na Muralha não lhe cairá bem, garoto. É jovem e tem toda uma vida pela frente, enquanto homens que se vestem de negro nunca terão nada para deixar para trás. Nós somos casados com nosso dever e é a única que nosso coração pertence enquanto o seu já tem um rosto, um nome e um titulo.
— Eu a amo o suficiente para querer vê-la apenas bem – respondeu Jon – Não me importo de tê-la se a princesa estiver em segurança junto dos seus. Se o preço que tenho que pagar é fazer um juramento então o farei e cumprirei com minha honra.
— Não, eu sei que será infeliz vestindo o negro não é um homem vivido é apenas uma criança tola apaixonada não importa quanto tenha de altura ainda assim é jovem demais para compreender o que nossa irmandade significa. Jon, alguma vez perguntou a si mesmo por que é que os homens da Patrulha da Noite não têm esposas nem geram filhos? – perguntou Arthurus Arryn.
— Não – disse Young Jon Umber.
— Para que não amem – respondeu Arthurus Arryn – pois o amor é como um veneno para sua honra e carrasco do dever. — Aquilo não lhe soava correto, mas Jon permaneceu em silêncio. O homem idoso pareceu sentir suas dúvidas.
— Diga-me, Jon – disse Arthurus Arryn – Suponhamos que chegará o dia em que sua amada loba tiver de escolher entre a honra e aqueles que a amam e ama de volta – ele encarou o ruivo – Então o que a princesa fará?
Jon hesitou. Queria dizer que Brie Stark nunca se rebaixaria a desonra, nem mesmo por amor, porém quando olhava dentro de si uma pequena voz lhe segredava: A honra dela foi colocada entre vocês dois. O dever dela como princesa os separou e o seu amor não foi o suficiente para fazer-se correspondido.
A princesa poderia ama-lo se tentasse, mas o cumprimento de seu dever com sua família e com o pai lhe fazia com que se afastassem. Ela poderia ir contra a honra em favor de sua família, mas não seria capaz de ir contra a família ou seu dever em favor de seu amor.
— Seu silêncio já denuncia, meu garoto – disse Arthurus Arryn – Quando olha no fundo de seu coração compreende o que quero dizer. Sua princesa compreende mais de honra e dever do que você, Jon. Porque a ela foi ensinada dessa forma porque quando se usa uma coroa você passa a viver pelo que ela representa e não por si mesmo. Decisões e escolhas pesam mais e às vezes não podemos ouvir nosso coração – Ele suspirou – Uma coroa e um trono nada mais são do que um cadeado e uma gaiola que prendem aquele que usa e o fazem com que tenham de pensar antes nos outros do que em si.
— Malditos seja quem pensam o contrário, que pensem que uma coroa lhe fará um deus perante os homens. – continuou Arthurus Arryn — Que um reino deve amar e idolatrar seu rei como se não fosse feito de carne e sangue como todos. Eu não escolhi muitas coisas quando jovem, meu rapaz. Na sua idade já me chamavam de Rei do Vale e das Montanhas, eu casei-me cedo pelo meu dever com uma mulher que não amava. Precisei ficar velho para poder dar-me ao luxo de fazer minhas escolhas por conta própria porque achei que não viveria tanto e não queria uma vida amarga de arrependimentos.
— Compreendo sua hesitação em pensar a respeito – disse Arthurus Arryn — A maioria de nós não é tão forte. O que é a honra comparada com um amor verdadeiro e reciproco? O que é o dever contra sentir um filho recém-nascido nos braços ou abraços calorosos dos irmãos? Ou as boas memórias que possui ao lado dos pais que um dia nos deixarão?
— Um juramento sem ser dito de coração é vazio e fere como uma espada sem cabo – Disse Arthurus Arryn – Nossa voz é poderosa. As palavras são poderosas demais para serem jogadas ao vento sem serem sentidas antes. Somos apenas humanos, e os deuses nos moldaram para o amor enquanto o homem criou o dever e honra para nos guiar.
— Esta é a nossa grande glória e a nossa grande tragédia. – continuou Arthurus Arryn – Nossos nomes serão esquecidos e nosso legado não será lembrado. Se é um garoto jovem sua semente nunca poderá germinar e seu coração se manterá vazio sem nenhum amor que não seja aquele que conheceu no passado. É uma realidade triste e difícil optar pelo dever e honra, o manto negro é visto por muitos como uma punição e preço por crimes que cometeram. É visto como o luto por toda uma vida que se acabou e uma nova que se inicia... – Ele suspirou – Mas é um recomeço para aqueles que se quebraram. Para aqueles que se sentiam incompletos e perdidos... – Ele voltou-se para o ruivo.
— Os homens que criaram a Patrulha da Noite sabiam que só a coragem defenderia o reino da escuridão do Norte. – disse Arthurus Arryn – Eles sabiam que não podiam ter as lealdades divididas que lhes enfraquecessem a determinação. Por isso juraram não ter esposas nem filhos. Isso não significa que não tinham quem os amasse, muito longe disso. – Ele olhou – Muitos dos homens que aqui servem têm famílias ou tinham. São irmãos e irmãs para quem ainda escrevem. Mães que lhes deram a luz ou pais que lhes deram nomes diante de um septo ou árvore-coração. Chegavam de uma centena de reinos conflituosos e sabiam que os tempos podiam mudar, mas os homens não mudam.
— Por isso juraram também que a Patrulha da Noite não participaria das batalhas dos reinos que guardava. – continuou Arthurus Arryn — Mantiveram o juramento. Sempre foi assim, ao longo de anos incontáveis. É este o preço da honra. É o que significa ser leal aos deveres que assumiram. É esse o peso de um juramento diante dos deuses sejam novos ou antigos.
— Um covarde pode ser tão bravo como qualquer homem quando não há nada a temer. Quando não teme por uma esposa viúva ou por filhos órfãos – continuou Arthurus Arryn — E todos cumprimos o nosso dever quando ele não tem um preço. Não é fácil então seguir o caminho da honra. Não é fácil seguir com o próprio dever. Mas, na vida de todos os homens chega um dia em que não é fácil, um dia em que ele tem de escolher. E esse dia não chegou para você ainda, Jon.
— Meu pai escolheu por mim a minha vida toda – disse Jon – Não optei por herdar algo que não me pertence. Sempre fui privilegiado como o herdeiro quando na verdade meu sobrinho que deveria ser quem teria essa honra – Ele encarou o velho – O filho de um irmão que não conheci, mas que sinto que roubei dele seu legado. Eu entendo de honra e dever, milorde.
— Não, você acredita que compreende – falou Arthurus Arryn – Um dia espero que assuma a posição que seu pai ocupa e compreenda o que significa ter terras para zelar um povo para proteger. Você tem escolhas para fazer, meu rapaz. Opções melhores do que viver pela Muralha e arrepender-se depois. Não faça do manto negro seu luto.
— Mas o senhor o fez – observou Jon.
— Um homem que já viu mais invernos que pode contar nos dedos das duas mãos – disse Arthurus Arryn – Um homem que casou-se a primeira vez por dever e segunda vez por amor. Um homem que teve o prazer de ter filhos nos braços e vê-los tornarem-se homens e mulheres... Um homem que viveu plenamente e que mesmo assim detém arrependimentos. – Ele olhou para o ruivo – Arrependi-me de vestir o negro no momento que o navio da minha filha naufragou nessas águas próximo de Atalaialeste-do-Mar. Arrependi-me de não ter visto pessoalmente e não ter a visto crescer ou mesmo escutar sua voz chamando-me de pai.
— Foi naquele momento que compreendi, meu rapaz. Que o coração de um corvo deve servir inteiramente a Muralha e ao juramento. – continuou Arthurus Arryn — Foi naquele momento que compreendi que não era mais um rei, nem mais um homem... – Ele olhou para adiante para o pátio de Fortenoite e os irmãos de negro que transitavam pelo pátio principal naquela hora da manhã – Eu sou a espada na escuridão. Sou vigilante nas muralhas. Sou fogo que queima contra o frio, a luz que traz consigo a alvorada, a trombeta que acorda os que dormem, o escudo que guarda o reino dos homens.
— Sou tudo isso, Jon. – continuou Arthurus Arryn — Mas não posso ser mais pai ou marido. Não posso mais amar uma mulher que não seja aquelas que perdi... Não posso mais ver os filhos de que abdiquei. Não posso segurar um neto recém-nascido nos braços porque isso me quebraria a alma. – Ele encarou o herdeiro da Última Lareira – Meu coração carrega muita coisa do passado das décadas que vivi, porém meu passado me impulsiona para meu futuro e faz com eu viva o presente.
— Vá para casa e lute a guerra de seu rei ao lado de seu pai. Seja aquilo que esperam que você seja. — continuou Arthurus Arryn enquanto se afastava do rapaz — Entenda sobre dever e honra e quem sabe quando retornar para nós na próxima visita compreenda melhor e veja que um juramento são mais do que palavras jogadas ao vento.
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