North War – Interativa
32 Capitulo 31
Notas iniciais
Winterfell
As dobradiças do quarto estalaram quando a porta abriu-se e o jovem herdeiro de Karhold adentrou nos aposentos. O lugar encontrava-se na semiescuridão se não fosse pela lareira acesa em um canto do quarto. Os olhos do rapaz por fim encontraram quem estava ansioso por ver.
— Me disseram que estava acordado – falou Edwyn.
— Primo – murmurou com voz rouca. Possuía profundos olhos azuis e uma boca feita para sorrisos, mas agora não sorria. Tinha um curativo envolvendo o dorso nu e estava meio sentado. As ataduras estavam avermelhadas no local onde fora ferido. – Com calma, Ed... Vem cá — Edwyn o abraçou com toda a força fazendo o possível para não colocar tanta pressão sobre o ferimento do outro.
— Sua dor é minha, meu primo – disse Edwyn quando se separaram. – Quando soubemos o que aconteceu não sabe o quanto nós ficamos preocupados. O príncipe organizou um grupo de busca e eu participei, mas retornamos sem que nossos esforços fossem recompensados. Lyonel Hornwood… — Ele fez uma pausa – Parece ter sido engolido pela terra. Mas está ferido assim como você, meu primo. Sem o tratamento adequado acabara por morrer na floresta por uma infecção.
— E isso me trará a honra de volta? Saber que aquele canalha conseguiu esconder-se o suficiente bem para escapar. Não, aquele lá não irá morrer é ardiloso e astuto como uma raposa de alguma forma irá sobreviver – disse Tyr em tom cortante. A ferida ainda era recente demais para palavras mais suaves e então olhou para o outro com certo amargo nas palavras – Queria tê-lo matado por mim mesmo naquele momento.
— Eu fui um tolo egoísta e apenas trouxe para mim desgraça, olhe para mim e veja o que fiz comigo mesmo. – continuou Tyr — Ferido em combate... – Tocou as ataduras — E eu esperando encontrar uma morte rápida nas mãos de um inimigo digno. Lembra-se do que lhe contei em Lago Longo? Como um homem poderia sucumbir em uma cama por conta de um ferimento intratável em delírios. Eu não serei um desses.
— Sim, eu sei que não será. Encontra-se estável... – respondeu Edwyn – Meistre Aston nos informou que conseguiu estabilizar o sangramento e que tratou de seus ferimentos. Que usou vinho quente e água salgada além de balsamo e algumas ervas em natura. Se permanecer sobre seus cuidados sobreviverá para retornarmos a Karhold juntos...
— Não estarei em uma cama pelo resto da guerra – Respondeu Tyr com irritação – O ferimento infeccionara, mas ainda assim eu irei empunhar minha espada em batalha. Se é para cair que seja em batalha e não como um infeliz morrendo aos poucos um dia de cada vez... – Ele fez uma pausa – Eu me lembro de minha mãe — Edwyn era novo demais para recordasse da mãe de seu primo sendo que está falecera a tanto tempo – Lembra-se dela, Ed?
Lady Isobel Mormont, sobrinha de Lady Maege. Ela tinha sido uma moça bonita e bem humorada pelo que as pessoas que a conheceram contavam. Dizem que manejara um machado com destreza, porém que o aposentara no momento em que se viu como mãe.
Isobel era filha de Jorah Mormont, o irmão mais moço de Lorde Jonas. Isobel tinha sido casada com Thorne Karstark, o irmão gêmeo de Lorde Torrhen. Uma mulher que tinha por pai um segundo filho e fora casada com um segundo filho. Tinha sido dela que Tyr herdara os cabelos dourados como um legado vindo de uma avó das Terras Ocidentais.
— Ela perecera por uma febre muito forte – disse Tyr – Por conta do frio que o inverno trouxe aquele ano. Fazia frio lá fora, mas mesmo assim sua pele queimava e eu a via suar como se estivéssemos no auge do verão. – Ele encarou o primo — Ela resistiu bravamente por quase uma semana, mas no fim de tudo acabou sendo derrotada.
Geralmente homens chamam pela mãe em seus delírios, mas Tyr parecia muito são em suas palavras para ser confundido como tal. Porém, eram raros os casos que o cavaleiro de Karhold citava os pais a muito mortos. Era como se tivesse tomado Torrhen e Alais Karstark como aqueles a desempenhar tal papel, ao menos era assim que o primo sempre enxergou agora o via falar sobre a mãe e não sabia o que pensar. Pela primeira vez que o via tocar em um assunto daqueles que deveria doer-lhe ainda mesmo depois de tanto tempo.
— Eu não quero terminar meus dias numa cama como minha mãe – disse Tyr – Sei que os ferimentos irão piorar seu eu permitir-me a empunhar uma espada mais uma vez contra nossos inimigos. Por mais que uma parte de mim deseja poder permanecer aqui e me manter vivo o contraria a minha parte de guerreiro que grita para ir para a batalha mesmo que esteja ferido e consertar os erros que cometi.
— Que erros? – perguntou Edwyn.
— Se eu não tivesse ido atrás de Lyonel Hornwood para tentar mata-lo ou então tivesse pensado em fazê-lo meu prisioneiro – disse Tyr – Poderia ter vindo a Winterfell e reunido alguns cavaleiros e partir com eles para desvendar onde aquele desgraçado estava acampado com a sua corja. Teríamos um trunfo para essa guerra... – Ele grunhiu — Mas fui um egoísta. Deixe-me levar pelo orgulho ferido e pensando que eu deveria fazer o que não pude a três anos que era dar um fim à vida dele.
— Matá-lo não fará diferença – disse Edwyn ao primo – Rod está morto e não irá voltar a reviver porque seu assassino foi assassinado. Uma morte pela a outra pode parecer digna se colocada numa balança, mas não é o que funciona. Um coração cego pela vingança de nada vale e o que está no passado não deve ser desenterrado.
— Não odeia Lyonel pelo que fez a seu irmão? – disse Tyr – Ele nos tirou alguém que amávamos.
— Eu o odeio pelo que fez sim – respondeu Edwyn – Mas meu irmão pereceu lutando em combate pela nossa família e nosso lar. Pelo que era nosso e saber que ele teve um fim honrado é o suficiente, não consegue ver do mesmo jeito que eu vejo? Rodwell não precisa ser vingado porque foi o caminho que ele tinha que traçar.
— Ele morreu por um maldito rio – disse Tyr – Porque as águas foram desviadas por ordem daquele sujeito arrogante. E no final de tudo tivemos o rio de volta, porém a que preço foi pago, Ed? Trocamos água por sangue.
— Não foi justo – disse Edwyn – Não deveria ser assim, mas acabou sendo. Eu amo meu irmão e sempre o amarei, sinto que estou vivendo algo que era para ser dele como se não merecesse ser o herdeiro de Karhold. E na maioria dos dias é difícil para mim...
— Eu amava Rod como se fossemos irmãos – disse Tyr – Ele me ajudou nos momentos em que eu achava que podia resolver tudo sozinho. E esteve comigo sempre que eu precisava mesmo nos momentos que deveria deixar-me para que me desse mal sozinho.
— Estava lá para incentivar-me a ser um cavaleiro e foi meu companheiro em minhas melhores historias. — continuou Tyr — Eu não pude salva-lo e nunca me perdoarei... – Ele voltou o olhar para o primo – Rodwell não deixou que eu lutasse por Karhold quando Lyonel desafiara para um duelo singular. Seria a linha final de um confronto e não poderíamos perder... – Ele tocou as ataduras — Os dois herdeiros de ambas as casas cruzando espadas deve ter sido uma visão linda.
— Você não estava lá – Lembrou-se Edwyn – Tinha estado ferido por uma batalha anterior.
— No ataque a Vila de Hornwood – concordou Tyr – Eu fui atingido por um arqueiro que acertou meu braço – o loiro completou apontando para a cicatriz – Apenas com um braço bom ainda assim me ofereci a seu irmão para lutar por nosso lado.
— Ele recusou e pediu-me para que buscasse Lorde Torrhen que estava defendendo a fronteira de nossas terras – continuou Tyr com arrependimento em sua voz – E foi assim que eu obedeci apenas para recolher o corpo de Rod que repousava as margens do Rio Karlon ao lado de meu tio. Eu menosprezei os talentos para espada de Lyonel Hornwood e paguei caro por isso – Voltou a tocar as ataduras – Duas vezes.
— Nós iremos encontra-lo – respondeu Edwyn.
— O desgraçado não irá longe sem sua espada – disse Tyr apontando para a lâmina disposta ao lado da lareira e foi então que o rapaz notara. Edwyn caminhou-se ao encontro do objeto e tomou-o em mãos podendo observar com atenção, tratava-se de uma espada curta e leve cujo cabo tinha sido revestido com couro enquanto a guarda era curvada tendo detalhes forjados em relevo que lembravam os chifres de um alce.
O frio que subira em sua espinha lhe gelara a alma, aquela era a espada que pusera um fim na vida de seu irmão e agora estavam em suas mãos. Era uma sensação estranha sem conseguir colocar palavras nos sentimentos que o percorriam. Edwyn passou os dedos contra o aço e percebeu a ausência de vestígios de sangue o que se podia notar como seu reflexo podia ser visto na lâmina.
— Por que está com ela? – questionou Edwyn.
— Tiraram essa coisa de mim – respondeu Tyr – Estava encravado.
— E por que ela ainda está aqui? – perguntou Edwyn.
— É uma recordação – disse Tyr remexendo-se em sua cama – Olhar para ela me faz lembrar como eu quase morri – Ele colocou-se com os pés para fora da cama e assim sentando-se na sua beirada – Porque assim seria. Se não fosse por conta do príncipe chegar mais cedo e impedir que o canalha não pusesse um fim em minha vida.
— Ele é um bom homem – disse Edwyn – Será um bom rei.
— Você não o conhece como eu – respondeu Tyr – Não vê como vejo caso assim fosse saberia que há mais em Matthew que me faz ficar apreensivo em segui-lo. É estranho dever minha vida a alguém que não sinto como se conhecesse de verdade...
— Não deveria dizer assim sobre quem lhe salvou sua vida – disse Edwyn – E ele será meu cunhado. Irei desposar sua irmã... – Então fez uma pausa – Pelo menos assim acredito que farei. – Ele retornou a colocar a espada de volta onde estava anteriormente — Ela ainda não deixa com que eu me aproxime. Como posso casar com alguém assim?
— Poderia ter escolhido a Princesa Brie – disse Tyr – Ela era sua noiva por direito segundo a tradição dos Primeiros Homens. Assumir o compromisso de seu irmão... – Suspirou — Se não tivesse apaixonado por essa garota. – Porém acabou sendo interrompido por Edwyn.
— Eu não a amo – disse Edwyn surpreendendo o primo – O casamento é por um contrato entre nossas famílias e é assim que foi planejado para ser. – Ele agachou-se para cutucar o fogo da lareira — Não podia desposar a princesa Brie. Não podia tomar como esposa a moça por quem meu irmão amava quando já tomei tudo o que seria seu... – Ele ergueu-se e voltou para encarar o cavaleiro — Quero poder tomar minhas próprias decisões não apenas herdar todas que pertenciam a Rodwell.
— Eu sempre pensei que a amasse – disse Tyr – Você sempre fez parecer que estivesse apaixonado pela garota. Por que outra razão iria aguentar todos os desaforos que sofre vindo dessa menina? Você é o herdeiro de Karhold.
— E ela uma princesa do inverno, meu primo. Consegue compreender? Eu precisei fazer parecer com que eu a amava – falou Edwyn – Que de outra forma poderia dizer que não aceitaria casar-me com a noiva de meu irmão? Quebrar as antigas tradições dos Primeiros Homens apenas seria aceito caso eu demonstrasse outro meio de cumprir a aliança feita com a casa real.
— Edwyn, por que não me contou tudo isso antes? – respondeu Tyr.
— Porque uma parte de mim passou acreditar que eu seria capaz de ama-la – disse Edwyn – De tão bem que passei a fingir uma parte de mim queria que fosse verdade. Mas como posso amar alguém que me trata tão mal? Sou uma pessoa boa, meu primo.
— Sei que é – respondeu Tyr.
— Esforço-me o bastante para sempre mostrar o que tenho de melhor, porém não quer dizer que eu deva aceitar tudo com um sorriso no rosto. – respondeu Edwyn — Meu dever é casar-me com Atena e eu irei cumpri-lo porque foi o que escolhi para mim. Porque é meu dever honrar o acordo feito entre Karstarks e Starks.
— Lady Marilyn Umber o ama – falou Tyr.
— Não, ela apenas pensa que me ama e é apenas uma ilusão de sua mente fértil – respondeu Edwyn – Me arrependo por em algum momento ter dado alguma sombra de esperança para aquela moça. Por mais que eu não tenha feito nada para ter cultivado tais sentimentos como bem sei... – Ele suspirou – Mas também não a amo.
— E quem é que amas? – disse Tyr.
— Os deuses querem que possa ser minha esposa – disse Edwyn – Atena não é uma pessoa má como bem sabe, porém está irritada comigo por conta desse casamento arranjado. Quero ser capaz de ama-la e fazer com que me ame como foi com meus pais quando se casaram.
Edwyn dera um abraço suave no primo. Tyr alisou os cabelos negros do mais novo e deu uma palmada camarada em seu ombro quando se separaram. Havia um sorriso nos lábios do cavaleiro como se estivesse feliz pela visita que recebera.
Foi então que Edwyn deixou-o ali em sua cama, com os ventos de outono que espalhavam as folhas por sua janela. O loiro adormecera antes ainda de o primo pudesse sair do aposento.
Quando voltou ao pátio, Lorde Torrhen Karstark encontrava-se na escada que levava a uma das torres da vigília, conversando com o capitão dos guardas de Winterfell. Quando avistara o filho foi que o Senhor de Karhold foi imediatamente ao seu encontro.
— Ele está…? – disse Torrhen sem conseguir concluir a frase.
— Se recuperando – disse ela. – Como esperávamos.
— Pela graça dos deuses – respondeu Torrhen – Não suportaria perder mais um filho. — O rosto carrancudo do pai acabou lhe mostrando claramente o alivio que sentia.
O Lorde de Karhold fez correr os dedos pelos espessos cabelos grisalhos e o brilho em sues olhos pareceu retornar por mais que não estivesse sorrindo.
— Ele é meu sobrinho – disse Torrhen – Bem sabemos disso, porém os deuses quiseram que meu irmão fosse antes do tempo de ver o próprio filho tornar-se um homem. Fui capaz de cria-lo então como se fosse meu por mais que isso não tenha evitado que saísse a imagem de Thorne.
— Ele também o ama como um pai – disse Edwyn – Por mais que Tyr não admita tenho certeza de que são esses os sentimentos que possui por ti. Por que ainda não foi visita-lo?
— Será que ele deseja a minha visita? – Respondeu Torrhen com uma própria pergunta e o filho confirmou com a cabeça – Irei mais tarde, por agora vossa graça deseja ter algumas palavras para lhe dizer.
— Dizer a mim? – falou Edwyn – O que poderia ter de tão importante para não ser dito na reunião dos lordes. Irei casar-me antes de marcharmos para Porto Branco ou os planos mudaram?
— Sim – respondeu Torrhen – Mas a assuntos sobre a princesa Atena que desconhece e precisa saber antes de tomar os votos na árvore-coração – Havia algo no olhar do pai que denunciava o conhecimento sobre a futura conversa que o filho teria com o soberano.
— Não seria melhor que fosse ela a me dizer? – perguntou Edwyn – Se algo a incomoda ou se existem segredos é algo que deveria ser dito pela própria voz dela.
— Há assuntos que as mulheres tendem a querer enterrar tão fundo que não ousam nem ao menos revelar ao próprio marido – disse Torrhen – Mas a fatos a se tratar de que um homem precisa saber. Só lhe peço meu filho que tenha a atitude de um homem de verdade e não de um garoto... – ele depositou a mão sobre o ombro do rapaz — O momento de tomar decisões que lhe afetarão sua honra irão de vir com frequência conforme deixa que sua própria luz lhe guie.
...
Sua própria luz havia lhe guiado junto de seu dever para com sua casa, por mais que sua mente estivesse confusa e perplexa com as revelações recentes. Tudo naquele momento parecia fazer sentido como se a última peça do quebra-cabeça que era Atena Stark estivesse formado-se.
Ele a compreendia agora. E entendia o ódio dela para com ele e a raiva constante. Um animal assustado e traumatizado se torna violento e o mesmo vale para garotas lobas. Atena se fazia de forte e queria mostrar isso para todos quando por dentro estava despedaçada.
Que os deuses tivessem piedade mesmo ele se encontrava despedaçado naquele momento, só de pensar todo o sofrimento que ela passara nas mãos do miserável que tirara dela tudo que uma mulher honrada presava. Imaginou se fosse com Jenyver como as coisas seriam e isso o assustava.
Suas mãos naquele momento suavam por sorte o manto que lhe cobria as ocultavam. Sentiu os olhos fixos nas portas a sua frente enquanto o vento uivava e espalhava as folhas que dançavam pelo ar em um festim avermelhado e alaranjado de outono.
— Nervoso? — perguntou Godric Glover ao outro. O jovem lorde estava ao seu lado e trajando o manto vermelho carmesim — Eu estou quando vim a Winterfell me preparava para uma guerra não para meu casamento — Então encarou o amigo — Acredito que pensava o mesmo, Eddie.
— Não — disse Edwyn — Uma parte de mim já sabia que o momento se aproximava — Sua voz era séria e talvez até seca o que parece ter incomodado um pouco Godric — Sinto muito não queria soar dessa forma — Se não pedisse desculpas aquilo iria incomoda-lo como tinha maltratado o amigo sem intenção.
— Sem problemas — respondeu Godric sorrindo — Um homem tem motivos de sobra para ficar nervoso no dia do casamento — Ele mexera na própria gola das vestes — Lorde Umber me sugeriu que aproveitasse a cerimonia e desposasse Lady Marilyn essa noite também.
— Não havia como dizer não — continuou Godric com um meio sorriso — Só queria ter tido a oportunidade de falar com ela... — Ele virou-se para o amigo — Não quero que pense que sou uma pessoa ruim que só estou pensando em mim mesmo.
— Ela entendera — respondeu Edwyn.
— É que no momento não havia como responder outra coisa que não fosse concordar com meu futuro sogro. — Falou Godric — Quer dizer, é só olhar para o tamanho do homem... — Ele riu — É gigante e me assusta um pouco — Aquilo fez o herdeiro de Karhold sorrir e depositar a mão sobre o ombro do amigo.
— Você é o Senhor de Bosque Profundo — disse Edwyn — Já foi corajoso o suficiente tocando a responsabilidade da sua casa por conta própria depois da morte do seu irmão.
— Dizem que tenho sido melhor que George foi — respondeu Godric não para vangloriar-se apenas num tom casual — Lorde Gerold, Tio Gideon mesmo minha irmã Genna. Todos tem falado que apesar da idade tenho me mostrado um bom senhor para meu povo e para mim é o que importa de verdade. Eu não pensava que um dia subiria ao posto que estou hoje...
Eu também não, pensou Edwyn. Quando olhava para Godric via um alguém igual a si próprio, um segundo filho que tivera a sorte ou azar, dependendo dos olhos de quem via.
No caso de Edwyn Karstark os deuses ainda tinham lhe mantido o pai e permitido que este o preparasse para sua nova posição de herdeiro. E ali estava ele para cumprir seu dever como era do feitio de alguém cheio de obrigações a se cumprir. Olhou para cima e viu as copas de folhas tremulas e vermelhas da árvore-coração a sua frente.
— Preparou seus votos? — perguntou Godric — Eu sei que são silenciosos, mas eu preparei os meus desde o dia em que soube que iria casar-me com Lady Marilyn. — Ele olhou para o amigo pelo canto dos olhos — Eu sei que ela preferia que fosse você a cobri-la com o manto e não eu — Aquilo surpreendeu Edwyn que voltou o olhar para o amigo.
— Perdão, eu não... — disse Edwyn — Eu nunca dei... — Godric dera um sorriso timido para o amigo enquanto coçava o nariz — Não está irritado?
— Não — disse Godric — Eu não sou alguém que vai zangar-se com você por algo de que não tem culpa, Eddie. Compreendo que não se escolhe quem amamos, porém não posso deixar de pensar que eu também não a amava quando meu pai tratou do acordo com Lorde Umber. — Ele então encarou Catryona que encontrava-se ali no bosque sagrado num lugar mais afastado ao lado do irmão — Eu odiava-me a mim mesmo por ama-la.
— Como? — Perguntou Edwyn.
— Quando George a levou para casa me encantei — respondeu Godric — Era um garotinho tolo que apaixonou-se por uma moça bonita e doce que foi colocada próximo de mim. Mas consegui tira-la de meu coração e espero que o deuses façam o mesmo com Lady Marilyn a seu respeito. Detestaria que acabar-se por cultivar ódio de você que é meu melhor amigo.
— Também não — respondeu Edwyn com sinceridade.
— Talvez um dia — falou Godric — Nossas famílias sejam apenas uma. Podemos prometer nossos filhos em uma aliança de casamento e reafirmar assim nossos laços entre nós. — Ele tinha um tom de animo — Afinal, creio que passou-se muito tempo desde que Glover e Karstark uniram-se como um só.
Edwyn sorriu. Ter Godric ao seu lado lhe fazia bem e a tempos não notara como a ausência do amigo era algo que lhe fazia falta, por mais que o senhorio o tivesse obrigado com que amadurecesse ainda assim na sua essência o Jovem Glover mantinha-se o mesmo de antes.
As palavras do Lorde de Bosque Profundo o tranquilizavam e o faziam com que sua cabeça esfriasse. Mas então o pensamento veio novamente quando deu-se conta dos votos que teria de fazer e os repassava em sua mente.
Eu a honrarei e protegerei, lhe darei meu amor e carinho. Eu serei seu e ela será minha deste dia em diante até o fim dos meus dias. Juro pelo Deuses Antigos e pelo meu nome.
— Juro pelos Deuses Antigos... — Respondeu Edwyn para si mesmo. E naquele momento Edwyn não se sentiu desamparado e soube que estava tomando a decisão certa.
...
A lareira estava congelada com cinza negra fria e assim estava o coração de Atena. Todo o quarto parecia transparecer todo o clima pesado de sem outro aquecimento que não o de velas. Cada vez que uma porta se abria, as chamas balançavam e tremiam. A noiva tremia também. Havia sido vestida com lã de carneiro branca, com acabamento em renda.
Matthew pensava que a irmã estava mais bonita do que um dia estivera em sua vida, não era usual vê-la em vestidos tão belos e refinados ou estava em suas cotas de couro para montaria ou em vestidos de algodão ou linho simples. Pela primeira vez via a arqueira como uma princesa deveria aparentar ser.
As aias terminavam de preparar o seu penteado enquanto as mãos da moça tremiam e se escondiam dentro das mangas longas. As mangas e o corpete eram bordados com pérolas de água doce e formavam desenhos de flocos de neve.
A ideia inicial era que fossem sois para homenagear o noivo, porém a mãe deles sugerira flocos de neve certamente reconhecendo o temperamento da filha. Neve como a bastarda que Atena possuía. Matthew sabia que o pai tinha tratado com Edwyn Karstark esse assunto peculiar sobre a irmã, porém as reações do herdeiro de Karhold não tinham chegado até o príncipe.
Ela viu uma das aias terminando de atar os sapatos da princesa. Eram sandálias de pele de corça branca. Era bonito, mas não quente, porém não precisaria afinal estavam em pleno outono. O rosto dela estava pálido e seus lábios avermelhados.
E a expressão na face dela era neutra sem qualquer emoção que fosse. Era um rosto esculpido em gelo, pensou Matthew. E enquanto colocava o manto forrado com peles nos ombros dela. O manto de casamento com o lobo de Winterfell em campo cinzento.
– Minha irmã. – disse Matthew – É chegada a hora. – Além da porta a música os chamava com a melodia tocada pelos bardos da corte com os seus alaúdes, harpas, flautas e tambores.
A noiva ergueu os olhos. Olhos cinzentos como os seus e de quase todos os seus irmãos, com exceção de Brie e Hoster que tinham puxado os olhos castanhos da mãe. As duas órbitas claras estavam brilhando sob a luz das velas. Lágrimas? Matthew preferiu não perguntar.
— Eu não sou insensível quanto pensa que eu sou – Respondeu Matthew ao silêncio da irmã – Sei que está assustada com o que vai acontecer essa noite e que não desejaria se casar. Mas por favor, se esforce para ser mesmo que não seja quem você sonharia que fosse.
— Eu não sonhava com ninguém — disse Atena enfatica — Nunca sonhei com essas tolices de casar-me e ter um marido só meu. Esse era o desejo de nossa irmã ou está nos confundindo? Toma-me por Brie? — Matthew ouvira o nome da irmã depois de tempos sendo proferido pela irmã e isso lhe foi como um soco no estomago. O lobo herdeiro tentava não pensar em sua irmã querida que tinha sido tirada dele.
— Não, não tomo — respondeu Matthew — Mas sei que tinha uma certa estima para com nosso primo, Rian. Quando ainda era uma garotinha e o via praticar com as espadas ou cavalgar.
— Cada mulher nortenha uma vez na vida caiu nos encantos do Jovem Urso — disse Atena com pouco interesse — Desde nobres até as prostitutas, não pode julgar-me por algo quando eu não passava de uma garotinha tola sem saber de nada da vida. Eu tinha a idade de Sybill, pelos deuses. Era uma coisa boba de criança...
— E o que sente por Gabe Umber também é coisa de criança? — falou Matthew — Vi o modo como conversam e passam seu tempo juntos. Não duvidaria caso nutrisse algo pelo nosso capitão da guarda por mais que veja isso como uma péssima escolha. Ele é um ninguém, mesmo o avô o julga um herdeiro indigno de governar depois dele.
— Ele é meu amigo — disse Atena — E uma boa companhia. Gosto dele, mas não dessa forma como imagina — Ela parecia visivelmente irritada — Meu coração fechou-se para o que diz respeito a homens. Mesmo para aquele que será meu marido.
— Apenas cumpra seu dever e apenas... — continuou Matthew se perdendo em suas palavras até finalmente encontra-las — Não precisa tê-lo em seu coração. Apenas seja Atena, seja esposa dele. Viva sua vida como lhe agradar independente se estiver casada ou não, lembre-se apenas de cumprir com seu dever como uma princesa deve fazer.
— Agrade-o, ou... Apenas agrade-o – continuou Matthew por fim era melhor que dissesse o que desejava do que florear-se em devaneios — Faça o papel que foi criada e educada para ser. Seja a senhora nortenha e cuide de um castelo, uma esposa da nobreza e a mãe para que pequenos herdeiros. E se os deuses forem bondosos lhe dará um menino para dar prosseguimento na linhagem de seu marido.
— Eu já sou mãe — disse Atena num sussurro para o irmão — Já tenho uma filha e não sei se gostaria de ter outros — Ele a fez virar-se para ele próprio — Não desejo qualquer castelo que não seja este que é meu lar. Eu não sei se conseguirei ama-lo...
— Não precisa ama-lo apenas faça o que deve ser feito — disse Matthew — E terá de dar-lhe outros filhos sim. Nenhum deles nascido de um ato desprezível e desonroso como sofreu. Uma criança que não seja uma simples bastarda qualquer. — E Atena tentara acerta-lo um tapa, porém o principe foi agil e segurou sua mão.
— Impulsiva — disse Matthew — Espero que Karstark tenha meios de domar sua selvageria descabível. — Então bufara e soltara seu pulso — Amanda é uma bastarda, minha irmã. E tem sangue daquele maldito e mesmo assim a ama? Como consegue amar um ser que é fruto de alguém desprezível quanto aquele monstro? É uma vergonha para nossa família e para nosso pai que assumiu este peso para si para protege-la.
— Ela não tem meu nome, mas tem o meu sangue — respondeu Atena — Eu lhe dei a vida, não estava em meus planos ser mãe só que acabei sendo e agora não vejo minha vida sem minha pequena. Eu terei de separar-me dela quando partir para a Karhold.
— Sim, realmente deverá fazê-lo. Mas eu cuidarei dela para você — respondeu Matthew surpreendendo a irmã — É meu dever cuidar dela por mais que despreze a bastardia que sou obrigado a conviver nesses últimos anos. Já que você e Noah trouxeram para baixo de nosso teto essa realidade.
— Você odeia bastardos muito antes das meninas chegarem — disse Atena — Nunca foi capaz de esconder esse sentimento horrível que possui. Mesmo com crianças é assim e não vê que elas tem culpa de nada de aconteceu.
— Sim, odeio todos os bastardos pelo que representam — disse Matthew — A desonra e vergonha de um nobre e de um nome de família. Mas ainda assim, ela é minha sobrinha e por mais que não seja capaz de ama-la ainda assim é meu dever para com você, minha irmã. — Ele fez uma pausa enquanto colocava uma coroa de rosas azuis do inverno sobre a cabeça da irmã — Assim como é seu dever casar-se para assegurar a aliança que possuímos com os Karstarks.
—E pare de olhar para ele e imagina-lo como sendo outra pessoa. Ele não é como aquele miserável que a desonrou – continuou Matthew conforme percebia que a música ficava cada vez mais insistente.- Eu sinto muito por tudo que aconteceu com você... – Ele olhou para a irmã – Pelo que aquele monstro lhe fez não era sua culpa e eu deveria ter cuidado de vinga-la. Você é minha irmã e foi ferida e maltratada.
— E eu aceitei porque era o nome da nossa família que seria posto em jogo se isso viesse a publico. Todos nós aceitamos calados, porém eu deveria ter agido por sua honra, Atena. — continuou Matthew — Sei que não sou um dos seus irmãos favoritos e nunca fomos próximos um do outro... – Ele suspirou – Mas ainda assim me preocupo com você. E caso não seja feliz nesse casamento apenas me diga e me faça ver que agirei com você... – ele suspirou – Agirei por você como fazia com Brie.
— Você está tentando substituir Brie por mim – disse Atena – Esse sentimento todo que tinha por ela de protegendo-a e mantendo ao seu lado – Ela encarou o irmão – Eu não preciso da sua proteção, Matthew. Não quando mais precisei de você não estava lá por mim... – Ela engoliu em seco – Mas perdoo você.
— Nós somos família e independente de como você é e dos defeitos que possui ainda assim não lhe desejo mal algum. Mas não venha tentar fazer como se eu fosse nossa irmã... – disse Atena encarando-o — Não olhe para mim e pense que seremos próximos um do outro. Quero você como meu irmão, mas não me faça forçar uma amizade que nunca vai existir.
— É hora. – disse Matthew tirando uma rosa azul de inverno e entregando nas mãos de Atena — Seque essas lágrimas. – Olhos cinzentos transbordando de tão marejados – Não chore é o seu casamento – Deveria ser Brie a se casar primeiro. Ela era a mais velha, não Atena. Edwyn deveria ter escolhido desposar a mais velha já que está era a noiva de seu irmão falecido. Como mandava a antiga tradição nortenha – Bom. Agora, sorria.
A garota tentou. Seus lábios, tremendo, contraíram-se e se congelaram, e ele pôde ver os dentes dela. Belos dentes brancos, pensou. Mas o sorriso durara pouco, pois desapareceu assim que e virou-se e girou a maçaneta da porta. Quando ele abriu a porta, três das quatro velas tremularam com a corrente de vento. Conduziu a noiva através do corredor, até onde os convidados do casamento esperavam. O bosque sagrado.
– Por que eu? – perguntara, quando a mãe lhe dissera que ele deveria entregar a noiva.
– É o irmão mais velho – disse Lyra Mormont – Seu pai concorda que deveria ser você a fazer às vezes da cerimonia de casamento como o homem da família.
– Ela tem outros irmãos – Respondeu Matthew.
– Sim, dois irmãos que ficariam muito felizes de leva-la diante dos deuses antigos além do pai que o faria com grande prazer se pudesse – disse Lyra Mormont – Mas você é o herdeiro de Winterfell e primogênito. Sei que não é tão intimo de Atena, porém tome esse dever para si. É justo que você dê a mão dela em casamento já que seu pai está tão ocupado com todos os preparativos da marcha da guerra.
Estão me usando para garantir que ela não tentará fugir, colocando-o para vigia-la e garantir que não se perderia no caminho para o bosque sagrado e terminasse sobre um cavalo com a bastarda em seus braços na estrada para o sul. Noah a ajudaria fugir se assim Atena pedisse que o fizesse enquanto Hoster era apenas um menino e seria facilmente enganado se a irmã soubesse usar de suas palavras.
Estava mais belo do que de costume o bosque sagrado, por mais estranho que pudesse parecer. Mas, dentro do bosque sagrado, o chão permanecia coberto por folhas em um tapete que parecia feito de chamas, eram folhagens secas em tons quentes de laranja e vermelho. Luzes das tochas abrilhantavam as águas translucidadas das lagoas que norteavam as beiradas.
A noiva estava vestida de branco e cinza, as cores que Brie teria usado se o seu noivo tivesse vivido o suficiente para se casar. A união dos Karstarks e Starks seria feita afinal depois de três anos em que tudo tinha se perdido e sido refeito novamente. Um herdeiro diferente e uma princesa diferente agora substituíam os irmãos.
Matthew usava negro e cinza, a capa presa ao ombro por uma fivela da cabeça de um lobo forjado de ferro que o ferreiro de Winterfell fizera para ele a tempos atrás. De braços dados, a noiva e ele atravessaram uma porta arqueada enquanto uma brisa frigida se agitava por entre suas nucas e fazia com que os mantos deles passassem.
O manto de casamento agitou-se feito uma folha em um galho de árvore e por fim parara. Um sinal talvez? De que o casamento não deveria prosseguir quem sabe, os deuses tinham poder quando enxergavam pelos olhos das árvores-coração.
O tambor tremulava como o coração de uma donzela, as flautas altas doces e convidativas. Sobre as árvores, o céu encontrava-se azul cinzento e algumas estrelas salpicavam o céu. A lua encontrava-se meio obscurecida pelas poucas nuvens que manchavam a noite, como um olho espiando através do vão de dedos.
Matthew Stark não era nenhum estranho nesse bosque sagrado. Brincara aqui quando mais novo, saltando nas pedras da fria lagoa e fazendo pedras quicarem e fazerem círculos nas águas calmas ao lado de Rian Mormont quando ambos eram apenas dois garotos.
Era ali que escondia seus tesouros em um buraco no tronco de um velho carvalho como a ponta de uma flecha que usara na primeira vez que matara alguém aos doze anos. Um selvagem que os atacara na Mata dos Lobos e quase machucara Catryona se não tivesse agido a tempo. Fora ali que sentiu que sua infância tinha acabado como depois daquilo tudo mudou. Foi depois daquele ocorrido que ele começou a ser preparado para reinar depois do pai.
Tinha saudade das épocas de infância quando vivia perseguindo esquilos com um arco que ele mesmo fizera. Mas agora teria de ir à guerra e matar mais uma vez sendo que agora não seria para proteger apenas a mulher que amava como todo o reino. Todo o reino que almejava um dia ser apenas seu.
Já mais velho foram várias vezes banhou-se depois de suas contusões no treino com espadas. Foi vários arroxeados e cortes até que desistisse de empunhar uma lâmina por não ter talento para tal. Depois acabou partindo para o uso exclusivo do arco e flecha que sabia que era bom.
Ele costumava adorar os banhos quentes nas lagoas termais. Depois das caçadas na floresta com Rian Mormont, Tyr Karstark e Young Jon Umber. Sentia falta de estar com os três em tempos em que não sentia o mundo desmoronando em seus ombros.
Entre esses castanheiros, olmos e pinheiros, ele encontrou locais secretos onde podia se esconder quando quisesse ficar sozinho apenas consigo sentado embaixo das copas dos arvoredos. A primeira vez que beijara uma garota fora aqui. E tinha sido Catryona quando dividira com ela uma tortinha de limão e ela retirou o creme de seus lábios com os dela.
Mais tarde, outra garota havia feito dele um homem, sobre a grama atrás dos arbustos de rosas de inverno. Abaixo da sombra desse enorme pau-ferro de tronco envergado e raízes frondosas. A mesma garota viria a procura-lo de novo e dizendo que estava grávida na pobre ideia de que pediria a mão ao pai dela e a faria sua esposa.
Não se tratava de uma donzela quando ambos deitaram um com o outro e aquela criança poderia muito bem não ser sua. E a garota fosse esperta realmente saberia que apenas um bastardo não valeria para segura-lo. Foi então que lhe entregara chá da lua.
A garota era da nobreza e poderia ter feito um escândalo se quisesse, porém não o fez o que significava que o obedecera e que provavelmente a provável criança que esperava não era dele. Criança essa que não chegara a nascer pela graça dos Deuses Antigos.
Provavelmente tinha sido uma mentira para testar a honra do principe herdeiro. Se aquela gravidez realmente existisse e não fosse apenas um plano para que sua família pudesse ter Winterfell. Nunca poderia se acreditar nos esfoladores de qualquer forma mesmo nas mulheres.
A música parou quando se colocaram em linha reta para a árvore coração. Matthew colocou-se ao lado do outro par que se encontrava a espera deles que era o Lorde da Última Lareira ao lado de sua filha.
Lady Marilyn vestiu-se de vermelho carmim e em sua gola e beirada das mangas havia pele negra de urso e seus cabelos trançados a moda nortenha estavam ocultos por um capuz. Em suas mãos pálidas e brancas havia uma lanterna de latão acesa para guiar-lhe o caminho. Ela desposaria Lorde Godric Glover, o Senhor de Bosque Profundo.
Havia uma espécie de caminho, um sinuoso percurso de pedras quebradas cobertas com musgo, meio enterradas entre terra soprada e folhas caídas, traiçoeiro por conta das grossas raízes que saíam do solo. Ele levou a noiva por ali. Andaram lentamente, atento a cada passo.
Aqui e ali, os archotes de ferro iluminavam trêmulos pelo vento, jogando seu brilho avermelhado sobre o rosto dos convidados do casamento e fazendo suas sombras dançarem. Sobre as cabeças de todos eles, as árvores estavam lotadas de corvos, suas penas afofadas enquanto se debruçavam nos galhos nus para olhar a ostentação abaixo deles.
A árvore-coração apareceu diante deles os galhos brancos abrindo-se amplos. Folhas caídas permaneciam em montes vermelhos e marrons ao lado do largo tronco branco. Edwyn Karstark estava parado na frente deles, vestido com botas de cano alto de macio couro cinza e um gibão de veludo negro com acabamento em seda cinza e fios de prata e brilhando com abotoaduras em formato de sol que lhe adornavam as mangas e gola.
A capa negra de em um corte elegante descia por suas costas com o sol do inverno abrilhantando certamente o centro de suas costas em seu brasão de familia. Um sorriso dançou em seu rosto quando vira Atena.
– Quem vem? – disse Godric Glover aproximando-se vestido em vermelho assim como sua noiva. O Senhor de Bosque Profundo parecia nervoso com suor lhe escorrendo por seu pescoço vermelho sob o colarinho.
— Quem vem diante dos deuses antigos? – falou Edwyn Karstark dando um passo e colocando-se na mesma linha em que o outro noivo encontrava-se e foi assim que ambos os acompanhantes deram passos a frente acompanhados das noivas.
Foi então que o pai da noiva de vermelho respondeu.
— Marilyn da Casa Umber de Última Lareira vem aqui para se casar – trovejou Grey Jon Umber.
– Atena da Casa Stark de Winterfell vem aqui para se casar. – falou Matthew.
— Mulheres crescidas e florescidas, legítimas e de berço nobre – falaram os dois homens ao mesmo tempo. – Vem humildemente pedir a bênção dos deuses.
— Quem vem reivindicá-la? – pediu Grey Jon.
— Eu – respondeu o noivo de vermelho – Godric, Lorde da Casa Glover de Bosque Profundo a reivindico. Quem a entrega?
— Jon, Lorde da Casa Umber – respondeu o gigante ruivo – Pai dela lhe entrego. – Voltou-se então para a menina de cabelos loiros que parecia perdida em pensamentos enquanto seus olhos fitavam Edwyn – Minha filha, aceita este homem?
— Eu aceito este homem – disse a noivo em um sussurro.
— Quem vem reivindicá-la? – perguntou Matthew.
— Eu – disse Edwyn – Edwyn da Casa Karstark de Karhold, herdeiro de Lorde Torrhen Karstark. Eu a reivindico. Quem a entrega?
— Matthew da Casa Stark de Winterfell e herdeiro de Rei Brandon Stark, irmão mais velho dela. – Virou-se para a noiva. – Minha irmã, aceita este homem?
Ela ergueu os olhos para ele. Olhos azuis cinzentos e frios como o gelo. E por um longo momento, ela não falou, mas aqueles olhos imploravam. Este é o momento em que ela esta pensando o que deve fazer. Seguira-se com sua própria vontade ou com o dever que possui com a sua família.
– Eu aceito este homem – disse a noiva cinzenta.
Ao redor deles, luzes brilhavam através das sombras. Era uma centena de velas, pálidas como estrelas encobertas. Matthew se afastou da irmã e Edwyn aproximou-se. O herdeiro de Karhold e sua noiva juntaram as mãos e se ajoelharam diante da árvore-coração ao mesmo tempo em que o outro casal de jovens noivos fazia o mesmo do outro lado.
Todos abaixando a cabeça em sinal de submissão. Os olhos vermelhos esculpidos do represeiro olharam para eles e sua grande boca vermelha aberta como se estivesse rindo. Nos galhos sobre suas cabeças, um corvo ergueu voo.
Depois de um momento de oração silenciosa, os casais se ergueram novamente. Edwyn tirou o manto que Matthew colocara sobre os ombros da irmã alguns momentos antes, o pesado manto de lã branca com bordas de pele cinza com o brasão do lobo gigante da Casa Stark.
No lugar, prendeu um manto negro com o forro salpicado com sois brancos. Tudo bordado em fios de prata como os detalhes em seu gibão. Nas costas, estava o sol do inverno de Karhold feito em couro branco brilhante.
Matthew suspirou aliviado com o termino da cerimonia. Enquanto via a troca de mantos que se finalizava com o outro casal na direita, Godric cobrindo Lady Marilyn com o manto vermelho dos Glovers de Bosque Profundo.
E estava feito. Casamentos eram mais rápidos no Norte. Godric Glover roçara os lábios contra os de sua esposa o que nem chegaria a ser chamado de beijo enquanto Edwyn Karstark depositou um beijo na testa de Atena e tomou-lhe a mão direita com a sua.
E a música retornou enquanto os casais caminharam através do caminho de volta duas mulheres uniram as vozes às dos bardos para fazer uma doce harmonia. Enquanto os presentes se moviam prestando seus votos à árvore-coração antes de retirarem-se, Rei Brandon e Rainha Lyra seguidos de Hoster que vinha logo atrás na companhia de Sybill. E então Lorde Grey Jon com sua senhora, Lady Dacey Mormont.
Brandon Umber acompanhava Maryanne Umber, a irmã gêmea de Lady Marilyn. Noah viera depois trazendo Catryona atada ao seu braço e aquilo fez algo dentro do príncipe herdeiro revirar-se. O lobo boêmio trazia na outra mão a sua filha bastarda.
Após o segundo príncipe foi que vieram os demais lordes vassalos e convidados. Cada um por sua vez enquanto o bosque sagrado fosse ficando vazio até que sobrasse apenas Matthew sozinho consigo mesmo. Matthew se pegou perguntando a si mesmo se deveria dizer uma prece se sim pelo que? No final resolvera voltar as costas para o sorriso da árvore-coração que parecia debochar dele.
— Matt – uma voz pareceu sussurrar.
Sua cabeça se ergueu.
— Quem? – Tudo o que podia ver eram as árvores e as semi escuridão que as cobria no manto da noite. A voz era fraca como o farfalhar de folhas, como um murmúrio vindo de longe. A voz de um deus ou de um fantasma, era o que parecia.
— Matt – chamou de novo.
— Brie? – perguntou Matthew para no fim sentir um frio percorrendo-a espinha e suas mãos tremiam. Não, sua irmã não era um fantasma que assombraria Winterfell porque ainda mantinha-se viva e voltaria para casa. – É apenas o vento — De repente, não queria estar ali.
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