North War – Interativa
4 Capitulo 3
Notas iniciais

Ele deixara o papel da carta cair sobre as chamas da lareira. Seus olhos observaram friamente enquanto a tinta se derretia pelo calor e escorria pelo papel que ia enrugando-se e escurecendo por conta do contato com o fogo. Ele poderia ter guardado a carta e saboreado a leitura mais algumas vezes, porém era seu costume destruir as correspondências sempre para impedir o vazamento de informações. Não ia ser agora que mudaria seus hábitos.
Ethan viu o fogo reduzir a cinzas a noticia que tinha acabado de receber de um corvo vindo de Forte Pavor. Ele serviu-se de mais vinho em sua taça enquanto pensava no que iria fazer a partir daquele momento. Haveria uma guerra e mais uma vez teria de lutar. Lutar por quem dessa vez?
O Lorde da Vila Queimada estava cansado de servir a reis vermelhos apenas porque possuía o mesmo sangue destes. Encontrava-se a um ponto de sua vida que percebera o quanto os deuses tinham sido infelizes ao colocarem-no na posição de um terceiro filho.
Ele era um príncipe vermelho antes de um lorde qualquer. Mas as pessoas costumavam a reduzi-lo a isso, o seu sobrinho principalmente parecia se esquecer com frequência de que tanto Ethan quanto sua família era parte da realeza dos Boltons e não qualquer casa menor feita para servir. Servir sempre o lado que acabava tendo perdas irreparáveis.
A última guerra terminara com a execução de um rei e a nova se iniciara com a de outro. Ethan servira a seu pai nos seus últimos meses de reinado, servira seu irmão Rhegys durante sua ascensão e queda durante a guerra (mesmo derramara lagrimas por aquele infeliz apesar de ninguém ter visto) e seu irmão Robett até o final dos dias deste.
Robett sem duvida tinha sido o único rei que o tratava com algum respeito, lhe dera um exercito para comandar lhe encarregando da função de proteger a costa do mar estreito dos ataques dos homens de ferro.
O seu irmão lhe condecorou com o titulo de lorde por suas façanhas de guerra e presenteou-o com um pedaço de terra as margens do Rio das Águas Chorosas. Uma vila que tinha sido incendiada pelos homens de Pyke e que tinha sido abandonada pelos sobreviventes do grande massacre. Lembrava-se de Royce debochando do tio dizendo que ele era um lorde de um monte de cinzas agora.
Mas na primavera seguinte quando Ethan terminara de erguer sua fortaleza no lugar, quando plebeus e famílias de seus soldados vieram a se instalar na vila lhe devolvendo a vida, mesmo o vaidoso príncipe Royce teve de admitir para seu desgosto do que o tio era capaz. Ethan sorriu ao lembrar-se do quanto tinha mostrado naquela ocasião do que era capaz para quem sempre o subestimou.
Royce tinha se coroado rei há poucos anos, ele estava iludido com o poder e deliciando-se com o gosto de estar no comando. Mas seu orgulho e vaidade o tinham feito querer mais do que meio reino sem falar no desejo de vingança contra os Starks. Ethan tinha de admitir que o sobrinho tivesse potencial para ser um bom rei, falava como um e tinha a postura sem falar que os lordes o seguiriam. Pelos Outros, mesmo Ethan pensava que conseguiria sobreviver o resto de seus dias servindo alguém como Royce. Mas este fora tolo o bastante, impulsivo em demasiado e orgulhoso o suficiente para pensar que poderia tomar a vida de Brandon Stark embaixo do próprio teto.
— Você foi um tolo, Royce – falou Ethan encarando a tapeçaria de sua família pendurada sobre a lareira.
Era um grande trabalho das melhores septãs do Norte. Ali era retratado todos os membros da casa Bolton da época em que Robett ainda estava vivo e era chamado de rei, mesmo Richard se encontrava ali em tempos anteriores a ter sido enviado para a Muralha. Ao lado direito do Rei Vermelho encontrava-se Royce com sua família e do esquerdo Ethan com a dele. Os olhos do Lorde da Vila Queimada, no entanto repousavam sobre a face do falecido sobrinho.
— Terminara como o pai perdendo a cabeça para um Stark – disse Ethan então tomando mais um gole de seu vinho — Um maldito tolo com uma coroa que esperava que os deuses sorrissem por você mais do que já tinham. Você poderia ter sido um grande rei, maior do que Robett ou o Rhegys tinham sido. Mas agora, o seu corpo foi entregue aos corvos e vermes para que seja consumido. Sua cabeça repousa em uma estaca em Winterfell... – ele serviu-se de mais vinho — E uma guerra vai se iniciar por sua tolice.
— Milorde, eu devo retirar? – perguntou Harrion Hornwood, o intendente de Lorde Ethan que se encontrava ali presente até então em silêncio – Ou precisara de mim para algo a mais? Talvez uma resposta para a Rainha Bethany.
Harrion Hornwood era o sobrinho de Lorde Harrold Hornwood. Um jovem de cabelos loiros e olhos claros, muito disciplinado e organizado sendo o tipo de homem que não fora difícil para Ethan escolher ter do seu lado. Harrion era cegamente leal pelo seu senhor e tinha outros sentimentos também que Ethan temia que pudessem fazer o rapaz ter qualquer atitude inesperada.
— Envie corvos para a Fortaleza Hornwood, Regatos e Vila Acidentada – falou Ethan – Estes se encarregaram de alertar aos outros lordes de casas menores. Informem-lhes para que reúnam seus soldados, preparem suas cavalarias e armas e estejam prontos para lutar. O Rei Royce está morto e o Norte entrou em guerra mais uma vez. – o intendente assentiu.
— Devo acrescentar algo a mais nas cartas? – perguntou Harrion – Mais alguma informação?
— Diga-lhes também na carta, que todos lordes incluído a mim, nos reuniremos em Forte Pavor para prestarmos nossas condolências a rainha-viúva – disse Ethan — para apresentar nossas espadas ao serviço da coroa vermelha que deverá ser colocada sobre a cabeça do herdeiro de Royce, o príncipe-herdeiro Rowen.
Rowen usara a coroa porque é o que esperam. Mas um garoto que não atingira a puberdade não era o rei que o Norte precisava e necessitava. Ethan era estudado o bastante para saber que em reinos vizinhos quando o regente não passava de um infante significava a decadência da casa real. O reino se tornava fraco e os Boltons não podem ser fracos não quando os Starks estão em seu auge.
Ethan Bolton iria erguer espadas contra os lobos de Winterfell e seus aliados. O corpo de Brandon seria exposto esfolado e pendurado em um grande gancho (como era o costume de Ethan em fazer com os capitães das Ilhas de Ferro que capturava em batalha). Venceria aquela guerra e tomaria o Norte para os Boltons para então tirar Rowen do trono. Estava cansado de servir a reis, estava mais do que no momento dele tomar para si o poder que sabia que merecia. Ele unificaria o Norte e seria chamado de Rei.
— Entendido, milorde – falou Harrion então estava pronto para se retirar quando o lorde voltou seu olhar para o intendente e o chamou.
— Mais uma coisa, Harrion – disse Ethan e o jovem assentiu – Irei aos seus aposentos essa noite. – ele fez mais uma pausa se afastando da lareira e se aproximando do jovem Hornwood — Espero que esteja limpo e pronto para mim.
— Estarei esperando, milorde – disse Harrion com um sorriso discreto nos lábios antes de sair pela porta deixando o lorde sozinho mais uma vez.
...
Rowena esperou pela saída do intendente de seu pai. Quando viu o rapaz tomar a curva para outro corredor foi que saiu de seu esconderijo e dirigiu-se até a porta onde até então estivera escutando a conversa dos dois. Ela esperava por aquela atitude e saiu-se exatamente como tinha planejado. Sabia que tudo que tinha feito até então meticulosamente tinha ocorrido com sucesso finalmente.
— Posso entrar, pai? – perguntou Rowena.
— Sim, entre. – falou Ethan – O que deseja, querida?
— Mamãe contou a respeito da morte do Rei Royce – falou Rowena – gostaria de saber como lidaremos com tal ato contra a nossa casa. Os Starks derramaram nosso sangue uma vez mais e não podemos ficar esperando pelo julgamento dos deuses a respeito disso. Sangue se paga com sangue, meu pai.
Ela era uma garota inteligente apesar de preferir transparecer o contrário. Inteligência era mais bem utilizada e mais útil se usada de forma quase imperceptível. Se a pessoa soubesse que está sendo manipulada é como se todo o melhor dos planos fosse destruído. E Rowena não gostava disso nem um pouco então manuseava suas marionetes com cuidado. Comportando-se como uma donzela e agindo como uma mulher Bolton agiria em momentos extremos.
— E irá ser pago – respondeu Ethan – Iremos para a guerra e no final me certificarei de que ficara apenas um Rei em pé. – ele caminhou até a filha e depositou as mãos nos ombros dele — Um reino dividido não irá permanecer intacto e no final apenas uma casa comandara o Norte. E não serão os lobos.
— Pai, sobre Rowen agora é ele o Rei Vermelho – falou Rowena – O senhor acredita que ele esteja seguro? – o lorde ficara em silêncio frente aquela pergunta — Nós temos de protegê-lo.
Rowen e Rowena eram próximos. Como irmãos praticamente e a garota adorava o jovem primo por conta de ser facilmente manipulável e seguir a suas vontades como um cãozinho serve ao seu dono. Ele era um menino que adorava esfolar, sangue e violência. E ela adorava aquilo também mesmo que preferisse evitar envolver-se tanto para preservar sua imagem, mas perto de Rowen não conseguia evitar.
— Ele é uma criança, não irá para a batalha – respondeu Ethan com uma voz mais acida do que de costume – Devia ficar mais preocupada comigo que irei à guerra. – ele aproximou-se dela ainda mais — Comigo que sou seu próprio pai.
“Oh, papai acha mesmo que eu te ame tanto assim?” pensou Rowena “Desde que garanta o Norte para nossa família, não irei me importar se irá decair em batalha ou não”. Ela fez uma feição de culpa e suas bochechas coraram.
— Perdão, meu pai não quis mostrar dessa forma... – falou Rowena – Apenas que eu não posso de pensar o quão desolado possa estar meu pequeno primo depois da morte de Rei Royce. Desculpe-me se não demonstrei preocupação com sua integridade, meu pai. – então sorriu — Mas eu confio em sua habilidade e sei que permanecera inteiro ao fim dessa guerra.
— Não se vá ainda – falou Ethan ao ver a filha dando dois passos para trás em direção da porta – Fique mais um pouco e beba comigo. Sua mãe não aprova, diz que é um péssimo hábito para uma dama, mas há anos não me importo com o que aquela mulher pensa. Apenas tente evita-la quando estiver cheiro de vinho em seu hálito.
— Como queira, meu pai – falou Rowena enquanto Ethan servia-lhe uma taça – O senhor está bebendo mais do que deveria. A morte de Royce parece tê-lo afetado mais do que eu imaginava.
— Royce foi um tolo ao invadir Winterfell daquela forma – disse Ethan – Se tivesse me alertado talvez ainda tivesse a cabeça junto do corpo. Teria me certificado de evitar que ele fizesse tal atitude impulsiva e estupida.
Rowena sorriu internamente. Ela tinha usado Royce e o manipulara naqueles últimos três anos. Todo seu plano começou quando o seduziu e levou-o para a cama (às vezes tinha de fazer coisas que não desejava para conquistar de vez o que queria, que nada mais era do que prender seus fantoches as cordas). Fez do falecido Rei Vermelho seu boneco favorito e mais valioso e deliciou-se ao vê-lo caindo em sua teia cada vez mais. O usou até que conseguira leva-lo ao seu objetivo: livrar-se dele.
Rowena cochichara ideias aos ouvidos de Royce em cada encontro secreto deles (fosse para fins sexuais ou simplesmente trocas de caricias nas escondidas), ela lhe dissera sobre como o Norte precisava dele no comando e de como os Starks precisavam pagar pelo que tinham feito no passado.
De como Robett não merecia a coroa que usava, ainda mais depois que banira Richard para a Muralha (ao menos aquilo fora jogado ao seu favor também mesmo que tenha a Rowena os encontros que tinha com Richard em segredo). Ela fez com que Royce acreditasse que ele era o Rei do Norte por direito e Robett não passava de um usurpador. Royce ouvira cada palavra atentamente e a garota tinha certeza de que ele tinha sido o responsável pela morte de Robett.
E agora Royce estava morto. Seu pai teria de lidar com uma guerra que poderia vencer já que as chances eram altas quando se tinha ele no comando seu receber ordens de Reis Vermelhos. E com sorte, no final de tudo eles teriam o Norte e os Starks estariam mortos.
— Não deveria ofender os mortos, meu pai – falou Rowena – Os deuses não devem gostar.
— Os mortos não se importam porque não podem nos ouvir – respondeu Ethan – E os deuses não me puniram apenas por estar dizendo a verdade. – Então entregou a taça para filha e os dois brindaram enquanto bebiam. Rowena teve a decência de tossir e crispar a testa fazendo de conta que o gosto da bebida lhe era estranha.
— O que será de mim e de mamãe durante essa guerra? – perguntou Rowena após seu primeiro gole – ficaremos aqui em Vila Queimada?
— Eu preciso de você próximo de seu primo Rowen mais do que nunca agora – falou Ethan – Será uma missão difícil, mas sei de que é capaz disso do contrário não estaria dando a você. – então aproximou por trás da filha e colocou as mãos nos ombros dela e aproximou a boca de seu ouvido – Quero que você conquiste, Rowen e as princesas. Quero que me garanta que a coroa não irá interferir com meus planos de guerra.
— Duvido que o façam, mas se assim o quer então farei – disse Rowena – Tudo o que desejar, meu pai. – e o lorde dera a volta para encara-la mais uma vez — Estou aqui para servi-lo.
“Eu iria fazer de qualquer forma mesmo que não me pedisse, seu velho tolo” pensou Rowena “Apenas queria certificar-me de que me mandaria para Forte Pavor sem que eu precisasse pedir para que me enviasse até lá”.
— Eu sabia que poderia contar com você, filha. – disse Ethan.
Então ambos beberam em silêncio enquanto Rowena começou a encarar a tapeçaria da família sobre a lareira. Royce tinha sido uma marionete proveitosa e tinha servido a seu propósito. Fazer com que as pessoas tomassem decisões achando que não tinha ninguém lhes incentivando para fazer tal era algo que tinha aprendido desde cedo.
Ela não sabia ao certo quando descobriu tal talento apenas surgira e ela o usava. Mas tinha lhe sido útil com os primos Royce e Richard poderia ter tentado com Robett só que mesmo ela sentia-se enojada com em deitar-se com o tio sem falar que havia outro obstáculo. Um obstáculo chamado...
— E quanto a Rhaera Snow? – perguntou Rowena lembrando-se da garota exilada – Não temos noticias dela há várias luas. Desde que Rei Royce a mandou embora quando ela o desafiou pelo trono vermelho.
— Ela está em Essos – falou Ethan – Nosso informante manteve olhos sobre ela por um tempo dizendo como ela tinha encontrado um lar entre os piratas lysenos que agiam no Mar Estreito. Por que acha que Royce veio até mim e fortaleceu minhas tropas? – Rowena ficara em silêncio — Deu-me navios novos e armamento além de novos homens para comandar? Por conta dos homens de ferro? Ele queria estar precavido caso a bastarda de Robett viesse reivindicar o trono mais uma vez.
— Deviam a ter matado – falou Rowena – Contratado mercenários ou homens sem rosto para dar cabo daquela filha de uma puta bastarda. – então respirou fundo percebendo o que dissera – Perdão, meu pai. – ela então abraçara Ethan o pegando desprevenido sem chance de reagir — Não queria agir dessa forma, apenas detesto tanto aquela garota... Ela é tão... Monstruosa.
— Ela não irá pisar novamente nessas terras – falou Ethan – Não enquanto eu viver. E acredite, nesses últimos anos temos enviado até ela vários assassinos para dar um fim a ela que infelizmente acabam encontrando a lança dela como recompensa. Royce então decidiu que era ouro desperdiçado e demos uma pausa... – ele fez uma pausa — Mas não me esqueço dela. A bastarda de Forte Pavor.
— Papai... – falou Rowena – Eu aceito fazer o que o senhor pediu-me que fizesse. – ela separou-se do homem e encarou-o diretamente nos olhos – Irei conquistar ainda mais a confiança de Rowen e das princesas. Mesmo da Rainha Bethany é possível que eu consiga, mas a princesa enferma não será fácil. Ela não gosta de mim, pai.
— Então garanta de evitar que ela atrapalhe meus planos – falou Ethan – Não quero que alguém interfira no que tenho em mente. Nem mesmo que seja alguém do nosso próprio sangue.
...
Larra dedilhava as cordas de sua harpa mais uma vez. Em sua frente um pergaminho estendia-se ao lado de uma pena com tinta ainda molhada. Sua mãe tinha lhe pedido para escrever uma canção em honra da memória de seu pai. Um pai que tinha lhe ignorado, lhe humilhado e lhe feito sentir-se a pior criatura que vivia. Ela não tinha culpa por ter nascido uma menina ainda mais uma menina doente.
Quando ela nascera prematura e frágil, foram muitos que tinham dito que ela não sobreviveria ao desleite. Quando ela sobrevivera a essa fase de colo e começara a dar seus primeiros passos ainda disseram que ela não iria resistir até a troca de seus dentes. Mas lá estava ela com todos os dentes em sua boca perfeitos. Quem eram essas pessoas que diziam coisas tão cruéis? Várias, mas poucas tinham coragem de lhe dizer diretamente. Seu pai era uma delas.
Então as pessoas não podiam culpa-la por não sentir tanto a morte de Rei Royce. Sua mãe estava devastada e suas irmãs tristonhas mesmo Rowen pareceu um pouco calado mais do que o de costume. Mas Larra apenas chorou durante a noite e nada mais do que isso. A única boa lembrança que tinha do pai fora a ocasião em que este tinha o presenteado com um belo corcel negro, um prêmio por ela ter sobrevivido até a idade para ter seu florescimento quando o sangue da lua veio para ela pela primeira vez.
— É uma canção bonita, Larra – falou Elenya Hornwood, sua dama de companhia.
— Obrigada, eu realmente estou me esforçando – disse Larra – Quero que saia perfeita.
— Nunca estive em um funeral sem corpo – falou Elenya – Deve ser um pouco diferente, desculpe-me se estou sendo insensível, mas não espera que eu finja com você que eu sinto alguma coisa pela morte do rei. Entendo que é seu pai, mas não sou capaz de gostar dele. Nem mesmo com ele morto.
— Tudo bem, meu pai não era o homem mais agradável mesmo – falou Larra enquanto dedilhava sua harpa – Mesmo assim é meu pai e ele se vai sem que eu possa ter conquistado seu amor. Sem deixa-lo orgulhoso.
— Pare com isso, já te falei antes e torno a repetir – disse Elenya – Você é uma ótima garota melhor do que qualquer outro que leve o nome Bolton. E se sendo que você é não pode ser considerado o suficiente para aquele homem então não se preocupe. A outros que já a amam por ai... – a morena sorriu para a amiga — Não precisa da aprovação de nenhum outro rei para isso, princesa.
— Você é uma boa amiga, Enya – disse Larra tratando-a pelo apelido – Ter você comigo nesses últimos dois anos tem me feito muito feliz.
— Você merece toda a felicidade desse mundo, Larra – disse Elenya – Você é a irmã que eu gostaria de ter tido. – e as duas voltaram a sorrir uma para a outra – Se você tivesse nascido na Fortaleza de Hornwood tenho certeza de que receberia mais amor do que teve aqui. Minha mãe sempre quis uma segunda menina.
— Não seja tão cruel, Enya – falou Larra – As coisas não são tão ruins aqui.
— Não são? – disse Elenya — Você realmente deve ter um sono pesado para não escutar os sons dos prisioneiros esfolados nas suas câmaras de tortura não é? E os corpos esfolados nos estantes nos campos lá fora não te dão pesadelos?
— Por favor, Enya – falou Larra – É da minha casa que está falando e dos antigos costumes da minha família. Mesmo que eu não os aprove e os abomine não é agradável escutar isso sendo dito em voz alta.
— Eu sei, desculpe... – falou Elenya deitando-se na cama da amiga – Mesmo me dando uma represália ainda assim consegue ser um doce. Poderia aprender um pouco mais comigo a como colocar as pessoas no lugar caso o contrário as pessoas dificilmente te levaram a sério.
— É meu jeito não posso muda-lo – disse Larra.
— Desculpe-me, mas discordo as pessoas estão em constante mudança – disse Elenya – Mas tudo bem, não quero que mude para se tornar uma Bolton. Iria doer-me a alma caso te visse esfolando pessoas porque elas roubaram algo por estarem com fome.
— Nunca faria uma coisa dessas – falou Larra – Sabe que detesto qualquer tipo de violência. – ela suspirou – Talvez seja por isso que nunca fui aprovada pelos meus pais como alguém digna do orgulho deles.
“Se eu me parecesse mais com uma Bolton...” pensou Larra “Não apenas na aparência como nas atitudes também”. Então deixou a harpa de lado e levantou-se para caminhar até a janela de sua torre onde pode ver o pôr-do-sol. “Mas a vida me fez do jeito que sou tão fraca em saúde quanto em atitude, não consigo nem mesmo erguer minha voz contra alguém quanto mais uma lâmina”.
— Hei, não fale assim e nem me ouse ficar triste dessa forma – disse Elenya advertindo-a enquanto tornava a ficar em pé mais uma vez e agora ajeitava no próprio vestido – E não me ouse pensar em coisas ruins, certo? Não gosto de vê-la triste.
— Meu pai está morto, Enya – falou Larra – Eu não posso ficar triste?
— Por um cara que não merece? Não. – respondeu Elenya – Por um homem que tinha o prazer de te humilhar e fazê-la sentir-se a pior pessoa que existe? Não. Ele é seu pai e você pode ficar triste por ele ter morrido. Mas agora ele está morto e que os deuses perdoem o que vou falar: Foi merecido.
— Eu... – falou Larra então suspirando fundo – Você está certa.
— Eu estou não é? Diga-me uma novidade – disse Elenya – Poderíamos dar uma fugida de noite o que acha? – a morena pareceu um pouco retraída em responder — Deixar Forte Pavor com toda essa tristeza e luto para irmos a um lugar para tentar anima-la.
— Para onde eu iria? – disse Larra — As pessoas me reconheceriam e não faço o tipo de garota que frequenta tabernas ainda mais de noite. Não posso beber mesmo então não creio que seja uma ideia viável. Sem falar que iriam notar minha ausência certamente depois do que aconteceu com o meu pai. Mas pode ir se quiser, eu não direi a ninguém.
— Certo, como se eu iria conseguir me divertir sabendo que minha melhor amiga está aqui enclausurada e triste – falou Elenya – Desculpe-me, mas eu vou escolher ficar aqui com você. Não se preocupe, haverá outras chances de eu me divertir e poderá ir comigo se quiser. Nós disfarçamos como fazemos nas vezes em que você vai entregar comida aos pobres. E eu estarei com o meu arco e minhas flechas para caso algum atrevido ouse tocá-la.
— Eu dispenso, obrigada. – falou Larra sorrindo então houve um toque na porta do quarto – Quem é? – do outro lado veio à resposta.
— Sou eu, milady – disse a voz de Meistre Lywin.
— Deixe-me que eu abro, Larra – disse Elenya indo em direção da porta e a abrindo.
Do outro lado da porta se encontrava um homem alto e albino, com grandes olhos de pupilas vermelhas e cabelos tão pálidos quanto à neve. Vestia-se com o manto tradicional de um meistre e com as correntes ao redor do pescoço. As pessoas costumavam a temê-lo e mesmo Elenya ficara com o pé atrás quando o conhecera em seus primeiros dias em Forte Pavor, mas o homem era uma alma caridosa e gentil sendo um dos poucos amigos da princesa Larra.
— Está na hora não é mesmo? – falou Larra ao ver a bandeja com os frascos cheios de líquidos e poções – Eu já estava esperando. Elenya, se você quiser pode se retirar.
— Não, tudo bem... – falou Elenya – Eu ficarei.
— Não se preocupe, milady. – disse Lywin – O efeito das poções apenas causaram os efeitos leves. – ele misturou o liquido de alguns frascos em uma pequena vasilha maior e começou a esquenta-la. – É apenas um reforço para sua saúde para que continue a melhorar. Não queremos que adoeça ainda mais agora... – a poção estava aquecida como a fumaça subia da vasilha então o meistre pegou e virou o liquido dentro do cálice.
Meistre Lywin deveria fazer tudo isso antes de trazer para a princesa, mas a pedido de Larra foi que o albino passou a preparar a poção na frente dela. Não que estivesse desconfiada do preparo, mas sim porque queria saber como preparar afinal sempre fora uma pessoa curiosa para saber o porquê e como as coisas funcionam.
Ela costumava devorar livros, fazer perguntas a Lywin e sempre observava as pessoas com atenção quando via algo diferente que quisesse aprender. Sem falar que algo tão importante quanto aquela poção que lhe ajudava a manter sua vida mais fácil e saudável era algo que precisava saber como era feita.
— Aqui está, princesa Larra – disse Meistre Lywin então entregando o cálice.
— Obrigada – respondeu Larra tomando a poção – muito obrigada, Meistre Lywin – então entregou o cálice para o albino que assentiu. Então ele recolheu os objetos que tinha usado e dirigiu-se a porta.
— Com sua licença – disse Meistre Lywin enquanto Elenya abria a porta para este – Obrigado, Lady Elenya. – a loira sorrira levemente para o albino antes de fechar a porta.
— Vou deitar um pouco agora, Enya – disse Larra – Se você puder me deixar é que eu realmente sinto que meu corpo precise de um descanso. Não tive uma boa noite de sono e me sinto cansada...
— Tudo bem, Larra – disse Elenya — Irei ajuda-la a se trocar e então me retirarei.
E assim as duas garotas ficaram em silêncio enquanto Elenya ajudava Larra a mudar o vestido que usava pelos trajes de dormir. A Hornwood ajudou-a desfazer o penteado que usava e então a morena deitou-se na cama depois de despedir da sua dama de companhia. Larra sentiu a visão ficando embaçada e os sentidos falhando. O corpo estava leve e ela se entregou aos sonhos.
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