North War – Interativa
28 Capitulo 27
Notas iniciais
Porto Branco
Os portões de Castelo Novo se ergueram e Desmond Dustin removera seu elmo de guerra e descera do cavalo que havia conquistado a poucas horas de Raynard Manderly após derrota-lo na batalha da Toca do Lobo.
Quando ingressara nas ruas da cidade portuária havia sido uma ação surdina, sendo assim sem qualquer uso de montarias que só vieram após terem tomado os portões e os abrirem para o restante de seus homens ingressasse.
Desmond havia planejado tudo com cuidado, atacaram os portões de entrada na hora da troca de guardas e uma vez que estavam dentro nada poderia segura-los. Fora quem derramara o primeiro sangue no ataque quando saíram das catacumbas da cidade para os postos de vigia. Esfolara suas mãos e gritara ordens enquanto ao lado de seus soldados girava as alavancas que inçariam os portões de ferro.
A missão era bastante clara, isolar a cidade e captura-la para si. Enquanto um grupo seu atacava por terra, seu tio Stephen Frey ingressava pelo mar rumo ao porto e desembarcava para um ataque que consistia em destruir qualquer embarcação que estivesse ancorada. Segundo relatórios que recebeu, essa missão também tinha sido realizada com um sucesso avassalador.
Uma vez dentro de Porto Branco, sua missão era tomar por refém Lorde Manderly e dessa forma fazer com que os contra-ataques chegassem a um fim. E antes do alvorecer o encontraram sendo escoltado para outra fortaleza menor na cidade por alguns cavaleiros ao lado de seu filho bastardo, o jovem Raymun Snow.
O objetivo de Raynard era proteger-se ali enquanto as forças inimigas atacavam violentamente a casa de sua família, o senhor de Porto Branco não se importava com o que seria feito com quem havia permanecido em Castelo Novo. Sua mãe e irmãos mais novos tinham sido abandonados por si próprios e o mesmo podia ser dito de sua noiva a quem estava prometido, Giselle Cerwyn.
Por mais que não sentisse muito amor por sua família nem se sentisse tão amado, ainda assim Desmond Dustin não os abandonaria a morte para salvar a si mesmo. Havia uma dignidade e honra que o diria para protegê-los por mais que não merecesse.
A verdade é que havia certa semelhança entre as casas que naquele momento se viam como inimigas, Dustin e Manderly. Ambas eram casas sem harmonia familiar e sem afeto entre seus membros, mas no caso dos tritões havia ido para tornasse sua ruina. Uma casa dividida rui na primeira tempestade.
As pilastras eram adornadas com os bustos esculpidos do Rei Bacalhau, um antepassado que dizem ser o fundador da casa Manderly. Com sua coroa em madrepérola e suas barbas rebeldes como algas marinhas.
O som das correntes e roldanas era escutado enquanto a ponte levadiça caia próximo aos homens em manto amarelo mostarda. Desmond passou por seus subalternos enquanto tomava a frente e via uma figura grandalhona aproximando-se sendo seguido por dois guardas com archotes em que queimavam chamas tremulas pelo vento.
—Sua senhoria vai recebê-lo, Lorde Dustin.
O cavaleiro vestia armadura prateada, com a cota de malha tendo sido feita para que lembrasse escamas de peixe. O elmo sob seu braço era adornado por pontas como as de uma estrela marinha e o espaço livre dos olhos se dividia em três como os garfos de um tridente.
Desmond fizera uma reverência ao homem em sua frente.
– Posso saber que é vossa pessoa, sor?
– Sor Martyn Manderly. – Ele era uma cabeça mais alto do que Desmond e uns vinte quilos mais pesado numa mistura de gordura com músculos. Cultivava um bigode de morsa louro e suíças louras que emolduravam seu rosto rechonchudo e róseo. Possuía olhos fundos no tom azul esverdeado e um jeito arrogante em suas palavras – Tenho a honra de ser irmão mais novo do falecido Lorde Willem Manderly e capitão da guarda de Castelo Novo. Siga-me, Lorde Dustin.
Desmond Dustin enviara mais cedo uma oferta de trégua a senhora-viúva Margaret Manderly e troca de render o castelo e ordenar que os soldados abaixassem armas. Também constava na carta um pedido para uma reunião em paz, nunca passara por sua mente que tal fosse acatado. Fora a Porto Branco como atacante, mas agora vinham convida-lo para juntar-se a Lady Manderly em seu salão.
Teve a postura em manter-se neutro sem qualquer expressão, mas por dentro sentia-se apreensivo por entrar em um ambiente estranho sem saber se poderia sair com vida ou o que passava pela cabeça da mulher. Ainda mais de uma mãe que iria falar com o carcereiro de seu filho.
— Levarei meus homens comigo, Sor Martyn – Exigira Desmond e o cavaleiro assentira – Bom que não teremos problemas a respeito disso – Fez um sinal com o medo indicador e o médio aos seus guardas e cerca de uma dúzia deles se moveram ao seu lado. Seis iam a frente enquanto os outros cuidavam de sua retaguarda. E porta levadiça abaixou-se com um estrondo metálico.
Seguiram então até o Castelo Novo. As portas abriram-se e logo se viu sendo levado pelos corredores externos. Dos alambrados tinha a vista das ruas de Porto Branco além das muralhas do castelo, mas não tinha como ver muita coisa além da fumaça que subia como nevoeiro da região das docas e ocultava a visão do Mar Estreito.
A guarda pessoal da Casa Manderly vestia manto de lã azul-esverdeado e levava tridentes de prata no lugar de lanças comuns. Era uma combinação chamativa de cores, o esverdeado marítimo com o chamativo amarelo mostarda dos convidados. Oito guardas caminhavam na frente dos convidados, dez vinham atrás e mais quatro de cada lado sem contar é claro com o Sor Martyn Manderly que seguia ombro a ombro com Desmond. Se a intensão era intimida-lo, não havia surtido tanto efeito afinal não tinham o desarmado quando cruzaram os portões. E um bom guerreiro sempre se tranquiliza quando tem sua espada ao alcance da mão.
Ingressavam cada vez mais dentro do castelo. Passaram por estandartes desbotados, escudos quebrados e espadas enferrujadas que certamente eram tesouros de guerra por conta dos pedestais que se encontravam. Provavelmente relíquias de família da época em que ainda tinham sede nas terras verdejantes da Campina. Restos de uma centena de vitórias antigas que Raynard Manderly desonrara quando decidira fugir para salvar a própria pele. Rei Bacalhau se existisse cuspiria na cara de seu descendente.
Passara por um grupo de figuras de madeira que no passado deveriam ter adornado algumas proas de navio. Talvez os navios que um antepassado Lorde Manderly teria usado para fugir com a família para o Norte. Ao menos as rachaduras da madeira e os buracos de cupim denunciavam a idade dos adornos marítimos.
— Chegamos – disse Sor Martyn Manderly enquanto outros dois homens seguiam para abrir as portas de madeira branca quase no mesmo tom de leite de papoula.
Havia dois tritões de mármore que ladeavam a corte de sua senhoria e cruzavam seus tridentes sobre a passagem. Enquanto os guardas abriam as portas, Sor Martyn Manderly anunciou a presença deles.
– Lorde Desmond da Casa Dustin de Vila Acidentada – disse o Capitão da Guarda.
Nas outras vezes que visitara Porto Branco, Desmond não pusera os pés no Castelo Novo muito menos na Corte dos Tritões pela simples razão de servirem a casas inimigas. Porém, para um nortenho sentia-se muito deslocado frente a tanta grandiosidade que denunciava as raízes sulistas daquela casa.
A morada da maioria dos lordes nortenhos era simples e apenas com o conforto necessário para a família que abrigava. Ao menos era assim com os Dustin de Vila Acidentada e isso o incomodava um pouco. O sentimento de sentir-se deslocado era algo que tivera que conviver a vida toda em sua família, porém isso não fizera com que se habituasse.
Naquele momento se sentia tão plebeu quanto os cavalariços que trabalhavam em seus estábulos, mas por fora se encontrava de peito estufado e postura ereta como um verdadeiro senhor deveria ser. Era o conquistador da maior cidade do reino que perecera antes do nascer do sol.
Mas a grandiosidade daquele lugar apenas aumentara quando se abriram as portas. As paredes, o chão e o teto eram feitos de tábuas de madeira entalhadas cuidadosamente e decoradas com todas as criaturas do mar. Enquanto se aproximava do palanque, pode ver os afrescos pintados no teto que refletiam no chão de madrepérola. Ele pisava em caranguejos, mariscos e estrelas-do-mar.
Havia também pintados ramos retorcidos de algas marinhas e ossos de marinheiros afogados bem como sereias de seios redondos e nus com cabelos cor-de-areia que pareciam revoltos como as ondas do mar. As figuras eram bonitas em demasiado para serem consideradas obscenas. Nas paredes de ambos os lados, tubarões brancos rondavam as profundezas pintadas de azul esverdeado enquanto enguias e polvos deslizavam entre rochas e navios naufragados.
Cardumes de arenques e grandes bacalhaus nadavam entre as altas janelas arqueadas. Mais para cima, perto de onde velhas redes de pesca pendiam do forro, a superfície do mar fora retratada. À direita, uma galé de guerra deslizava serena contra o sol nascente; à esquerda, um velho e surrado barco de pesca enfrentava uma tempestade com velas esfarrapadas.
Atrás do palanque, uma lula gigante e um leviatã cinzento travavam uma batalha entre ondas pintadas em prata. Chamativo demais para um homem acostumado com o que encontrava nos salões nortenhos, porém não podia negar a beleza. Seria um lugar agradável de visitar em outras ocasiões que não fossem aquelas, mas sabia que seria difícil que a oportunidade surgisse.
Desmond esperava falar com Lady Margaret Manderly a sós, mas encontrou o salão cheio pelos membros da corte do tritão. Junto às paredes, as mulheres superavam os homens na proporção de cinco para um.
Provavelmente todos tinham vindo ali refugiar-se quando os ataques começaram a Porto Branco. Os poucos homens que viu tinham longas barbas brancas ou pareciam jovens demais para se quer ter pelos faciais.
Desmond aprendera a ler o rosto dos homens e saber ver o que pretendem sem que digam uma palavra. E os olhos das pessoas ali eram de ódio e raiva não que importasse afinal quando acatara os planos de sua mãe sabia que não conquistaria a popularidade em Porto Branco. O povo conquistado poucas vezes festeja com o conquistador.
Tampouco encontrou algum sinal de boas-vindas nos olhos azul-claros de Margaret Manderly. Uma mulher que ainda mantinha a beleza apesar dos anos da idade que vinham chegando para si.
À esquerda de sua cadeira estava um meistre rechonchudo com as correntes parecendo estrangular lhe de tão marcadas no pescoço. Não devia ter mais de trinta anos, tinha o rosto bem barbeado e a cabeça cheia de cachos dourados.
Sor Martyn tinha o lugar de honra do lado direito de sua senhoria. Em um banquinho almofadado aos seus pés empoleirava-se um menino com cabelos ondulado como um mar dourado e olhos negros profundos. Atrás de Lady Margaret Manderly estavam duas mulheres jovens, ambas apoiavam as mãos na cabeceira da cadeira.
A mais velha tinha cabelos dourados longos caídos por suas costas e cobria os seios pequenos. Olhos grandes, arredondados e claros. Nariz pequeno e delicado. Lábios grossos em formato de coração. Uma figura magra de ombros delicados e braços finos com mãos pequenas e delicadas de dedos finos. Certamente a noiva do Lorde Peixe Fujão, como seus homens tinham apelidado Raynard Manderly.
A mais jovem, possuía os cabelos ruivos e ondulados descendo longos quase na altura de sua cintura. Sobrancelhas expressivas para olhos azuis claros bem chamativos. Tinha um rosto largo, porém delicado de bochechas salientes e lábios finos rosados. Tinha uma estatura baixa e tinha seios medianos e mãos pequenas. A irmã mais nova de Lady Margaret, também chamada em sua honra, porém todos a tratavam por Maggie.
— Milady – Cumprimentara Desmond a Senhora-Viúva Manderly.
— Soube que quer tratar de negócios comigo, Lorde Dustin – referiu-se Margaret com uma voz pacifica – Pois que comece a falar e seria bom que escolhesse bem as palavras que irá usar em vosso discurso.
– Se for do agrado senhora – disse Desmond – Talvez devesse ser tratada em uma audiência privada. — Não era do agrado da viúva como pode notar.
– Não escondo segredos da minha família – disse Margaret mostrando seus filhos e nora que a rodeavam — Nem de meus leais senhores e cavaleiros – mostrou alguns nobres que compunham sua corte com os estandartes de suas casas vassalas sendo que muitas delas tinham sido visto anteriormente nos confrontos daquela noite que ocorreram nas ruas e travessas de Porto Branco — Todos bons amigos.
— Se assim deseja, Lady Manderly – disse Desmond – Assim será como vossa senhoria deseja. Creio que tenha visto os termos que solicitei que lhe fossem entregues assim que meus homens montaram o cerco a Castelo Novo.
— Algo como um acordo de paz em troca de abaixar nossas armas e fazer de nós reféns em nosso próprio lar. – disse Margaret — Coisa que já não somos nesse momento o que pede é que nos rendemos lhe declaramos nosso vencedor e a pergunta é: Por quê?
— Em troca de poupar vosso povo e vossa família – disse Desmond – Podem ser uma casa poderosa, porém mesmo gigantes cai frente a um exercito numeroso. Sou o menor de vossos problemas, Lady Manderly. – Ele olhou ao redor podendo ver a agitação na Corte do Tritão.
— Sua cidade foi enfraquecida por mim e suas defesas devastadas por meus homens – disse Desmond sem qualquer receio de represália pelo orgulho que sua voz soara enquanto prosseguia em suas palavras — Mas isso não significa que seremos os vitoriosos porque nossas chances frente a uma investida de vocês são dignas de pena.
— Sua sinceridade é tocante – disse Lady Manderly – É um homem admirável meu senhor.
— Apenas sujei suas ruas de sangue o suficiente por uma noite – disse Desmond – Só quero evitar que tal ação torne a acontecer em uma grandeza maior. Fomos limpos em nossas ações... – Fora então interrompido.
— Limpo? Atacou-nos na calada da noite – disse Margaret – Tiro-nos de nosso sono com o horror de ver os Sete Infernos vindo a tona em nosso lar. Nunca presenciei tamanho horror antes do que pelo qual eu passei hoje ao lado de meus filhos.
— É uma guerra minha senhora – disse Desmond – Um homem não anuncia quando vai atacar e a noite é um escudo para os soldados. Mas sim, fomos limpos em nosso ataque apenas sujando as mãos com sangue de guerreiros sem nenhum inocente tendo de pagar o preço... Meus homens não violaram nenhuma mulher e pouparam crianças da morte, foi um dos comandos que dei a eles. – Ele indicou seus guardas pessoais, mas se referindo a todos os seus subalternos – E eu sei que acataram porque caso apareça alguém dizendo o contrário irei garantir a punição ao infrator. Abomino qualquer espécie de violência desnecessária, Lady Manderly.
— Mas a mensagem da conquista de Porto Branco já foi enviada e logo mais homens virão para vossa cidade como um segundo comando pronto para continuar com a guerra. – continuou Desmond — Porém, não serão tão gentis como fui com minhas ordens. Eu tenho conhecimento desse fato bem como acredito que saiba bem que é verdade o que vos digo – A mulher denunciou com o olhar que lhe compreendia.
— Uma carta foi enviada a Forte Pavor sem menos tardar uma tropa liderada por Lorde Ethan Bolton virá a vossa cidade ao lado de aliados valorosos como Lorde Harrold Hornwood e Lorde Sandor Ryswell. – continuou Desmond – E tanto os deuses antigos quanto os novos sabem que eles não terão a piedade que tivemos. Em busca de evitar um massacre a vosso povo – Ele fez um sinal e guarda-costas, Sierra Slout. A moça puxara um pergaminho do manto amarelo que vestia – São os termos de rendição, milady.
— Assine-os e terá minha palavra que ninguém sofrera – finalizou Desmond. Enquanto via o pergaminho foi entregue ao meistre que a estendeu a sua senhora que não o aceitara. Fez um sinal ao homem que foi compreendido por tal que guardara o pergaminho em suas vestes.
— É uma decisão delicada a ser tomada, Lorde Dustin – respondeu Margaret Manderly erguendo-se de sua cadeira e sendo acompanhada do filho mais novo que fizera o mesmo movimento de seu banquinho – É um homem que costuma honrar com a palavra?
— Sim, eu sou – disse Desmond – Mas se isso não lhe valer então irei provar que minhas intenções são de bom grado. Um homem de verdade sabe que suas ações medem mais que palavras e é por isso que prometo a ti algo que vai além de nosso tratado de paz: Eu lhe ofereço a libertação de vosso filho que está sobre minha posse – Todos pareceram surpresos com aquelas palavras supostamente ninguém esperava que Raynard Manderly fosse poupado – Ele é nosso prisioneiro e ficará assim caso não aceitem os termos de rendição. – Houve um burburinho na corte que foi silenciado com o aceno da senhora-viúva.
— Raynard ainda vive? – questionou Margaret – Está bem ou foi ferido?
— Está sobre minha proteção e cuidados – disse Desmond – E estará junto de vocês se a decisão for tomada corretamente – Houve uma troca de olhares entre Sor Martyn e Lady Margaret antes que a mulher se pronunciasse.
— Peço um tempo para discutir-lhe tal com meus conselheiros, no entanto a resposta não irá tardar. Agora queira retirar-se de nosso castelo. – Respondeu Margaret que depositou as mãos sobre os ombros do menino a sua frente — Nossos guardas irão guia-lo até os portões...
Desmond saíra do salão principal da mesma forma que entrara sem qualquer espécie de confronto tendo partido. Os doze homens que faziam sua guarda o acompanhavam de perto enquanto eram escoltados pelos membros da guarda de Castelo Novo.
No fundo de seu ser o Lorde de Vila Acidentada estava com esperanças de que tivesse conseguido trazer algum juízo a viúva. Por mais que tivesse notado um sentimento estranho no olhar da mulher quando tocara no assunto referente ao filho. Não era felicidade por conta da boa noticia, na verdade era algo diferente quase como uma decepção.
Talvez tivesse certo em pensar que ambas as famílias tivessem semelhanças era um fato que sua própria mãe amava um filho mais que outros. No caso uma filha que por mais problemática que fosse tinha toda a atenção de Lady Wylla Dustin. Mas Desmond não era mais um garotinho que crescera sem amor materno e tivera os irmãos como verdadeiros estranhos. Ele se tornara um senhor algo que nunca pensara se tornar por conta de sua posição como um terceiro filho. E se tornara um grande comandante prestes a ter uma vitória para entrar no restante das outras que já possuía.
Margaret Manderly viria até si antes do pôr-do-sol, se não fosse por Raynard seria por seus outros filhos. Poucas mulheres são racionais como Lady Wylla Dustin, a maioria delas deixa o coração falar mais alto.
Ele tinha conseguido uma decisão decisiva para seu lado na guerra voltando o jogo a favor deles com grandes vantagens. Falariam daquilo por anos como seu maior feito. Mas por que então ele ainda sentia-se vazio. Será que nunca conseguiria a felicidade e a realização plena?
...
— Vila Acidentada – Erguera o córneo Seymour Slate, um de seus tenentes.
— Vila Acidentada – Comemoraram os outros em coro enquanto batiam seus canecos e córneos uns nos outros. Ouvia-se o som das conversas e uns risos, mesmo alguma cantoria desafinada e ébria de alguns soldados ao longe.
Desmond poderia ter dito que não deveriam beber, porém sabia que seus subordinados mereciam uma alegria pelas conquistas que tinham conseguido em seu nome. Então deixara que abrissem os barris de vinho da árvore e de cerveja nortenha que tinham encontrado nas docas e carregado como espolio de guerra.
Havia ainda algumas rameiras que tinham vindo comemorar com os homens de Vila Acidentada. Aquelas mulheres não se importavam com o fato de a cidade estar sitiada, porque ainda assim era noite de trabalhar e os cavaleiros forasteiros estavam dispostos a pagar ouro pelos serviços.
Lorde Dustin vira seu tio Stephen Frey com uma delas em seu colo. O irmão de Lady Wylla cumprimentara o sobrinho quando este passara por ele em direção da tenda que havia sido armada não muito longe da fogueira. Desmond cumprimentara os guardas que estavam de vigília sobre seu aposento e descera a porta de lona atrás de si. Ainda podia escutar o som das conversas e canções dos guardas, porém não estava com animo para festas enquanto não houvesse o que comemorar de verdade.
— Preciso dormir – disse a si mesmo enquanto removia o peitoral de aço que usava e em seguida a cota de malha. Desfivelara a bainha da espada e a repousara ao lado do elmo e escudo. – Bem melhor – suspirara pesadamente enquanto colocava uma camisa de algodão e então se sentava ainda calçado com suas botas.
Pegara uma jarra e enchera seu cálice até a metade e o levara a boca. O gosto da cerveja preta descera em sua garganta e repousava sobre as peles de sua cama improvisada debaixo da tenda mediana.
Desmond sentou-se ao lado de sua vela que se derretia sobre o candelabro de latão. Pagara então com suas mãos rudes e grosseiras alguns pedaços de pergaminho que se encontravam ao lado de um tinteiro e pena.
Aquelas eram as cartas que rabiscara palavra após palavra durante os dias de viagem com os pensamentos de que seria melhor queima-las antes que alguém as visse. Só um tolo escreve para os mortos.
Eu sou um lorde melhor do que um cavaleiro, um cavaleiro melhor do que sou como filho e um filho melhor do que um marido que fui um dia. Sinto muito por não ter sido capaz de fazê-la feliz em vida, penso em ti todos os dias meu amor e isso me machuca. Mas é uma dor que aprendi a conviver.
A ideia de que falhei contigo e não pude tira-la de seu sofrimento pela perda de Daryn. Sei que não me amava e nunca amou que apenas cumprimos com as tradições antigas quando lhe tomei como minha esposa. Deveríamos ter dito não a minha mãe e negado essa união porque teria sido melhor aos dois. Retornaria para sua ilha sulista para junto de sua família e longe das lembranças que Solar Acidentado lhe trazia.
Milly, eu amei você soube no momento em que a tive morta em meus braços. No momento que a encontrei morta naquela manhã e sabia que nunca ouviria sua voz. Você me odiava? Eu nunca sabei com certeza. Mas sua atitude foi de alguém triste e desesperada, por que não conversou comigo antes de fazer algo assim? Eu ainda me importava com você.
Por favor, apenas espero que perdoe os erros que cometi. Por ter aceitado esse casamento e por não ter sido capaz de salva-la de sua tristeza. Não sei se iremos para o mesmo lugar depois que morrer. Maldição, eu nem ao menos sei se existe algo após a vida se tiver espero que os deuses independentes de quem sejam tenham visto o quão você merecia estar num lugar melhor e que tenham lhe perdoado em seu ato final de desespero.
Se Bolton perder a guerra, nossas terras estarão perdidas também e dadas aos aliados dos lobos. As terras que nos acometem são extensas e ganhamos através de conquistas em guerras com casas menores. Sem falar que o nome Dustin era usado pela Rainha Vermelha na sua época de donzela. Minha tia Bethany condenou a nós a sermos sempre colocados no mesmo peso e medida que os Boltons, não a culpo, no entanto não é como se meu pai fosse negar algo a eles. Não são pessoas de aceitarem não ter o que querem.
Estamos em guerra. Preparam-me a vida toda para esse momento em que lutaria para defender o que é meu. Morrerei lutando como meu pai fez, lembro-me de Brynden contando como nosso pai sorria no momento que pereceu em seus braços. Eu não sei se seria capaz de sorrir para a morte até porque não sou um homem que sorrir muito ultimamente.
Desmond releu a carta lentamente. Lendo cada uma delas várias vezes, perguntando se se deveria mudar uma palavra aqui ou adicionar outra ali. Por fim, rasgara o papel em dois com um movimento lento. Remoer-se por alguém que não o amava e encontrara na morte um amante melhor era gostar de sofrer. E ele não podia continuar mantendo seu coração com alguém que já se fora.
— Eu não sei o que pensar – disse Desmond enquanto colocava o pergaminho para queimar – Você está morta e não há nada a ser feito a respeito – A chama da vela se estendia pela lateral do papel fazendo com que as palavras em tinta derretessem e o papel enrugasse pelo calor – Mas eu ainda amo seu fantasma que ficou em mim.
O homem que atravessou a porta não era um de seus guardas. Era Sor Martyn Manderly sem sua armadura. Uma bainha vazia pendia de seu quadril, e seu manto tingido de azul-esverdeado estava preso no ombro com um pesado broche de prata com a forma de uma moeda gigante com a face do Rei Bacalhau.
— Lorde Dustin – disse Sor Martyn quando vira Desmond erguer-se assustado de sua cama – não temos muito tempo. Por favor, venha comigo.
— Sua presença aqui significa que sua senhora tomou sua decisão – disse Desmond – Bom, diga-me do que se trata.
— Não ouvira a decisão de mim, Lorde Dustin – respondeu Sor Martyn – Sou apenas um enviado a levar-lhe até Lady Manderly. Peço que me acompanhe e eu garantirei sua segurança dentro de Castelo Novo.
— Que assuntos sua senhora teria a tratar comigo? – disse Desmond – Demos por encerrada minha conversa e proposta. Não estou aberto a negociações e esperava que tivesse sido claro em minhas palavras.
— Não será uma negociação meu caro – respondeu Sor Martyn – Será uma contraproposta que creio que lhe agradará a vossa pessoa, milorde.
— Que espécie de contraproposta seria? – disse Desmond – O que sua senhora poderia ter a me dizer que me faria mudar os termos que estabeleci em nosso encontro essa noite?
— Assuntos que lhe interessam, milorde – disse Sor Martyn – Tenha certeza que lhe agradarão às palavras que minha senhora tem a dizer-lhe em particular. – O Lorde de Vila Acidentada caminhara novamente até seu peitoral de aço e cota de malha começando a vestir-se – Não é necessário.
— Acredite realmente é mais do que necessário – disse Desmond – Estamos em guerra e até onde sei estamos em lados opostos. – Ele estava de frente para o capitão enquanto terminava de afivelar as tiras de couro da placa peitoral — Sua cidade está sitiada pelas tropas e até que os termos sejam assinados creio que não devo deixar minha vigilância de lado.
— Seu irmão estava coberto de aço dos pés a cabeça – disse Sor Martyn – E isso não o salvou de sua morte. Eu estou desarmado, porém poderia mata-lo aqui e agora se quisesse apenas quebrando seu pescoço ou sufocando até a morte. Mas sou um cavaleiro e minha palavra é de que sua vida será assegurada por mim essa noite.
— E quanto a sua senhora? – questionou Desmond – Ela também irá assegurar minha vida?
— É um homem bastante desconfiado, milorde – disse Sor Martyn com um sorriso – Isso é bom, para dirigir uma casa um homem não pode ser cego em confiar em todos e sim ser sábio o suficiente para se conquistar aliados. Não é seu último dia na terra meu rapaz, porém será um dia que terá de tomar uma decisão que irá refletir em seu futuro. Esteja certo disso.
— Irei com vossa pessoa, Sor Martyn Manderly. Mas saiba que caso esteja me levando para uma armadilha seja uma forma de aprisionar-me ou se eu morrer, saberá que meus vassalos me vingarão – disse Desmond – Não seria uma atitude sabia em voltar-se contra mim, sor. Já tenho sido bastante perspicaz e piedoso com vosso povo.
— Tem minha palavra quanto a isso... – disse Sor Martyn — Embora, se você morrer, milorde. Saiba que não será pelas ordens de minha senhora. – Ele cobriu a careca com o capuz esverdeado — Rápido, agora, siga-me.
Desmond colocara a espada na bainha recém-colocada e seguiu o estranho visitante pelo acampamento. Todos agora pareciam encara-los sem mais sinais de comemoração que morrera no momento em que Sor Martyn e seis de seus guardas tinham chegado às intermediações das tendas. Encaminhavam-se novamente aos portões de Castelo Novo, foi então que Desmond ao passar ao lado de Sierra Slout dissera:
— Você sabe o que fazer caso eu não retorne – disse Desmond – Espere por mim até o pôr-do-sol. – A cavaleira assentira ao seu lorde enquanto o via seguir na companhia de inimigos tendo apenas sua espada como defesa.
Sor Martyn o levou através de um longo salão escuro e desceu um lance de degraus desgastados. Cruzaram o bosque sagrado do castelo, onde a árvore-coração crescera tão imensa e emaranhada de trepadeiras que estrangulara todos os carvalhos, olmos e bétulas que ali havia. Aquele lugar certamente deveria ser para visitantes, o vislumbre selvagem e afastado dos jardins de inverno denunciava isso.
Manderlys serviam ainda a fé dos deuses novos não importasse se tinham sido acolhidos em terras nortenhas as suas raízes ainda estavam no sul. Era fato quando haviam sido responsáveis pela construção do Septo Nevado, o segundo maior que existia em Westeros. Desmond não era um religioso fervoroso, afinal em seu ciclo familiar nunca tinham lhe incentivado a criar qualquer vinculo com a fé.
E suas raízes sulistas por parte materna havia lhe tornado bastante indiferente ao que se dizia aos costumes vindos de terras vizinhas. Mas como um nortenho orgulhava-se de sua origem então a ideia de estar na presença de algo familiar por mais abandonado e descuidado que parecesse ainda assim deixava-lhe mais a vontade.
A árvore enviara seus grossos galhos pálidos de encontro às paredes e janelas que olhavam para ela. Suas raízes tinham a grossura da cintura de um homem, o tronco tão largo que o rosto esculpido nele parecia gordo e zangado.
A carranca da árvore-coração era de causar arrepios em quem a olhasse diretamente. A sua mão provavelmente caberia dentro da bocarra entalhada na madeira branca. Os galhos retorciam-se no ar com as folhas do tamanho de mãos de criança.
Para lá do bosque sagrado abandonado, o cavaleiro tritão abriu um rústico portão de ferro e parou para acender uma tocha. Quando estava queimando vermelha e quente, fez com que o Lorde de Vila Acidentada descesse mais degraus até um porão abobadado. Já podia sentir o cheiro salgado do mar conforme desciam os degraus cada vez mais o levavam para as profundezas.
Estava indo para baixo da enseada. Tocou as paredes e sentiu a umidade, estavam chorosas estavam brancas com crostas de sal e a água do mar espirrava em poças sob seus pés a cada passo.
Então encontraram uma parede de pedra branca que se moveu quando Sor Martyn a empurrou com a ajuda de Desmond. Atrás dela havia um túnel longo e estreito e mais degraus o esperavam.
— Onde estamos? – Desmond perguntou enquanto subiam – Se Lady Manderly queria tratar comigo então por que me trás para cá no lugar de receber-me em vosso salão como antes? — Suas palavras ecoaram suavemente pela escuridão.
— A passagem passa por baixo do Castelo Novo – respondeu Sor Martyn com o rosto avermelhado pelas chamas da tocha que segurava — Um caminho secreto. Você não deve ser visto, meu senhor. Para todos que o viram na Corte do Tritão ainda trata-se inimigo.
Emergiram passando por outra parede, mas esta era forrada com ripas e gesso do lado de fora. A sala do outro lado era aconchegante, quente e confortavelmente mobiliada. Desmond podia ouvir preces aos deuses novos acima de vossa cabeça sendo entoadas por algum septão. Na parede estava pendurada uma tapeçaria que retratava a família Manderly mais recente. Podia reconhecer o rosto de Raynard Manderly, o peixe fujão ao lado dos pais e irmãos mais novos.
Lorde Willem Manderly tinha sido um enorme homem de cachos brancos que se uniam com uma barba que lhe dominava o rosto com bastante zelo e cuidado. Em uma das mãos trazia um tridente que parecia bastante letal se bem manejado. Tinha uma face rechonchuda e bem humorada como podia se ver pelo seu sorriso. Ele provavelmente teria se envergonhado do herdeiro que sucedera.
Embaixo da tapeçaria, sentava-se Margaret Manderly. A senhora-viúva de Porto Branco e a mulher que viera encontrar em particular.
— Por favor, sente-se. – Lady Manderly. Seu vestido era de veludo era de um suave turquesa, bordado com fios de prata na bainha nas mangas e na gola. Seu manto era de pele de raposa, preso no ombro com um sino prateado. – Está com fome?
— Não, minha senhora – disse Desmond – E prefiro ficar de pé caso não importe-se, milady.
— Temos vinho, se tiver sede... Milorde. – ofereceu Maggie Manderly, a filha donzela da senhora de Porto Branco – Posso lhe oferecer uma taça se isso lhe agradar – Ela trazia uma jarra e uma taça numa bandeja de prata – É Vinho da Árvore...
Ela despejara o liquido dentro da taça de vidro ornamentado e estendeu a Desmond que ignorara a gentileza da donzela que percebera aquilo e devolveu o recipiente a bandeja. Margaret fizera um sinal à filha e aceitara a taça que havia sido recusada por seu convidado.
— Acredito que tenhamos errado na escolha de bebida – disse Margaret Manderly – Deseja outra bebida? Quem sabe algo mais rustico? Meu marido adorava hidromel por alguma razão se isso lhe agradar posso oferecer-lhe um pouco. – Ele permanecera em silêncio — Maggie, querida poderia providenciar uma caneca de hidromel para Lorde Dustin?
— Tratarei com você, milady. – Disse Desmond – Minha posição como lorde me coloca nessa condição de estar aqui para negociações. Mas, não tenho que beber com você. – O lorde apoiara suas mãos sobre a mesa e encarara a mulher que em resposta tomara um gole de sua taça.
— O vinho produzido pela Casa Redwyne apesar de delicioso e superior ao de Dorne ainda assim é uma lembrança desagradável de sua falecida esposa. – disse Margaret – É por isso que não aceita em beber comigo?
— Não vejo onde queira chegar, Lady Manderly – respondeu Desmond – O que lhe convém remoer assunto de minha vida passada? Estamos aqui para tratar do presente e da vida de seu filho que é meu prisioneiro. Creio que entenda a gravidade da situação de Raynard nesse momento ou talvez não se importante tanto assim com ele?
— Qual era o nome de sua esposa falecida mesmo? – perguntou Margaret Manderly – Ah, acho que me recordo. Millicent Redwyne, a viúva de seu irmão Daryn que tomara por sua como parte de sua herança como Senhor de Vila Acidentada. Quanto tempo faz que se encontra em sua viuvez, milorde? – Desmond compreendera aonde a mulher queria chegar com aquela pergunta.
— Quer me propor uma aliança de casamento? – perguntou Desmond e a mulher sorrira – É isso que se trata não é milady? Espera que oferecer a mim uma mulher irá fazer com que Porto Branco seja poupada. Não será o suficiente, mas admito que seja uma proposta tentadora de aceitar.
— É um homem astuto, milorde – disse Margaret Manderly – Porém, pergunto-lhe para que repense antes de recusar e veja o que irá perder. É um homem ainda jovem, mas está lutando uma guerra para outros e não irá ser recompensado como merece. Não sobrarão muitas jovens solteiras ao final da guerra porque como sabe é no calor da batalha que laços são firmados. E eu estou lhe oferecendo a minha menina para ti... – Ela chamara Maggie que se colocou ao seu lado parecendo um tanto corada – Ela lhe oferecera os herdeiros de que necessita. Ou prefere deixar Vila Acidentada para seu irmão mais novo?
“Sete Infernos, nem no meu pior sonho desejo deixar Errold como meu sucessor” Respondera Desmond a si mesmo.
Benditos fossem seus pensamentos a respeito de seu irmão caçula que por vezes parecia demonstrar cobiça pelo senhorio de Vila Acidentada. Errold nascera sem quaisquer chances de herdar algo assim como Desmond.
Terceiro e quarto filho, não tão diferentes entre si. Ambos eram sem perspectivas de se tornarem alguém em suas vidas que não fosse prestar vassalagem ao seu irmão mais velho, Lorde Daryn Dustin, porém quisera o destino que isso mudasse. Em um curto período de tempo senhor e herdeiro pereceram deixando os mais novos em novas posições.
Porém, Desmond conseguia reconhecer no irmão a ambição crescente e o desejo de subir ainda mais na hierarquia de sua casa. Errold era apenas um garoto, mas Desmond sabia que seu coração tinha apodrecido. Ele não tinha sobrevivido à falta de amor que rondava sua família como uma maldição. E no lugar de colocar-se sobre isso se deixou corromper.
O lorde sabia lá no fundo de seu coração que Errold já havia tentado contra sua vida uma vez ao menos. Tinha sido aquela vez naquela caçada que participara ao lado dos Hornwood quando por ponto não o fizera cair com o cavalo sobre si, quando acertara uma seta de sua besta numa das patas do cavalo em que o Lorde de Vila Acidentada montava.
Teria sido um acidente horrível se não tivesse sido mais ágil e pulado para fora da montaria a tempo. Tivera de sacrificar o cavalo, porém sobrevivera com nada além de arranhões. Seu irmão dissera que fora um tiro acidental, mas havia duvidas que fosse verdade.
Lady Margaret Manderly suspirou frente ao silêncio de seu convidado.
— Tratei você de maneira indiferente, eu sei. Tive minhas razões, não consegue ouvir agora? As preces dos refugiados em meu salão. Eles continuam lá na Corte do Tritão, poucos dormem a maioria ora pelos Sete na esperança que não estejam tão ao norte para que suas preces não sejam atendidas. Eles o odeiam pelo que fez, mas eu cresci com cavaleiros no Vale de Arryn. Reconheço em suas palavras a honra que vi nas de meu pai, disseste que não havia mulheres estupradas ou crianças mortas e é verdade.
— Sor Martyn confirmara com o que restara da patrulha da cidade na contagem de corpos. – dissera Maggie — Nenhuma criança morta por espadas ou quaisquer armas, apenas algumas poucas que foram pisoteadas no desespero da fuga. São tão pequenas que as pessoas nem notaram que estavam as matando. A covardia torna as pessoas desumanas e egoístas demais para se importarem de verdade.
— Seu filho não aceitara o acordo – disse Desmond – Ele grita de sua cela que os Starks logo virão e que me darão aos lobos deles para ser devorado. Conheço homens orgulhosos e rancorosos e sei que Lorde Raynard Manderly não aceitará casar a irmã com o homem que o derrotou.
— Não um acordo que ele vá fazer parte – disse Margaret Manderly – Por favor, Lorde Dustin. Sente-se e beba, eu imploro. Beba por que o que tenho a dizer-lhe é bastante indigesto. – Ela dera mais um gole em seu vinho e por fim suspirara — Raynard, meu filho mais velho e senhor de Porto Branco. Ele foi uma decepção para mim e meu marido.
São preces que você ouve. Na Corte do Tritão, eles rezam por si mesmos e sua família, no entanto duvido que algum deles tenha se abalado com o fato de seu senhor está aprisionado. – disse Margaret Manderly — Um rapaz imaturo e sem talento. Além de promiscuo, inconsequente e egoísta.
— Os bons deuses sabem que eu tentei ama-lo só que foi uma tarefa árdua que acabei desistindo. – continuou Margaret Manderly – Lady Giselle Cerwyn se retirou para rezar pelo homem com quem um dia se casaria, porém certamente estava mentindo. Ela poderia ter amado Raynard mesmo que um pouco, mas a verdade é que isso morreu no momento que ele a deixou para trás.
— Os lordes vassalos da nossa corte provavelmente conversam sobre a possibilidade de casarem comigo, aqueles que são viúvos ou então desposarem minha filha ou lhe prometerem a algum de seus herdeiros. – disse Margaret Manderly – Eu sei que cobiçam Porto Branco como herança de meus filhos após a morte de Raynard. Ninguém chorara por ele nem mesmo a mim.
— Ele é seu filho – disse Desmond surpreso e quebrando sua expressão séria por um momento apenas – Saiu de você. O amamentou com o seu leite e o viu crescer como pode dizer que nã chorara por ele?
— Ele já estaria morto – disse Margaret Manderly – Os deuses devem me odiar pelas vezes que desejei que ele adoecesse ou que o navio em que viajasse fosse tomado pelas ondas. Mas não me arrependo, não quando sei que ele merece morrer... – Ela virara a taça toda de uma vez e então a depositou na mesa – Elric seria o senhor perfeito se meu marido tivesse tido tempo de treina-lo. Dê vê-lo se tornar homem, meu marido via o mesmo que eu. E foi esse seu erro em demonstrar o que pretendia fazer. – Ela fez uma pausa — Willem se foi e eu bem sei que não foi uma simples doença.
— Sua filha não tem nenhum prometido? – Perguntou Desmond desconfortável as palavras da mulher – Não queira enganar-me. Ela já está em idade de casar-se e se assim for estaria comprando além de um casamento uma inimizade com a família que tivera a aliança quebrada.
Era como estar de frente para uma variante do que era sua própria mãe, Lady Wylla Dustin. Mas ao mesmo tempo era diferente, afinal o lorde sabia da incapacidade de mostrar afeto que a mãe possuía.
— Maggie não está prometida a ninguém, mesmo isso Raynard desfizera quando subira a posição de senhor. – disse Sor Martyn – Ela estava prometida ao filho de um lorde sulista das Terras Fluviais. Mas a promessa fora quebrada e a menina foi mantida na casa em que crescera...
— Caso o seu filho mais novo se torne o lorde – disse Desmond – Você responderia por sua casa até que o garoto tivesse 16 anos. Como regente teria a obrigação de tomar decisões por sua casa dentre elas a de dobrar o joelho frente ao trono vermelho. Jurar lealdade aos Bolton e trair a casa que abrigou os Manderly e lhes deu terras quando chegaram ao norte a um século atrás.
— Eu dobrarei – disse Margaret – Não me importo com quem seja o nosso soberano desde que este assegure ao direito de Elric como senhor. Não sou uma Manderly de nascimento e não devo nada aos Starks. Sou apenas uma mãe que deseja ver seus filhos em segurança... – Ela estendeu a mão ao homem – Você terá um exercito a mais para comandar em batalha e uma nova esposa para lhe garantir um herdeiro. Em troca peço que fique ao meu lado e defenda o direito do meu filho ao que é dele.
— Está pedindo para que eu mate Raynard – disse Desmond – Em outras palavras é assim que conseguirei tudo. Uma mãe que está negociando a morte de seu primogênito com um algoz.
— Ninguém precisa saber que você o matou – disse Sor Martyn – Ele é prisioneiro como todos os outros que capturaram. E muitos prisioneiros acabam perecendo por suas feridas em batalha ou de alguma doença que adquiriram em cárcere.
Raynard estava ileso e saudável. Desmond tinha garantido isso quando o capturara para que nenhum mal fosse feito ao Lorde de Porto Branco. Quem imaginaria que acabaria por ouvir aquilo? Agora pediam simplesmente para que cortasse a garganta do sujeito em seu sono. Mas o que mais lhe preocupava não era aquela parte do acordo e sim uma pessoa que lhe ofereciam.
Sob as orações que vinham do teto, Desmond podia ouvir apenas o fogo que queimava a lareira e mais nada. Encarou a menina que lhe ofereciam para sua segunda esposa e pegou-se pensando se estaria cometendo um erro em ingressar em mais um relacionamento em que não seria amado.
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