Notas iniciais
Novo capitulo para vocês. Espero que gostem. Boa leitura.

Ilha dos Ursos

Era uma bela ilha, com velhos carvalhos retorcidos e pinheiros altos. Tinha espinheiros que floresciam como a beleza selvagem que só existe no norte, havia pedras cinzentas recobertas de musgo verdejantes e riachos correndo por vertentes íngremes e desaguando em cachoeiras que formavam piscinas naturais.

Mesmo para uma ilha ainda assim era impossível na concepção de Ashley Mormont que sua irmã tivesse se enfiado em algum lugar que não pudesse ser encontrada, porém aparentemente mais uma vez Brianna estava surpreendendo a todos como o pôr-do-sol já ocorria no horizonte em meio às nuvens acinzentadas da tempestade que se aproximava.

E ela detesta a irmã por conta de suas manias de tomar atitudes impulsivas sem importar-se com as consequências, a garota era a mais velha já devia ter adquirido algum juízo, porém aparentemente a mais nova é que tinha herdado o bom senso.

Ashley sabia que ela nunca faria algo daquele estilo porque pensaria no pai antes dela própria, apenas bastava olhar para o quão preocupado Donnel Mormont se encontrava naquele momento. Maldição, ela nem ao menos estava conseguindo manter os olhos focados em seu livro sem pensar nela. Resolvendo abandonar a leitura e sair para fitar o horizonte na visão que não costumava ter todo o dia.

Eles estavam na Fortaleza dos Ursos que era a habitação principal dos lordes já três gerações, porém não era ali que eles viviam normalmente. Como um segundo filho Donnel recebera a posse do Solar dos Mormont. Este por sua vez era mais simples e modesta feito de enormes toras, rodeado por uma paliçada de terra.

Os habitantes da ilha são em sua maioria pescadores como o terreno não é fértil para o plantio de modo que o principal sustento então vem da pesca na Baia de Gelo. Existem cabanas de madeira com famílias que vivem ao longo da costa e barcos que todas as manhãs saem para a pesca no mar.

A garota loira se debruçara na sacada de pedra de seu quarto e fitava o portão principal. Feito com toras grossas de madeira com as figuras de ursos em pé esculpidos nas pilastras de cada dimensão. Do lado de fora além da figura dos pinheiros tão conhecidos podia ver a estátua de costas para a habitação como um guarda imóvel.

Tanto no portão do Solar dos Mormonts como da Fortaleza dos Ursos havia essa imagem esculpida que dizem ser uma antepassada da família algo que seria o equivalente a Bran, o Construtor é para os Starks de Winterfell. Evidentemente, menos conhecida do que o homem que supostamente tinha construído a Muralha.

A escultura tem cerca de três metros de altura e representa uma mulher vestida com pele de urso. Ela trás consigo um bebê em um braço, mamando, enquanto empunha um machado de batalha no outro. O nome de tal figura é desconhecido por ter se perdido além do tempo, mas os Mormonts a chamam de Mãe Ursa.

Por causa daquela mulher que as suas descendentes são treinadas em armas como os homens. Tal prática que infelizmente não agradava Ashley por ser uma alma bastante pacifica e racional, não via necessidade quando havia grandes guerreiros como seu pai e primo para protegê-las, porém é fato que nunca expressara aquilo em voz alta na frente de Lady Maege.

A verdade é que Ashley preferia práticas menos barbáries mesmo assim tinha aprendido manusear arco e flecha mesmo que não fosse uma arqueira muito boa. Apenas o suficiente para que sua avó não a infernizasse dizendo que ela envergonhava sua família e seu sangue ou qualquer besteira do gênero.

A garota nunca pegara o gosto para luta porque a irmã sempre fora uma amante de combates e de ficar balançando aquele espeto dela por ai como se procurasse furar o olho de alguém. E Ashley tinha percebido muito cedo de que o caminho que estava traçando era deverás diferente dos da irmã. Ambas simplesmente não conseguiam se dar bem o que por vezes fazia o Solar dos Mormont pequeno demais para as duas.

— Entre – disse Ashley e a porta abriu-se dando espaço para Gleerie Snow, a protegida de Donnel Mormont – Alguma noticia de minha irmã, Glee?

Quando Donnel Mormont recebera uma garota de quinze anos sobre seu teto as más línguas e boatos correram pelo Norte. Como o filho mais novo de Lady Maege tratava-se de um viúvo há quase uma década sem arrumar ninguém. Algumas pessoas mais perversas faziam boatos maldosos espalharem-se como folhas no vento ao dizerem que ele preferia a companhias mais jovens. Alguns chegavam a lançar rudemente rumores sobre o lorde e sua protegida bastarda como era de se esperar.

Era algo que enojava Ashley como ninguém parecia respeitar a decisão de seu pai em manter-se fiel a sua falecida esposa. Mesmo frente a má fama que estabeleceu-se nunca foram provadas verdadeiras e uma parte de Ashley agradecera aos antigos deuses, pois seria desprezível saber que sua fiel companheira era amante de seu pai.

Gleerie Snow se tratava da filha bastarda de Lorde Gerold Forrester que era o primo de Lady Mya, a falecida esposa de Donnel. Estava ali devido à antiga amizade que existe entre ambos os homens que acabou por sua vez estendendo-se as filhas.

Ashley não sabia o que era ter alguém para chamar de amiga antes de conhece-la, por mais que suas primas fossem companhias agradáveis ainda assim eram acima dela alguns anos no que se dizia em idade.

E Brianna sempre preferira a companhia daquele maldito espeto em suas práticas exaustivas e sem sentido do que com ela. Tinha sido assim a vida toda, mesmo antes delas ficarem órfãs da figura materna.

Então, o que começou com seu pai lhe ordenando que ensinasse a bastarda as letras revelou-se algo extremamente novo atrás daquela interação forçada entre ambas.

— Sim, milady – respondeu Gleerie.

— Graças aos deuses – respondeu Ashley com certo alivio, mais por seu pai do que para a própria irmã em si. Os homens que serviam aos Mormonts estavam em cada um dos cantos da ilha desde a costa até a floresta. Todos andavam à procura de Brianna havia quase dois dias, mas até então nenhuma informação tinha se revelado – Onde ela está? Diga para que eu possa ir encontra-la imediatamente.

— Não pensei que estivesse tão preocupada – disse Gleerie.

— Lógico que estou – disse Ashley – Aquela acéfala simplesmente sai assim sem qualquer aviso para meter-se sabe se lá onde e com quem fazendo com que o nosso pai se preocupe. Ele não merece passar por tudo isso por ela. – cruzando os braços — Brianna sempre causando problemas para nossa família...

— Sinto em dizer que ela ainda não foi encontrada – respondeu Gleerie com certa timidez.

— Então? – questionou Ashley – Do que se trata?

— Encontraram algo que possa ter haver com ela, milady – disse Gleerie.

— Então não a encontraram – respondeu Ashley bufando enquanto enrolava uma mexa de cabelo entre os dedos tentando controlar um pouco seus nervos – Onde é que essa garota foi parar. – Suspirou então tornando a encarar a sua amiga — Qual foi esse algo que encontraram que se refere a minha irmã egoísta?

— Foi um pescador – respondeu o Gleerie – Um barco dele desapareceu e foi deixado dinheiro em troca. Todos acharam curioso que algo desse tipo ocorresse justamente no dia em que Lady Brianna desapareceu.

Ashley era esperta o suficiente para saber que a irmã não teria simplesmente pego o barco para um passeio. Era ridículo ter pensamentos assim como sabia que a garota mais velha tinha certa amizade com filhos de pescadores e poderia estar com eles caso decidisse por alguma diversão em alto mar. Então a razão que a levara a pegar aquele barco sem permissão só poderia ser outro.

Levou apenas um instante de pensamento para que a dedução viesse até ela. E quando o provável motivo surgiu na cabeça da mais nova foi que gemeu e fez uma careta só em pensar. Não, Brianna certamente tinha ido além e Ashley conseguia imaginar claramente o que deveria ter acontecido e mesmo o que tinha se passado na mente da outra.

Era uma atitude surpreendentemente estúpida e perigosa, isso simplesmente só servia mais para causar ainda mais problemas do que já vinham tendo com o anúncio da guerra

Se houvesse um ataque contra o Solar dos Ursos, mesmo que fossem de selvagens, não haveria como se defenderem como os poucos homens que tinham permanecido na ilha estavam espalhados. Sem os guardas nas sentinelas dos muros a fortaleza encontrava-se apenas com sua defesa natural. Assim deixando qualquer chance de defesa quase nula.

Sua irmã aprontando das suas, aventurando-se além da ilha e dando mais dores de cabeça em Ashley como sempre. Perguntava-se porque ainda se importava com aquela infeliz.

— Aquela... — Disse Ashley em meio a uma careta, só em pensar naquela possibilidade que lhe abatido. Aquilo era o limite mesmo para alguém como a Ursa Lanceira.

— Lamento, milady – disse a Snow – O seu pai acabou de receber a noticia e mandou que eu viesse avisa-la sobre tal. Ele está preocupado que sua irmã tenha se acidentado em sua provável aventura marítima, quem sabe não seria melhor que a senhorita conversa-se com ele?

— Minha irmã não está morta, Gleerie – disse Ashley – Mas ela não está mais na Ilha dos Ursos e tenho uma noção de onde ela possa estar – E olhou além de sua janela para o outro lado onde se encontrava as nuances do continente- Garota estúpida e cabeça de vento — murmurou.

— Creio que suas suposições possam ser corretas – disse Gleerie – Um corvo acaba de chegar do continente, provavelmente vinda de Winterfell para o senhor seu pai. Quando vinha para cá para informa-la acabei notando que o meistre estava atravessando o corredor na direção oposta indo para o grande salão. – Ela fez uma pausa e olhou para a garota loira a sua frente -Ele detinha uma carta em mãos.

— Maldita seja ela! Sempre querendo chamar a atenção... – Amaldiçoou Ashley caminhando a passos largos para a porta. – Nosso pai é deixado com a missão de cuidar da Ilha dos Ursos e dos assuntos referentes na ausência de meu primo e avó... E aquela garota simplesmente apronta uma dessas sem pensar em como isso afetaria nosso pai? Vou ao encontro dele creio que ainda se encontre no grande salão. Se quiser vir comigo então que me acompanhe – continuou a loira enquanto descia os degraus para o andar inferior numa raiva que ruborizava sua face redonda.

Seu pai mesmo dirigira as buscas durante aqueles dois dias, e quase não dormira uma hora desde o desaparecimento de Brianna. Naquela manhã estivera tão desanimado e cansado que quase não conseguira se levantar e quando o fez não comera apenas descendo até as catacumbas para conversar com a mãe delas antes de partir em sua busca.

Ashley tentara ser compreensiva, estava compadecida e parte sua esperava que a irmã mais velha voltasse de modo a aquietar a aflição do pai. Mas agora tinha sua fúria lhe afligindo, enchendo-a de um sentimento que seria capaz de dar um ardido tapa na face sempre alegre da irmã.

Criadas e guardas a cumprimentaram quando atravessou os corredores do castelo enquanto do lado de fora a tempestade por fim caia, era como se soubesse da irritação que atingia a jovem donzela. Atrás dela vinha Gleerie Snow tentando acompanha-la e chamando por seu nome para que a esperasse, mas em sua pressa foi que Ashley a ignorou.

Teria corrido, mas era uma dama e isso lhe fazia como se devia ter alguma dignidade sem falar no vestido que não era dos mais práticos no que se dizia respeito a movimentos mais bruscos. Estava consciente dos olhares que as seguiam, quem se importava com o que estivesse passando pela mente deles naquele momento? Não ela que queria apenas encontrar o pai o quanto antes.

— O senhor seu pai encontrasse ocupado por agora, milady – disse um dos guardas que se encontrava do lado de fora do grande salão – Sinto muito.

— Eu estou aqui para falar com ele porque minha presença foi solicitada – respondeu Ashley – Creio que seja de seu desejo me ver agora – As palavras delas soaram tão convincentes que o guarda simplesmente fizera uma reverencia para depois abrir caminho para a garota e sua amiga bastarda.

O seu pai estava sentado no assento do lorde na mesa principal do patamar mais elevado e foi ali que Ashley a encontrou quando as portas se abriram e adentrara no ambiente. A sala estava quase vazia como de costume, apenas com as mesmas paredes com escudos de cada Lorde Mormont ao longo da historia pendurados ao longo das paredes, bem como a grande lareira que se encontrava apagada e o grande lustre feito de ferro em que haviam velas derretidas cujas chamas encontravam-se acesas.

Seu pai conversava com o meistre, o capitão da guarda e o mestre-de-armas foi então quando pararam ao serem interrompidos pela entrada da jovem donzela num impulso. Fui impulsiva demais, pensou, não sabia como não tinha cogitado que o pai não se encontraria sozinho.

Com apenas os dois a sós, ela poderia falar com o pai a respeito da irmã sem precisar ser formal ou comportar-se como uma dama apenas como a filha dele. Mas na presença de outros se sentia inibida como se provou quando parou em meio caminho até a mesa quando os quatro pares de olhos pousaram-se sobre ela ao mesmo tempo.

Donnel Mormont estava afundado na cadeira alta que um dia fora ocupada pelo pai e irmão, em suas mãos havia a carta em mãos só que no momento que vira a filha mais nova foi que ergueu o corpo do lugar se colocando de pé. Ele tinha uma expressão fechada e carrancuda, porém suavizou-se quando encarou a garota.

— Filha? – perguntou Donnel então parecendo recompor-se – Desculpe-me, por um momento eu pensei que fosse... – Houve um silêncio por alguns segundos antes que ele continuasse e voltasse a encarar Ashley – O que faz aqui?

— Gleerie avisou-me – disse Ashley – Parece que temos noticias de Brianna.

— Sim – disse Donnel então desviando o olhar em direção do velho homem em cinza com correntes ao redor do pescoço — Prepare pena e tinta, lembra-se de minhas palavras e as escreva. – Então foi que sua mão fechou-se e papel que ali havia amaçou — Diga a eles de que eu estou indo buscar a minha filha.

...

Winterfell

O castelo tinha sido construído sobre nascentes naturais de água quente sendo algo bastante comum no Norte sendo certamente uma herança dos projetos de Brandon, Construtor. Porém, Winterfell parecia mais quente do que a Última Lareira talvez fossem as águas escaldantes escorrendo por suas paredes de corredores e salas.

Lagoas termais levantavam o vapor ao ar livre, algumas escorriam suas águas em banheiras gigantescas de pedras cuja água fumegava. Fora pedido dela que algumas criadas que tinham levado tanto ela quanto a irmã ali.

— Agora podem ir – disse Maryanne – Chamarei quando formos nos retirar – Marilyn estava calada e encarando os próprios pés quando a ruiva lhe encarara antes de retornar o olhar para as criadas – Podem ir, eu e minha irmã podemos tomar nosso banho por conta própria. – Então fez um sinal para que elas se retirassem — Agora vão.

— Como desejar, minha senhora – respondeu uma delas então se retirando depois de uma rápida reverência. A Umber esperou que eles se retirassem antes de dirigir-se a irmã.

— Lyn? – disse Maryanne aproximou-se da irmã e depositou as mãos em seu ombro e ela lhe encarou – Quer ajuda com os seus trajes? – E a loira deu um aceno leve com a cabeça.

— Sim – respondeu Marilyn com a voz quase sussurrante.

Então foi com delicadeza que a garota ajudou a outra a retirar o vestido que usava deixando que o tecido leve escorresse pela pele pálida da loira. Logo uma figura quase idêntica a sua se encontrava a sua frente desnuda, Maryanne a ajudou a se sentar na beirada da banheira em seguida também se despindo.

Maryanne descera contra a água quente primeira sentindo sua pele arrepiar-se com o calor. Marilyn ingressara depois quando a ruiva auxiliou-a e logo ambas dividiam o mesmo espaço e estavam juntas novamente. A água daquela banheira era rasa de modo que se sentaram ao fundo com as águas cobrindo-lhes na altura dos seios.

— Posso? – perguntou Maryanne enquanto erguia uma escova e a loira novamente assentira.

— Por favor – respondeu Marilyn. E assim, foi que a ruiva moveu-se e colocou-se de costas com a irmã então começando esfregar podendo senti-la recuar um pouco para então retornar a esticar as costas e permitir-se ao toque.

Ela ainda está frágil, pensou Maryanne. É mais do que compreensível...

Maryanne nunca tinha conseguido suportar a ideia de estar muito tempo longe de sua irmã gêmea. As Umbers apesar das diferenças costumavam conviver muito bem entre si, diziam que uma costumava completar a outra naquilo que lhes faltavam.

Era esperado que personalidades distintas lhes distanciassem, porém isso não ocorreu e ambas se tornaram melhores amigas enquanto cresciam. Uma compreensão e reconhecimento de suas diferenças. A loira era uma verdadeira donzela moldada para um dia ser esposa e mãe como é a tradição enquanto a outra caminhou contra a maré de todos os ensinamentos.

Marilyn, seguia todo aquele bons modos e padrões esperados de uma dama. É calma, delicada e mesmo sendo alta, tem aquele ar infantil que encanta a todos e até um pouco desastrada algumas vezes, porém de um jeito meigo. Ela gosta de ver sempre o lado bom da vida, muito positiva e espera sempre o melhor de todo mundo.

Lyn é altamente romântica e uma sonhadora de alma delicada, por vezes Mary imaginara a irmã flutuando tão delicado era seu andar e quando seus cabelos loiros se iluminavam com a luz do sol era quase como se fossem reluzentes feito ouro.

Delicada como uma brisa de um dia de primavera, sua irmã apesar de mais velha por nascimento era mais frágil do que a ruiva. Marilyn se magoa com facilidade e chora muito mais do que era esperado de damas mesmo as de corações mais sensíveis.

Isso inclui quando está assustada e com medo. E quando está em situações tensas sendo a mais recente o ataque que sofreram. A batalha que tinha sido travada enquanto a comitiva marchava pelo caminho em meio as Colinas Solitárias.

Ela já tinha roubado uma espada de um dos cavaleiros alvejados pelas flechas na altura da batalha quando a encontrara. Escutara os gritos dela em meio aos sons de homens brandindo suas espadas e morrendo pelas dos inimigos.

Cavalos correndo assustados e cavaleiros tentando manter-se sobre eles além do fogo que queimava a relva dando ao lugar um aspecto alaranjado pelas chamas e cinzento pela fumaça. Marilyn gritava por ajuda, quando alguns sujeitos em trajes de infrondaria tinham abandonado a luta e capturado.

A ruiva viu o momento em que a sua gêmea era levada arrastada como um animal em direção a uma parte da mata fechada. Ela lutava para escapar, mas era inútil. Seus dedos se feriram quando tentara agarrar-se ao chão e seu belo peteado tinha se desfeito enquanto sujava-se de terra.

Mary seguiu os gritos da irmã acabando por encontra-la em meio aquela escuridão da mata fechada apenas com as luzes dos incêndios distantes da batalha para iluminarem seu caminho. Então foi que a viu e aos desgraçados que pretendiam violar sua pureza.

Havia dois homens que a seguravam enquanto um terceiro a tinha virado de costas e pressionava seu rosto contra a lama. Um quarto a despia com violência, rasgando o vestido e estourando as cordas do espartilho que a prendiam. A loira já se encontrava nas camadas de pano mais intimas e os seios expostos quando o sujeito foi descendo as calças.

Marilyn gritou como uma criança e se debateu mesmo contida quando sentiu o frio bater-lhe a sua região mais delicada do corpo feminino. O miserável já tinha colocando seu membro para fora, porém nunca chegara a toca-la como morrera antes.

Quando Maryanne transpassara a espada bem no coração dele. Uma morte mais rápida do que merecia. Uma atitude animalesca enquanto a jovem donzela chorava de medo pelo destino que tinha escapado por pouco e via a irmã matando os seus raptores.

Antes que eles ousassem ir adiante foi que a distancia que separava Maryanne deles tinha sido encurtada drasticamente e agora estava de frente para aqueles homens horrendos. Marilyn se levantara e correu para esconder-se atrás de uma árvore enquanto podia ver de onde estava a chacina que a ruiva executava.

Maryanne lembra-se de avançar para cima daqueles soldados em um ataque bruto e selvagem. E depois daquilo tudo se tornou vago como um borrão de memórias rápidas.

Eram imagens fantasmagóricas e retorcidas como as imagens de um lago agitado. Tudo parecia ocorrer atrás de uma névoa que tornava tudo indistinto como se ela estivesse fora de si, o que era verdade. Todos os sons ecoavam em seus ouvidos como se fossem distantes vindos do fundo de uma caverna.

Ela se lembra do sangue espalhado no chão e em seu rosto bem como em suas mãos. Lembra-se do corte lateral que recebera e do que lhe atingira a bochecha porque mais tarde sua mãe dera pontos neles.

Lembrava-se de todo o sangue que espirrara contra si. Era quente e que aguado, já tinha secado e misturado a sujeira quando mais tarde teve de lavar-se nas águas do Lago Longo.

Recordava-se dos sons de sua espada batendo ferozmente e de quando as lâminas inimigas caíram no chão. E por fim da imagem de sua espada cortando e perfurando e os gemidos que homens fazem enquanto morriam. Foram três deles que matara, porém o último conseguira escapar. Ela no entanto esperava encontra-lo, havia o decepado uma mão como uma forma de marca-lo caso não se recordasse de seu rosto. Se os deuses fossem bondosos o encontraria e daria o fim que aquele estuprador merecia.

Teria ido atrás para saciar sua sede de sangue, porém o som de Marilyn chamando por seu nome a fizera parar. A ruiva ajoelhou-se ao lado da irmã e a puxou para o seu colo em um abraço.

Ficando ali juntas enquanto o choro de Lyn soava alto até morrer em soluços. E Maryanne ficara ao lado dela confrontando-lhe e a acalmando. Ficaram ali até o fim da batalha quando escutaram os gritos de retirada do exercito atacante.

As gêmeas permaneceram ali no meio daquele matagal enquanto os últimos ruídos de batalha morriam e só saíram quando encontraram com soldados aliados que tinham se embrenhado em busca de sobreviventes feridos. Ferimentos físicos eram o de menos. Marilyn Umber estava com feridas emocionais. Mary desde cedo tinha descoberto um sentimento protetor para com a irmã e Lyn precisava dela mais do que nunca naquele momento.

Quando ambas saíram das águas foi que novamente a ruiva colocou-se de frente para a outra. Ajudando-a se secar por completo desde os longos cabelos cor de ouro até os pés antes fazê-lo consigo mesma. Quando a notou tremendo de frio foi que a envolveu em peles por sobre nos trajes inferiores que agora vestiam e ambas seguiram em direção dos aposentos que lhes pertenciam.

— Você não precisa fazer isso tudo por mim – disse Marilyn.

— Não, eu não preciso, porém é o que quero fazer – disse Maryanne fechando as portas atrás dela – Você é importante para mim e me preocupo com você, Lyn. – A loira agora secava os cabelos fazendo de conta que nada tinha acontecido com sua cabeça nas nuvens – O que houve ontem a noite foi...

— Não houve nada – disse Marilyn – Eu não... Eu ainda sou pura – Ela olhou para a irmã com aqueles grandes olhos claros idênticos aos dela — você garantiu que nenhum deles fizesse nada comigo.

— Mais poderia ter – disse Maryanne – Eles estavam muito perto.

— Não houve sangue – disse Marilyn então completando – Houve sangue só que não era meu e sim deles. Você os matou na minha frente e eu ainda não perguntei como você está se sentindo por ter tirado a vida de pessoas pela primeira vez...

— Não eram pessoas – respondeu Maryanne com aspereza – E eu não me arrependo do que fiz porque foi preciso e mesmo que não fosse necessário ainda assim o faria. – Ela apertou os dedos fortemente sentindo as unhas cravando-se em sua palma e o nós se arroxearem pela força — Meu único arrependimento foi que eu fiz tudo com rapidez porque aqueles monstros mereciam uma morte lenta.

— O jeito que você fala por vezes preocupa-me, irmã. – disse Marilyn – parte de mim teme que seu coração se perca se continuar querendo viver por uma espada. Você não é um homem por mais que deseje ser um... – Ela fez uma pausa – Eu nunca compreendi esse seu jeito mesmo que nos conhecemos a nossa vida toda, porém eu sempre estivesse ao seu lado. Você não deveria ter sentimentos tão fortes como ódio, raiva ou...

— Eu lhe salvei – falou Maryanne – Se fosse que nem as outras ladies que conhecemos então você teria... Eu não consigo nem ao menos dizer isso – Ela bufou com raiva – Foi o meu jeito de macho que nosso pai tanto repreende que te salvou. Foi minha habilidade com a espada que impediu que o pior acontecesse com você... – ela olhou para a irmã e a fez levantar-se da cadeira da penteadeira para encara-la — Sabe o que aconteceu com você, Marilyn? Sabe o que podia ter acontecido? É a realidade da guerra para nós mulheres.

— Quando um castelo é invadido ou uma comitiva é atacada, a primeira coisa que eles farão depois de matar os inimigos será pegar as mulheres e as usarem como desejarem... – continuou Maryanne — Não importa se não queiram. Não importa se gritem ou chorem podem até mesmo implorar que eles não irão desistir até terem tirado tudo que uma mulher nobre deveria prezar. Sua dignidade e honra sendo tirados dela para que então seja descartada como um nada... E eles gostam de donzelas puras e castas. Provavelmente passaria pela mão de cada um deles.

— Por que está dizendo isso? – disse Marilyn.

— Porque é a verdade – disse Maryanne – Os romances que você tanto lê e ama não contam o lado podre que é a guerra. Não contam o quão um homem pode ser um monstro por mais galante que ele pareça ser... E as primeiras serão as mais novas que ainda são donzelas indefesas porque é carne nova e eles são como cães famintos. E o pior de tudo, minha irmã é que para muitas mulheres isso não é apenas em épocas de guerra e sim apenas mais um azar do destino.

Seus pensamentos vieram para Atena. Maryanne lembra-se da amiga e de quando a encontrou suja de lama e com lágrimas nos olhos num choro abalado. A princesa estava com feridas físicas e com seu belo vestido não passando de trapos em farrapos com o sangue lhe descendo pelas coxas.

Você não dirá nada, foram às palavras de Atena antes de desmaiar em seus braços. A ruiva ficara ao lado da princesa e cuidou dela, a loba de Winterfell estava devastada e destruída após o incidente que se acometera na festa da colheita de dois anos atrás.

Mas Atena ainda tinha seu orgulho, maldita orgulhosa era aquela garota, pensara a ruiva espadachim. E maldita era sua honra a amiga que a fizera ficar calada frente ao que acontecera. Queria ter dito a alguém quem sabe aos seus irmãos ou mesmo ao pai, porém sabia o que aconteceria.

Haveria uma guerra pela castidade perdida de uma princesa e depois o que aconteceria com Atena? Era só olhar o que havia ocorrido com Elenya Hornwood. O mundo era cruel com mulheres e te derrubaria se não fosse alguém firme e se você tentasse se erguer então batesse mais forte.

— Precisa de alguma coisa mais? – perguntou Maryanne.

— Não, pode retirar-se – disse Marilyn e assim a ruiva fez. Fechando a porta atrás de si e seguindo a esquerda do corredor podendo ver ao dobrar a direita em direção da escadaria que dava para o andar inferior. Do lado de fora podiam escutar os pingos de chuva da tempestade que havia se propagado durante à tarde do dia anterior.

— Lady Mary – chamou uma voz atrás de si e ela parou voltando o olhar para o rapaz que se encontrava sentado em uma das janelas do corredor. Ele detinha as costas encostadas com a coluna de pedra e as pernas arqueadas com os joelhos servindo de apoio para o livro que lia.

Era um livro grosso daqueles que geralmente enfeitam as bibliotecas dos lordes e dificilmente são lidos por alguém só servindo para acumular poeira, mas aquele certamente era um acontecimento comum como o jovem rapaz parecia confortável com o manuscrito em mãos.

Porém o rapaz tinha achado interessante já que passara certamente o dia o lendo ao julgar pelas páginas que tinham sido lidas. Sendo que apenas tinha erguido os olhos miúdos e negros bem como o nariz longo e pontudo para encara-la naquele momento.

— Lorde Glover – disse Maryanne fazendo uma curta reverência ao rapaz que saltara para fora da janela e agora se encontrava de pé no corredor. – Ao que devo a honra de sua palavra ser dirigida a mim?

Ele era ao menos três dedos mais baixo do que ela e tinha uma feição um tanto infantil que o fazia parecer mais novo do que realmente era. Isso apenas a fazia sentir-se ainda estúpida em ter de chamar alguém de sua idade pelo titulo formal.

Afinal, ainda lembra-se das vezes em que vira aquele rapaz em eventos sociais sempre parecendo tão deslocado quanto poderia observar em demasia. Certamente, havia melhorado sua postura ao menos não parecia mais aquele garoto assustado de quando assumira os deveres de senhorio depois da morte do irmão.

— Como está a minha noiva, Lady Mary? – disse Lorde Glover com alguma formalidade.

— Foi uma longa viagem, milorde – falou Maryanne – Creio que seja necessário um bom descanso e estará boa pela manhã. Temo que não vá encontra-la a noite durante a ceia porque ela certamente pedira que alguma criada sirva-lhe nos seus aposentos.

— Lamento em ouvir tal noticia – disse Lorde Glover – Queria poder compartilhar com ela algumas palavras antes que partíssemos para a guerra – Ele fez uma pausa parecendo insatisfeito com a última parte – Nem ao menos sei se um dia poderei chama-la de minha esposa.

— Não deveria ser tão pessimista em relação a seu desempenho em batalha, milorde. – Falou Maryanne mais por cortesia do que por acreditar em suas palavras. O rapaz parecia deveras magrelo comparado com os outros herdeiros e cavaleiros.

— sou um homem jovem, porém sem experiência alguma para combate. – Falou Lorde Glover – Sou um bom administrador de minha casa, um senhorio bastante capaz para cuidar dos meus vassalos e de meu castelo. Só que para realizações de um guerreiro creio que não seja o que chamaria de bom o suficiente... – ele suspirou enquanto alisava a capa do livro que tinha em mãos – Foi uma desventura do destino que meu irmão morresse sem herdeiros e que eu tivesse de assumir o titulo.

— Sim, uma grande tragédia – disse Maryanne tentando conter-se para não sorrir frente à sinceridade do rapaz – Por que está confessando-me isso, Lorde Glover? – Não pode deixar de questiona-lo a respeito.

— Por favor, chame-me de Godric – disse Lorde Glover – Será minha irmã um dia se assim os deuses permitirem. Como logo após o termino dessa guerra para assim cumprir com a promessa de casamento que fora feita entre mim e Lady Marilyn. – Ele deu alguns passos em direção dela — Seremos de certa forma família então creio que possamos ter alguma amizade.

— Agradeço por seu apreço – falou Maryanne.

— Não estava a meu ver me tornar um lorde – respondeu Lorde Glover — Porém assim quiseram os deuses e aqui estou eu sobre o teto de minha majestade preparando-me para participar do conselho dos lordes que ocorrera ao amanhecer do próximo dia.

Maryanne não pode deixar de pensar como Godric Glover parecia ter amadurecido em pouco tempo. Ainda recordava-se de quando Lorde Umber visitara Bosque Profundo para visitar Galahad Glover, o falecido pai de Godric, que fora o responsável por firmar a aliança de casamento entre as famílias.

Fora pouco depois que as esperanças para que um dia Marilyn se tornaria a rainha do inverno serem destruídas. Pouco tempo após o anuncio do Rei Brandon tinha feito sobre a noiva sulista que um dia seria desposada pelo príncipe herdeiro.

Mas sua irmã nunca colocara seus olhos fosse sobre Matthew Stark ou Godric Glover, a loira sempre pareceu mais interessada no sol prateado de Karhold. Marilyn apaixonou-se por Edwyn Karstark muito antes dele assumir o titulo de herdeiro.

Quão cega a sua gêmea poderia ser para iludir-se com sonhos doces, porém inalcançáveis? Seu coração poderia acabar abrindo-se para seu prometido.

Ela desviara o olhar por tal pensamento e franzira o cenho para tal pensamento, provavelmente pela raiva que emanara dela sobre a outra em solidariedade ao rapaz. Atitude que lhe parecera tão errada frente ao recente trauma que Marilyn tinha passado.

— Algo lhe incomoda, Lady Mary? – questionou Lorde Glover.

— Apenas alguns devaneios – disse Maryanne tentando recompor-se frente aos pensamentos que lhe atingiram – Se me permite creio que deva encontrar meu pai.

— Talvez queira avisar-lhe a respeito de seu irmão – falou Lorde Glover.

— Brandon lhe fez algo? – perguntou Maryanne já colocando as mãos na cintura imaginando o que o mais novo da família poderia ter feito – Se esse for o caso talvez eu mesma possa chamar-lhe a atenção e garanto que isso não irá repetir-se.

— Refiro-me ao outro irmão – disse Lorde Glover – Evan Umber, o arqueiro – Ao notar o olhar de confusão na face sardenta da ruiva foi que o rapaz decidira completar a informação – Meu principal porta-bandeira, Lorde Gerold Forrester, recebeu uma carta de seu herdeiro que se encontrava nas Terras Fluviais com partes de seus homens. No pergaminho dizia que estava acompanhado de Evan que buscava reunir aliados para a guerra e que ambos logo virão ao Norte.

— Evan está vindo para o Norte? – repetiu Maryanne mais para si mesma como uma forma de digerir a informação. – Isso é uma informação interessante... — Nem queria pensar qual seria a reação de Lorde Grey Jon Umber ao perceber que seu filho tinha desrespeitado seu pedido para manter-se nas terras ao sul de Fosso Cailin. – Obrigado por compartilha-la comigo, Lorde Godric.

— Agora se me permite deverei deixa-la, Lady Mary. – disse Lorde Godric Glover – Sinto que deva procurar pelos Karstarks e dar-lhes meu apoio nesse momento difícil que se abateu sobre eles.

— Creio que não saiba do ocorrido – disse Lady Maryanne – Alguma noticia ruim vinda de Karhold? – Havia certa preocupação sincera em suas palavras que fez com que Godric prosseguisse com certa cautela.

— Não, durante essa tarde Sor Tyr Karstark enfrentou Lyonel Hornwood em uma torre em ruinas na Mata dos Lobos. – disse Lorde Godric Glover – Dizem que quando Principe Matthew apareceu no local que ambos se encontravam feridos pelo duelo que travaram.

— Tyr... – falou Maryanne como se o nome lhe sufocasse só de ser pronunciado tamanho era sua preocupação frente ao destino do primo – Ele...

— Não, o príncipe retornou com ele para o castelo por mais ferido que estivesse não morrera no caminho de volta. Seu estado, porém é grave... – disse Lorde Godric Glover — Dizem que Lyonel Hornwood conseguiu escapar em meio às árvores, não sem antes ser atingido por uma flecha do arco do lobo herdeiro.

— Que o desgraçado sangre até a morte – disse Maryanne – Maldito, o que fazia tão perto de Winterfell? Provavelmente estivesse planejando um ataque ao castelo ou uma emboscada. E o que o príncipe fazia naquele lugar no meio da floresta?

— Não sei responder a respeito disso – disse Lorde Godric Glover – Também não compreendo o que teria levado a esse encontro só afirmo que foi o que determinou que Tyr Karstark sobrevivesse.

— Então Tyr ainda vive? – disse Maryanne com um sorriso discreto nos lábios – Bom, sabia que não seria assim que ele iria cair. Lyonel Hornwood não iria ter a façanha de matar outro Karstark, já foi muita dor que esse sujeito trouxe a uma família então os deuses não iriam permitir que causasse mais.

— No lugar de seguir o inimigo foi que o príncipe tomara a honrada decisão de escolher pela vida de seu aliado. – disse Lorde Godric Glover — E acabou por trazer o sobrinho de Lorde Karstark para Winterfell para que o meistre pudesse tratar de seus ferimentos.

— Não é uma atitude honrada – disse Maryanne – É a única atitude que deve ser tomada em uma situação como essa. Qualquer outra seria um erro... – Ela então fez uma pausa e endireitou sua postura assim parecendo ainda mais alta do que o rapaz a sua frente – Posso acompanha-lo para saber como se encontra Tyr Karstark? Creio que não saiba, mas ele é meu primo.

— Claro, seria uma honra – disse Lorde Godric Glover então lhe oferecendo o braço. Em outra ocasião talvez a garota negasse a oferta, porém a feição no rosto do Senhor do Bosque Profundo era tão amigável que não tinha como recusar. Apenas esperava que Atena não lhe visse naquela situação.

...

Karhold

O tempo estava esfriando rapidamente e assim ressurgiam as dores tão comuns nas articulações do joelho para o desprazer da jovem donzela. Porém, o processo para ameniza-la era bastante simples que mesmo ela poderia fazê-lo sozinha só que sua mãe desejava por cuidar dela.

Lady Alais tinha convertido grande parte de sua vida para cuidar da garota desde o infeliz incidente que a aleijara. E lá estava ao lado da filha cuidando-lhe de mais uma crise de dor tão conhecida com a aproximação do inverno.

Após o ocorrido quando a menina tinha os seus quase sete anos as dores tinham sido terríveis nos primeiros meses. O único tratamento para ameniza-las era quando lhe rodeavam o joelho por panos quentes e os preparados de ervas do meistre. Leite de Papoula certamente seria mais eficaz, porém Meistre Green tinha alertado sobre como a sustância poderia trazer uma dependência excessiva se usada em excesso.

E seria desastroso caso Jenyver acabasse por precisar de Leite de Papoula como um bêbado necessita de vinho. Então por mais demora que pudesse levar o tratamento alternativo ainda assim era a melhor escolha. Meistre Green passará então a não só educar a princesa, como também a cuidar dela quase que constantemente nesses primeiros meses.

Não foram poucas às vezes em que ele levará objetos de seu trabalho para o quarto de Jenyver, a fim de vigia-la em qualquer alteração no quadro da garota enquanto cumpria com suas tarefas. E enquanto as dores diminuíam, a relação entre a princesa e o meistre se aprofundava.

Infelizmente Meistre Green falecera há cerca de três luas de uma febre alta que lhe fora fatal pela idade avançada, fora uma perda grande para a donzela que viu um de seus amigos partir assim de uma forma tão cruel. Meistre Fall que viera por substitui-lo era mais jovem, porém tinha alguns conhecimentos bastante úteis como a politica, que naquele momento era tão necessária para a garota que respondia por Karhold na ausência de seu pai.

Porém, Lady Alais não confiava no jovem chegado recentemente da Cidadela para cuidar da filha. E a própria senhora passara a tratar das dores da filha por si só e Jenyver não se preocupou em reclamar a respeito afinal era bom ter um momento apenas entre as duas.

— Soube de uma mensagem que chegou de Winterfell – disse Lady Alais – Talvez queira dizer sobre o que se trata para mim. Quem sabe, lê-la para sua mãe... – A mulher tinha um sorriso nos lábios que não passou despercebida pela filha que lhe lançou um olhar sério então erguendo uma sobrancelha com ar questionador.

— Como se não soubesse do que se trata – falou Jenyver – Avisou-me sobre o pretendente por minha mão e pouco depois recebo uma carta que vinha dele. Meu pai e a senhora cuidaram tudo pelas minhas costas e me fizeram de boba por sabe se lá quanto tempo... – Ela estava um tanto irritada e isso era transmitido em suas palavras — Eu tinha direito de saber, minha mãe. De saber que estavam negociando-me para que eu pudesse argumentar e me impor.

— Desagrada o casamento que lhe arranjamos? – perguntou Lady Alais surpresa.

— Não, eu só... – disse Jenyver então suspirando – Eu só estou mal humorada por conta da dor. – Sua mãe pareceu compreender melhor a situação e voltou a fazer a massagem na perna da filha — Apenas isso, não tem nada haver com a escolha que fizeram por mim é mais o fato de tudo ter sido pelas minhas costas.

— Queríamos que fosse uma surpresa – disse Lady Alais – Sinto se isso incomodou-a.

— Tudo bem – disse Jenyver – Ao menos não é um velho viúvo como achei que acabaria por ser.

— Seu pai nunca faria isso com você – falou Lady Alais convicta – É nossa única menina, não iriamos promete-la para qualquer um. Sem falar que qualquer homem teria sorte de tê-la como sua esposa.

— Mas nem todos seriam capazes de aceitar essa sorte – disse Jenyver – Eu sei, nunca tive muitas esperanças para um casamento bom. – Ela percebeu o olhar de censura da mãe sobre si, mesmo assim acabou prosseguindo — E agora aqui estou eu noiva de um herdeiro de uma casa nortenha importante.

— Por que não lê de novo a carta? – disse Lady Alais – Quem sabe não a faz acreditar que está acontecendo? – A donzela puxara a carta que se encontrava ao seu lado na cama e a desdobrara novamente.

— Você realmente quer saber o que diz – disse Jenyver – Pois bem, lá vai...

“Senhorita Jenyver

Espero que esta carta encontre-a no mais perfeito estado, e que estejas bem. A senhorita deve ter conhecimento, eu acredito, dos arranjos estabelecidos entre minha querida avó e seu honrado pai, de unir nossas casas através de uma aliança, a qual a senhorita já deve ter presumido, se resume em nossa união matrimonial.

Acredito que esta não era a situação que almejavas para um matrimônio, de fato, uma guerra não é propícia para o crescimento de um relacionamento, se não apenas para levá-lo ao fim rapidamente. Mas gostaria que a senhorita soubesse, minhas intenções são de apenas agradá-la. A notícia de nossa união trouxe-me apenas bons sentimentos, pois creio que apesar da distância e do pouco conhecimento que temos um do outro, poderemos tornar-nos bons amigos. Seu irmão Rodwell e seu primo Tyr sempre exaltaram suas virtudes e sua personalidade, esboçando a melhor das criaturas. Com todas as graças e enaltecimentos que ouvi sobre sua pessoa, posso garanti-la que tornei-me afeiçoado por sua pessoa. E, espero, que tenha apenas ouvido lisonjas a meu respeito, pois, para as imperfeições e limitações, ainda teremos muito tempo. Uma delas, como já deves ter observado, é a inaptidão para escrever cartas de amor. Prometo trabalhar melhor em meus galanteios, se lhe apetecer! Vais perceber com o tempo, que sou melhor apreciador do que bajulador.

Tomei a liberdade de anexar nessa carta, algumas linhas sobre a Ilha dos Ursos, para que possas imaginar a grandeza e o encanto de terras que logo poderá chamar de suas. Lembro-me que a última vez que a senhorita esteve na fortaleza dos Mormonts ainda era muito jovem, e pode não lembrar-se completamente do local. Mas asseguro-lhe, é uma bela ilha, com muita vegetação inexplorada, trilhas que levam a paisagens encantadoras, que enchem os olhos com o verde dos pinheiros e o azul dos muitos riachos e lagos que correm pela terra. É possível ver o gelo que cobre além da muralha, se observar o horizonte por cima de uma das montanhas de pedra mais ao fundo da ilha. Não tenho a exata resposta do porque, mas sinto algo em meu interior que diz, que a senhorita irá gostar muito da Ilha dos Ursos.

Peço sua aprovação para que este ato se torne um costume entre nós, o de escrevermos uma para o outro, para que possamos manter a familiaridade e a proximidade cada vez maiores. Asseguro-lhe que minhas intenções são apenas de compreendê-la melhor e estreitar nossos conhecimentos um sobre o outro. Mas apenas se este for de seu gosto e vontade. Não quero impor minha presença, se esta não for apenas para seu contentamento.

Desejo-lhe apenas as melhores graças.

De seu servo, e mais novo amigo,


Rian Mormont.”

— Parece um homem bastante agradável – disse Lady Alais – É deverás bem aperfeiçoado também. Creio que deva retornar-lhe uma carta quando puder agradecendo-o pela cortesia e suas belas palavras.

— É, provavelmente eu faça – disse Jenyver – Admiro sua simplicidade e atitude em tomar esse primeiro passo entre nós mesmo que de maneira escrita. Mal o conheço fora as ocasiões que o vi em eventos e celebrações entre as casas. — A verdade era que o coração dela tinha se derretido um pouco pelo que havia lido e relido.

Nunca se imaginou como uma pessoa romântica, por conta de sua falta de interesse por historias assim que pareciam tão tolas e superficiais. Rian Mormont ao menos tinha sido verdadeiro em apresentar-se daquela maneira tão cortês e amigável sem qualquer bajulação e juras de amor eterno. Caso tivesse feito provavelmente veria como atos de falsidade afinal não se sentia como sendo uma moça por quem homens fariam tais gracejos enfadonhos.

— Espero que a ilha seja tão bela quanto ele conta – disse Jenyver – Pode ser que eu acabe afeiçoando-me a esse lugar que um dia possa vir a ser meu também. – A senhora sua mãe sorriu para a frase da filha.

— Provavelmente irá encanta-la – disse Lady Alais – Recordo-me das cartas que troquei com seu pai e de como ele descrevia Karhold. Sabe, ele sempre foi um homem bastante gentil e atencioso não demorou muito para que seu avô acabasse para fazer os preparativos para o casamento.

— Provavelmente, porque seu pai já era um lorde aquela altura e precisava de um herdeiro bem como pela guerra que estourara. – continuou Lady Alais — Depois de consumarmos nosso casamento foi que ele partiu para a batalha. Nossa primeira noite foi o que nos presenteou com o seu irmão, Rodwell.

— Como provavelmente vai acontecer com Edwyn e Atena – falou Jenyver – Como deveria ter acontecido com Rodwell e Brie, quem sabe dessa forma não haveria ao menos uma parte de meu irmão que tivesse permanecido viva?

— Seu irmão ainda permanece vivo em nossas memorias, minha querida. – disse Lady Alais.

— Às vezes não parece ser o suficiente – disse Jenyver com um tom amargo na voz.

— E uma criança não deve crescer sem um pai nem uma mãe – disse Lady Alais – É um sentimento que não podemos compreender, mas se torna horrível só de se imaginar. – Ela fez uma pausa — Lorde Rian e suas irmãs perderam o pai cedo e foram abandonados pela mãe. Não creio que tenha sido uma infância muito fácil...

— Eu sei – disse Jenyver – Eu também falei sem pensar.

Naquele momento a porta do quarto soou. Duas batidas contra a madeira que fizera com que Jenyver se endireitasse na cama enquanto a mãe ergueu-se indo atender quem quer as incomodasse àquela hora da noite.

Quando a porta abriu-se foi que as duas mulheres puderam encarar Thorrun Snow, o Barba Branca. O meio-irmão bastardo de Lorde Karstark ainda possuía a pose formal do cavaleiro que continuava sendo mesmo que sua juventude o tivesse deixado há mais de quarenta anos atrás.

— Lamento incomoda-las – disse Thorrun Snow – Mas um dos guardas trouxe-se uma informação que merece ser investigada. – Então desviou o olhar em direção a sobrinha — Temos uma pessoa em nossos portões que deseja vê-la, milady.

— Há essa hora? – disse Lady Alais – Nem pensar, está chovendo e minha filha não vai sair nesse tempo. – A mulher parecia irritada com a ousadia do estranho visitante – Mande que retorne amanhã pela manhã que a senhora minha filha poderá anteder quem quer que seja.

— Eu não sei se isso pode esperar até pela manhã – disse Thorrun Snow parecendo preocupado – Mas se assim deseja então o farei... – Foi então que antes que o homem se retirasse foi que Jenyver ergueu-se da cama e mancou em direção deles.

— Eu irei ver e ouvir essa pessoa agora – disse Jenyver – Não vou permitir deixa-la esperando pela manhã. Se ela veio até nosso castelo a essa altura da noite embaixo dessa chuva forte que cai então creio que existam boas razões.

— Você não sairá nessa chuva – disse Lady Alais preocupada – Sua perna só irá piorar com o frio que faz lá fora. – depositou uma mão no rosto da filha — Se quiser mesmo que essa pessoa seja recebida então eu irei tratar com ela em seu nome.

— Eu irei atendê-la – disse Jenyver tirando a mão da mãe — Traga-a para dentro – dirigiu-se ao capitão da guarda de Karhold – A faça aguardar no grande salão enquanto preparo-me para recebê-la.

...

Jenyver tinha apenas colocado sua capa de pele de viagem por sobre os trajes de dormir e calçado suas botas nos pés antes descalços. Quando as portas abriram-se foi que ingressou no espaço e o som da bengala soou pelo chão do salão. Só utilizava-se do objeto como auxilio para andar nas ocasiões em que a dor lhe afligia ao menos dessa maneira não precisava forçar-se apenas sobre a perna boa. Ela simplesmente odiava aquela bengala por simplesmente dá-lhe uma aparência ainda mais frágil de uma pobre aleijada.

Lady Alais Karstark vinha logo atrás dela ainda parecendo um tanto sentida por ver a filha esforçando-se tanto, porém seu olhar demonstrava certo orgulho pela determinação que via nela. O salão encontrava-se escuro se não fosse pelos archotes que os guardas carregavam para iluminar o lugar.

Quando as duas se aproximaram foi que puderam ver uma figura que tremia e encontrava-se encharcada dos pés a cabeça. Vestia uma capa de viagem ensopada e os cabelos ruivos lhe escorriam úmidos sobre a cabeça e o rosto bastante corado pelo frio.

— Quem é você? – perguntou Jenyver para a moça a cerca de três metros de distância que se encontrava no meio de um semicírculo de guardas. Era uma jovem que devia ter a idade aproximada com a donzela de Karhold. A desconhecida estava meio encurvada e trazia algo por debaixo da capa em seus braços.

— Meu nome é Milly – disse a ruiva – Sou filha de um alfaiate de Porto Branco.

— Está muito longe de casa – disse Jenyver – O que a trás aqui e sozinha? – Foi então ela abrira a capa e expusera o bebê que havia em seus braços.

— Meu filho – disse Milly – Eu precisava de um abrigo para ele desde que... – A mulher soluçou e começou a chorar – Se não quiserem me aceitar aqui eu compreendo, mas vocês têm de aceitá-lo. – Ela caiu de joelhos diante da garota que não esperava por essa atitude – Vocês têm de aceitá-lo, por favor. Ele é do sangue de vocês...

— Nosso sangue? – questionou Jenyver.

— Este é o filho de Tyr Karstark – respondeu Milly enquanto descobria a cabeça do menino para que a garota pudesse vê-lo. – Por favor, se não me quiserem eu entendo só que não podem negar abrigo para alguém que é da sua família – A garota estava sem palavras fitando a criança.

O menino tinha cabelos loiros e olhos claros como os do primo. E por um momento foi que a garota agradeceu por estar apoiada em sua bengala caso do contrário teria simplesmente ido ao chão com aquela noticia. Estava completamente abismada.

Notas finais
Pois é, três pontos de vista de novo. Eu provavelmente vou escrever apenas dois no próximo para dai voltar a diminuir o número de palavras. A verdade é que eu quis colocar membros das três casas aliadas aos Starks aqui. Tivemos a apresentação da Ashley Mormont, o retorno das gêmeas Umber e a reaparição de Jenyver Karstark. Espero que tenham gostado. Deixem seus comentários. Até mais.