Notas iniciais
Boa leitura e aproveitem o retorno de Winterfell. E um que vai fazer vocês compreenderem melhor os personagens.

Winterfell

O pátio ressoava com a canção das espadas. Sob o couro fervido e a cota de malha era capaz de sentir seus músculos enrijecendo conforme fazia os movimentos, o suor corria por sua pele. Ele girava em uma dança de espadachim, com os movimentos de pés que tinha aprendido com o mestre-de-armas na Ilha dos Ursos. Rian Mormont sorria enquanto ele pressionava o ataque porque para ele era uma diversão bater espadas.

Seu adversário era seu escudeiro, Pathor Flowers que tinha um estilo mais leve de luta algo que remetia aos espadachins de Bravos. O bastardo da Árvore lutava com a sua espada que era de uma lâmina mais fina e leve fora o último presente de seu pai antes que fosse enviado para a Muralha.

Pathor cambaleou para trás após as investidas fortes e selvagens do Jovem Urso que contrariavam a elegância com que o loiro estava acostumado. O escudeiro estava defendendo-se de forma desajeitada. Quando ergueu a espada, Rian fez esquivar-se por debaixo da lâmina.

— Morto – falou Rian depois de bater a espada contra o peito.

— De novo – sorriu Pathor sorrindo e ofegante.

— Você é persistente para um bastardo, sabia? – brincou Rian enquanto novamente davam alguns passos de distancia um do outro e então se iniciou novamente o bater de aço com aço.

Pathor se desviou de uma investida do cavaleiro, porém seu contra-ataque foi defendido por Rian. Um golpe circular que se esmagou contra a parte de trás da perna do escudeiro e o deixou mancando.

— Golpe baixo, milorde. – disse Pathor rindo.

— Você que está facilitando as coisas para mim, Flowers. – respondeu Rian no mesmo tom de brincadeira. Então se defendendo do ataque do escudeiro que começou a ataca-lo de formas seguidas e o tilintar do metal novamente foi escutado bem como os pés dos esgrimistas conforme eles lutavam.

A estocada baixa de Pathor foi respondida com um golpe de cima que lhe abriu um corte no elmo e o fez dar alguns passos para trás.

— Pelos Sete, vai com calma que é só treino – disse Pathor enquanto puxava ao elmo para fora da cabeça e o analisava – Eu sei que meus cabelos estão precisando de um corte só que não precisa ser agora. – Então o colocou novamente sobre os cabelos loiros e posicionou-se novamente para continuar o treino. Mais uma sequencia de três golpes, esquivadas do escudeiro e do cavaleiro que pelos anos de convivência havia tornado aquilo quase em uma dança.

— Se estivesse sem elmo e fosse uma batalha real provavelmente eu teria destruído seu rosto – respondeu Rian – Tenho uma espada de verdade – provocou amistosamente enquanto o metal continuava a ressonar.

Quando o outro tentou um golpe lateral quase atingira o Jovem Urso que esquivara sendo retribuído com Rian afastando a lâmina do escudeiro com a sua e atingiu-lhe o peito com o braço envolto em cota de malha.

Pathor desequilibrou-se e caiu sentado sobre a neve e o elmo saltou de sua cabeça. Rian arrancou-lhe a espada dos dedos com um golpe em giro que aprendera com o seu tio, Donnel Mormont. O Jovem Urso então se apressou em pegar a espada caída e agora apontava a lâmina braavosi para o seu escudeiro.

— Acho que acabamos – falou Rian dando um curto riso enquanto embainhava a própria espada. Ele então estendeu a mão e ajudou o escudeiro a erguer-se enquanto o devolvia ao bastardo a sua arma. Então ele escutou o som de palmas e ao voltar o olhar encontrou Lizbeth que assistia toda a disputa da sacada.

— Foi uma boa demonstração de espadas, meu irmão. – disse Lizbeth enquanto via tanto o herdeiro da Ilha dos Ursos quanto seu escudeiro curvando-se em um agradecimento aos aplausos.

— Ao que devemos tão encantadora plateia? – falou Rian enquanto dava alguns passos na direção da sacada – Talvez queira juntar-se a nós, irmã. Há tempos que não lutamos juntos quem sabe queira tirar o atraso e por em pratica os seus movimentos que já devem estar enferrujados.

— Nunca levei muito jeito para lutas – disse Lizbeth enquanto debruçava-se sobre a lateral da sacada para encara-lo – E eu sei que você sempre me deixava vencer. – ela sorriu — Era uma brincadeira quando estava a treinar comigo.

— Eu me sentiria mal se acabasse machucando a minha irmãzinha – respondeu Rian – Mas então o que deseja comigo, Liz? – Ele tirara o próprio elmo e agora encarava a irmã diretamente — Não veio assistir ao meu treino por nada.

— Temo que esteja correto, meu irmão. – disse Lizbeth mudando o tom de voz — A senhora nossa avó deseja vê-lo. Ela encontra-se nos seus aposentos e pediu que eu o acompanhasse para encontra-la.

— Como queira – disse Rian e voltando-se para o escudeiro fez um sinal que Pathor compreendeu então se afastando e seguindo em direção aos estábulos. Enquanto o Mormont se dirigia as escadas e subia os degraus de encontro com a irmã.

— Eu devo me trocar? – perguntou Rian ao estar de frente para Lizbeth — Estou com minhas roupas de treino e cheirando a suor.

— Nossa avó não irá se incomodar e sabe que ela não gosta de esperar – respondeu Lizbeth então começando a andar e sendo acompanhada pelo rapaz.

O silêncio durante o trajeto era estranho para os dois irmãos e aquilo só fez com que Rian se preocupasse com qual pudesse ser o assunto que a Ursa Maior queria ter com ele. Até o momento que os dois iniciaram a subida de degraus na torre em que havia o quarto da avó deles.

— Qual é a razão para que ela solicite a minha presença, irmã? – questionou Rian.

— Logo saberás, Rian. – disse Lizbeth enquanto ambos já estavam ali em frente da porta dos aposentos de Lady Maege. – Ela lhe aguarda.

— Você sabe o assunto então por que não me conta? – questionou Rian parecendo incomodado. A caçula sorriu ao mais velho e fez uma cara de inocente ao que fez o rapaz cruzasse os braços. – Você sempre sabe o que ela tem a dizer é simplesmente a favorita dela.

— Acho que será melhor se for surpresa – disse Lizbeth então dando as costas para ele – O vejo depois, irmão. – O rapaz então decidira não insistir até porque viu a face tranquila da irmã sabendo dessa forma que não deveria ser nada grave.

E a jovem donzela iniciou a descida dos degraus enquanto o Jovem Urso suspirou e se encaminhou na direção da porta. Três batidas curtas na madeira e a voz conhecida da mulher que lhe criara soou do outro lado lhe dando permissão para que entrasse.

— vovó? – disse Rian enquanto fechava a porta atrás de si – Pediu que eu viesse então aqui estou. – A mulher voltou-se tendo uma espada em mãos e por algum momento foi que o Jovem Urso imaginou-se lutando com a idosa a sua frente.

Porém, sabia que isso não aconteceria mesmo que tivesse ocorrido a cerca de dezoito anos atrás quando a Ursa Maior lhe ensinara os seus primeiros golpes numa brincadeira com as espadas de madeira. Então foi que ele reconhecera aquela espada que estava nas mãos de Lady Maege e se aproximou dela com passos lentos.

— Essa espada está em nossa família a gerações – disse Lady Maege – Foi do meu pai quando ele era o Lorde da Ilha dos Ursos e depois foi minha por um tempo antes que eu me casasse com seu avô. Foi meu presente de casamento para ele... – a mulher puxou a bainha e agora encarava o reflexo na lâmina — Seu avô a empunhou de maneira orgulhosa e só os deuses sabem o quanto aquele homem ficava lindo enquanto a brandia.

— Tenham piedade de mim, aquele sim foi um grande lorde. Mesmo que fosse eu a herdeira e ele só um primo com quem eu me casei para que nosso nome permanecesse. – continuou Lady Maege — Um homem digno da Ursa Maior, eram o que diziam, sendo que eles não poderiam estar mais certos. Ele era o único capaz de controlar-me...

— Depois dele a espada passou para nosso herdeiro, Olyvio. – disse Lady Maege então encarando o neto – Seu pai a empunhou e foi um bom lorde, porém foi tirado de nós antes do tempo. – ele embainhou a lâmina novamente e abraçou contra o corpo — A espada então retornou para mim para que eu a guardasse até que soubesse que estaria pronto.

— Eu queria ter a entregado antes... – continuou Lady Maege — Mas os deuses sabem que eu sabia o que isso iria significar para mim. – ela encarou o rapaz a sua frente — Eu aceitaria que você é um homem e não mais o garoto que eu terminei de criar. Só que é chegada a hora de eu ceder e começar a tratar como quem realmente é. Ajoelhe-se... – E assim o rapaz fez ao que ela então estendeu a espada a Rian que a pegou em mãos.

— Vovó... – pronunciou Rian só que naquele momento foi interrompido.

— Eu não respondo mais pela Ilha dos Ursos – disse Lady Maege – Agora se levante, meu neto. Levante-se Lorde Rian Mormont. – O rapaz ergueu-se ainda com os olhos presos a espada em suas mãos.

Ele sabia o que era aquilo. Sim, ele sabia. Podia tudo esta sendo de repente agora ele passava de herdeiro para assumir o posto de senhor só que o que mais lhe pesava era aquilo que trazia em mãos. O maior tesouro de sua família, a espada de aço valyriano que a séculos passava de lorde para lorde e a qual ele tinha tocado antes uma vez na vida real e as outras sendo apenas em seus sonhos.

Uma espada bastarda não é maior que uma longa e é tipicamente usada nas costas. Ele envolveu o punho com a mão e a tirou da bainha podendo ver a beleza que era aquele aço que nunca perderia o fio. No punhal havia uma cabeça de urso esculpido em pedra negra e agora ela era sua.

— Garralonga – pronunciou Rian o nome da espada – Há anos que não a vejo. Lembro-me de meu pai a empunhando e ele sempre pareceu mais poderoso com ela em mãos... – ele deu um golpe cortando o ar – Sim, ela perfeita. Uma vez, meu pai deu-a em minha mão e falou que um dia ela seria minha como o próximo Lorde da Ilha dos Ursos. – ele fez uma pausa — E eu imaginei que seria ele que me entregaria.

— Você deveria a ter recebido assim como o senhorio de nossa casa, mas eu acreditei que ainda não era o tempo – disse Lady Maege – Nos últimos anos o que tenho feito é molda-lo e fazê-lo um bom chefe que dará prosseguimento a nossa família. A espada pode ser bela e incrivelmente afiada, mas se torna inútil nas mãos de alguém que não sabe maneja-la. O mesmo é com uma casa grande que pode decair-se em ruina se não tiver alguém para mantê-la de pé.

— Eu irei honra-la, minha avó – prometeu Rian – E irei empunha-la com orgulho como um verdadeiro lorde que sei que posso ser. Eu trarei orgulho a nossa casa e sobre meu comando ela irá manter-se forte.

— É tudo o que mais quero – respondeu Lady Maege enquanto fazia um carinho no rosto do neto – Haja como um lorde que sei que pode ser.

— Irei – disse Rian convicto.

— Aqui permanecemos – falou Lady Maege.

— Aqui permanecemos – disse Rian repetindo as palavras de sua família.

— Porém, existe mais alguma coisa que cabe que eu lhe informe meu neto. – disse Lady Maege – É chegado o tempo em que haja uma próxima Lady Mormont. Uma mais jovem que lhe sirva de apoio como uma companheira para a sua vida.

— Deseja que eu me case? – disse Rian parecendo entender onde isso iria chegar – A senhora sempre me sugeriu isso, porém nunca cobrou de mim um casamento. Posso pensar que não ache que eu seja capaz de governar sem uma mulher ao meu lado.

— Não tem haver com governar tem com quem cuidará de você – falou Lady Maege – Eu não estarei aqui para sempre, meu querido. Sou uma mulher que já vivi mais do que a maioria dos outros e a verdade é que eu me preocupo com o que será das pessoas que amo quando eu não estiver mais aqui.

— A senhora ainda viverá bastante – disse Rian – Chegará aos cem anos não duvido muito de que... – Então a mulher fez um sinal para que ele se calasse – Eu só não quero pensar em perdê-la.

— Você tomou um fardo de cuidar de nós – disse Lady Maege – De Catryona, Lizbeth e de mim. Mas quem cuida de você? E eu sei que uma das minhas maiores vontades é vê-lo feliz ao lado de uma boa esposa.

— Eu sou feliz – disse Rian – E sou jovem ainda, posso me casar basta deixar que essa guerra se passe dai eu poderei... – Ela fez um sinal para que o rapaz se calasse.

— Não quero nenhuma sulista sendo chamada de Lady Mormont – disse Lady Maege cortante – Só eu sei que se você ousar colocar uma moça que não seja nortenha ao seu lado é bem capaz de eu retornar do meu bom descanso e vir atormenta-lo em seu sonho. Só os deuses sabem como eu peguei um ódio dessa raça desde que tive de conviver com uma sobre o mesmo teto.

— Era sua sogra – disse Rian.

— Sim, aquela megera – falou Lady Maege – Como um bom homem como seu avô saiu daquela fresca e cínica nunca saberei. Sem falar que eu tenho um pouco de orgulho ao dizer que nossa casa é a que mais possui o sangue dos Primeiros Homens. Ao menos nossa vertente da família...

— Entendo, mas eu não falei que iria me casar com uma sulista – disse Rian – Até porque eu acredito que a senhora tenha tomado a frente e negociado um casamento para mim. Mesmo que eu pudesse mesmo ter feito isso...

— Eu não quero que se case agora – disse Lady Maege andando até o aparador e tirando dali um pergaminho – Porém, penso que talvez devesse escrever para essa jovem e conhece-la melhor. Tenho conversado com os pais dela, eles me parecem bastante favoráveis à união.

— Quem é? – questionou Rian – Essa boa moça tem um nome.

— Não só um nome como um rosto – disse Lady Maege entregando o pergaminho ao neto que o desenrolou e então pode ver ali uma pintura da jovem – Ela é mais nova do que você, porém está na idade certa para se casar. E eu tenho fé de que será uma mulher digna em ajuda-lo a governar nossa ilha.

— Lady Jenyver – disse Rian pronunciando o nome dela – Nunca me imaginei casado com ela. Mal a conheço, sempre conversei mais com Tyr e Rodwell do que com os Karstarks mais jovens.

— Eu creio que ambos podem acabar se dando bem caso comecem a corresponder-se – disse Lady Maege – Ela é aleijada, um acidente infeliz de infância, porém o problema não será impedimento para os partos como Lady Alais me assegurou.

— Eu sei da perna dela, vovó. – disse Rian enquanto enrolava o pergaminho – Eu não creio que isso me importe. Não sou uma pessoa que me deixo pegar nesses detalhes se eu e ela formos nos casar realmente não importa para mim desde que eu goste dela.

— Gostar apenas? – disse Lady Maege.

Rian tinha de admitir que aquele olhar que a avó lhe dirigiu era como se ela soubesse o que se passava na mente dele. Todos conheciam a tragédia que se abatera na família Mormont a cerca de quinze anos de como Lorde Olyvio fora assassinado pela própria esposa durante o banho.

As pessoas contam sobre como seus pais se amavam quando se casaram, porém com os filhos no lugar do casamento fortificar-se pareceu que isso começou a distancia-los. Rian lembra-se de que sempre preferiu a companhia do pai, ambos tinham um relacionamento de companheirismo que uma parte do rapaz sabia que se dava porque ele era o único homem e herdeiro.

Mas com a mãe simplesmente parecia não haver muito afeto, Rian nunca se sentiu verdadeiramente o amor materno que não viesse da Ursa Maior. Era como se sua própria mãe tivesse dificuldade em amá-lo ou a Catry tanto quanto amava Lizbeth. Havia uma diferença no tratamento dos filhos e da proximidade que Lady Jorelle tinha com eles.

O casamento de seus pais ruiu e teve um fim terrível. Rian não esperava que sua futura esposa pudesse mata-lo ou causar sua morte de alguma forma, porém uma parte dele se ressentia em ter um relacionamento mais sério com qualquer mulher.

Geralmente seus envolvimentos eram casos rápidos sem muita duração e dos quais costumava distanciar-se ao ver que estava começando a envolver-se emocionalmente. Era quase como um bloqueio ou alguns poderiam dizer se tratar de um trauma.

— Podemos ser amigos – disse Rian a respeito da moça que a avó tinha escolhido para ele desposar – E eu posso ama-la, mas não quero me iludir criando expectativas assim. Mas irei escrever para Lady Jenyver se é assim que a senhora deseja.

— Bom, sabia que faria. – respondeu Lady Maege.

— Ela sabe? – perguntou Rian.

— Até onde sei ainda não foi informada – disse Lady Maege.

— Se isso for tudo, eu apenas gostaria de pensar um pouco – disse Rian dirigindo-se em direção da porta – Com sua licença, avó – E a senhora assentiu sendo assim que o rapaz retirou-se do quarto.

Ele desceu os degraus da torre e ao cruzar em direção ao corredor foi que ao virar-se pode encontrar com Lizbeth. Sua irmã mais nova parecia aguarda-lo como quando o notou fez menção em vir em sua direção, porém parou.

— Você sabia – falou Rian e aquilo não era uma pergunta e sim uma afirmação como todos sabiam da preferência que a Ursa Maior tinha para aquela neta em particular – Que eu seria nomeado senhor e que nossa avó estava negociando um casamento para mim.

— Eu sabia que você não iria gostar – disse Lizbeth – Mas não foi apenas você que foi surpreendido hoje – E Rian a encarou parecendo compreender o que as palavras de sua irmã significavam.

— Quem? – disse Rian.

— Jon Umber, o herdeiro. – respondeu Lizbeth.

— É um bom homem – disse Rian – Eu provavelmente o escolheria também para você.

— Ele ama Brie – confidenciou Lizbeth.

— Eu sei – respondeu Rian – Mas Young Jon pode aprender a ama-la e se não o fizer ao menos irá te respeitar. – Ele fez uma pausa e suspirou — Não é do tipo que parece ser capaz de fazer uma dama sofrer... – ele sussurrou e aproximou-se da irmã ficando bem próxima dele — Então apenas basta que me diga. Nenhum homem fará alguma de minhas irmãs sofrerem... – ele pode vê-la lhe encarando nos olhos — Não novamente.

— Catryona não sabe o que você fez por ela – disse Lizbeth – Mas eu sei.

— E é por isso que deve continuar guardando esse segredo – respondeu Rian – Eu lhe contei porque você que me contou o que aquele desgraçado fazia com a nossa irmã. E também porque deduziu que havia algo de errado...

— Eu lhe vi conversando com aquele cavaleiro andante – disse Lizbeth – Eu não tinha como não suspeitar que pudesse haver algo de errado. – ela sussurrava enquanto olhava de esguelha para os lados como se esperasse que alguém aparecesse — Ou seria coincidência demais.

— Está feito – disse Rian – Não há porque eu me arrepender até porque eu nunca iria quando sei que o que fiz foi o certo.

— Eu não esperava que você fosse encomendar a morte dele – respondeu Lizbeth – E agora você fará o mesmo com Noah caso ele machuque Catry? – E o Jovem Urso fez um silêncio enquanto via a irmã se aproximando e então foi que a Ursa Menor lhe tocou sua mão – Meu irmão...

Lizbeth tinha lhe confidenciado de que havia algo de errado com Catryona depois que algumas luas tinham se passado de seu casamento com o herdeiro da Casa Glover. Ele também notara como a irmã deles parecia abatida e um pouco mais pálida e magra, mas ao questiona-la sempre receberia a resposta de que estava tudo bem. Porém, ela sempre pareceu assustada e um pouco nervosa quando na presença do marido nas vezes em que visitaram a Ilha dos Ursos quando já estava casada.

Foi Lizbeth que descobrira o inferno que sua irmã estava vivendo com George Glover. Uma parte de Rian odiou-se por não ter notado todos os sinais antes, mas foi preciso que Lizbeth visse algumas marcas que Catry tinha das vezes em que fora agredida pelo marido no espaço conjugal deles. A mais velha então confessou a Liz sobre como a vida dela tinha mudado quando aparentemente todas as tentativas de conceber um bebê pareciam falhar e o seu esposo lhe culpava pelas falhas. Inicialmente foram discussões e insultos só que o humor dele piorara partindo para a agressão.

Rian não podia suportar que sua estivesse sofrendo nas mãos daquele homem. Então foi que sua mente começou a arquitetar o plano para tirar George do caminho e trazer Catryona de volta para casa.

Um torneio em que George Glover participaria das justas. Uma gorda bolsa de ouro a um cavaleiro andante disposto em sujar um pouco suas mãos de sangue. Uma oferta de promoção a cavaleiro para o escudeiro que servia o herdeiro de Bosque Profundo. E no final estava feito com seu irmão por casamento caindo no chão da arena e a lança de madeira atravessando-lhe o pescoço como aparentemente a armadura dele não havia sido presa corretamente.

Um descuido aparente de um escudeiro e um cavaleiro andante de que ninguém iria lembrar-se o nome ou rosto mais tarde. Fora assim que Rian colocara um fim ao sofrimento de sua irmã e mesmo que qualquer um viesse dizer que o Jovem Urso tinha conspirado em um plano de morte premeditada não havia como ninguém acreditar. Eram as palavras daqueles homens contra a sua.

Mesmo assim, Catryona não permanecera muito tempo sem um pretendente. Rian nunca compreenderia como a ideia de uma segunda união entre Starks e Mormonts ocorreria como não tinha nem trinta anos desde a última tinha ocorrido. Ele poderia ter aceitado Matthew como seu novo irmão, mas não seria ele que se casaria com Catry.

— Eu não esperava que vovó fosse arrumar um segundo casamento para Catry – disse Rian – E com ele, justamente com o lobo boêmio. Nossa irmã não merecia aquele sujeito como o seu segundo marido.

— Você não me respondeu – falou Lizbeth.

— Eu sempre vou proteger vocês – disse Rian – Mas os deuses antigos punem aqueles que derramam sangue de parentes. E antes dele ser o futuro marido de nossa irmã, ele é nosso primo... Mesmo que fosse por outras mãos ainda assim seria como se fosse eu que tivesse feito.

...

Mais uma flecha acertara o alvo de feno em seu centro e pode se escutar o som das palminhas batendo comemorando o tiro. O príncipe então dera um sorriso pelo canto dos lábios enquanto via a irmã flexionando a corda do arco e então mirando com um de seus olhos fechados.

Atena soltara e assim como o irmão, a sua flecha fora direto no centro do alvo em que praticava. E novamente pode ser escutado o som de uma comemoração infantil e Noah não precisava olhar para a filha para imaginar o sorriso dela enquanto os observava na pratica de arquearia.

— Acho que temos mais uma arqueira na família – disse Atena, ela olhara para a sobrinha que estava sentada ao lado de Sybill e de Alannah que tinha a pequena Amanda nos braços. Então se virou para encara-lo.

— Eu irei ensina-la quando tiver idade para que possa se proteger de homens feito o pai dela – respondeu Noah rindo enquanto mirava e pode escutar o riso da irmã também – Odiaria vê-la se deixar encantar por homens sem muito valor como eu.

— Ao menos você pensa como um pai – disse Atena enquanto tirava uma flecha de sua aljava e escutava a de seu irmão acertar o alvo – Quem diria que seria assim.

— Algo em mim tinha que mudar – falou Noah olhando para a mais nova – Posso não ser o pai perfeito, porém tento. A cada dia estou melhorando nisso que as pessoas chamam de paternidade... – Então Atena soltara a flecha.

— Ela tem o seu sorriso sabia? – perguntou Atena enquanto via o irmão puxando mais uma flecha de sua aljava.

— Irmã, lamento informa-la só que tudo nela é meu. Está bem? Por isso que ela é perfeita – respondeu Noah – Não há nada da puta que era a mãe dela. – Ele pode sentir o olhar dela enquanto mantinha seus olhos no alvo de estopa sobre o feno — E isso é bom ao menos quando mais tarde ela encarar-se no espelho não vai se perguntar de quem é esse nariz ou os lábios... Já vou ter que responder quando ela começar a perguntar porque não tem uma mãe como as outras crianças.

— Você a chama de puta – disse Atena enquanto ouvia o som abafado da flecha do irmão acertando o alvo – Não tem nenhum carinho pela mulher que te deu a sua filha? Eu me lembro de Kena e mesmo que eu não gostasse dela ainda assim...

Noah não amara a mulher com quem tivera sua bastarda, mas poderia ter amado se tivessem passado mais tempo juntos. Ela fora apenas a sua rameira oficial durante a sua estada em Bravos.

Kena Sillin, uma beleza exótica das Cidades Livres e com um corpo divino que nunca ele veria em outra mulher. Tê-la na cama valia cada moeda de ouro e era fato que ele fora com uma frequência surreal no Palácio de Cetim que chegara a ficar com o perfume do lugar impregnando nele.

Ele avaliou a distancia de sua flecha da outra. A poucos centímetros da outra certamente que ele deveria começar a treinar sóbrio com mais frequência quem sabe até arriscaria a chamar o irmão para uma disputa. Seria ótimo mostra-lhe que poderia ser tão bom arqueiro quanto ele quando não estava sobre os efeitos alcoólicos do vinho dornês. Então se voltou para a irmã para respondê-la.

— Foi assim que o seu pai a chamou então me diga por que eu devo contrariar o rei e tratar uma puta pelo nome? – disse Noah – Ainda mais uma que o nosso não tão amado regente teve tão trabalho para apagar a existência do mapa? – Atena pegara o arco e flexionara novamente a corda após posicionar a flecha.

— Você não pode ter tanto rancor assim dele – falou Atena enquanto mirava – Ele é nosso pai e eu duvido que tenha feito o que você acredita que ele fez.

— É claro que não fez – disse Noah com um tom sarcástico – O tão honrável Rei Brandon presa tanto pela integridade de sua família e pela imagem que passamos. O que seria caso os vassalos soubessem da puta que seu filho trouxe para viver em Winterfell? – Então escutou o som duro quando a flecha da irmã acertou o alvo – A vossa graça deve pensar que eu cometeria uma afronta como me casar com ela.

— E não é verdade? – disse Atena como se fosse obvio – Você continuaria dormindo com ela. Nós a víamos saindo de seu quarto à noite ou então amanhecendo ao seu lado fora às vezes em que estavam bêbados e eram encontrados nus nos estábulos ou então nas fontes termais.

— E eu vou recusar uma mulher disposta a foder comigo? – disse Noah – Por favor, eu não sou a porra de um príncipe das canções que deseja uma donzela pura e casta. Já estive com uma virgem uma vez e não entendo o tesão que os homens tem nisso... – Ele fez uma pausa enquanto franzia a testa — É meio sem graça. – Atena o olhava com seriedade – Não me olhe assim.

— Como eu deveria te olhar? – questionou Atena com certa aspereza – Eu te adoro só que as vezes prefiro você mudo.

— Ah, pare de puritanismo – disse Noah – Há sangue correndo nas minhas veias e a carne fraqueja quando temos na nossa frente um belo par de tetas perfeitas. Então é claro que o corpo cede.

— Eu sou sua irmã, Noah. – disse Atena com seriedade e certa repugnância no olhar – Ao menos demonstre um pouco de respeito para comigo. – Ela lhe dera um soco no ombro quando o vira sorrindo — Não venha com essas suas baixarias para cima de mim.

— Não vejo porque devo conter-me, somos irmãos não há porque haver formalidades ou pudores entre nós – disse Noah – Sem falar que você é mulher e certamente que já deve ter se cansada de ver seus seios afinal é só olhar para baixo. – Então viu a irmã suspirar como se estivesse tentando acalmar-se enquanto ela virou-se e mirou a flecha bem nas regiões baixas do príncipe.

— Eu estou com uma vontade de soltar e então ver o que acontece – falou Atena.

— Você só iria tirar o ganha pão de muitas moças trabalhadoras do Norte sem falar na felicidade delas também – disse Noah parecendo não se abalar então vendo a irmã arquear a sobrancelha enquanto desviava o arco e acertava o alvo sem olhar.

— Você é impossível – disse Atena.

— Não me culpe quando foi você que trouxe o assunto de putas para a conversa – disse Noah – Eu apenas deixe-me levar não me venha culpar por ter lhe tirado do sério.

— Eu estava falando da mãe de sua filha – respondeu Atena enquanto posicionava-se para mirar em seu alvo.

— Uma puta morta ainda é uma puta – falou Noah – Não vamos mudar isso apenas para amenizar a memória dela. – Ele puxara mais uma flecha de sua aljava.

— E se ela não estiver morta? – questionou Atena enquanto puxava a corda do arco — Você acusa nosso pai de ter ordenado sua morte. – então falara o restante da frase como um sussurro — Estamos falando do mesmo homem que assumiu algo para poupar a filha da desonra.

— Porque nem ele seria capaz de ordenar a morte de uma criança e sabia que você não iria aceitar se livrar da Amy – falou Noah também sussurrando então vendo a irmã atirar a flecha e errar o alvo ao certar só o montante de feno.

— Jogo baixo – falou Atena rispidamente com o tom da voz no mesmo sussurro – Eu nunca que iria aceitar que ele se livrasse dela e nosso pai não iria propor algo assim. – ela lhe empurrara — Nunca.

— É mesmo, não é? – disse Noah enquanto retornava para sua posição — Até porque ele sempre foi favorável a ter a mãe da minha filha aqui. Ela não estava fazendo mal a ninguém, ajudava nos afazeres da cozinha e compartilhava a cama comigo. O que ele esperava que eu fosse fazer? Casar-me com ela? Alias, eu deveria ter visto na época porque quem sabe não o fizesse: O Lobo boêmio e sua esposa puta bravosi.

Os irmãos ficaram em silêncio depois disso e o único som que pode se ouvir foi o das flechas sendo disparadas. Fora cerca de três até que algum deles tornasse a falar e foi a hora em que Atena quebrou o gelo entre os dois.

— Eu lhe invejo – disse Atena e Noah a encarou – Você pode ser chamado de pai e ter sua filha perto de você sempre que desejar. Enquanto eu não posso, só posso estar com ela nos braços e tê-la como minha às escuras e escondida. – O príncipe ficara em silêncio.

— Provavelmente ela não me chamará de mãe e não posso demonstrar em público o quanto a amo. Homens podem assumir seus bastardos que ninguém dirá nada... – continuou Atena e ambos se voltaram para encarar as crianças – Como pessoas como nós conseguiram dar a vida para crianças tão perfeitas? – Ela via Amanda brincando no colo de Alannah que a entretinha com uma boneca de pano que divertia a pequena.

— Às vezes me faço a mesma pergunta – disse Noah – E você teve sorte por ela não ter nada dele. – E Atena assentiu pesadamente e desviou o olhar – Os deuses às vezes são bons com as pessoas que já sofreram bastante.

— Agora você que está indo para um assunto desagradável – disse Atena chamando-lhe a atenção enquanto ajeitava a alça da aljava no ombro.

Noah compreendeu o desconforto dela, provavelmente teria a irritado se tivesse chamado aquele homem de pai da criança. Atena costumava dizer que sua filha não tinha um pai e sim duas mães, como Richard Bolton não merecia aquele titulo em sua vida. Uma parte do coração do príncipe tinha dó da pequena sobrinha, se Lou viveria sobre o carma em ser a filha de uma prostituta então Amanda nunca poderia saber que é fruto de estupro. Como algo tão lindo pode nascer de um ato tão horrível? Era o que pensava Noah quando se lembrava do trauma que sofrera sua irmã.

— Não foi intencional – respondeu Noah com sinceridade – Só queria dizer que ela se parece com você tanto quanto Lou comigo. Sei que não somos as melhores pessoas do mundo só que mesmo de nós vem coisas boas... – ele suspirou passando as mãos nos cabelos – E mesmo pessoas como nós, seres tão cheios de defeitos e quebrados ainda assim... Merecemos a felicidade.

— Filosofia otimista vindo de você? — disse Atena sorrindo levemente — Até está parecendo com... — Ela fez uma pausa — Você sabe quem.

— Brie, é algumas vezes eu escuto o que ela diz... dizia. Não é sempre, mas as vezes saia algo de interessante da boca dela. — disse Noah então suspirando enquanto atirava mais uma flecha então percebendo que a irmã estava calada — Eu sei... Parece que algo está faltando em Winterfell desde que ela se foi. — ele olhou para Atena — Não diga a ninguém, mas eu estou sentindo falta daquele poço de chatice que era a nossa irmã.

— Por que coisas ruins acontecem com pessoas boas? — perguntou Atena — Ela não merecia passar por isso nunca. — ela puxou o arco e errou a flecha certamente as lágrimas a estavam atrapalhando na parte de mirar — Eu me arrependo de tantas coisas que disse a ela e nunca poderei me desculpar.

— Talvez ela retorne para nós — disse Noah — As pessoas que amamos nunca nos deixam de verdade. Nossa irmã pode ter ido porém sempre iremos nos lembrar dela...

— Fala como se ela estivesse morta — falou Atena.

— Prefiro ser realista do que me apegar a falsas esperanças — respondeu Noah — O nosso tão honrado rei preferiu deixar nas mãos de um bando de criminosos, assassinos e estupradores a missão de encontrarem nossa irmã do que gastar alguns bons cavaleiros para fazer isso.

— A Patrulha possui homens nobres e honrados também — disse Atena — Não é composta apenas de criminosos, meu irmão.

— Podemos contar nas mãos os de nascimento nobre e que foram lá de livre vontade sendo que ainda nos sobraram dedos — falou Noah — A Patrulha da Noite está perdendo a fama que construíram a cada ano que se passa. É só ver o tipo de gente que abrigam — Ele pode perceber que ela compreendeu a quem estava se referindo. O homem que a estuprara estava na Muralha — Quer saber a verdade? É que nós deveríamos nos concentrar no presente...

— É difícil quando o passado te assombra em seus pesadelos — falou Atena e o irmão sentiu-se mal novamente por ter trazido a tona aquela conversa o fantasma que era Richard Bolton. Uma parte sua ainda desejava por um fim na raça daquele infeliz.

— Princesa Atena – chamou uma voz que fez com que os dois irmãos voltassem-se para o que estavam as costas deles. – Príncipe Noah – O segundo filho do rei retribuiu o comprimento com um aceno de cabeça.

O lobo boêmio pode perceber o olhar de surpresa da mais nova ao encarar Edwyn Karstark a sua frente. Um silêncio retornou e o lobo boêmio sentiu como se aquela tensão na troca de olhares pudesse ser partida por uma faca. Ele encarou o herdeiro de Karhold a sua frente e pode ver o quão horrível ele olhava parecendo ter acabado de sair de uma briga violenta de taverna.

— Você está horrível Eddie – falou Noah com um sorriso de canto de lábio – Parece que foi arrastado por um cavalo.

— Tivemos uma emboscada no caminho para cá – disse Edwyn sem tirar os olhos de Atena – Ryswells e Dustin foram os responsáveis por isso. Mortos e feridos... – Ele tocara os pontos que recebera na testa — Eu até que tive sorte em estar assim. – Ele ainda olhava para a princesa sem prestar muita atenção no principe ao lado dela.

— Perdeu algo no meu rosto? – questionou Atena irritada.

— Você está com os olhos marejados? – disse Edwyn e Noah de repente voltou o olhar para a irmã. Então percebeu que o rapaz tinha razão e a loba feroz de Winterfell parecia prestes a chorar e era fato de que o seu irmão reconhecia o motivo.

A conversa que os Starks estavam tendo momentos antes de serem interrompidos e pegou-se pensando se Edwyn Karstark tinha escutado. Então foi tudo muito rápido quando uma flecha simplesmente atingiu o chão próximo do pé direito do herdeiro de Karhold.

— Atena – falou Noah para a irmã ao vê-la com o arco em mãos e na posição em que a trajetória denunciava o caminho que a flecha tinha feito – O sujeito já está ferido e você quer dar um novo ferimento a ele?

— Bem-vindo a Winterfell, Lorde Edwyn. – falou Atena com aspereza enquanto se virava e seguia na direção dos alvos enquanto era seguida pelo olhar pelos dois rapazes. Eles puderam ver então a princesa arrancando com brutalidade as flechas que estavam fincadas no feno.

— Acho que deu sorte – disse Noah – Ela podia ter acertado seu pé se quisesse – Então foi que sem esperar por uma resposta do Karstark que virou sua atenção para a aljava – Vou ter que pegar mais flechas na armaria ainda tenho um passeio que prometi a uma pessoinha importante para mim.

Então fizera um sinal com o dedo em direção da filha e pode ver a pequena Lou vindo apressada em seu encontro e lhe abraçando. Noah pegou sua bastarda no colo e saiu com ela e quando passou ao lado de Edwyn lhe deu um tapinha no ombro e murmurou:

— Boa sorte – riu Noah e pode escutar uma curta risadinha da pequena Snow.

Notas finais
Contem a quantidade de flechas que o Noah e a Atena atiraram que vocês podem me pedir um spoiler. (mentira, faço nem ideia de quantas flechas foram). E ai pessoal, o que acharam? Deixem comentários. Até mais.