North War – Interativa
15 Capitulo 14
Notas iniciais

Acampamento Ryswell e Dustin
Noelle lembrava-se de como tinha sido arrastada pelo irmão de volta ao acampamento depois deles terem observado aquela comitiva. Viu a maneira como o irmão simplesmente cruzou as tendas dos acampamentos e seguiu até a que pertencia ao pai deles. Ela o seguiu, simplesmente esteve atrás dele como uma sombra como se temesse por qualquer atitude que ele pudesse tomar.
As palavras da jovem lady em direção a suas damas de companhia foi que elas levassem seus equipamentos de pintura e a tela para sua tenda e que lá lhe aguardassem. Noelle podia muito bem deixar seu irmão sozinho para tratar com o pai deles, mas sabia que não seria uma situação fácil.
Barret podia ser mais velho do que ela, mas os deuses sabiam que por vezes mesmo o herdeiro de Regatos precisava de alguém para cuidar dele. Mas não era essa a função da garota, Noelle sabia que se a mãe deles estivesse ali talvez às coisas tivessem sido diferentes. Talvez o levante de armas pudesse ter sido impedido. Tudo o que ela pudera fazer foi assistir impotente o seu irmão colocando-se com todo o seu ar orgulhoso em frente ao progenitor.
As palavras de Barret soaram fáceis de sua voz sem muito requinte e formalidade. Ele fora direto ao tratar com o pai a noticia sobre os vassalos dos lobos que seguiam para o oeste. Ainda contara como eles poderiam impedi-los de chegar Winterfell bastava que seu pai desse a ordem. Lorde Sandor Ryswell observara o filho por instantes enquanto entornava mais uma taça de vinho para então pronunciar-se.
“Nada feito, nós levantaremos acampamento ao amanhecer e seguiremos até Forte Pavor” foram as palavras de Sandor Ryswell “Não podemos agir sem que ordens nos sejam dadas, isso seria imprudente e só derramaria sangue antes do tempo”.
Noelle sentira orgulho de seu pai naquele momento e o compreendia, não havia honra em uma emboscada na estrada em meio as sombras enquanto pegavam um grupo de homens despreparados. Mesmo como uma mulher e não entendendo sobre batalhas, ainda assim ela podia enxergar isso. Porém, a resposta parecia não agradar Barret.
“Então, vamos esperar que eles se reúnam com seu rei?” falou Barret irritado “Podemos diminuir aqueles homens, sei que podemos se atacarmos junto aos Dustin assim como é fato que Lady Wylla irá permitir que lideremos seus soldados como não temos Sor Desmond para comanda-los nem mesmo seu tio”.
“Tem ideia de quem são esses homens?” questionou Sandor Ryswell “É quase certo que se tratem dos Karstarks e Umbers que vem de suas terras ao leste” pronunciou os nomes como se eles significassem algo, porém Noelle não pode compreender “Os exércitos deles são enormes...”.
“Por isso mesmo deveríamos toma-los de surpresa” respondeu Barret “Aproveitarmos da noite e embosca-los, perderemos homens, porém faremos um estrago em seus números e quem sabe não temos a chance em capturar um dos lordes de Brandon Stark”.
“Eu já tomei minha decisão” falou Sandor Ryswell enquanto servia-se de mais vinho “Não irei liderar meus homens para uma batalha que não é necessária por agora”. Esvaziara mais uma taça e a batera fortemente contra a mesa “Existe honra em saber esperar e agir, deixe que esses infelizes sigam para Winterfell e coloquem as espadas frente ao rei lobo e lhe jurem lealdade”.
“Você chama de honra, mas para mim isso tem outro nome” respondeu Barret. “Talvez devesse segui-los e fazer o mesmo”. Seu tom era sarcástico e acido. “Isso é se não estiver bêbado demais para montar”
“Barret, por favor, pare já é o bastante” foram as palavras de Noelle.
“Você não entende como algumas decisões são difíceis” respondeu Sandor Ryswell “Você não compreende o que às vezes um homem tem que fazer pode ser chamado de medo, mas é um ato de coragem e sabedoria”.
“Desculpe-me, mas é difícil levar em consideração as palavras de um homem desonrado” pronunciou-se Barret.
“Meu irmão, está indo longe demais” falou Noelle “Nosso pai não merece ouvir esses desaforos”. A garota sentiu os dedos de seu pai evolvendo-lhe o ombro, porém seu olhar ainda era dirigido ao seu primogênito.
“Deixe-o” falou Sandor Ryswell “Seu irmão é orgulhoso demais para dar ouvida a outra pessoa que não ele mesmo”. A troca entre os olhos castanhos do Lorde de Regatos e os azuis gélidos de seu filho era intensa. “Quer atacar aquela comitiva, então que reúna os cavaleiros e soldados que estiverem dispostos a segui-lo porque eu passo a você a função de comanda-los porque eu não irei”.
“Pai, o senhor não pode estar dizendo a verdade” falou Noelle chocada pelo que tinha escutado “O senhor não pode manda-lo lá como comandante das tropas, isso é...”
“Eu vou” falou Barret.
“Eu sei que vai” respondeu Sandor Ryswell “Sua arrogância e prepotência, acredita que esteja pronto para tomar meu lugar em batalha e liderar nossos homens em nome de nossa casa. Se é isso que quer então é o que estou te dando”. Barret nada respondeu apenas virou as costas afastou-se do pai e da irmã. Então se retirou da presença deles seguindo para fora da tenda.
“O senhor não deveria ter feito isso” repreendeu Noelle colocando-se de frente para o Lorde de Regatos. “Meu pai, o senhor pode o estar enviando para a morte assim lhe dando tantos homens para comandar, meu irmão não está preparado para ser um líder isso pode acabar sendo seu fim”.
“Você se preocupa demais com Barret” respondeu Sandor enquanto enchia novamente sua taça. “Seu irmão é um homem feito, eu não irei impedi-lo de fazer o que deseja... Ele escutou meus conselhos de como isso era uma péssima decisão, porém não irei impedi-lo não mais”.
Noelle deixou a tenda do pai para trás ainda um pouco abalada. Ela ouviu ao longe a voz de seu irmão reunindo as tropas e preparando-se para o ataque, porém a garota simplesmente seguiu de volta para onde estava hospedada.
Ainda se lembra de estar na entrada da própria tenda ao lado de suas damas de companhia a tempo de ver Barret em sua armadura e montado em seu cavalo. Era um perfeito cavaleiro imponente gritando ordens aos outros que o circulavam em suas montarias. E então foi que ela o viu partir, pouco depois de vestir o elmo e esporear o cavalo. Até aquela altura a noite já tinha caído, as estrelas e a lua tomavam conta do céu. E ao longe ela viu as tochas que os soldados carregavam desaparecerem em meio ao breu noturno.
Ela passara a noite sem pregar no sono bem como suas companheiras. Todas aguardando pelo retorno daqueles que eram importantes para elas, seus irmãos que cumprindo com seus deveres de guerreiros haviam partido para a batalha. Aquele momento fora uma das poucas ocasiões em que as duas damas de companhia não estavam debatendo seus pensamentos afinal não se tratava de um assunto trivial qualquer. Tratava-se do sentimento de ver alguém que ama partindo e não sabendo se iria retornar ou não.
Os irmãos de Lolla faziam parte dos arqueiros que Barret tinha enviado para as montanhas para dispararem as flechas do alto como uma chuva flamejante. Devan Locke, o irmão de Maire seguia comandando os cavaleiros da Casa Dustin já que na falta de Desmond era ele que assumia aquele papel já que era intendente para o Lorde de Vila Acidentada.
Eles retornaram nos primeiros raios de sol da alvorada. Muitos se encontravam bem, outros estavam feridos e abalados sendo que alguns vinham em carroças por não conseguirem andar ou montar a cavalo.
Noelle sentiu um aperto no coração ao não encontrar seu irmão no cavalo dele que vinha sendo puxado por um soldado com o emblema da casa dos Ryswell. Não, não podia ser apenas aquilo que tinha restado de Barret, apenas sua montaria vazia. Ela não podia acreditar.
Ela pode ver Maire abraçando o irmão que tinha a arrancado o elmo e agora girava a jovem donzela no ar. Os irmãos de Lolla a tinham envolvido em um abraço conjunto praticamente fazendo a garota desparecer em meio deles.
Foi naquele momento que mesmo em meio a tanta gente que Noelle sentiu-se sozinha, ela já tinha desconhecido o sentimento que era perder um irmão. Ela era a última criança nascida naquela família, à sétima das únicas três que tinham chegado numa idade tão avançada. Sua mente vagou-se para a lembrança do único irmão que se recordava de ter perdido.
Lorcan e ela costumavam brincar, muitas lembranças de sua primeira infância tinham a presença dele. Tão gentil e alegre, porém se foi quando a doença lhe consumiu e o levou antes que pudesse ser considerado um homem.
Ela derramara suas primeiras lágrimas de sentimento de perda por aquele garoto que se foi tão jovem naquela vez. Barret não pareceu abalar-se tanto pela morte de Lorcan, como seu coração já tinha endurecido após ver outros três de seus irmãos morrerem antes.
Noelle não se lembrava dos outros além de Lorcan, mas Barret sempre se lembraria de todos e talvez fosse por isso que tinha perdido sua infância após cada perda. O irmão mais velho que vira os mais novos terem mortes tão inevitáveis e prematuras.
Algumas vezes, Noelle pegava-se pensamento como teria sido crescer em uma casa com sete crianças. Se todas as crianças Ryswell tivessem sobrevivido. Talvez fossem um lar mais feliz, Barret poderia ter sorrido mais e sido um jovem sem todos aqueles sentimentos pesados no coração. Ela nunca saberia.
Agora ela sentia o gosto amargo da morte novamente. Lorcan fora consumido pela febre que o levara antes da chegada da primavera. Agora Barret fora consumido pela arrogância que o levara antes da chegada do inverno. As lágrimas vinham a seus olhos com facilidade, porém ela se surpreendeu ao ouvir a voz de Thomas chamando por alguém.
“Chamem o Meistre e peçam que vejam o filho do Lorde, digam que é uma emergência e que ande rápido porque o estado dele é grave” eram as palavras que soaram daquela voz tão familiar “Vocês carreguem-no para a tenda e façam isso com cuidado”.
Ela o procurou com o olhar quando o encontrou ao lado de uma carroça dando ordens para dois soldados que tiravam uma maca com um ferido. Ela correu meio aos tropeços na direção do aprendiz de ferreiro que seguia atrás dos soldados que iam na direção da tenda de Barret.
Ela não estava próxima o suficiente para acompanha-los, mas quando teve um vislumbre rápido de Barret que adentrava a lona sendo carregado em seu leito por dois soldados.
Era ele, pode reconhecer a armadura e a espada embainhada que era carregada por Thomas pertencia a Barret. Quando adentrou na tenda atrás deles foi que seu coração se despedaçou junto com as esperanças. O estomago dela revirou-se ao ver o rosto do irmão.
“Ele está vivo?” perguntou Noelle a Thomas que se voltou para ela parecendo ter a notado somente naquele momento.
“Você não devia vê-lo assim” falou Thomas colocando as mãos em seus ombros “Venha, vamos sair daqui”. Ela podia sentir as palavras dele acolhedoras e o toque carinhoso dele, algo que ela estivera evitando ter contato nos últimos tempos.
O toque dele era áspero por conta das mãos calejadas do trabalho de moldar o metal e quentes de natureza. Mas mesmo aquilo não era capaz de fazê-la desviar os olhos do rosto vermelho em sangue do irmão.
“Não vou a lugar nenhum até que me diga que meu irmão está bem” falou Noelle com a voz rígida enquanto removia as mãos dele de si “Seja sincero comigo e me diga a verdade”.
“Eu o encontrei, ele estava numa poça de sangue e eu achei que ele estivesse morto até que ele tossiu” disse Thomas “Eu o carreguei até carroça e então o trouxemos para o acampamento”.
“Ele vai sobreviver não vai?” perguntou Noelle.
“Eu não sei” disse Thomas com sinceridade e um pesar na voz “Apenas o Meistre Mako poderá dizer”.
Lá estava ela agora, sentada ao lado do leito do irmão. Ela ainda rezava aos deuses novos e antigos, ela aprendera a cultuar os Sete com a mãe que tinha se convertido a fé sulista com os anos. Nas palavras dela, os deuses dos Primeiros Homens tinham falhado em proteger seus filhos então ela iria colocar a fé dela em outras divindades e esperava que elas fizessem um melhor trabalho.
Mas Noelle não tinha traído as crenças nortenhas como ela também rezava para os deuses antigos como seu pai ainda fazia. O Meistre Mako conseguira salvar a vida de Barret, porém nas palavras dele a recuperação seria lenta e ele não podia fazer nada para reparar os danos causados no rosto do jovem cavaleiro. Seria uma cicatriz horrível de batalha, ela mesma não sabia se conseguiria encarar o rosto do próprio irmão depois que ele removesse as faixas.
Faziam-se dois dias, e ele ainda não havia acordado. O acampamento já estava sendo erguido e em breve teriam de seguir caminho em direção a Forte Pavor como não havia mais como adiar esperando por qualquer sinal de recuperação por parte do rapaz. Noelle era a responsável por alimenta-lo com água e mel para mantê-lo vivo mesmo que outras pessoas lhe dissessem que poderiam fazer isso, mas ele era seu sangue e sua família.
Barret podia não ser a pessoa mais amável, mas ela conseguia ama-lo e sabia que lá no fundo seu irmão também sentia o mesmo por ela e que faria o mesmo se a situação dos dois fosse oposta. Ela escutou alguém entrando porém não virou-se para ver quem se tratava.
— Você deveria ir aprontar-se – disse Thomas entrando na tenda – Lady Wylla Dustin e sua filha já estão se aprontando logo a carruagem delas partira junto com o restante da comitiva de Vila Acidentada. Nós seguiremos logo atrás...
— Eu não sei se é uma boa ideia deixa-lo sozinho – falou Noelle.
— Você não deveria importar-se tanto – disse Thomas – Não é como se ele corresse perigo mais. Ele sobreviveu à primeira noite, e você tem cuidado dele bem. É mais do que ele merece se você quer saber.
— Não fale assim dele, Thomas – falou Noelle – Você esquece que ele ainda é meu irmão. Por mais defeitos que ele possa ter ainda assim...
— Eu sei disso – disse Thomas – Por que acha que eu o trouxe de volta para o acampamento? Pensa que foi por ele? Foi por você que eu fiz isso, Noelle. Mesmo que eu pensasse que ele não poderia sobreviver ainda assim o trouxe para cá para junto de você.
— As pessoas precisam chorar por aqueles que perdem, mas é doloroso não ter um corpo para velar. – continuou Thomas ao ver o silêncio dele — Mas o seu irmão vive...
— Sim, ele vive – disse Noelle – E viverá para lutar novamente.
— Eu também acredito nisso – disse Thomas – Seu irmão não se deixaria abalar mesmo que tivesse perdido mais do que metade do rosto.
— Isso era para soar feito um elogio? – perguntou Noelle.
— Talvez – disse Thomas – Posso não gostar muito dele só que mesmo assim o admito que ele é um dos melhores cavaleiros que já vi ainda mais quando pude provar isso em uma luta de treino.
— Obrigado por o ter salvo – agradeceu Noelle.
— Você já me agradeceu demais – disse Thomas – Deve ser a quinta vez.
—Eu não sei mais o que dizer – falou Noelle.
— Sabe sim – disse Thomas – Diga que sente muito e que se arrepende do que falou para mim no último dia do seu nome. – Ela não deveria ter ficado surpresa com aquelas palavras dele afinal era de seu conhecimento que o rapaz ainda não tinha aceitado aquilo facilmente. Por mais que suas palavras na ocasião tenham concordado com as dela.
— Agora não, Thomas – falou Noelle – Você tinha me dito que não iria tocar nesse assunto de novo e eu não quero conversar sobre isso. – ela levantou-se de onde estava sentada e afastou-se do irmão como se achasse que ele poderia ouvir o que conversavam — Não agora e nem aqui.
— Eu sei que não deveria – disse Thomas – Quando nós começamos os nossos encontros, não era para ser nada sério não é mesmo? Você tinha aceitado aquilo e eu também, teria que ter um final e teve. Eu não queria envolver sentimentos nisso só que aconteceu. Você me fez ceder e eu me deixei levar...
— Deixe no passado – falou Noelle – Não vale apena.
— Eu quero – disse Thomas – E irei fazer isso no exato momento em que saber que você estará em boas mãos. Alguém que vá cuidar de você como eu cuidaria – ele tocou-lhe o rosto e acariciara o queixo e os lábios dela.
— Você não devia estar nessa guerra – disse Noelle – Deveria ter ficado em Regatos ao lado de seu tio e ajudando-o com as forjas na armaria.
— Eu posso ter cometido um erro – disse Thomas – Mas talvez eu tenha acertado em fim porque você está falando comigo novamente. – Ele envolveu-o o rosto dela com as mãos fazendo com que ela lhe encarasse nos olhos – Você sabe que...
— Não posso – falou Noelle desviando o olhar dele e se afastando – Você não entende, eu terei um noivo em breve. Meu pai provavelmente conseguira um herdeiro para mim alguém que tenha um nome e que possa me dar uma vida melhor. Eu tenho que pensar no meu futuro, Thomas. E você é apenas parte do meu passado...
— Eu sei – disse Thomas – Mas eu acho que talvez você precise de mim no seu presente ainda. Acredite, eu não me meterei entre você e seu esposo se é isso que pensa que farei, quando eu vir que você pode ser feliz com esse sujeito então eu irei partir e você nunca irá ouvir falar de mim novamente.
— Ainda pensando sobre a Muralha? – falou Noelle.
— Nunca ter filhos, nunca me casar e nunca ter terras ou títulos – disse Thomas – Terras e títulos, eu sei que nunca terei... Eu fugiria do estigma de ser um bastardo não reconhecido de um lorde sem falar que me pouparia de ter que vê-la visitando seus pais com seu marido e os filhos que terão. Parece-me uma troca justa, isso é se eu sobreviver a essa guerra.
— Eu preferia que você partisse agora – disse Noelle – Desertores de guerras são aceitos na Patrulha da Noite sem correrem quaisquer riscos de serem entregues aos lordes aos quais serviam. Vá, e sobreviva...
— Se preocupa comigo tanto assim? – disse Thomas.
— Eu só não quero saber que você morreu em batalha – disse Noelle – Eu ainda o vejo como um amigo mesmo depois de tudo pelo que passamos. – Ele então aproximou-se e abraçou por trás e a garota sentiu seu corpo estremecer então ergueu o olhar para encarar o rosto dele que estava ao lado do seu – Por favor, apenas... – Ela sentira a respiração quente dele quando as bocas deles estavam muito próximas – E-Eu não posso... – Mas os lábios deles roçavam no do outro.
— Sim, você pode e quer – disse Thomas e finalmente os dois se beijaram. Fora um beijo curto e lento, porém veio cheio de sentimento, diferente dos que ambos costumavam trocar no passado que eram intensos e cheios de desejo por conta do proibido que eram os encontros deles nos mais diferentes cantos do castelo.
— E-Eu a-acho q-que q-que... – disse Noelle então pigarreando para prosseguir com a frase sem gaguejar enquanto livrava-se das mãos dele que estavam em sua cintura – Eu vou procurar alguém que fique com meu irmão enquanto eu me apronto para nossa partida.
— Precisa de ajuda? – perguntou Thomas.
— Não, apenas continue a fazer o que um soldado faz – disse Noelle sentindo o rosto corando cada vez mais – Se não tiver muito que fazer então poderia ficar de guarda na porta da tenda do meu irmão, eu lhe agradeço.
— Se é de seu desejo – disse Thomas sorrindo – Eu irei acata-lo, minha senhora. — Noelle nada respondeu enquanto se retirava da tenda.
...
Barret abriu um de seus olhos ainda estava zonzo e confuso, encarou-o o teto de lona de sua tenda. Estava deitado em seu leito afinal reconhecia as peles que lhe revestiam, porém de repente uma dor lhe atingira quando tentara mexer a cabeça para o lado. Sua mão levou-se para o rosto para o local que ardia e encontrou faixas de seda que lhe cobriam o rosto como ataduras.
— Não se mexa, eu lhe peço, meu lorde. – disse uma voz então pode ver Lolla, uma das damas de companhia de sua irmã aproximando-se e sentando-se ao lado dele – O senhor está muito ferido depois da batalha, por favor, não se esforce tanto.
— Eu... – disse Barret – Meu rosto...
— O Meistre o salvou, meu lorde. – disse Lolla – Mas seus ferimentos ainda precisam de cuidados – Ela sorriu para ele enquanto enchia uma cuia com um liquido branco – Isso vai ajuda-lo, é melhor que o senhor descanse. – Então levou a cuia até os lábios do rapaz e ele bebeu.
— Lolla, minha irmã... – pediu Barret.
— Ela esteve aqui até agora pouco, meu senhor. – disse Lolla – Passou alguns dias em claro nem ao menos comendo direito. Ela foi descansar um pouco, mas direi que o senhor acordou mesmo que por pouco tento. Isso pode acalma-la.
— Obrigado – agradeceu Barret e a garota debruçou-se sobre ele e começou a lhe fazer um cafuné nos cabelos – Lolla? Você acha que eu...
— Sim? – disse Lolla – Diga meu senhor.
— Eu cometi um erro não é? – disse Barret com a voz grogue – Eu sei disso, será que as pessoas irão me odiar pelo que fiz?
— O senhor quer mesmo que eu diga? – falou Lolla.
— Sim, eu... – disse Barret – Eu quero que você me diga...
— Eu sei que nada mudou sobre o que penso sobre o senhor – disse Lolla – Nem para a senhora sua irmã. – Ela ainda lhe acariciava os cabelos com ternura algo que fazia com que o rapaz remetesse aos aconchegos da mãe – Nós nunca poderíamos odiá-lo, meu lorde.
— Eu só queria que as pessoas me amassem – disse Barret por mais que aquilo certamente fosse o efeito do anestésico que estivesse deixando aquelas palavras de sua boca. Ele nunca iria demonstrar tanta fraqueza assim.
— Nós ainda o amamos, se isso bastar-lhe – disse Lolla – Penso que é o suficiente.
— É... – disse Barret – Pode ser, eu só... – sua voz foi morrendo com o efeito do leite de papoula ia lhe atingindo — Queria que eu pudesse... – Ela então erguera um dedo contra os lábios dele.
— Bons sonhos, meu senhor. – disse Lolla – Por que o senhor não descansa mais um pouco? Não lute contra, apenas feche os olhos e durma.
— Fique comigo – disse Barret antes de fechas às pálpebras pesadas.
— Se assim o senhor deseja – disse Lolla então lhe depositando um beijo carinhoso contra os lábios do nobre enquanto ajeitava-se ao seu lado. Ele sentiu a cabeça dela junto ao seu peitoral e o cheiro de óleo de lavanda de seus cabelos fora a última coisa que se recordou antes de enfim entregar-se a escuridão do sono.
Sua mente voltou-lhe a pregar peças, fazendo que relembrasse seu confronto em batalha. Dessa vez, lá estava ele vendo as coisas de fora como se ele fosse o vento. Pode ver o momento em que se viu frente a frente com Edwyn Karstark.
Barret Ryswell era um palmo mais baixo que o herdeiro de Karhold mesmo sendo mais velho por três anos. O que traria vantagens e desvantagens para ambos. O cavaleiro de Regatos estava em sua armadura de placas enquanto Edwyn apenas usava uma cota de malha metálica leve que lhe vestia nos membros e tronco. Afinal de contas ele não estava esperando por um ataque.
Karstark percebeu que seu adversário estava deverás pesado e que ele teria a vantagem de ser mais ágil do que o Ryswell. Então decidiu que fora bom o fato de não carregar um escudo já que isso iria adicionar peso, porque Barret poderia lhe superar em força e não teria grandes problemas em superar a resistência e limitações de sua armadura para vir a derrotar o jovem adversário.
Então Edwyn Karstark estava sozinho com sua espada para enfrentar Barret Ryswell. E era uma espada que ele nem havia ainda praticado para adaptar-se como era com a anterior. Segundo Tyr era uma boa espada, então estava na hora de Edwyn experimentar uma boa luta com ela.
Edwyn percebeu que Barret não estava em seu total vigor para a luta, porém mesmo assim lutaria. A sua postura com a respiração pesada e transpiração lhe escorrendo a face e como seus olhos encaravam o e herdeiro de Karhold eram apenas provas disso.
O mais novo então considerou que como uma vantagem que procurou explorar. Porque quando o viu se mexer em sua direção não esperou para ser atacado e avançou. Edwyn não perdeu tempo e saltou para frente imediatamente, esquivando-se do trajeto que a espada fazia em direção de seu rosto e jogando um golpe que vinha de baixo para cima sendo direcionado para a cabeça de seu oponente ao mesmo tempo.
O cavaleiro chegou a reagir surpreso ao ver a velocidade do Karstark, bloqueando o golpe com o escudo com alguma dificuldade. Mas ele rapidamente recebeu outra, desta vez olhando para bater seu torso que soou atingindo a placa peitoral. E, em seguida, Barret respondeu com um golpe que tinha como alvo a mão da espada.
Se tivesse atingido provavelmente o Karstark teria perdido alguns dedos, no entanto as espadas de ambos se cruzaram por conta de Edwyn e sua destreza. Cada golpe era mais difícil de bloquear, uma chuva de golpes metálicos agudos das laminas e graves de quando a espada acertava o escudo ou alguma placa de metal. E assim foi até que finalmente um deles atingiu seu alvo, quando Edwyn acertou uma das pernas do filho de Sandor Ryswell.
O cavaleiro praguejou enquanto o sangue escorria do corte na panturrilha. Embora as espadas fossem afiadas não tinha sido um corte profundo o suficiente, e se não fosse pela falha de Edwyn em não aplicar muita força provavelmente teria decepado a perna do adversário ali.
Foi naquele momento que Barret pareceu perceber que o garoto que enfrentava tinha uma chance real de ganhar e isso o fez com que partisse para uma ofensiva maior.
Aproveitando-se de sua força foi que ele forçou o mais novo para trás um par de metros depois de bloquear seus golpes com o escudo. Depois disso, ele tentou estocar a sua própria espada contra o ombro de Edwyn.
A tática funcionara, mas a agilidade do Karstark o permitiu que se esquivasse e assim evitado o golpe que viria a danificar seu ombro para sempre, sendo que tal lesão o faria nunca mais ser capaz de lutar com uma espada.
Porém fora por pouco tempo quando com o escudo Barret acertara a lateral do corpo do rapaz seguido por outro que acertou o braço e o ombro. Uma pancada forte que causou um grunhido de dor de Edwyn. O Karstark revidou com um empurrão que impulsionou o adversário para trás.
Eles estavam novamente distantes um do outro cerca de dois metros, ambos então deram ao adversário um momento para avaliar suas chances. Mas isso não durara mais que um suspiro como Barret decidiu não perder a dinâmica adquirida na última troca de golpes e lançado pela segunda vez contra o seu oponente.
No entanto, seu peso somado com o da armadura acabou sendo uma desvantagem desta vez. Já que o herdeiro de Karhold conseguiu evitar o golpe e antes que o retorno da lâmina lhe alcançasse foi para lançar outro contra o cavaleiro de Regatos.
Barret tinha conseguido escapar do ataque com um desvio fazendo com que Edwyn passasse por ele lhe dando visão de sua parte traseira, onde lhe bateu mais uma vez, agora Edwyn pode sentir o impacto dolorosamente no ombro vindo do escudo que Barret segurava. Uma segunda batida de escudo essa vez contra a cabeça de Edwyn o levou ao chão.
Com o adversário no chão foi que Barret lançou um golpe que atingiria o rosto de Edwyn se não fosse pelo bloqueio com a espada. Foi então que cerca de mais dois ataques se seguiram com eles sendo parados rapidamente contra o aço da espada de Edwyn. O Ryswell respondeu com uma batida do escudo que desarmou o adversário.
Antes que desse o golpe fatal foi que Edwyn lhe dera uma cabeçada que o desestabilizou e o fez dar alguns passos para trás, ao que o Karstark aproveitou e rastejou até onde sua espada tinha caído. Ele recuperou a espada e rolou para longe quando Barret enfiara a espada onde antes estava a cabeça dele.
Depois disso, Edwyn lançou outro golpe foi bem recebido pelo escudo do cavaleiro. Mas o estrago estava feito, e o Karstark sentiu seu braço se queixar de dor pela força dos golpes anteriores do escudo. E Edwyn percebera que o herdeiro de Regatos tentava novamente bater-lhe o ombro contundido tirando vantagem de sua dor.
Porém Barret sangrava e mancava da perna ferida, isso podia se perceber por seus movimentos lentos. A melhor opção para ambos era ficar parado e esperar o outro atacar para defender, a estratégia acabou por ser tomada pelo Ryswell como o Karstark não se via com outra escolha para vencer além de atacar. E para isso foi que mudara a mão que empunhava a espada o que surpreendeu o adversário por alguns segundos.
E foi essa sua escolha de voltar para o ataque e tentar desviar golpes com a espada ao mesmo tempo em que impedia uma segunda investida contra seu braço. E era fato de que seu adversário estava usando sua força e peso da armadura ao seu favor.
Ambos os oponentes espadas cruzadas novamente e desta vez foi onde Edwyn mostrou toda sua inteligência. Eles explodem com as colisões repetidas de metal contra metal, com os golpes um tanto desajeitados de Edwyn com a mão com pouca prática. E um após o outro foi que o mais jovem desviou os contra-ataques com sua espada.
No entanto, a fadiga e a perda de sangue começaram a fazer uma disputa maior e mais intensa. Era um desafio de resistência, sobre quem se veria derrotado primeiro pelo cansaço e daria brecha para o inimigo. Enquanto o Karstark estava usando apenas sua espada e sua própria habilidade como espadachim treinado, seu ombro estava horrível pelos golpes do escudo passado, podia sentir aquela dor lhe consumindo.
Aquele ombro seria um problema para Edwyn. Mesmo que estivesse segurando a espada com a outra mão ainda assim sentia dor vinda do outro. Achava que ocorrera um deslocamento e se não fosse colocado no lugar em breve... Nem queria pensar muito sobre isso. Doía muito e estava cansado pelo longo tempo daquela disputa. Mesmo assim investira, um golpe longo e ousado que o Ryswell não poderia desviar com um golpe e lâmina ressoou contra o metal da armadura. Barret socara o ombro ruim do rapaz que grunhiu em dor.
Karstark respondera com um chute na perna sangrenta do oponente que recuou e deu a oportunidade para uma investida de espada que foi defendido por Ryswell. Tal golpe foi seguido por um contra-ataque que raspara o rosto de Edwyn e ele sentiu a face quente frente ao corte que se abriu em sua têmpora. Naquele momento ele poderia ter sido cegado pelo oponente, foi o pensamento do herdeiro de Karhold.
Tal golpe foi seguido por mais um e as espadas se cruzaram. E mais outra vez, metal contra metal se chocaram. E mais outra, seguido de uma quarta vez em que dança daquelas espadas disputavam entre si força e agilidade até que finalmente, para determinar o destino do resto do luta um quinto golpe seguido.
Ele e Barret se afastaram poucos passos um do outro e levantaram as espadas. Fora rápido quando no próximo golpe de maneira selvagem foi que a espada de Edwyn voou para fora de sua mão quando ele fora desarmado por uma investida a mais. A espada voltara para acerta-lo, porém a lâmina acertara sua cota de malha e ele agarrou a lâmina com as mãos podendo sentir o corte se abrir em sua palma.
Mordendo a boca para gritar de dor enquanto tentava afastar a ponta da espada de longe de si. O filho de Sandor Ryswell percebendo que mesmo com o oponente desarmado ainda assim estava a perdendo aquele duelo. Então foi que pegou sua espada com as duas mãos enquanto do outro lado Edwyn fazia o mesmo agarrando com suas mãos sangrentas a lâmina. Até esse momento a dor era insuportável e ele podia sentir o cheiro do próprio sangue que vinha de seus ferimentos.
Foi então que Edwyn puxara Barret para perto e lhe dera uma joelhava em meio as pernas do adversário que não estava esperando por aquilo e caiu por sobre o outro. Ambos rolaram pelo terreno íngreme da colina. Até que pararam ambos caídos lado a lado, muito cansados e com a espada largada entre eles.
Ambos os adversários começaram acertassem em socos e chutes enquanto tentavam alcançar a espada de alguma forma. Até que finalmente Edwyn estava a poucos centímetros do cabo da arma quando sentiu o peso do corpo de Barret sobre o seu. As mãos de seu adversário agora envoltas em seu pescoço enquanto o estrangulava.
Fora rápido. Tudo o que acontecera foi muito rápido. Edwyn sentira seus dedos alcançando o cabo da espada e então ele investira o golpe rapidamente contra o adversário que estava tentando mata-lo. Ele sentiu a lâmina rasgando a carne e o sangue esguichou em seu rosto e meio ao grito de dor que Barret soltara.
Barret Ryswell segurava o lado esquerdo do rosto atingido. Edwyn colocou-se de pé enquanto se aproximava então do adversário que se debatia em dor aos seus pés. O rapaz então encarou o cavaleiro caído gemia baixo enquanto seu corpo estremecia.
Edwyn Karstark pode ver os fragmentos de carne e pele que o golpe tinha arrancado sendo que a maioria não pode identificar só que um deles, o que chamou mais sua atenção mesmo envolta por sangue fora aquele que o fez se agachar e pegar em mãos. Não havia muita luz, mesmo assim pode ver que se tratava de uma orelha.
Ele então deixou que aquilo caísse por terra e aproximou-se de Barret que ainda tremia enquanto o sangue lhe escorria, ele estava semiconsciente quando vira seu oponente próximo dele. O Ryswell então o olhou com os olhos semicerrados e a voz meio grogue.
“Seu filho da puta...” soou Barret “Venha cá, seu bastardo fodido de merda”.
E Edwyn pode ver como do buraco na carne ao lado de sua cabeça aonde antes existia uma orelha agora sangrava. Era um filete de sangue que escorria grosso e aquoso pela feria lhe descendo dentre os dedos que o cobriam até o queixo para então respingarem no chão.
“Vai me matar?” falou Barret Ryswell, mas Edwyn nada dissera apenas o observando em silêncio com os olhos fixos “Você me destruiu” ele mostrara o rosto onde além da ausência da orelha ainda faltava-lhe uma fatia de carne que lhe expunha até mesmo parte de seus dentes onde antes havia parte dos lábios.
“Eu sinto muito” respondeu Edwyn.
“Sente?” falou Barret como se quisesse rir, mas mesmo aquilo parecia lhe doer.
“Vai me matar?” repetiu Barret à mesma pergunta.
Edwyn permaneceu em ignorar-lhe uma resposta e apenas seguiu em frente subindo o pequeno elevado que os dois tinham rolado juntos.
“Vai me abandonar para morrer assim? Sangrar até a morte?” insistiu Barret “Seu covarde de merda, termine isso feito um homem de verdade... S-Seu covarde”.
O rapaz então fincara a espada do herdeiro de Regatos no chão.
“V-você está me ouvindo, E-Edwyn Porra Karstark?” disse Barret “V-você é um m-maldito co... Cov... Covarde”.
“Um covarde que te venceu.” respondeu Edwyn “A espada está aqui, se quer morrer... Então faça você mesmo”.
E seguiu o seu caminho deixando o adversário caído para trás sem lhe por um fim em sua vida. Uma parte dele sabia que o rapaz não tinha condições em rastejar até a própria espada, mas mesmo assim Edwyn não iria acatar as provocações que foram se silenciando conforme se distanciava.
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