Uma nova escola, porque eu tinha que mudar? Ser órfão era uma droga e ficar mudando de lugares era pior ainda, o que eu tinha feito de errado? Era apenas uma pessoa, estranha e cheia de “qualidades” que as outras não tinham, mas ainda sim uma pessoa, como eu esperava, seria “bem recebido”, mas nada espantoso, ainda olhei para minha mão direita, sangrava pouco, porém o corte era superficial, caminhei até onde seria a porta do quarto onde ficaria e teria que dividir com mais duas pessoas, ao que parecia todos os outros quartos já tinham duplas e por isso eu tinha que ficar com esses dois, já que o quarto deles era um dos maiores do colégio, puderam por mais uma cama, como aquilo era inconveniente... Assim que cheguei perto da porta parei, observando uma jovem que ali estava.

– Teve um inicio difícil.

– Nada com a qual eu não esteja acostumado.

– Durão, muito bom para esse lugar, sou Nathália.

– Wolf.

O que ela queria? Por que não saia dali? De alguma forma, pela primeira vez eu não me incomodava com alguem me perguntando varias coisas, ela deu um leve sorriso, deixando os brancos dentes a mostra.

– Belo sorriso.

Deixei escapar, dando um sorriso também, ela deixou o sorriso sumir, e caminhou para o lado da porta.

– Cuidado com quem anda e fala, as coisas não são um mar de rosas por aqui.

– Pode deixar, sei me cuidar como deve ter visto a pouco.

– E como vi, vá descansar, amanhã será um dia bem cheio.

Estranhei, mas apenas consenti com a cabeça, ela se virou e saiu caminhando, dando um leve aceno antes de sumir no corredor, entrei no quarto e ele estava vazio, provavelmente todos ainda estavam no salão, joguei minha mochila no canto do quarto e fui até a janela, inverno... como eu adorava o inverno, a brisa gelada fazia eu me sentir livre, esquecer de tudo e simplesmente deixar acontecer, abri a janela, deixando o vento tomar o cômodo, tirei minha jaqueta e a deixei cair no chão atrás de mim.

– Então você é o novato, que belo show você deu no salão hein.

– É verdade, você foi demais!

Me virei, estava tão concentrado com o vento que não ouvi a porta abrir, um descuido, olhei para os dois jovens que adentravam o cômodo, um loiro que parecia afobado e animado ele tinha mais ou menos minha altura, olhos claros e corpo esguio, o outro tinha uma certa imponência no olhar com cabelos e olhos pretos, porem seu caminhar era calmo, ambos se aproximaram de mim, mantendo alguma distancia, meus olhos começavam a queimar um pouco, odiava sentir aquilo, maldita genética, eles deram um passo para trás e eu me virei para a janela.

– Sou Wolfnys, desculpe ter entrado assim e aberto a janela.

Eles pareceram relaxar, soltando o ar de forma calma, relaxando a respiração.

– Eu sou Phyro Denan e o cara calminho aqui é o Dek, muito prazer.

Acenei com a mão e fechei os olhos, a ardência começou a passar e logo me virei novamente, identifiquei os tons de vozes e com isso pude saber quem era quem.

– Prazer, onde eu posso ficar? não quero incomodar.

Eles se olharam e deram um tímido sorriso.

– Ninguém disse que você ia incomodar, relaxe cara, aqui algumas coisas são boas, nem tudo são pessoas enlouquecendo e jogando coisas na sua direção, sua cama é aquela ali no canto, pode usar o guarda roupa, eu tenho um bau onde guardo minha coisas.

– Eu costumo deixar tudo sobre a cama, não precisa se incomodar.

Caminhei até minha mochila, eu sentei em minha cama, Dek se sentou na dele, passando a mão sobre um vulto preto e Phyro foi até a janela e a fechou, então o silencio pairou por ali durante um tempo, Phyro andou até o banheiro e um barulho o seguiu, parecia estar tomando banho, eu tirei minhas poucas coisas da mochila, apenas umas peças de roupas e calçados, nada alem disso.

– Pegue.

Disse Dek, esticando uma pequena caixa em minha direção, olhei um pouco receoso, então ele sorriu.

– Pode pegar é um pacote padrão de boas vindas, são alguns acessórios obrigatórios por aqui.

Estiquei minha mão e peguei o pacote, sem abri-lo, deixei sobre a cama e continuei a arrumar minhas coisas.

– Você sabe o porque fizeram aquilo com você?

– Não sei, mas não me incomodo, sempre tem um retardado para fazer essas coisas, só estranhei os objetos jogados.

Disse olhando o corte em minha mão, deslizando o dedo levemente sobre ele.

– Não precisa ficar abalado, existem muitos imbecis por aqui!

Phyro gritava do banheiro, eu deixei uma risada escapar, e Dek também.

– Ele é sempre assim?

– Hoje ele esta calmo, devia ver ele quando esta empolgado.

Dei um leve sorriso e me deitei, pensando no que havia acontecido a pouco.

– Como fizeram aquilo comigo, nunca tinha visto coisas daquele tipo voando assim.

– Muitas coisas acontecem neste colégio, somente selecionados vêem para cá.

– Selecionados?

Me levantava, sentando na cama, aquilo começava a chamar minha atenção.

– Isso, você deve ter visto algumas solicitações estranhas na ficha de admissão não é?

Comecei a refletir um pouco, me lembrando dos itens requisitados.

– Exame de sangue, arvore genealógica e muitas outras coisas não é?

Phyro saia do chuveiro, estava porta do banheiro, enrolado na toalha, enxugava os cabelos com outra toalha, ambas de coloração verde.

– Acho que sim, fiz a ficha a muito tempo, mas desisti de vir para cá.

– Desistiu...Como assim?

Dek e Phyro exclamaram em conjunto, sacudi a cabeça e me deitei novamente.

– Longa historia, outro dia, o dia será cheio amanha, melhor eu deitar.

– Verdade, descanse, eu vou sair, dar uma caminhada, Phyro se for ficar no quarto nada de barulho.

– Ta, ta, seu chato.

Dei uma leve risada e me virei, deitando na cama fria, como era bom sentir o frio no corpo quente, finalmente descansar em uma cama descente, mas minha mente não parava de trabalhar, pensava em como eu havia chego até ali, as coisas atiradas em minha direção e as pessoas que eu havia conhecido, lentamente fechei os olhos, obrigando o sono a chegar e logo ele chegou, tudo silenciou e pude deixar a mente descansar, até o toque do despertador, com uma musica do AC.DC, me despertar de forma brusca, um novo dia se iniciava, um novo desafio.

O colégio era enorme, salas e mais salas em corredores parecendo labirintos, por sorte Dek tinha as mesmas aulas que eu, Phyro tinha outras aulas, e bem as aulas não eram as mais comuns, haviam as aulas normais como português e matemática, mas haviam outras bem estranhas.

– Bem agora todos prestem atenção, temos um aluno novo, por isso vou dar uma revisada em tudo que foi passado durante os primeiros bimestres, por isso aproveitem para rever algumas coisas e verem o que lhes falta!

Dizia o professor, ele tinha uma aparência jovem, parecia até ser mais jovem que eu, tudo bem eu tinha apenas 16 anos, mas ele aparentava ter no máximo 14, cabelos em um corte caído no rosto, fios de cor azul claro, quase cinza, usava uma blusa de capuz e calça jeans, havia uma espécie de coração com uma coroa na blusa, emblema do colégio, ele parecia ser bem rígido em sua matéria, seja ela qual for pensei comigo.

– Você, Richard não é, venha até aqui.

Me levantei da cadeira, todos os alunos ali me olhavam curiosos, o professor ficou próximo a sua mesa.

– Sim professor.

– Não precisar ser tão formal, pode me chamar pelo nome, Riku.

– Ok, e agora prof... digo Riku?

Como era estranho chamar um professor pelo nome, mas mais estranho que chamar aquele garotinho de professor não existia, ele desencostou de sua mesa, esticou a mão em minha direção, deixando a palma reta, os dedos apontando para cima.

– Quero ver seu nível de concentração, se esta aqui é porque sabe fazer algo que outras pessoas não saibam, tem armas que poucos possuem, vou disparar algo em você, quero ver como consegue bloquear, você tem apenas uma chance de desvio e contra ataque, nada mais.

– Mas que diabo de aula é essa?

Nem percebi que dizia em voz alta, o professor manteve os olhos fechados, um brilho começou a surgir na palma de sua mão, pareciam pequenos raios, fiquei olhando ali, o que ele ia fazer.

– Thunder!

E uma bola elétrica voou da palma de sua mão, tinha uma velocidade mediana, mas nada que qualquer pessoa não pudesse ver, logo a explosão e as fagulhas voaram ao atingir o alvo.

– Mantem a concentração ou...

– Stone Hammer!

Um enorme bloco de pedra voou da fumaça formada pela explosão, eu estava ofegante, porque ele tinha feito aquilo, ou melhor, como ele tinha feito aquilo, que droga de escola era aquela, Riku abaixou seu corpo e o bloco voou janela a fora, eu ainda olhava pelo buraco do pequeno muro de rochas a minha frente, todos pareciam surpresos, o professor se aproximou de mim, parecia explodir de felicidade, estava a poucos passos quando começou a aplaudir.

– Meus parabéns, você tem talento, não sei quais são, mas descobriremos no decorrer dos dias, pode se sentar.

– Sentar... mas que droga de escola é essa!

O rosto que parecia radiante se encheu de confusão.

– Você não sabe o que esse colégio faz?

– Mas é claro que não.

Riku me pegou pelo braço me levando a sala do diretor.

– Sophie, cuide da sala para mim por favor!

Gritou do corredor, caminhei quase arrastado pelos corredores, subindo lances de escada, até a sala do diretor, ela eu já conhecia, sala grande, paredes de madeira, estantes com vários livros, mesa larga, o padrão de qualquer sala de reitoria.

– Você não contou de novo!

Disse o professor assim que entrou na sala, o diretor pareceu se assustar, deixando sua caneta cair no chão, ele se levantou, caminhou até a porta, fechando rapidamente.

– Você e essa mania, feche a porta antes de começar a gritar, quantas vezes vou ter que pedir.

Disse o diretor, se sentando novamente, Riku ficou de pé, mas não me soltava, ele tinha um aperto bem forte, mas até do que eu podia imaginar para um garoto da idade que ele aparentava.

– Mas que droga Lucas, porque você tem essa mania de não dizer o que esse colégio faz antes de trazer os alunos, já é a quinta vez que quase acaba em acidente aqui dentro.

– Vá com calma Riku, o que aconteceu?

– O que você acha, o novato foi a minha aula, fui fazer o teste de concentração e ele quase surtou!

– Deixa eu adivinhar, o bloco de pedra que voou a poucos minutos e caiu no campo de flores é arte sua Riku?

– Não, é minha.

Disse tentando afrouxar o aperto, finalmente o professor me soltava, eu passei a mão pelo aperto, Lucas e Riku me olhavam, eu me sentei em uma das poltronas da sala.

– Eu agradeceria muito se uma explicação plausível para o ataque de ontem e a “aula” de hoje fossem dados.

O diretor respirou fundo, o professor se sentou.

– Bem Richard, como posso explicar, esse colégio, não á algo comum, não existem jovens comuns aqui, todos um dom especial, alguns tem mais de um, como você, mas o importante é que as mantemos seguras aqui, elas podem se enturmar, ter uma vida e aperfeiçoar seus dons, entendeu.

Eu digeria tudo aos poucos.

– Dons, mas isso é impossível, não podem existir tantos assim!

Riku sorriu e o diretor ficou mais relaxado em sua cadeira.

– Existem muitas coisas que vocês ainda não sabem e não entendem, mas tudo será revelado em breve, eu garanto isso.

Eu me levantei, passei a mão em meu rosto, tentando fazer tudo aquilo entrar na minha mente, mas de repente tive um estalo e sorri.

– Entendeu agora não foi?

– Sim, finalmente não vou precisar me segurar.

Riku riu e o diretor pareceu preocupado.

– Esse é o espirito, agora vá comer, ainda tem varias aulas no dia.

Sai fechando a porta em seguida.

– Ele vai causar problemas não é?

Disse o diretor, Riku se levantou indo até a porta.

– Só os que forem necessários.

Disse saindo da sala, eu tentava localizar o refeitório, “Maldito labirinto de pedra”, pensava enquanto minha barriga roncava, dando sinal de que o tanque estava vazio.

– Um novato burro, esta perdido monstrinho?

Olhei para trás, um rapaz loiro, orelhas pontudas, parecia um elfo, estava parado ali, simplesmente ignorei.

– Não vire as costas pra mim!

A voz era a mesma, senti meus olhos queimarem, mas respirei fundo.

– O que você quer.

– Não é obvio, quero que você suma daqui, eu sou o rei, você pegou minha flecha da outra vez, mas será que consegue pegar desta distancia?

Não me virei, continue caminhando, algo cortou o ar e senti uma fisgada em meu rosto, um filete de sangue escorreu, olhei para frente, uma flecha ficada nas rochas no fim do corredor, continuei a caminhar.

– Maldito, vou ter que furar seu joe...

– Chega Dyn!

Uma outra voz cortou o ar, um jovem de aparência parecida com a do outro, mas usava uma roupa diferente, estava ladeado por uma jovem que usava um manto imponente, parecia ser militar ou algo assim, ele segurava a mão do outro, chamado de Dyn, que estava com um arco, ia disparar duas flechas ao mesmo tempo.

– Me deixa cara.

– Essa é a ultima vez, não me faça te derrubar.

O jovem pareceu temer as palavras do outro e baixou sua arma, se virando e indo embora, eu olhava espantado, quem eram aqueles.

– Você esta ai cara, sabia que você ia se perder, vem ou vai perder o jantar!

Era Phyro me puxando pelo ombro, assim que chegamos ao refeitório pude ver o lugar lotado, parecia que todos os alunos estavam ali, deviam ser por volta de quase mil alunos, segui Phyro, que pegava duas bandejas de uma pilha, ao lado havia outra pilha, essa de pratos, peguei o maior que estava ali, a fila para pegar o almoço era grande, mas não ficava parada, sempre estava se movendo, de forma que não demorou nem cinco minutos até que cheguei a comida.

– O que vai querer?

Perguntou o cozinheiro, eu olhei, não havia panelas nem nada do tipo, fiquei pensando como pegaria a comida.

– E então o que vai querer?

– Ahn, desculpe, quero arroz, feijão e um grande pedaço de lasanha ao molho branco e alguns pedaços de costela assada.

O cozinheiro sorriu, pegou o prato vazio e em menos de um minuto voltou com ele cheio, tudo que eu havia pedido estava ali.

– Boa apetite.

– Obrigado...

sai da fila parando sem saber para onde ir.

– Vem logo Wolf!

Phyro me puxava novamente, ele era cheio de energia mesmo, passando por muitas pessoas, quase derrubando minha comida, até que chegamos a uma mesa, meio afastada das outras, ali estava Dek e mais duas pessoas que eu não conhecia, estavam na aula de Riku, eu me recordava dos rostos, mas não sabia os nomes, sentei ao lado de Dek e Phyro.

– Você deu um show na aula hein Wolfnys.

– Realmente, muito bom Richard.

– Por favor, me chame de Wolf.

Todos olharam, eu comia despreocupadamente, estava tudo tão delicioso que nem me dava conta dos olhares.

– Ok, eu sou Akaito.

– E eu sou Yoshi.

– Como você fez aquilo, ninguém consegue parar um ataque do Riku assim, conta o que você fez?

Terminei de engolir, deixando o prato limpo, todos ainda comiam, eu respirava fundo, apreciando a boa refeição que tinha acabado.

– Primeiro vamos por partes, quando e porque vocês vieram parar aqui?

Eu dizia, Phyro levantou a mão, desandando a falar em primeira estancia.

– Eu vim para cá acho que faz um ano e meio, já sabia o que o colégio fazia, mas como sou órfão acabei vindo para cá.

– Eu vim porque precisava de um lugar para ficar, não sabia o que eles faziam até um dos professores quase me incinerar, estou aqui a dois anos.

Dizia Dek, voltando a comer calmamente.

– Vim porque fui obrigado, meu pai me mandou para cá por ser “ a melhor escola de todas”, estou aqui a oito meses.

Eu ria da imitação de Yoshi sobre seu pai, recostei na cadeira, o refeitório parecia esta mais calmo agora, não estava esvaziando, mas o tumulto havia acabado, todos estavam sentado e comendo, eu olhava a esmo para as mesas, sem ter um alvo fixo.

– Seja discreto cara!

Olhei para Phyro, que falava de boca cheia, somente neste instante percebi que meu olhar se direcionava a outro olhar, olhos vermelhos, familiares, quando notei acabei corando e abaixei a cabeça.

– O que houve Wolf?

– Nada Dek, não foi nada.

– Porque você não gosta de Richard, é um nome cheio de pomposidade.

Dizia Yoshi, rindo e comendo, ele era meio nojento tinha que admitir.

– Prefiro assim, condiz melhor com o que eu sou eu diria.

Disse, me levantando em seguida.

– Vou para o quarto, preciso descansar depois de tudo isso.

– Vai la, bom descanso.

Ouvi Dek dizer antes de caminhar até o quarto, pensando em como seria dali em diante e em porque eu estava focado naqueles olhos.

Notas finais
COIS CAPITULOS SEGUIDOS, COMENTEM E ME DIGAM O QUE ACHAM OU EU JURO QUE MATO O PAPA!