Nora Fulkert - Um conto de amor na Terra Média
35 Ferguros – O construtor
No dia seguinte Ferguros, conforme havia anunciado, estava novamente na casa de Thakurli e Nimarie. Ao contrário da amiga, Nimarie não havia acordado de bom humor. Ao ver o olhar indagador de Thakurli Nimarie logo justificou-se:
_ O que foi! Não me olhe desse jeito...
A amiga passou a mão nos seus cabelos e ajeitou-os rapidamente em uma trança. Enquanto isso Nimarie falava sem parar: _ Você sabe que por mim não teríamos a desagradável companhia desse homem já pela manhã, imagine só, nem sabemos o seu real nome... e além do mais ele me olha estranhamente...como se quisesse invadir a minha alma... — Nimarie falou essas palavras mais baixo, como se desconfiasse dela mesmo. Mal ela havia acabado de falar isso quando alguém anunciava a chegada batendo na porta. Num jato Thakurli abriu a porta ao mesmo tempo que Nimarie colocava-se de pé, um pouco arrependida de não ter colocado um vestido melhor.
_ Bom dia...– Disse Ferguros no limiar da porta, com um largo sorriso.
Nimarie ficou boquiaberta ao ver o moço novamente, ele era encantador e terrivelmente belo... ela ficou hipnotizada olhando para o seus olhos e por alguns instantes esqueceu-se do que falar... _ Temo que tenha me adiantado... — Disse ele sem tirar os olhos de Nimarie
_ Sim... — Balbuciou a moça sem jeito, ao mesmo tempo que Thakurli gesticulava atrás dele – _ Digo, não...
Ferguros somente sorria, parece que não via ninguém mais no local além de Nimarie. Somente quando Thakurli pegou no seu braço e o fez entrar, ele a cumprimentou e após abraçou as crianças. Elas olhavam as flores do campo que ele trazia nas mãos.
_ Oh! Sim... eu trouxe flores para colorir a casa... sei que as flores não devem ser arrancadas, mas acredito que aqui elas serão mais felizes do que no charco aonde estavam... – Para a surpresa de todos ele se virou e deu as flores para Thakurli: _ São para você!
Thakurli ficou radiante de alegria, ao mesmo tempo que Nimarie abaixava a cabeça um tanto envergonhada em ter pensado que as flores eram para elas. Mas reconhecia que era melhor assim, resolveu adotar uma postura mais séria para ver se afastava qualquer sentimento que o moço poderia ter para com ela.
_ Se você veio para tomar o seu desjejum aqui, por que não te sentas, a mesa já está posta. — Disse em um tom de formalidade.
_ Com a sua licença.
Enquanto comiam, Nimarie, ao contrário de Thakurli, discretamente observava Ferguros. Ele sentia-se observado mas fingiu não perceber, a fim de não deixar as moças mais sem jeito do que já estavam Todos comeram em um enorme silêncio. E quando ele resolvia fazer algum comentário seja com as crianças ou com Thakurli, Nimarie não demonstrava a mínima simpatia permanecendo calada o tempo todo. Ao final do desjejum, quando Ferguros se levantava para despedir-se, Nimarie por fim falou, em um tom sério:
_ Então Sr. Ferguros.. como vieste parar aqui?
_ Oh senhora Nimarie... é uma longa história. Não sei se não as cansaria com minha história.
_ Vens na minha casa, come da minha comida, abraças meus filhos e perturba um coração e não me dizes se quer teu sobrenome? — Ela falou isso de uma forma ameaçadora, e se referia a Thakurli, fazendo com que ela a encarasse irritada.
_ Bom senhora... não era minha intenção perturbar coração algum... quanto a isso peço desculpas das demais coisas, posso corrigir não vindo mais aqui... se assim desejar... — Ele falou isso com uma seriedade atípica.
Vendo o que a amiga pretendia fazer, Thakurli, gesticulou irritada por alguns minutos, e saiu apressadamente do recinto levando as crianças junto, Nimarie ficou sozinha com Ferguros.
_ O que ela disse? — Perguntou Ferguros no que Nimarie não respondeu somente abaixou a cabeça. _ Me julgas estranho e misterioso, mas a senhora também é assim tanto quanto eu... Muitas casas me convidam para ficar e tem as suas portas abertas para mim, mas vim em sua casa pois sinto-me atraído para cá como se tivesse correntes que me prendem a este lugar, mas não fico a onde não sou desejado. Se quiseres, não lhe perturbarei mais com minha presença senhora. — Vendo que Nimarie permanecia imóvel sem falar uma palavra se quer, Ferguros despediu-se sério: _ Com a sua licença. — A porta fechou e Nimarie sobressaltou-se, mas somente agora ela pode respirar melhor.
Logo Thakurli chegou na sala com os olhos curiosos, olhava para a amiga como quem pedisse explicação:
_ Por favor Thakurli não me julgue... — Ao ouvir o apelo triste de Nimarie a morena correu para abraçá-la. Desde a primeira vez que Nimarie viu Ferguros sentiu um calor brotar em seu coração. Não se atrevia a dizer que era amor, mas reconhecia nele um olhar que a fazia tremer, assim como o olhar de Legolas. Legolas, ela sabia, seria sempre o único amor de sua longa e terrível vida, mas o príncipe já não fazia mais parte de seus planos, pois sabia que uma reaproximação seria quase impossível.
_ Não podes viver presa dentro de si mesma. — Dizia Thakurli através de seus gestos. _ És jovem, linda, não podes te privar de alegrias pelo resto de teus dias... como queres que os outros não te julguem traidora, se você mesmo acha isso? — Não falar, não era um problema para Thakurli e Nimarie, ela sempre entendia o que a amiga queria dizer, só um olhar bastava.
_ Ainda não Thakurli... não estou preparada... não quero matar, ferir ou entristecer mais ninguém.
Os dias se seguiram dessa forma. Ferguros não foi mais até a casa de Nimarie e Thakurli. Mas ele coordenava um grupo de homens que trabalhavam próximos do local para a construção de uma via que levaria a água do rio até o castelo do rei. Então, ao acaso, e as vezes não tão ao acaso assim, Ferguros cruzava com Nimarie, Thakurli ou as crianças. Certo dia enquanto fiscalizava a construção, Feltróz, o petulante conselheiro do rei, perguntou para Ferguros:
_ Porque o canal não passa por aquela colina?
_ Porque o caminho por aqui é facilitado pelo declive senhor Feltróz! — O homem que parecia não dar ouvidos para Ferguros, subiu em seu cavalo e foi até a colina referida, o meio elfo fez o mesmo. Quando eles chegaram ao topo, depararam-se com Nimarie que levava uma cesta de roupa para ser colocada ao sol, afinal no alto daquela colina era aonde estava localizada a sua humilde casa.
_ Ora, ora se não é a bruxa elfíca... – Falou Feltróz, se referindo a Nimarie em um tom maldoso. _ Já deve ter ouvido falar de Nimarie, Ferguros... e que deves te cuidar para que sua beleza não enganes teus olhos desprevenidos....– O asqueroso falava isso em um tom sarcástico deixando Nimarie desconcertada.
_ Ao que devo a honra dessa visita? – Ela rebateu irônica
_ Oh minha doce e bela Nimarie... terás que sair daqui. A bondade do rei cega a sua inteligência, ainda bem que ele tem a mim! O novo canal que este cavalheiro construirá terá que passar por aqui e sua casa terá que ser derrubada... — Nimarie olhou indignada para Ferguros, certamente ele havia feito isso de propósito para castigá-la...
_ Senhor Feltróz! — Por fim falou Ferguros. _ Creio que se quiseres surpreender o rei com a sua magnificentíssima inteligência deve construir o canal no ponto mais próximo e de mais fácil acesso, o ponto por aqui seria impossível. — Chegou mais perto de Feltróz e disse baixinho: _ Dizem que por baixo das casas das bruxas correm rios de fogo...
_ De bruxas elfas também? — Perguntou o homem preocupado no mesmo tom do meio elfo
_ Sim! — Respondeu Ferguros com seriedade. _ O senhor não quer despertar a fúria de um rio de fogo quer? O rei não toleraria isso... — Feltróz ficou muito preocupado com a colocação do meio elfo. Voltando-se novamente para Nimarie que tentava entender o que eles diziam falou: _ Bom, por agora fique aí... futuramente veremos. — Dito isso ele virou-se e saiu cavalgando depressa. Antes de segui-lo Ferguros demorou-se um pouco olhando para Nimarie.
Feltróz

Durante dias Nimarie sentiu vontade de procurar Ferguros para perguntar, ou melhor, para agradecer, o que ele havia feito naquele dia que Feltróz havia ido até a sua casa. O rei gentilmente havia cedido o terreno para ela construir a sua casa, mas se ela tivesse que sair de lá não teria para onde ir com os filhos. Incentivada por Thakurli, finalmente Nimarie tomou coragem e foi até o povoado onde sabia que Ferguros morava. Chegou em sua casa ao entardecer, e como sinal de reconciliação levou um delicioso bolo que ela mesmo havia feito.Em frente a porta da casa modesta, vacilou em bater. Quando tomou coragem para anunciar a sua chegada, ouviu vozes que vinham de dentro da casa, no mesmo momento a porta se abriu revelando uma moça alegre que se despedia calorosamente de Ferguros. Ao se deparar com Nimarie, a moça, imediatamente se recompôs da sua alegria exagerada, não escondendo a sua antipatia. Já Ferguros, demonstrou imensa satisfação ao ver a meia elfa, seus olhos brilhavam de alegria e emoção quando ele falou:
_ Sabia que você viria... – Nimarie apenas abaixou os olhos, a fim de não transparecer o turbilhão que estava sentindo no momento.
_ Adeus Ferguros! – Gritou a pobre moça que havia sido esquecida por ele alguns segundos
_ Adeus Senhorita Milemis... obrigada pelo bolo! — Ele falou simpático ao mesmo tempo que fazia Nimarie entrar na casa.
_ Espero não ter atrapalhado... não ter atrapalhado nada...
_ Não! Não atrapalhou nada... Sabe a vizinhança é muito cortês por aqui...– Ele disse apontando a mesa que estava cheia de bolos, bolachas, leite, dados a ele de presente pelas vizinhas assanhadas. Neste momento Nimarie se lembrou que também trazia um bolo nas mãos, mas ficou sem jeito ao ver que a última coisa que Ferguros estava precisando ou querendo era um bolo. Vendo que ele olhava para o embrulho, ela tratou logo de justificar-se.
_ Ah! O bolo... bem acho que você não precisa dele...
_ Eu não preciso de mais nada agora... — Ele sempre deixava Nimarie encabulada com seus cortejos sutis, ainda mais agora que ele estava lhe fixando com os olhos apaixonados. Fingindo não perceber que a frase se referia a ela, Nimarie depositou o bolo, que estava embrulhado em um pano, em suas mãos, e falou:
_ Eu vim apenas para agradecer... não sei o que falou para Feltróz, desistir da ideia...
_Que era linda... — Novamente ele deixava a moça sem jeito, mas desta vez Nimarie, fez um gesto de irritação e preparava-se para responder quando ele continuou: _ Falei que a paisagem era linda e que não deveria privar ninguém de vê-la... se o aqueduto fosse construído ali a colina viria a baixo.
_ Oh... — Balbuciou a moça, ainda mais sem graça pela gafe que quase cometera. _ Bom, sendo assim... obrigada Senhor Ferguros! Até breve!
_ A levarei até em casa!
_ Não é necessário Sr. Ferguros, sei bem o caminho de volta.
_ Apenas de Ferguros por favor... ainda não contraí matrimônio para ter esse nobre título de senhor. — Ele disse isso com bom humor, arrancando um sorriso tímido da moça. _ Agora sim! Agora sua dívida está paga! — Nimarie não estava entendendo ao que ele estava se referindo... _Seu sorriso pagou o favor que lhe fiz! — Explicou ele, fazendo que Nimarie sorrisse mais ainda. Ele abriu a porta pois a moça parecia impaciente para ir embora. Antes que saíssem ele pegou uma capa e jogou sobre os ombros, justificando-se frente ao olhar um pouco irritado de Nimarie: _ Não adianta dizer que sabes o caminho, irei assim mesmo! Está noite, moras longe, não me perdoarei se caso tropeçares em uma pedra, ou se arranhasse em algum espinho que por ventura não vejas...
_ Bom... não posso lhe impedir. Sua companhia será bem-vinda. — Ela estava tentando ser apenas simpática, mas havia sinceridade nas suas palavras. O céu estava estrelado, deixando a noite luminosa a brisa mais gélida anunciava a chegada do outono. Uma hora de caminhada os separavam da casa de Nimaire, e após muitos minutos de silêncio Ferguros por fim quebrou o silêncio:
_ Sou Ferguros Berahtian, filho de Adrius e Argaladiel de Anórien. Meu pai era um homem construtor de pontes, minha mãe uma elfa de Lothilórien. Quase não os conheci, pois morreram na guerra quando minha mãe abandou os jardins dourados e foi viver com meu pai. Fui criado pelo meu tio Drius, um homem rude do campo. – Vendo que Nimarie prestava atenção no que ele falava ele deu uma pausa na caminhada e falou fitando a meia elfa: _ Assim como meu pai me tornei construtor, e agora estou aqui a trabalho, por dinheiro, pois não tenho herança, não tenho família, e não tinha ambição... — Essa última frase no passado não passou despercebido por Nimarie, que sentiu-se tocada com a sinceridade do homem que a fitava com os olhos bondosos. Mais alguns passos foram dados, até que ele continuou: _ Bem agora sabes tudo sobre mim Senhora Nimarie... — O tom irônico da sua voz mereceu uma explicação por parte de Nimarie:
_ Perdoe-me Ferguros, acho que venho sendo rude com você. Não o proibirei mais de ir em minha casa...
_ Obrigada Senhora Nimarie... Sinto-me honrado! – A caminhada continuou e mais nenhuma palavra foi dita até que chegassem no destino.
_ Obrigada pela companhia Ferguros. — Despediu-se ela.
_ Eu que agradeço Senhora Nimarie! — Antes que ela pudesse se afastar suficientemente dele inesperadamente ele pegou a sua mão, fazendo com que Nimarie se voltasse novamente para ele, surpresa, ela esperava uma resposta para a sua atitude. Foi então que ela viu que os olhos de Ferguros brilhantes, transbordavam amor. Ela não pode mais sustentar o olhar e baixou a cabeça, após alguns segundos ele falou com a voz embargada:
_ Tenha uma boa noite Senhora... — Nimarie não esperava ouvir isso e não era exatamente isso que ele queria ter falado, mas não houve tempo para uma resposta pois rapidamente ele tomou o caminho de volta, deixando a moça pensativa.
Ao entrar em casa Nimarie pode enfim respirar. As crianças estavam dormindo mas Thakurli lhe esperava ansiosa.
_ Como foi ?? – Queria saber a amiga
_ Eu não sei Thakurli... eu não sei... — Mas a amiga insistia e algo precisava ser contado para satisfazer a sua curiosidade. _ Eu levei o bolo, mas já haviam tantos! Então ele me acompanhou até aqui... eu não sei o que acontece Thakurli! — A moça tirou a capa e se encostou na porta de entrada. _ Ele me olha de um jeito, temo que ele possa... temo que eu... oh Thak vejo tanto amor em seus olhos, tanta sinceridade... não posso feri-lo de forma alguma....- Como se acordasse, ela recobrou a postura e olhou séria para a amiga. — Agora vamos dormir! Não me torture mais com isso... – As duas riram e saíram em direção ao quarto.
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