Alguns anos se passaram e as coisas seguiram normalmente em Belfalas. Contrariando a agitação da Terra Média, o pequeno povoado seguia quase que esquecido pelas guerras e disputas de terra que aconteciam por todos os lados. A notícia da guerra do anel chegou até a cidade, e deixou a comunidade alvoroçada com a possibilidade de retorno de Sauron. Nimarie procurava sempre saber os detalhes sobre a guerra e em especial sobre a união dos povos livres para a destruição do um anel. Seu coração disparava sempre que ouvia essas histórias, e sentia-se deprimida por não poder mais colaborar com suas visões que tanto ajudaria nesses momentos conturbados. Sabia que Legolas tinha participação fundamental nisso, e lembrava-se constantemente das visões que tinha sobre este período que estava acontecendo agora.

Agarrava-se na esperança de poder reencontrar o amado elfo quando tudo isso acabasse. E a cada dia que passava alimentava em sua alma o desejo do reencontro, que estava mais perto de acontecer, ela sabia. Já Ferguros não se poupava em carinhos para com Nimarie. Ele não tentava mais esconder o amor que sentia por ela, mas, mesmo assim, os dois tornaram-se amigos, e ela contou toda a sua história para Ferguros, que ao contrário do que Nimarie imaginava não se surpreendeu pelo fato de ela ser a Tanacëmníss. Sobre isso ele apenas comentou:

_ Você combina com as lendas... é quase surreal para mim e praticamente intocável. Se eu fosse Legolas não teria te abandonado por um dia se quer...

Apesar da insistência de Thakurli para ceder aos encantos do meio elfo, Nimarie mantinha-se sempre a uma certa distância, alimentada pela esperança de reatar com Legolas. Porém ela admitia que sentia um imenso carinho pelo homem e que se Legolas não tivesse existido por certo ela amaria a Ferguros.

Certo dia Thakurli entrou alvoroçada em casa a procura de Nimarie. Ao encontrar a amiga foi logo contando:

_ Você sabe que a construção do aqueduto foi finalizada?

_ Sim... Ferguros me comentou algumas vezes que havia finalizado. E o que tem?... — Disse Nimarie dando os ombros sem entender a agitação da amiga.

_ O que acontece com um construtor quando a obra acaba?

_ Ele vai embora... — concluiu Nimarie com a voz quase sumida. Olhou para Thakurli, certamente a amiga esperava uma atitude dela.

_ Você ainda acredita que Legolas irá te aceitar? Depois de tudo? Ele é um príncipe, será rei... Já viu um rei casar com uma traidora? — Thakurli nunca havia falado assim com Nimarie, mas ela estava certa, tinha que admitir. _Você já sofreu o bastante! Já pagou pelo seu erro! Enquanto todos te chamavam de traidora, você estava lá para salvar um só homem! Se seu erro pode não ter sido amar Legolas de mais, seu erro pode ter sido não amar o homem certo... – Thakurli gesticulava com energia, como se tivesse guardado a vontade de dizer tudo aquilo tudo por muito tempo. Sem pensar em mais nada Nimarie saiu correndo de dentro da casa, montou no cavalo sem encilhas e saiu galopando as pressas em direção ao povoado. Thakurli satisfeita observava a amiga se distanciar.

Nimarie chegou logo na casa de Ferguros. Desceu rapidamente do cavalo e correu para a porta de entrada que não estava trancada. Entrou na casa e chamou por Ferguros. Não havia ninguém lá dentro... Ela havia chegado tarde demais. Vagarosamente, imersa em seus pensamentos, ela caminhou para fora. Talves seja melhor assim, pensou ela, mas nesse mesmo instante ouviu alguns passos atrás

_ O que devo a honra de sua visita minha amiga Nimarie?

_ Oh Ferguros... você ainda está aqui?! — Ela sorria, não conseguia esconder a sua alegria em ver o meio elfo.

_ Jamais iria para lugar algum sem antes me despedir de você... — Ele aproximava-se dela enquanto falava. Nimarie o surpreendeu com um abraço apertado, o qual ele correspondeu, beijando os seus cabelos. Ele queria falar que a muito tempo ele esperava aquele abraço, e que ele a amava, mas conteve-se pois tinha medo de assustá-la com sua sinceridade aguçada. Calado esperou então que ela se pronunciasse.

_ Eu achei que já tinha ido embora e que não mais veria você... então... então eu vim para dizer que quero sinceramente que fique... ou que vá.... mas se for quero que saiba que... que saiba... — Ela não sabia o que falar, não podia dizer que o amava pois talvez isso não fosse verdade, mas, na verdade, ela estava totalmente confusa. Gostava da companhia de Ferguros, sentia ciúme dele, seu coração palpitava mais forte sempre que ele se aproximava, seu corpo se arrepiava quando ele a tocava... mas não podia ser amor, ela não amaria ninguém mais além de Legolas, ou será que estava enganada? Ergueu os olhos e viu que o moço esperava ansioso pelo término da frase, num impulso impensado, quase que brusco, ela ergueu-se na ponta dos pés e o beijou ardentemente.

Ferguros, por sua vez, quase nem acreditava que aquilo estava acontecendo. Após o beijo, abraçou Nimarie com força e disse:

_ Eu te amo Nimarie! Te amei desde a primeira vez que te vi, por vezes desejei que tivesse disparado aquela flecha sem que antes eu tivesse visto os teus olhos, pois naquele dia, se não me mataste com a lança, me mataste com seu sorriso... deste de então só vivo para ti... — Isso tudo foi dito em um tom de ardente de confissão, enquanto ele a abraçava com ardor.

_ Se ficares quero que saiba que está cometendo um erro...

_ Então é um erro que quero cometer todos os dias Nimarie!

Os dias se seguiram felizes. Ferguros ficaria por mais um tempo, até que resolvesse as coisas com Nimarie. Quando digo resolver as coisas, me refiro ao fato de os dois estarem, digamos, namorando (respeitosamente é claro). Então, Ferguros fazia planos para o futuro, e passava a maior parte do dia na casa de Nimarie, auxiliando na plantação ou no cuidado com os animais. Enquanto ela tinha mais tempo para cuidar da educação dos filhos.

Certo dia Nimarie acordou estranha. Havia tido um sonho, a quanto tempo não sonhava... mas não havia sido exatamente um sonho, mas não era possível a não ser que Saruman...

_ Thakurli! – Chamou alto, acordando a amiga e as crianças que assustadas lhe olhavam interrogadoras. _Thakurli, Thakurli fale amiga, fale... — Dizia ela muito empolgada ao pé da cama da moça, que não entendia o que Nimarie estava querendo.

A morena abriu a boca, mas nenhum som saiu.

_ Vamos Thak tente novamente... tente! — Dizia Nimarie, até que Thakurli conseguiu emitir um som, que mais parecia um grunhido. As duas comemoraram abraçando-se. Já fazia tanto tempo que permanecia muda devido o feitiço de Saruman que ela desaprendera a falar. Nimarie a incentivava emocionada: _ Vamos Thak! Não pare... — A amiga novamente reproduzia sons, testando a sua nova capacidade. Já era final da manhã quando Thak recobrou a fala por completo. Então, ainda com uma certa lentidão falou:

_ Como... como você sabia Nimarie. Como sabia que eu falaria?

_ Eu tive um sonho, e você estava falando e tinha uma voz linda... e havia mais; a sua família veio lhe buscar, pois todos estavam livres... — A narração emocionou Thakurli que chorou copiosamente diante da possibilidade de ver a sua família livre novamente. Nimarie também se emocionou com a lembrança do sonho. Caminhando até a janela falou pensativa: _ A guerra acabou Thak... Sauron foi derrotado, o um anel foi destruído... Saruman padeceu em sua traição. As famílias e os povos confraternizam pois o rei de Gondor voltou. — Ela voltou-se novamente para Thak que a olhava com atenção, completando: _ Hoje inicia-se a era do sol...

A partir daquele dia Nimarie tornou-se distante e pensativa. Ficava por horas olhando a estrada do leste como se esperasse incansavelmente por alguém que nunca vinha. Ferguros notou a sua mudança, assim como todos da casa.

Nimarie pensativa

_ Sentir-me-ia honrado em fazer parte de seus pensamentos. — Disse para Nimarie que distraída olhava o horizonte sentada na relva verde de um entardecer ensolarado.

_ Oh Ferguros! já fazes parte do meu coração – Disse ela simpática, olhando o homem que estava em pé do seu lado. Ele sentou-se e assim como ela olhou o horizonte.

_ Já faz algum tempo que não estou no mesmo lugar que você... Sabe Nimarie, eu sempre fui livre, a liberdade já me levou a lugares imagináveis. Nunca me dobrei a paixão alguma, nunca me deixei abalar por sentimentos de vingança ou comprei brigas que não eram minhas. As guerras não me interessam pois já levaram muito de mim, e não levará a minha vida também... — Nimarie ouvia o que ele dizia com atenção, mas não tinha forças para olhar em seus olhos, pois sabia aonde ele queria chegar. Ele continuou emocionado: _ Eu era um pássaro livre mas resolvi pousar ao teu lado, mesmo podendo voar, podendo até encontrar outros ninhos, outros caminhos mas eu escolhi ficar... — Nimarie o olhou com os olhos embargados, colocou as mãos em seu rosto e falou já prevendo o que ele diria:

_ Oh não Ferguros, não...

_ Sim, Nimarie, chegou o momento de partir. – Ele levantou-se sendo imitado pela moça — Sinto que chegou a hora... você me avisou que seria um erro ficar, e eu fiquei mesmo assim, por que sabia que não seria um erro seguir meu coração...

_ Então fique Ferguros... – Falou ela, aproximando-se e dando inúmeros beijos em seu rosto. _Eu gosto de você... você é tão bom, qualquer mulher desejaria ser amada por alguém como você. Sua companhia me faz bem, eu desejo a sua presença todos os dias, as crianças te adoram, e eu te...

_ Nimarie... — Ele falou enérgico segurando firme em seus braços. _ Há dois dias, dois elfos de Mirkwood procuravam por você, eu os vi na estalagem do Senhor Nelfins, eles perguntaram por uma meia elfa, deram a suas características, ao que Nelfins confirmou dado o seu nome. Eles pagaram felizes pela informação e foram embora, dizendo que Legolas ficaria feliz com a notícia... — Nimarie estava boquiaberta com a revelação, jamais poderia imaginar tal situação, Legolas então não havia desistido dela... sentia que seu coração havia parado de bater por alguns momentos, e suas pernas amoleceram, com lágrimas nos olhos ela balbuciou:

_ Oh Ferguros...

_ Passei essas duas noites em claro, pensando em uma solução para que ele não viesse e arrancasse você de mim. Por dois dias Nimarie, eu me torturei com esses pensamentos, pois sabia que nunca fui páreo para Legolas... — Ferguros tinha os olhos marejados, e transparecia nervosismo e emoção na sua voz. Depois de alguns segundos de silencio, em um tom mais calmo disse: _ Não quero ter que convencer você a ficar comigo... — Ele disse isso e saiu deixando-a sozinha em um misto de tristeza e alegria, um turbilhão de sentimentos impossíveis de explicar.