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Uma vez, enquanto tomava café na praça com meu irmão, notei que uma criatura se esgueirava pelas cadeiras. Era algo deplorável, doído de se ver. O corpo curvado, os olhos fundos, como se cavassem o chão. Um homem — ou o que restava de um — tão sujo, tão machucado, que mal parecia habitar o mesmo mundo que nós.


Meu irmão, tão inocente pela pouca idade, olhou aquilo com espanto. Piscou devagar e perguntou, num sussurro que parecia medo:


- Por que ele tá comendo do chão?


Demorei a responder.


Havia algo sagrado e ao mesmo tempo profano naquela imagem. O homem catava as migalhas com dedos trêmulos, e as levava à boca como se fossem relíquias. Ninguém parecia notá-lo. Ou talvez fingissem.


- Porque ninguém deu nada pra ele antes disso — murmurei.


Meu irmão não entendeu. Nem eu.



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A rua estava silenciosa, embalada por ruídos distantes que retardavam as horas da noite — o eco de carros solitários em rodovias esquecidas, melodias de pagode vindas das ruas mais abaixo, pancadas dispersas de algo tomando forma sob o cobertor escuro da madrugada. Quando ela enfim chegou, a madrugada pousou sobre as ruelas de casas tão pobres em vida quanto em voz. A rua de terra batida descia feito um morro esburacado e irregular, um trajeto difícil tanto para os que rondavam a favela a pé quanto para os que vinham em seus carros fumacentos. A quietude era quebrada apenas pelo canto persistente dos grilos, clamando entre os matagais de terrenos abandonados.


Nos quarteirões vizinhos, onde as casas se espremiam como moradas de muitas famílias, a escuridão de brisa fria era enfrentada por mulheres da vida, meretrizes da dança do sexo, posando com pouca roupa à espera de clientes. Ali também estavam os que cultivavam ervas, fazendo da droga seu sustento, e os sem nome — mendigos — que dormiam sobre colchões de papelão molhado.


Foi ali, em um barraco pequeno como tantos outros, que a moto parou. Dela desceu um homem, escondendo sob a blusa aquilo capaz de tirar uma vida — o instrumento usado pelo Diabo por meio de seus portadores. Pulou o portãozinho de madeira e entrou no quintal. Garrafas de cerveja se espalhavam pelo chão; bitucas de cigarro ainda brilhavam em meio às sombras. Brinquedos antigos, já passados por inúmeras mãos infantis, jaziam esquecidos. Era uma casa humilde, de família — um pai refém dos vícios, uma mãe que o acompanhava no mesmo caminho. Filhos que pagavam pelos pecados que não cometeram — uma casa de família, com quatro vidas tão sofridas quanto silenciosas.


O homem se aproximou da porta, chutou a soleira e a arrombou. Um grito rasgado, o choro agudo de uma criança. A voz de um homem, desesperada, suplicando misericórdia. Mas não foi misericórdia o que recebeu naquela noite — não, não foi. Três disparos, secos, altos, interromperam o canto dos grilos e calaram até o eco do pagode distante. Um som comum, vez ou outra, no alto do morro — mas ali, naquela hora, foi um choque inesperado.


A moto arrancou veloz, desaparecendo ladeira abaixo, enquanto atrás dela ficavam os gritos dos vizinhos e o lamento dos que ainda resistiam à dor de viver.