Nomes que o vento leva.
2 Nomes que o vento leva.
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●●●01
O fogo tremeluzia na palma da mão. O isqueiro cuspia fagulhas fracas, prontas para sumir. O vento seco cortava, e o sol de verão queimava sem piedade. Suas roupas grudavam no corpo, o suor escorria pela testa. Sentado no meio-fio, ele encarava as chamas que minguavam devagar.
O isqueiro vermelho escorregava entre os dedos sujos, as unhas encardidas segurando o pouco que lhe restava de calor. Os olhos, fundos e vermelhos de cansaço, não se afastavam da chama. Não havia cigarro — só o desejo de um. O desejo da fumaça no peito, um vício que não podia alimentar. Mas já estava acostumado. A vida nunca deu nada de graça. Não para um garoto como ele.
Alberto, filho de ninguém, nunca conheceu sorte. Mesmo quando os pais ainda estavam vivos, os becos da favela pareciam conspirar contra ele. Dormia no relento, à chuva ou ao frio. Em casa, quando havia casa, as panelas vazias ecoavam a fome. Agora, não era diferente. O pior castigo era esse: a fome.
Na verdade, Beto mal se lembrava do lar antigo. Nem dos pais. Restavam fragmentos — imagens turvas, sensações que às vezes pareciam sonhos. Jogos de futebol na velha TV, brincadeiras no quintal, gestos de carinho. Coisas que pais fazem, quando a vida permite. Mas também havia as outras lembranças. As noites em que não havia o que comer. As contas empilhadas sobre a mesa.
Seus heróis haviam se rendido aos vícios — drogas, bebida — buscando anestesiar a dor. E com eles vinham as brigas, os gritos, o choro abafado pelas
paredes finas.
Tinha apenas nove anos quando tudo mudou. Voltava da campanha comunitária — onde serviam sopa aos necessitados — subindo a rua em silêncio, assobiando, chutando uma pedra. O peito nu, exposto ao frio da madrugada.
No alto do morro, viu as luzes das viaturas. Vizinhos cochichavam em volta do barraco. E então soube. O coração disparou. As pernas falharam. Só quando viu os sacos pretos entendeu. As dívidas, os vícios, as ameaças — tudo cobrava seu preço.
Correu. Quarteirões, vielas, avenidas. Rompeu o ar como se pudesse fugir do mundo. Olhava o céu, em pranto mudo, com a garganta apertada. As memórias se embaralhavam, procurando abrigo onde não havia mais nada. Estava só. Pela primeira vez, completamente só.
Ali, entre a noite e as estrelas.
Anos se passaram. E aquele dia seguia vivo na memória — o medo, a culpa, tudo esculpido com precisão. Desde então, não voltou à escola, onde aprendeu mais com a merenda do que com os livros. Nunca mais encontrou os amigos de futebol, nem voltou ao casebre. Nunca mais sentiu os pais por perto.
Já não era aquele menino. Era outro. Aprendeu os caminhos da rua, as regras não escritas da sobrevivência. Conheceu o corpo de uma mulher, sentiu na pele o gosto do roubo, da rejeição. Foi espancado por outros meninos, pela polícia, pela vida.
A tragédia virou notícia por um dia. Depois, sumiu com a chuva. Ninguém procurou por muito tempo. Justiça era um luxo para gente como ele. E assim, deixado à própria sorte, pequeno demais para o mundo, Beto foi tomado pelas ruas. Aos poucos, virou sombra. Um fantasma.
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●●●02
A chama do isqueiro se apagou — e não voltou. Beto se levantou da calçada, espreguiçando-se entre bocejos arrastados. Dormir era o melhor remédio contra a fome, mas o sono o havia abandonado. O ar pesado fazia as ruas ferverem, o mormaço derretendo o asfalto. Nuvens escuras cruzavam o céu, mas sem promessa de chuva. Só mais um dia seco no inferno.
Diante da estrada, buscou suas fantasias — aquelas que às vezes dançavam com o vento, surgindo sempre que tragava um cigarro e deixava a mente flutuar. Era seu único escape. Mas agora... nada.
Nenhuma visão, nenhum delírio. O mundo estava cru, sem filtro. Sem sonho. Só a velha ignorância para com os esquecidos, em qualquer época.
Caminhava com passos rasteiros. Envolto nos trapos de sempre — camisa de um time qualquer , gasta pelo tempo, a bermuda, desbotada. As mãos, cobertas de calos e cicatrizes. Sob o olho esquerdo, uma marca de tersol. Na pele queimada de sol, outras manchas e arranhões. O cabelo, castanho e oleoso, grudava na testa suada.
Os olhos escuros varriam o horizonte. Ao longe, prédios rasgavam o céu. Do outro lado, montanhas de casebres se empilhavam morro acima. Estampidos, gritos e motores ecoavam no ar — a trilha sonora. Lar, doce lar.
- Merda — murmurou. Era dor que sentia. No corpo, nas costas, nas juntas. Na mente, martelando sem parar. E no estômago. A fome doía mais.
Nos pontos de esmola, os rostos eram conhecidos. Velhos sem força pra trabalhar, pessoas consumidas pelas drogas, crianças sem pai nem mãe. Algumas da sua idade. Outras, assustadoramente menores. Gente esquecida.
Um vislumbre da avenida, e então viu os meninos no semáforo — descalços, sem camisa, trabalhando com o peso da rua nos ombros frágeis. A infância se esvaía em cada bala vendida, em cada olhar cansado que carregava um mundo inteiro. Levavam olhares pesados sobre as costas. Humilhação estampada. Alguns tão novos, tropeçaram entre seus nove anos de idade e as pedras do asfalto.
Foi até a padaria da esquina, de fachada gasta, pintura descascando. O aroma de pão quente perfumava o ar, fazendo seu estômago roncar. Subiu os três degraus, mãos apertadas sobre a barriga.
Lá dentro, as mesas estavam cheias — gente comendo, conversando, vivendo. Alguns o olhavam com pena. Outros, com nojo.
Beto foi até o balcão. Sentiu olhares que pesavam em suas costas, mas ele engoliu a vergonha.
- Tem pão? — perguntou ao caixa.
- Tem dinheiro? — retrucou o homem, coçando o nariz.
Afundou a mão no bolso, procurando um tostão enterrado — nada havia, senão sua recordação mais valiosa, dobrada e amassada, ali, bem guardada.
- Não... mas não precisa ser muito. Algum amanhecido, ou queimado... qualquer coisa — suplicou.
- Aqui não tem nada pra você — rosnou o padeiro.
Beto já recuava, com ombros encolhidos e cabeça baixa. Olhou para a entrada, uma pequena figura — uma face nunca esquecida — Algo quebrado, que já não estava mais lá. Dedé.
A voz dela soou suave, como um rompante que o deteve:
- Espere.
Se levantou da mesa. Era bonita. Alta, corpo esguio, caracóis nos cabelos, olhos gentis. Caminhou até eles, o vestido florido balançando com leveza.
- Eu pago pra ele — disse, pousando a mão sobre Beto.
O toque dela foi algo esquecido, mas também mágico. Havia muito que ninguém o tocava assim — com carinho. Por um instante, ele não era um estorvo. Não para ela. Não ali.
- Hoje paga comida, amanhã ele te rouba — murmurou o padeiro.
Ela o encarou. A doçura deu lugar à firmeza.
- Triste que pense assim.
Beto ainda a olhava, surpreso. Ela se abaixou, sussurrando em seu ouvido:
- Ignore isso. Ignore eles.
Depois, passou os dedos pelos cabelos dele. Beto não respondeu. Mas sorriu — um sorriso pequeno, sincero.
- Escolha o que quiser. Eu pago.
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●●●03
Mais tarde, com o sol já baixo e o céu tingido de laranja entre nuvens cinzentas, Beto ainda pensava na moça. No jeito como o ajudara, na delicadeza dos gestos que renderam dois sanduíches de presunto, uma Coca e — com alguma hesitação e talvez culpa — um maço de cigarros. Sentia-se especial. Talvez fosse só pena, ele sabia. Mas, de barriga cheia, tragando devagar, estava grato.
Conhecia a verdade. Meninos como ele morriam todos os dias, e ninguém ligava. As notícias passavam como quem anuncia o tempo: mais um corpo, mais um tiro, mais uma vida levada pelas drogas, pela tuberculose, por outra faca faminta. Pela indiferença. Pela polícia, que devia protegê-los, mas atirava antes — e perguntava depois. Era tudo tão comum que já não causava espanto.
Mas aquela moça lhe deu algo raro: presença. Por um instante, ele existiu para alguém. Um sopro de vida.
- Ela foi boa — disse, pulando entre as rachaduras da calçada, como num jogo inventado. A companhia que Beto insistia em manter.
Tinha a leveza de quem ainda não sabia o peso do mundo, e Beto fazia de tudo para preservar isso — intacto, inocente, longe das verdades que o haviam atingido cedo demais. O irmãozinho era sua promessa, sua última esperança.
Era um menino. Pele corada, olhos amendoados que pareciam ver mais do que deviam. Os cabelos caiam em mechas rebeldes sobre a testa suja de brincar. Vestia uma camisa listrada desbotada e um short — encardido de liberdade.
As perninhas finas, marcadas de terra e vento, pareciam feitas pra correr, mesmo quando não havia pra onde.
- Ela era — respondeu Beto, soltando a fumaça em espirais lentas, como pensamentos que não viravam palavras.
- O sanduíche tava bom. Tô satisfeito — disse o menino, com um sorriso.
Beto o encarou por um instante longo, como se o mundo parasse: os carros ao longe, os gritos abafados da cidade, até o cigarro entre seus dedos. Tudo suspenso numa imagem real demais — apenas mentiras.
- Que bom, André — murmurou, quase como prece.
O menino voltou a pular pelas rachaduras, descalço, traçando rotas invisíveis num mundo que era só dele. Um mundo que Beto tentava manter de pé com as poucas migalhas que encontrava.
- Você acha que ela volta? — perguntou Dedé, de repente, parando o jogo.
Beto hesitou. Quis dizer que não. Que ninguém volta. Que tudo o que eles têm são encontros breves e silêncios longos. Mas não disse.
- Talvez. Se voltar, trago outro sanduíche pra você.
O menino sorriu, aquele sorriso que só quem ainda acredita consegue dar. E voltou a saltar, como se a resposta bastasse.
E, por um instante, mesmo entre lixo, fumaça e sirenes, Beto também quis acreditar.
- Vamos — disse, levantando-se e lançando a bituca no chão com um estalo seco. — Tá na hora de ir pra casa.
As palavras soaram ocas. "Casa" era só margem de rua, vão entre muros, uma esquina esquecida. Ainda assim, foram.
Dedé aos pulos, feliz, como se bastasse estar com Beto pra tudo fazer sentido. E seguiram. Desaparecendo entre sombras e postes queimados.
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●●●04
A cabana estava como haviam deixado, entre um beco estreito e úmido pelo orvalho da noite. Era o abrigo deles, um refúgio improvisado contra os males das ruas. Um lençol preso às paredes formava a cobertura, protegendo-os do frio e da garoa. O chão, forrado com pedaços de papelão, era o colchão improvisado.
Entraram, tirando as camisetas manchadas pelo dia. Os corpos buscando conforto. Deitaram-se no solo duro, fitando um ao outro. Brincavam de fazer caretas. Beto, com um sorriso torto, exalava o cheiro do cigarro, que impregnava o ar do abrigo. Tirou do bolso o papel, seu mais precioso bem. A memória de seu passado. O pedaço de jornal noticiando a tragédia.
Lá fora, a cidade pulsava. Conversas, discussões, buzinas e sirenes se misturavam. Latidos de cães e sons indefinidos preenchiam o caos urbano. O cheiro de esgoto entupido nas calçadas se misturava ao aroma do carrinho de cachorro-quente na praça. A fumaça flutuava no ar, criando uma atmosfera densa e abafada.
Relembrou a imagem da moça, um gesto tão raro de carinho que, por um momento, fez seu coração se aquecer. Mas logo a solidão do dia se impôs, trazendo à tona os devaneios que sua mente insistentemente criava.
Então, seus pensamentos se voltaram para aquela noite. Tentou lembrar-se dos pais, mas a memória deles se esvaiu, deixando um vazio apertado no peito. Mamãe, papai, agora eram apenas sombras de um passado que parecia cada vez mais distante, como espectros de algo que nunca mais voltaria.
- Quer contar? — perguntou Dedé como se ali estivesse. Chupava o dedo.
- O que? — perguntou Beto, com os braços servindo de travesseiro.
- A história — insistiu o menino — conte a história.
Beto suspirou. O cansaço pesava nos ossos, mas a voz ainda carregava força suficiente para embalar o irmão com palavras
- Tá bem — disse Beto, com a voz rouca, mas doce. — Era uma vez um menino. Ele era pequeno, mas dentro dele morava um gigante. Não desses que assustam, mas dos que protegem. Ele vivia num lugar difícil, onde a gente precisava ser esperto pra sobreviver... e ainda assim, era bom.
Beto fez uma pausa, olhando o teto de tecido tremular com o vento.
- Ele queria sair com o irmão. Queria ir ver o mundo, correr até a praça, ganhar e voltar rindo. Mas ele era novo, e às vezes o mundo pesa demais nos ombros de um menino.
- O que aconteceu com ele? — perguntou Dedé, coçando os olhos, afundando
no sono.
O silêncio os envolveu por um segundo. Depois, Beto continuou, mais baixo:
- Um dia, o irmão precisou sair. E ele ficou. Sozinho, com medo... mas mesmo assim, ele lutou. Lutou contra o mal que não o pertencia. Do jeitinho dele, com coragem de verdade. E venceu.
Ele virou o rosto, encontrando os olhos do irmão.
- E agora, esse herói... ele descansa. Não porque fugiu da luta, mas porque já fez o bastante.
Dedé não respondeu. Só sorriu, leve, com o dedo ainda na boca.
Beto fechou os olhos. Por um instante, acreditou que o mundo lá fora podia esperar. Voltou a abri-los, e o irmão dormia.
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●●●05
Quando se deu por acordado, o sol atravessava a manta sobre sua cabeça. A mente turva pelo sono, pelo cansaço. Agradeceu por conseguir abrir os olhos — cada noite era uma aposta, cada manhã, um milagre.
Dedé dormia ao seu lado, respirando devagar, os olhos fechados como quem sonha com algo bom. Beto estendeu a mão e ajeitou uma mecha de cabelo da testa do menino. O toque era leve, quase reverente, como se temesse acordar a única coisa boa que lhe restava no mundo.
Levantou-se, enfim, espreguiçando-se em bocejos. Juntou as mãos em concha e lavou o sono restante numa poça, bebendo de uma de suas garrafinhas descartáveis. As enxugou nas blusa antes de pegar o jornal guardado no bolso.
Mais uma vez olhou o segredo mantido nas palavras do qual ele não conseguia decifrar. Mas sabia do que falava. Os olhos lacrimejaram até o resmungo interrompê-lo. Dedé começava a despertar.
- Beto — Falou o irmãozinho, coçando os olhos.
- Bom dia — disse, como se alegre. — Dormiu bem?
O menino concordou com a cabeça — ainda não estava totalmente acordado.
- Vem, levanta. Bora arrumar algo de comer.
Dedé se levantou devagar, esfregando os pés no chão áspero. As roupas amassadas, moldavam-se ao corpo pequeno e ossudo. Beto vestiu a camiseta de linho vagabundo. O dia começava.
Cortaram pelas ruas estreitas, ainda meio vazias, onde o silêncio era quebrado só por algum latido distante ou o barulho de vassouras nas calçadas. O sol se erguia devagar, dourando os prédios velhos e descascados do centro, refletindo nos vidros das lojas que começavam a abrir.
Passaram pela padaria — o cheiro quente do pão era uma tortura silenciosa. Beto apertou o passo, puxando Dedé pela mão. Havia aprendido a não se demorar demais diante das vitrines. Olhar demais criava esperanças, e esperanças exigiam forças que ele já não tinha.
- Será que hoje tem algo no mercado? — perguntou Dedé, ainda meio sonolento.
- Vamos ver — respondeu Beto, tentando soar animado, mas sem acreditar muito.
No calçadão principal, os carros passavam devagar, e os vendedores ambulantes já montavam suas lonas e caixas. A cidade acordava em fatias: primeiro o barulho dos ônibus, depois o cheiro de café barato nas esquinas, o tilintar dos portões metálicos subindo e, por fim, a pressa das pessoas que não tinham tempo para os notar.
Beto já sabia onde procurar. Os becos atrás dos supermercados, os fundos de lanchonetes, as feiras com restos do dia anterior. Era preciso andar, vasculhar, pedir quando possível — e roubar quando necessário.
Mas antes de qualquer coisa, precisava manter Dedé distraído. Ele era só uma criança. Tinha o direito de sonhar mais cinco minutos.
- Olha lá o velho Tonho — apontou Beto com o queixo, ao vê-lo sentado na calçada com uma placa de papelão no colo. Tonho acenou com dois dedos e um olhar rápido.
Seguiam devagar, ziguezagueando entre os primeiros passantes e bancas improvisadas. Havia gente que já os conhecia — uns desviavam o olhar, outros ofereciam um "bom dia" frio, como quem cumprimenta a um cão de rua.
Chegaram enfim à lateral do mercado, onde o grande latão os esperava. Beto olhou em volta antes de levantar a tampa. Sabia que às vezes o segurança vinha espantar os garotos dali, e às vezes vinha só por crueldade.
Mas naquele instante, o silêncio era cúmplice.
Abriu o latão, e ali estava: dois pacotes de mortadela vencida, mas ainda selados; uma sacola com pães duros, mas inteiros. Um banquete, sim. Um raro milagre.
- Hoje é dia de sorte, André. Vai agradecendo — disse Beto com um meio sorriso.
- Obrigado, latão — murmurou o irmão, com reverência de quem fala com um deus generoso.
Sentaram-se ali mesmo, atrás da lixeira, escondidos dos olhos da rua. Beto rasgou o plástico com cuidado, dividindo tudo ao meio, como sempre fazia. Comeram em silêncio, mastigando com calma, como se o tempo precisasse respeitar aquele momento.
Ficaram um tempo ali, encostados na parede quente do mercado, vendo as pessoas passarem. Invisíveis, sim. Mas, por ora, com o estômago cheio. E isso bastava.
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●●●06
Mais tarde, já empanturrados de restos, caminharam até a praça em frente à igreja, caminho que levava a estação de metrô. O culto seguia alto, a voz do pastor atravessava as colunas dóricas como trovão manso.
Beto observou um rapaz simples pregando do lado de fora, gesticulando com fervor. Por um instante, imaginou-se ali, talvez ajudando, lavando o chão da casa de Deus, servindo o sagrado. Não que soubesse muito sobre os caminhos divinos — mas a ideia morreu depressa, engasgada no peso da própria imagem.
Já tinha trabalhado antes — varrendo ruas, limpando terrenos baldios, cuidando de garagens, entregando panfletos em tempos de eleição. Nada durava. O cheiro da rua colava na pele como maldição. Gente como ele não segurava emprego: sujo, rasgado, ignorado.
Era só mais um moído pelo mundo.
Ainda assim, havia outros jeitos de sobreviver. Bicos menos dignos, mais eficientes: roubar, mentir, enganar. Serviços que não eram seus por direito, mas que a necessidade tornava obrigação.
Continuaram o passo.
O som dos trilhos chiava como um bicho ferido, ecoando pelo túnel escuro. Beto segurava firme a mão de Dedé, que andava ao lado, os olhos arregalados, atentos a cada sombra. O chão do metrô era frio e úmido, coberto de manchas velhas, bitucas e lixo esquecido.
- Fica perto — disse.
- Tô aqui, tô colado — respondeu Dedé, apertando mais os dedos do irmão. Ele tentava não encarar ninguém nos olhos. Gente demais dava medo.
- Se acalme... Tudo bem — consolou Beto.
Uma velha o olhou com estranheza, silvando com olhos cerrados colados a suas costas. Outros nem sequer os enchegervam, eram como se nem ali estivessem.
Um músico tirava doce melodia das cordas de seu violão. Com um chapéu recheado de trocados, jogado ao seu pé.
- Quanto dinheiro — fez notar Dedé.
- Se tivéssemos talento — disse, liberando uma gargalhada.
Desceram mais e mais, andando devagar pelas escadas de concreto, cada passo ecoando nas paredes da estação. O metrô nem passava por ali com frequência. Era uma daquelas estações antigas, enterrada mais fundo, onde o vento parecia soprar de um tempo morto. A luz falhava nos cantos. Um segurança dormia encostado numa cabine de vidro fosco.
Beto caminhava atrás, os pés fazendo barulho no piso liso e gelado. O silêncio era pesado — diferente do caos da rua, era um silêncio que parecia observar.
Olhou em volta, desconfiado. Só um velho mexendo num saco de papel lá na outra ponta da estação.
- Temos de ir mesmo? — perguntou Dedé, a voz baixa, atravessada de má vontade.
- Só quero trocar uma ideia com nossos amigos — respondeu Beto, sem parar de andar.
- Não gosto deles... Me dão medo.
- Eles são como a gente. Só foram, deixados pra trás.
Dedé não respondeu. Ficou com os olhos nos trilhos escuros, imaginando um trem surgindo das profundezas, como uma cobra imensa cuspida pela terra.
Logo chegaram. As figuras estavam ali — espectros desbotados à margem da pressa. Vagabundos, sim, mas cada um carregando uma história, um fardo, um demônio preso no peito. Sentavam-se nos bancos de ferro, vestidos por trapos
encardidos, tirando prosa no fim da plataforma, onde a luz piscava e o ar cheirava a mofo.
- Como vai a rapaziada? — disse Beto, já abrindo um sorriso enquanto apertava a mão de um garoto magro que se levantou para cumprimentá-lo.
- Alberto zureta, meu mano! Chega aí, vamo tirar uma brisa — respondeu o outro, com um sorriso lascado, faltando dente, os olhos saltando da cara.
- Valeu, Zeca — disse Beto, rindo, mas de canto viu a expressão desconfortável de Dedé, parado, braços cruzados, o olhar inquieto.
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●●●07
Tossiam entre uma tragada e outra, afundados nos próprios devaneios. Beto os observava do banco, chapado, encarando a escuridão que engolia a linha do metrô. Ouviam as histórias contadas entre eles, um se orgulhando da noite anterior, aonde desvendera a flor de uma mulher.
Beto lembrou-se das próprias experiências traçando a dança do sexo. A primeira ereção não lhe soou tão esquecida. Depois disso, teve outros momentos, breves e sem muito brilho, entre as pernas femininas de uma ou outra. Descobria mais de si mesmo a cada toque, as mãos delineando o masturbo como quem esculpe no escuro algo que ainda não entende
Zeca, sentado aos seus pés, virava a garrafa de cachaça. O líquido queimava a garganta e escorria pelo canto da boca. Era o mais velho do grupo.
- E aí, Zureta — silvou Thiago, o Galã, apelido que zombava do rosto chupado e da cabeleira loira — vai passar na sopa hoje?
- Não sei — respondeu Beto, soltando a fumaça devagar — lá tá perigoso.
Zeca riu com desprezo e se levantou, trôpego.
- Porra, Betão, A gente é o perigo, — disse, antes de arremessar a garrafa nos trilhos. O vidro estourou como fogos de artifício. — Olha só esses rostinhos aqui — seu hálito fedendo a álcool. — Ô, Sábia, conta tua história de novo.
Sábia pigarreou. Miúdo, calado, de pele escura e cabeça raspada. Entre os cinco dali, era o único que sabia ler de verdade. Tinha família, mas era só mais gente na rua.
- Eu e meu irmão roubamos uns baseados dos moleques do calçadão. Conseguimos uma boa grana- seus risos soaram falsos.
Não contou que, dias depois, o irmão foi morto a tiros pelos mesmos caras.
Zeca encarou Beto com aquele sorriso torto que nunca deixava claro se era deboche ou verdade. Às vezes, Beto esquecia o quão escuro os amigos podiam ser — como se ele mesmo
fosse exceção.
- Sacou? — arrastou as palavras. — É isso que a gente é… o perigo solto por aí.
Fez uma pausa, os olhos perdidos no breu dos trilhos, como se revivesse algo que ninguém mais via.
- Teve uma época... fui pego e jogado no reformatório. Lá era osso. Apanhava dos homem, apanhava dos preso. Só comia quando deixavam. Só descansava quando desmaiava.
Passou a mão pela nuca, como se o corpo ainda lembrasse.
- Mas eu fugi. Eu e dois manos. Só que, pra sair, a gente teve que passar por cima. Algumas coisas... ficaram na minha conta.
Beto engoliu seco. Sentia o peso daquelas palavras como pedras no estômago.
- Parem de assustar o moleque com essas mesquinharias — rosnou a garota, firme.
Era a única menina do grupo. Talvez a mais marcada. Feições duras, envelhecidas antes do tempo. Olhos de raiva — e um medo enterrado fundo.
A pele de ébano contrastava com o cabelo curto, preso num coque apertado. Estava de pé, corpo fino, coberto por roupas curtas demais.
- Conta você agora, Rute — soltou Thiago, rindo, enquanto coçava os piolhos como se fossem parte do couro cabeludo.
Ela o encarou. Um olhar que falava mais que qualquer palavra. Um olhar cheio de cicatrizes.
Rute perdera a infância cedo. Aprendera sobre o próprio corpo cedo demais. Tinha mãe, tinha irmãos — muitos — mas dizia que era melhor a rua do que
a casa.
- Não conto nada pra vocês — murmurou, mascando um vazio amargo entre os dentes.
- Deixe a menina, Galã -disse Zeca, com respeito no olhar. — chega de viver do passado.
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●●●08
Surgiram da estação subterrânea, a luz do dia os envolveu como um bafo quente. A cidade pulsava — viva, impiedosa. Um turbilhão de sons, cheiros, buzinas, vozes cruzando em todas as direções. Beto apertou o passo, com Dedé pela mão, que tropeçava atrás, o olhar saltando de uma vitrine pra outra.
Passaram diante de uma banca com revistas em quadrinhos. Lá dentro, um homem assistia a um jogo numa TV de tubo. Dedé tentou acompanhar o jogo com os olhos, querendo parar ali mesmo, mas Beto o puxou pelo braço.
Dobrar a esquina foi como atravessar para outro mundo. Do outro lado, os dois pararam, sem querer, ao ver a cena.
Um casal caminhava devagar, conversando. Entre eles, o filho pulava contente, segurando as mãos dos dois. Usava um boné azul e sandálias com luzinhas que piscavam a cada passo. Ria alto, falando sem parar, enquanto os pais se olhavam, sorrindo, alegres.
Beto apertou mais forte a mão do irmão. Sentiu algo subir pela garganta. Levou a mão ao bolso — lá estava seu jornal. Lembranças, mentiras... sua história.
O boteco os recebeu com uma música baixa, mas insistente. Um samba antigo, daqueles que grudam na alma. A caixa de som vibrava levemente num canto. Conversas abafadas preenchiam o espaço, entrecortadas por gargalhadas e o tilintar de copos. Homens, com olhares opacos, espalhavam-se pelas mesas. Bebiam, jogavam, discutiam futebol e além..
Beto atravessou o salão com a segurança de quem já conhecia o chão. Sentia-se à vontade ali. Aqueles rostos lhe eram familiares. Companheiros de copo, de esquina, de correria.
Tio João estava no balcão, como sempre. Gordo, suado, avental manchado de gordura. Limpava um copo com um pano. Sorriu ao ver o menino.
- Alberto, Zureta! — gritou, por cima da música. — Chegaram na hora certa. Aqui tá animado hoje!
Beto forçou um sorriso. O cheiro de cachaça, fumo e suor impregnava o ar. Homens jogavam dados numa mesa do canto. Outros, ao redor de uma televisão empoeirada, torciam e xingavam, como se o jogo fosse a única coisa que importava. Dedé correu até eles. Beto deixou.
- Pode crer, Jão — disse, tentando parecer firme. — Só queria um pouco de água.
Tio João arqueou uma sobrancelha, surpreso, mas logo entendeu. Não fez piada. Apenas pegou uma garrafa d’água do estoque e colocou no balcão.
- Não tem bolacha nem nada, você sabe, né?
Beto encarou as garrafas na prateleira como se cada uma refletisse seu nome.
- Só tava pensando em alguma coisa pra comer... Mas a água já ajuda — respondeu, num tom baixo.
Tio João o olhou por um instante. Depois virou os olhos para os outros no bar. Alguns riam alto, outros só afundavam nos próprios copos. O dono do bar soltou um suspiro comprido. Então falou:
- Vai ter sopa na praça hoje à noite. O pessoal vai levar umas panelas pra quem tá precisando. Não é muita coisa, mas enche o estômago.
Beto engoliu em seco. Olhou pra Dedé, que vibrava com um gol que nem sabia de quem era. Sabia da campanha, claro. Mas não gostava de ir até aquela praça — não tão perto do morro onde... aconteceu.
- A sopa, hein? Na praça? Acho que... acho que é o que tem pra hoje.
Tio João riu baixinho, abafado pela música. Passou a mão pelo rosto, como quem carregava peso demais.
- Não vou dizer que é o melhor lugar, mas... é comida, né?
Beto olhou de novo pra Dedé, que voltava pra junto dele. Quando se virou, Tio João já estava atendendo outro cliente. O resto da turma seguia sua rotina de sempre. No fundo, aquilo tudo parecia muito longe da vida que ele queria.
- Vamos nessa, André? — perguntou.
Dedé assentiu, sorrindo. Saíram. A porta rangeu ao abrir, e a música ficou pra trás. O dia saia em despedida. E a esperança de um prato quente era tudo o que restava.
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●●●09
A noite já tinha caído quando Dedé resmungou sob a tenda improvisada no beco. Estavam no abrigo, escondidos sobre o teto de tecido. Um mundo só deles — só dele.
- Tô com fome.
Beto acendia e apagava o isqueiro, como quem marcava o tempo com fogo. Olhou pro céu encoberto.
- Estão servindo sopa na praça hoje — disse, enfim.
Dedé assentiu, animado. Mas Beto ficou ali, parado. Aquela praça... era um buraco. Sempre que o cheiro da sopa vinha com o vento, os fantasmas vinham junto. Além disso, ficava perto demais do lugar. Aquele lugar...
Mesmo assim, se levantou.
- Come e sai, beleza? — falou mais pra si mesmo do que para o irmão.
Caminharam em silêncio pelas ruas escuras. A cidade parecia mais fria, e cada passo em direção à praça pesava.
Dobrar a última esquina foi como abrir uma ferida. As luzes do caminhão iluminavam a praça: mesas simples, panelas fumegantes, vozes chamando para a fila. Ao fundo, o morro. E lá em cima, a rua de antes. A casa de antes. Tudo ainda ali. Beto parou na calçada.
- Vai lá pegar. Eu fico aqui.
Dedé hesitou, mas foi. Correu pra fila com os olhos brilhando. Beto cruzou os braços. Olhava para as árvores, tentando não lembrar. Mas lembrar era inevitável. A casa ainda estava ali, na rua que subia pelo morro, aonde a favela ganhava forma.
A casa aonde um dia viveu, abandonada entre os outros barracos.
Apertou o pedaço de jornal no bolso, tentando conter os pensamentos, as dores, as mágoas.
Viu, ao longe, rostos conhecidos, e foi até eles.
Ana abriu a tampa de isopor com cuidado, deixando escapar o vapor quente que subia devagar. Serviu a sopa para Pedrinho — um garotinho remelento, que mal parecia mais velho que Dedé. Beto se aproximou em silêncio, pousou a mão no ombro de Ana e bagunçou com carinho os cabelos do menino.
- Beto! — exclamou Pedrinho, com um largo sorriso.
- E aí, como vocês tão?
- Tamo indo — respondeu o menino, entre colheradas apressadas.
- Tenho evitado essa praça — disse Ana, sem tirar os olhos da sopa. Seus cabelos dourados refletiam a luz amarela dos postes. Os olhos, sempre atentos. — Tá perigoso demais.
- Eu sei... — refletiu Beto.
Limpou uma mancha de sopa na bochecha de Pedrinho, em silêncio.
- O pessoal da ronda tá nervoso. E tem uns caras novos... uns que não enxergam criança como criança.
Ana assentiu, soprando mais uma colherada.
- Tô ficando perto do viaduto, ali no galpão velho. Dá pra se esconder.
Beto olhou ao redor e se agachou ao lado deles.
- Se precisar de alguma coisa, fala comigo. Vou tentar uns cobertores até o fim da semana. Talvez consiga comida também. A igreja da Santa Inês voltou a distribuir... se chegar cedo — os olhos caíram para os pézinhos descalços do menino, balançando no banco — quem sabe uns sapatos pro Pedrinho.
Ana sorriu. Seus olhos cinzentos sempre atrevidos.
- Você aparece quando a gente mais precisa.
Beto retribuiu. Via nela o mesmo olhar que escondia medo atrás de cuidado. Como ele com Dedé — tudo sempre dedicado a ele, tudo feito, pelo seu irmão.
Despediram-se com um aceno. Ele voltou pra calçada. Foi quando os viu. Eram silhuetas espreitando a noite. Zeca, Galã e Sábia. Ali, parados, tomando sopa. Malandragem escorrendo pela pele. Rostos da rua.
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●●●10
Já era tarde da noite. Sentado de frente para o abrigo, Beto remoía a proposta. Zeca havia sido direto: o trabalho era arriscado, mas podia render algum dinheiro — o suficiente para garantir a sobrevivência.
Um roubo, naquela mesma noite. Galã e Sábia estariam juntos. O alvo: um depósito simples, com pouca vigilância. Era entrar, pegar e sair. Mesmo sem confiar totalmente em Zeca, a ideia o tentava. Não pensava só em si — Dedé também pesava na balança. Pensava nele o tempo todo.
- Você não vai fazer isso, né? — disse o irmão, encostado na parede, de braços cruzados, observando Beto nos degraus da calçada.
Ele não respondeu. Olhava o vazio, os dedos pressionando o pedaço de jornal amassado no bolso — uma âncora de lembranças que doíam.
- Sabe o que eles pensariam disso? — insistiu Dedé, sentando ao lado dele.
Beto o fitou, perdido no próprio tormento.
- Eles nunca foram um bom exemplo — respondeu, frio, seco.
Dedé o abraçou, como se buscasse consolo, mas era Beto quem se refugiava, escondido nos braços do irmão.
- Hoje, quando a gente passou... vi um menino — continuou Dedé, com a cabeça encostada no ombro dele. — Tinha a minha idade.
Beto permaneceu em silêncio.
- Ele parecia feliz. Tinha um pai e uma mãe. E eles o amavam. Deve ser bom... ser amado assim. Ter alguém que se importe.
Beto respirou fundo e desviou o olhar. Também se lembrava dessa cena. O peito apertava com culpa — culpa por Dedé, por tudo aquilo que não podia prometer.
- Eu me importo com você — cochichou.
Dedé não respondeu, apenas se aconchegou mais. Ficaram ali, juntos, por um tempo que ninguém soube medir.
- Eles nunca foram bons pra gente, né? — a pergunta veio como um tiro abafado. — Nunca estiveram lá. De verdade.
Beto baixou o olhar. O silêncio tomou o beco. A brisa gelada soprava ao redor deles.
- Eles tinham problemas, mano... — disse ele, quase sem voz. — Muita gente tem.
- Esses "problemas" destruíram tudo — retrucou Dedé, com uma amargura que não combinava com seus poucos anos. — Destruíram nossas vidas. A minha... e a sua também.
Beto engoliu em seco. Quis dizer que não era bem assim, que eles haviam tentado — mas qualquer palavra soaria falsa. E Dedé sabia disso.
- Mas a gente ainda tá aqui — disse ele, baixo. — Eu tô aqui por você. É isso que importa.
Dedé desviou o olhar, distante. Como se enxergasse um passado que nenhum dos dois podia consertar.
- Não, mano... você sabe.
Beto congelou. O sangue pareceu parar de circular. O estômago se revirou.
- Não diz isso — implorou. — Tô aqui.
Você tá...
- Beto. Você nunca conseguiu aceitar... Mas eu já não tô mais aqui. Faz muito tempo.
O mundo pareceu desabar por um instante. Mas Beto permaneceu imóvel — mentiras e mais mentiras. Dedé pousou a mão sobre a sua, parecia real.
- Já passou... acabou, e agora...
- Agora eu vou te proteger.
Dedé o encarou. Olhos inocentes. Olhos sábios. Olhos de criança. Olhos que já não estavam ali — olhos de mentira.
- Não faz isso. Não entra nessa.
- Eu preciso. Por você. Por nós.
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●●●11
O céu escuro estampava estrelas sobre os telhados da cidade, como pequenos olhos brilhantes assistindo em silêncio. As ruas, mal iluminadas, engoliam as sombras que se arrastavam pelos becos. Beto estava calado no ponto de encontro, encostado num muro úmido. Pensava naquela noite. Pensava neles. Pensava em tudo que não podia mais mudar.
Galã apareceu primeiro, acompanhado por Sábia. Tinham tirado as camisetas e amarrado nos rostos como máscaras improvisadas. Os peitos magros, nus, tremiam no frio da madrugada, mas eles fingiam não sentir. Eram os donos da noite — ou queriam ser.
- Achei que você não vinha — disse Galã, sua voz era abafada pelo tecido.
- Tô aqui, né? — respondeu Beto, seco.
Zeca surgiu logo depois, cambaleando como um fantasma bêbado. Os olhos vermelhos brilhavam, perdidos. Carregava sacos de lixo vazios, e a camisa também cobrindo o rosto. Beto imitou os outros e puxou a própria gola
até o nariz.
- Isso vai ser moleza... moleza... — cantarolou Zeca, assoviando um trecho dissonante. — Mas tem que ser rápido. Sábia ficou de olho no vigia. Só volta daqui a umas boas horas.
- Vamos bancar a noite — disse Thiago, o Galã, jogando o cabelo para trás, o corpo esguio se alongando como se fosse para um jogo.
Beto apenas assentiu, sem dizer palavra. No fundo do estômago, algo se contorcia. Um peso que não passava. Pensava em Dedé. A silhueta que vivia na beira de sua memória, como sombra no breu.
Avançaram por vielas esquecidas, cortando entre muros e quintais até a zona industrial. O mato crescia entre rachaduras no asfalto. O depósito diante deles era maior do que Beto imaginava. As paredes cinzentas se erguiam silenciosas sob a névoa que começava a cair, como uma coisa adormecida — esperando.
Sábia se ajoelhou diante da porta dos fundos e mexeu na fechadura com um pedaço de metal. Um estalo seco rompeu o silêncio. A maçaneta girou com esforço. A porta rangeu, enferrujada, e se abriu como a boca de algo velho e faminto. Um gato esquelético apareceu e miou, correndo entre a escuridão.
Vai na frente — sussurrou Sábia, os olhos atentos como faróis.
Beto respirou fundo e cruzou o umbral. O ar ali dentro era denso, como se o tempo tivesse parado e apodrecido. Poeira, mofo, silêncio. Fileiras de caixas empilhadas erguiam-se como corredores de um labirinto industrial. Frascos medicinais, comprimidos, caixas de remédios com etiquetas intactas. Tudo o que o mercado clandestino pagava
como ouro.
Um som metálico ecoou. Um cano batendo noutro, talvez. Ou... outra coisa.
- Rápido. Só o que couber — murmurou Zeca, já abrindo o saco e empurrando remédios lá pra dentro.
Sábia sumiu entre os corredores, rindo baixinho, como quem joga esconde-esconde com o perigo.
Beto hesitou. Os dedos tocaram uma caixa entreaberta. Dentro, pacotes pequenos, com números e tarjas que ele não entendia — mas sabia que valiam muito. Pegou dois, jogou na sacola. Depois outro. Mais um. E outro.
O som dos próprios passos abafados no chão. O roçar dos sacos se enchendo. Sorrisos entre dentes. Por minutos, pareceram invencíveis. Mas só Beto se mantinha calado, mergulhado num nevoeiro interno. Pensava em como tudo tinha desandado. Pensava
em Dedé.
E então, de algum lugar que não era fora nem dentro, uma voz surgiu. Baixa, fina, cheia de lamento — a voz do irmão.
- Beto... — sussurrou. — não faz isso...
A voz de Dedé. Clara como se estivesse ao lado. O mesmo tom de quando implorava pra ele não ir. Não entrar naquela noite.
- Não se preocupe! — gritou Beto de repente, apertando as têmporas com força.
Todos pararam. Olharam pra ele.
- Fala baixo — murmurou Zeca, voltando ao saqueio. Galã soltou uma risada curta, nervosa.
- Esse aí vive falando sozinho, né? Zureta...
Beto não respondeu. Só abaixou a cabeça e continuou, o suor frio descendo pela nuca.
Então veio o estalo.
- Porra! — Galã se levantou num pulo, os olhos arregalados.
- O quê? — perguntou Zeca, já com a sacola quase cheia.
A resposta não veio em palavras, mas no som que rasgou a noite como uma lâmina girando no escuro. Sirenes. Agudas, breves, furiosas.
- Alguém denunciou — soltou Galã ao ar.
O som se aproximava como uma manada. Beto sentiu o chão vibrar levemente. Cada batida do motor como um soco no estômago.
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●●●12
O barulho das sirenes crescia rápido, engolindo o silêncio abafado do galpão. Uma, duas, três. Motos rasgando a madrugada. Galã se levantou num pulo, o coração batendo no rosto.
- Fudeu — Arfou Zeca.
Galã saltou do chão, chutando um caixote no caminho.
- Vaza, porra! Vambora!
Sábia apareceu do fundo, pálido
como cera.
- Eles tão vindo pela frente!
- Tem outra saída? — gritou Beto, o peito batendo como tambor de guerra.
- Corre, caralho! — gritou Thiago em desespero.
Zeca largou o saco no chão e agarrou outro pela metade, os olhos arregalados.
- Saída dos fundos! — berrou Sábia, já correndo entre os corredores apertados.
entre caixas empilhadas.
Beto prendeu a respiração e disparou atrás deles. O peso da sacola o desequilibrava, mas ele não a soltava. O som das motos se aproximava, agora com vozes ao longe, gritos abafados pela estrutura de concreto.
Chegaram à porta dos fundos, por onde tinham entrado. Mas lá fora, a luz de uma lanterna os cortou em cheio.
- Aí, parou! — gritou uma voz grossa, de trás da luz.
Galã se jogou para o lado, derrubando um latão. Zeca tropeçou, xingando alto. Beto parou por um segundo. Só um segundo. Mas foi o bastante.
- Vai! — Sábia o empurrou, puxando-o pela gola da camisa. — Vai, porra!
Saíram por uma lateral estreita, espremidos entre o muro e um caminhão abandonado. O som de passos pesados atrás deles. Abandonaram as camisetas, deixadas para trás entre o desespero.
Beto corria como nunca. Os pés batiam no chão rachado, ecoando entre os galpões. Um ruído — algo raspou sua perna. Não olhou. Apenas correu. O saco apertado ao peito, como se fosse a última coisa que lhe restava no mundo.
Passaram por um portão aberto. Dali em diante era mato, terra, o breu do descampado. Os galpões ficaram para trás, junto das luzes, das sirenes, dos gritos. Sábia caiu, rolando na terra. Galã parou para puxá-lo. Zeca sumira, ninguém sabia por onde. Beto correu mais um pouco e parou, enfim, ofegante, dobrado sobre os joelhos.
Com o som dos próprios corações batendo nos ouvidos. Um turbilhão surdo, desesperado, abafando até o vento.
- Conseguimos? — arfou Galã, curvado, as mãos apoiadas nos joelhos.
Sábia não respondeu. Rasgou o saco com pressa, os dedos tremendo, o olhar voraz mergulhado no brilho das ampolas, comprimidos, frascos etiquetados com nomes difíceis. Dinheiro em forma de veneno. Poder fácil, rápido. Sorriu, aliviado, quase eufórico.
- Tá tudo aqui... — murmurou.
Mas não houve tempo para mais.
O som veio seco, rasgando o silêncio como uma lâmina: um disparo. Beto se ergueu num sobressalto, os olhos girando, o peito travado. Não entendeu de onde viera. Só viu Galã cambalear, um som estranho escapando da garganta, e cair pesadamente sobre
o gramado.
O sangue se espalhou sob ele como uma flor escura. A vida se esvaindo de Galã conforme o vermelho escorria no gramado, e então, estava morto.
- Merda, merda, merda! — gritou Sábia, largando o saco e se encolhendo no chão.
Beto não pensou. As pernas se moveram sozinhas, impulsionadas por puro instinto. Os sons da alvorada agora vinham carregados de caos — gritos, pneus rangendo, outra sirene, talvez mais vozes ao longe.
- Thiago! — Sábia ainda chamava, sem coragem de se aproximar, como se o nome pudesse puxá-lo de volta.
Mas Galã não se mexia.
Beto cruzou o portão dos fundos sem olhar para trás. O coração martelava em seu peito como se fosse explodir. Os becos pareceram mais estreitos, mais escuros. Cada sombra, uma ameaça. Cada respiração, um peso.
Quando finalmente parou, ofegante, mãos nos joelhos, sentiu a ânsia subir pela garganta.
- Parado — a voz autoritária, soando antes do outro disparo.
Olhou Sábia, agora caído, seu corpo aos pés do oficial. Não poderia mais correr, mesmo se quisesse, não conseguiria.
- Não- segredou Beto, para ninguém senão a ele mesmo.
Mais um tiro, alto, gritando pela escuridão. Uma dor forte no peito, algo o atravessando de maneira tão rápida, mas também tão ... devastadora que ele só sentiu o frio.
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●●●13
As pernas cederam. Beto caiu de lado, o rosto contra a terra fria. O peito buscava ar, mas já não havia mais. Tudo ao redor se apagava devagar — as sirenes, os gritos, o medo. Só restava um silêncio que crescia por dentro.
O saco ainda nos braços. Não por coragem, mas porque era o que restava. O policial se aproximou, avaliando seu estado, concluindo seu destino. Silvou, revistando os bolsos da bermuda do menino. Não achou nada a não ser o jornal. Amassado, úmido, um pedaço de papel. O jogou ao lado, levantando-se e voltando até os outros.
Beto sentia dor, uma confusão se formando em sua mente, mas também, paz. De alguma forma, estava em paz. O sangue escorreu sobre o peito, cada vez mais frio, conforme seu calor se esvaia. Em suspiros ofegantes, a vida dando seus últimos instantes.
Esticou a mão com as últimas forças restantes, tentando alcançar o pedaço de jornal, jogado como se nada fosse — mas era, para ele. Não conseguiu tocar as lembranças impressas no papel.
Pensou nos pais, um borrão apagado através da memória. Mas algo restou deles, o sentimento, a saudade... o amor.
A imagem do irmão era clara. Aquela noite, o pedido para ir junto. E a resposta dele: “Melhor ficar em casa.”
Dedé estava ali, sempre presente, mesmo que em pensamento. Sua figura tão pequena, tão inocente. A doçura de uma criança entre o caos. Aquilo que fez Beto preservar sua fé durante tanto tempo.
- Tudo bem, Beto. Agora tudo vai passar — A voz veio suave, como num sonho.
Beto sorriu, leve. Apanhando a mão do irmão, agora o toque, parecia mais real. Algo bom se formou, sabia que, não sofreria mais, não sentiria mais fome nem dor. Não teria o corpo machucado pelas ruas, a alma ferida pela tragédia.
- Irmão...
- Já acabou. Pode descansar. Tá tudo bem agora.
E então, se deixou ir. Sem medo. Sem dor. Em paz.
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