A noite cedeu lugar ao dia, inaugurando mais uma manhã comum. Trabalhadores deixavam suas casas apressados, comerciantes erguiam as portas de ferro de seus estabelecimentos, enquanto outros ainda despertavam, espreguiçando-se diante da luz tímida que entrava pelas janelas. Outro dia começava, outra oportunidade de ser melhor do que ontem. Um dia comum.


A folha de papel sobrevoava a cidade, carregada pelo vento, levada nas lufadas cinzentas que riscavam o céu de concreto. Depois de tanto tempo esquecida no bolso do menino, agora livre, dançava no ar como um pássaro recém-liberto da gaiola.


Voava leve, mas carregava peso. Sentimento, memória, história. Um fragmento de dor preservado no tempo. Um vestígio das faces que um dia sorriram naquela foto desbotada. Dois pais, dois filhos. Uma noite. Uma tragédia.


A manchete era dura como pedra: Casa é alvo de tiros no morro tal; polícia suspeita de dívida com o tráfico.


Na imagem, eles. Felizes. Vazios. Como se o sorriso já soubesse que não duraria.


Pai, mãe e o filho caçula: mortos.


Restou o papel. Um pedaço de mundo à deriva. Rostos apagados da memória coletiva, dissolvidos como vapor de fumaça, como tantos outros que vieram antes e depois.


Ninguém mais pergunta por eles. Ninguém mais lembra.


Zeca. Galã. Sábia. Rute. Ana. Pedrinho...

Beto. Dedé.


Nomes de sombras. Nomes de fantasmas. Nomes que o vento leva


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Sou um guerreiro e minha espada são as palavras. Sou um arqueiro, de arco em punho cerrado, miro na dura verdade. Sou um alguém, que trago a tona os esquecidos.


Palavras ditas. Flechas lançadas, aos corações de vocês eu as atiro.


Mensagem entregue, história

encerrada.


Mais um conto, enfim

finalizado.


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