Noiva Indomável
6 Jornada para Londres
Notas iniciais
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[RECAPITULANDO]
Darcy só esperava que quando o rei Henrique resolvesse seus assuntos com lady Elizabeth, não fosse ele o encarregado de levá-la de volta para os domínios do barão Bennet.
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― Não é preciso segurar-me com tanta força, sir. ― Lizzy estava furiosa. ― O dorso de seu cavalo é tão largo quanto uma barcaça. Não vejo por que a preocupação de que eu possa cair.
Nunca em sua vida ela se acomodara dessa maneira íntima entre as pernas de um homem. Era uma experiência perturbadora, porém estava tão dolorida depois da noite insone, passada no chalé, que acabara se recostando no peito de Darcy sem que percebesse. Sabia ser necessário ter cautela. Afinal, tratava-se de um homem e já tivera suficientes experiências desagradáveis com o barão Bennet e seus serviçais. Além de tudo, fora o próprio Darcy quem se aproveitara dela na noite anterior. Todavia, era reconfortante não haver sido reconhecida como a mulher do lago. A prudência a aconselhava a manter o disfarce durante a jornada para Londres.
Conhecia bem as vantagens de ser considerada uma criatura suja e pouco atraente em vez de uma dama bem vestida e cuidada. Seu padrasto, e os homens que o serviam, tinham se encarregado de lhe ensinara amarga lição anos atrás, numa tarde chuvosa. Por sorte, lady Edith aparecera inesperadamente, interrompendo-os. Saíra com a virtude intacta do incidente e muito mais sábia.
Odiava admitir não ser desagradável ter os braços fortes do cavaleiro ao seu redor agora, mesmo segurando-a tão apertado. Podia quase se permitir acreditar que ele sentia-se inclinado a protegê-la, algo que ninguém nunca fizera antes. Uma sensação estranha essa, imaginar-se amparada.
Enquanto cavalgavam, Lizzy perguntava-se o que o rei poderia desejar com ela, uma simples moça do campo, criada nos confins de Netherfeild. Impossível acreditar que Henrique V, até poucos meses atrás ocupado em lutar contra os franceses e então casar-se com uma princesa francesa, soubesse de sua existência e muito menos se dignasse a pensar a seu respeito.
Muito pouco Lizzy sabia sobre si mesma, a não ser que o verdadeiro pai morrera antes de seu nascimento. A mãe, Meghan, era filha de um nobre africano que viera para a Inglaterra a muitos anos atrás e se encantou por aquelas terras tão diferentes das suas. Um homem tão diferente que chamava a atenção aonde passava. E sendo filha de quem era, Meghan assim como o falecido pai, era de uma beleza exótica. Como sua mãe viera a casar-se com Thomas Bennet, não fazia a menor ideia. De qualquer forma, fora o que acabara acontecendo.
Ainda guardava vagas lembranças de lorde Bennet antes da morte da mãe. O barão não lhe parecera tão brutal e insensível antes. Na verdade, apenas depois de casar-se com lady Edith e ter as próprias filhas é que o padrasto começara a beber muito e a vida da enteada a deteriorar.
Por mais que tentasse, Lizzy não conseguia entender qual a razão do rei mandá-la buscar. Bridget, entretanto, parecia convencida de que o melhor era obedecer às ordens e colocar tanto William quanto Meryton para trás. A velha ama ansiava, desesperadamente, alterar os rumos da vida de sua protegida.
Há anos Lizzy não se olhava num espelho, porém sabia muito bem não possuir um rosto bonito quanto a mãe possuía. Edith e as filhas faziam questão de apontar-lhe cada um dos defeitos que possuía, que começam da cor da pele mais escura que a do restante dos habitantes locais, a covinha no queixo até a falta de brilho e cor dos cabelos negros com cachos rebeldes. Todos os Bennet eram altos, assim não se cansavam de ridicularizá-la pela baixa estatura. Os olhos também eram castanhos demais e a fim de ridicularizá-la, a comparavam com o carvão das lareiras. Graças àquela família, compreendera não haver nada de harmonioso em sua aparência. Não era de se estranhar que William ainda não houvesse voltado.
Mas ele voltaria, Lizzy se reassegurou em silêncio. Voltaria, sim.
Talvez por causa de sua falta de beleza, os servos pareciam apreciá-la e acatavam-lhe as ordens facilmente. Porque lady Edith não demonstrava o menor interesse pelas coisas de casa, Elizabeth acabara se acostumando a cuidar da administração doméstica. Aliada à boa memória, possuía grande intimidade com os números, o que lhe permitira assumir a contabilidade da mansão depois que o administrador do barão morrera, três anos atrás.
Somente então compreendera o valor de ser necessária. Conscientemente, passara a trabalhar para ser essencial ao padrasto. Acreditara que se Thomas Bennet precisasse dela, não iria matá-la num de seus acessos de fúria provocados pela bebida. Além das habilidades acadêmicas, Lizzy aprendera bastante sobre o uso de plantas e ervas medicinais com os monges que visitavam Meryton com certa regularidade.
De fato, mantinha um canteiro dessas ervas bem ao lado de suas amadas roseiras. Gostava também de acompanhar frei Theodore nas visitas que o velho monge fazia aos doentes da vila e observar os vários métodos de tratamento. Bridget, contudo, detestava seus passatempos.
Lizzy adorava montar à maneira masculina, usando calça comprida. Nada mais revigorante do que uma boa corrida pelas planícies, sentindo o vento no rosto e nos cabelos. Apreciava usar o estilingue, ou então arco e flecha, para testar sua perícia em comparação ao desempenho dos caçadores de lorde Thomas.
Para o completo horror da velha aia, Lizzy subia em árvores e debruçava-se sobre os galhos mais altos sem temor, como se tudo não passasse de uma grande brincadeira.
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Darcy concluiu que ela adormecera, sentindo o contorno das costas delicadas apoiadas em seu peito. Afinal, passara os últimos quilômetros da jornada segurando-a firme para impedi-la de escorregar da sela.
Quantos anos lady Bennet teria? Dezesseis, talvez?
Os malditos trapos que a cobriam tomavam impossível saber se possuía formas de menina, ou de mulher. Com certeza já tinha idade bastante para estar casada.
Por que, então, continuava solteira?
A relação da família do barão com a enteada obviamente era péssima. Entretanto Elizabeth permanecia morando em Meryton. O motivo de ainda não haver arrumado marido devia ser essa falta de qualidades femininas. Nunca antes vira uma dama vestir-se daquela maneira, com calça de lã e túnica larga.
Observando-a agora, não conseguia decidir se Elizabeth tivera culpa, provocando o padrasto até ser espancada, ou se o homem era perverso o bastante para obter prazer surrando a enteada. O mais provável era que o barão fosse o vilão da história. Nunca suportara bêbados capazes de bater em mulheres e crianças, assim sentia-se satisfeito ao arrancar a jovem das garras de Thomas Bennet.
Canalhas daquela espécie deveriam se meter com homens do próprio tamanho. Entretanto, lady Elizabeth não lhe parecia nenhuma santa. Independente demais para uma mulher. Como fora capaz de escapar-lhe duas vezes não fazia a menor idéia.
Revelara-se exigente também, insistindo em trazer a velha dama de companhia e dando ordens aos seus homens como até fosse ela quem estivesse no comando. Contudo, apesar da aparência desmazelada, não cheirava mal.
Na verdade, exalava um delicioso perfume de flores. Rosas talvez. Um aroma sutil e intensamente feminino.
Ainda dormindo, Elizabeth moveu-se de leve, pressionando os quadris de encontro às suas coxas. No mesmo instante Darcy voltou os pensamentos para a experiência da noite anterior, quando experimentara o gosto da boca da bela desconhecida.
Todavia, não se podia permitir distrações. Tinha uma missão a cumprir. Precisava se concentrar na questão envolvendo Pemberley. Já estava a serviço de Henrique há muito tempo agora e, com certeza, ganhara a confiança e o respeito do rei.
Restava-lhe apenas encontrar provas concretas da traição de George Wickham. Diante do irrefutável, Henrique seria obrigado a lhe restituir Pemberley e a limpar o nome de sua família. Todavia, apesar de suas preocupações mais urgentes, não podia negar quão fortemente a mulher do lago o afetara. Ela encarnava seus sonhos mais íntimos, sonhos que sempre se negara a admitir.
Por conhecer muito bem a dor de amar e perder, jurara nunca tornar a cair naquela armadilha outra vez. Perdera o pai e o irmão por causa de um golpe do destino, porém era a letargia da mãe o que mais o atormentara durante todo esse tempo em que se preparara para buscar a justiça.
Darcy sobrevivera ao ataque fatal, mas Margrethe Fitzwilliam Darcy não lhe dirigira a palavra uma única vez nesses últimos vinte anos. Nem mesmo dera a impressão de se dar conta de sua existência.
Não importava que ela houvesse se refugiado num mundo interior e que não falasse com ninguém. O que doía era saber que sua sobrevivência não dera à mãe qualquer esperança, qualquer partícula de felicidade. Sua vida não significara nada para ela.
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