Noiva Indomável
25 Uma Despedida Dolorosa
Notas iniciais
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A viagem para Londres foi deplorável. Lizzy insistiu em montar a égua que George lhe dera de presente, recusando-se a passar mais uma hora perto de Darcy, dividindo a mesma sela. Um dos soldados sempre cavalgava ao seu lado, porém nunca Darcy. Se ele, por acaso, se dignava a lhe dirigir a palavra, a voz soava sempre áspera, impaciente.
O homem era mesmo odioso e mal podia esperar o momento de chegar a Londres e se ver livre dele para sempre. Entretanto, sentia-se desolada ao alcançarem Westminster. Temia dizer adeus a Darcy e já sentia falta da presença marcante e insolente antes mesmo de terem se despedido.
Bastava pensar na possibilidade de não encontrá-lo nunca mais para lágrimas amargas virem-lhe aos olhos. Haviam passado por tantas coisas juntos. Tinha a impressão de que se conheciam há uma eternidade.
O que faria sem ele?
Ao chegar ao palácio real, à tristeza de Lizzy era tão profunda que não foi capaz de apreciar a beleza esplêndida do lugar, ou a importância de sua presença ter sido requisitada pelo próprio rei. Assim, dominada pela angústia, procurou se ocupar com detalhes prosaicos como apanhar a bagagem e mandar a égua para o estábulo. Queria pensar em qualquer coisa, menos em deixar Darcy.
Em certo momento o apanhou fitando-a e achou ter visto um brilho significativo iluminar os olhos cinzentos. Porém foi tudo tão rápido, que acreditou haver se enganado. Sabia muito bem que aos olhos de Darcy, apenas a tal de Annelise importava. Uma simples rapariga do campo representava apenas diversão.
Lady Maude Teasdale, uma prima distante do rei, recebeu o grupo de Darcy no pátio e enquanto o cavaleiro fazia um breve relato da viagem, lorde Maguire puxou Lizzy de lado.
— Acabou de me ocorrer que talvez você possa levar algum tempo até se adaptar à rotina do palácio. Se encontrar qualquer tipo de dificuldade, sinta-se à vontade para me chamar. Não sou destituído de influência na corte.
— Obrigada, meu lorde. — Lizzy ergueu-se na ponta dos pés e o beijou no rosto. As palavras delicadas do marquês suavizavam um pouco a dor da separação. — Irei chamá-lo, se necessário.
— E não se esqueça de mim, lady Elizabeth — William apressou-se a dizer. — Também estou ao seu serviço.
— E quanto a você, sir Fitzwilliam? — ela indagou hesitante, esperando ouvir uma resposta gentil, não querendo que ambos se separassem com amargor. — Você também estará por perto, caso eu precise de sua ajuda?
— Tenho a impressão de que você já tem cavaleiros suficientes ao seu dispor. — A voz fria soou baixa e tensa. — Com certeza não precisará de mim.
Lady Maude tomou Lizzy pelo braço e a levou embora, juntamente com dois guardas e o criado encarregado de cuidar da bagagem. Logo o pequeno grupo se embrenhava nas profundezas do palácio de Westminster. Lizzy ainda virou-se uma vez e notou Darcy parado sob a arcada, observando-a se afastar.
Pela expressão angustiada dos olhos cinzentos, talvez finalmente tivesse lhe ocorrido que era grande a possibilidade de os dois nunca mais tornar-se a se ver. Sufocando um gemido e a sensação de absoluta solidão, ela continuou a caminhar rumo ao seu destino, ansiando desesperadamente uma última chance de se aninhar entre aqueles braços fortes.
— Nós não sabíamos a data certa de sua chegada, lady Elizabeth — Maude comentou, conduzindo-a através de um emaranhado de galerias. — Mas seus aposentos já foram preparados e duas camareiras experientes estarão ao seu serviço até o retorno de Sua Majestade.
— Retorno? — Quer dizer que o rei não estava em Londres? Por que, então, ele a mandara chamar se nem sequer se encontrava na cidade?
— Sim. Infelizmente Sua Majestade não está no palácio, todavia deverá regressar dentro de quinze dias, quando a receberá em audiência.
Lizzy queria perguntar o que o rei desejava com ela, mas temia causar má impressão ao admitir não fazer idéia por que fora chamada. Talvez fosse mais sensato guardar suas dúvidas para si e tentar aguentar a estada em Londres.
Além de tudo, poderia usar o tempo livre para encontrar William. Afinal, não havia sido para vê-lo que se deixara levar a Londres?
Por fim, Maude a conduziu até um aposento enorme, ricamente decorado. Tamanho esplendor não a atraía muito, pois sempre admirara a simplicidade. Agradava-a, porém, as janelas altas que se debruçavam sobre o pátio, agora envolto pela luz do entardecer. Pena que seu quarto estivesse do lado oposto de onde havia deixado Darcy.
Não seria possível vê-lo partir.
— A saleta adjacente é também para seu uso, lady Elizabeth — Maude falou, abrindo a porta de conexão. — Sem dúvida as outras damas estarão ansiosas para conhecê-la e ouvir notícias sobre suas viagens. Você poderá recebê-las aqui, ou em outro lugar qualquer que desejar. Fomos instruídas para ajudá-la a fazer do palácio seu lar.
— Obrigada. Sinto-me muito grata. Mas quem...
— O que você gostaria primeiro? Um banho? Comer alguma coisa?
Enquanto falava, Maude fez sinal para que duas servas se aproximassem, Tracy e Jane. Ambas eram muito jovens e se mostravam entusiasmadas em conhecer a dama a quem deveriam servir dali em diante.
— Um banho seria ótimo — Lizzy afirmou, desejando ser deixada só.
Sentia-se péssima e nem mesmo a perspectiva de encontrar William a animava.
— A propósito, no palácio residem os conselheiros com suas famílias, além das damas de companhia da rainha Catherine. Por coincidência, algumas das esposas e filhas dos conselheiros também se chamam Elisabeth como você, embora a grafia seja diferente. Aliás, Elizabeth é um belo nome.
— Obrigada.
— Amanhã você deverá conhecer várias das damas. Todos a temos esperado ansiosamente.
— É mesmo? — O comentário a surpreendeu. Será que era de conhecimento geral o motivo pelo qual o rei a mandara chamar? Será que apenas ela não sabia de nada?
— Claro que sim. Sua Majestade nos mandou aguardá-la. Ah, aqui esta seu banho. — Criados entravam no quarto carregando baldes de água fervente e despejando-os na banheira que fora colocada junto à lareira. —Vou deixá-la aos cuidados de suas servas.
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De alguma forma, Lizzy conseguiu sobreviver aos oito dias mais solitários de sua vida. Antes de partir, o rei havia dado ordens expressas para que lady Elizabeth fosse muito bem cuidada e todas suas necessidades atendidas.
Imediatamente as costureiras se puseram a preparar um novo enxoval para Lizzy, depois dos comentários das damas sobre a simplicidade campestre de suas roupas. Com uma pontada de embaraço, ela pensou como deveria ter parecido ridícula e simplória diante dos olhos de Darcy, acostumado à elegância e ao estilo das mulheres da corte.
Seus vestidos largos já não estavam na moda. Por sorte as costureiras eram experientes e o enxoval ficaria pronto antes da chegada do rei. As damas de companhia da rainha frequentemente falavam em francês, língua que Lizzy nunca tivera necessidade de aprender. Nenhuma delas costumava se dar ao trabalho de traduzir a conversa, o que apenas aumentava seu tédio.
Assim, passava as manhãs caminhando pelos jardins, em geral só, desejando poder vislumbrar Darcy em algum lugar, mas sabendo que nunca mais o tornaria a ver.
Durante as tardes, juntamente com as outras damas, dedicava-se às ocupações femininas: bordar, costurar, tecer. Enquanto trabalhavam, as mulheres não paravam de falar, dando preferência às fofocas que reinavam na corte.
O nome de William Collins era bastante mencionado, entre risinhos e rubores. Lizzy não entendia bem o que se passava, todavia pôde concluir que ele estava na cidade. Com certeza já soubera de sua chegada, apenas não quisera ir visitá-la. Nem sequer lhe mandara um bilhete.
Por quê? E por que essas damas sempre riam e coravam ao mencionar o nome dele? Seria possível...? Não, de forma alguma.
Sir Fitzwilliam também costumava ser tema das conversas e muitas das mulheres pareciam ansiosas para obter informações sobre o cavaleiro através de Lizzy.
Lady Catherine Montfort se mostrava particularmente interessada.
— Oh, sir Fitzwilliam — lady Catherine suspirou. — Aquele sim é um homem de verdade. A maneira como se move... a beleza do corpo musculoso...
— Sir Fitzwilliam alimenta uma paixão na Alemanha, como você bem sabe — Jacqueline Meaux a interrompeu. — Ele nunca se envolveu com nenhuma dama da corte.
— Pois eu digo que ele não tem nenhuma mulher o esperando na Alemanha. — Catherine retrucou irritada. — Ele apenas...
— Au contraire — Claire fez questão de esclarecer.
— Mon père diz já ter conhecido a futura noiva de Fitzwilliam e ela é très belle.
— Então ele voltará para a Alemanha para se casar? — Lizzy perguntou a Jacqueline.
— Talvez a noiva venha para a Inglaterra. Ou ambos resolvam se encontrar em Paris. Ouvi dizer que sir Fitzwilliam aprecia muito Paris.
E assim os dias se passaram, a inquietação de Lizzy aumentando a cada momento. Não era preciso saber francês para imaginar o que très belle significava. A tal da Annamarie devia ser uma dama linda e sofisticada. Com certeza Darcy se ressentira de ter sido obrigado a viajar até Northumberland quando poderia ter usado esse tempo para ficar ao lado da noiva.
No nono dia de sua estada em Westminster, lorde Maguire veio visitá-la, trazendo a nora para conhecê-la.
Muitas vezes Darcy conversara com o marquês sobre sua preocupação a respeito de Lizzy, sozinha no palácio. Maguire prometera ir vê-la, embora não entendesse por que Darcy não cuidava disso pessoalmente. Mais um mistério a resolver, apesar de já ter suas suspeitas.
— Esse lugar pode ser um ninho de cobras, lady Elizabeth — o marquês a avisou. — Pensei que talvez gostasse de ver um amigo.
Lady Camille Maguire era um pouquinho mais velha do que Lizzy. Alta, morena, de olhos castanhos e amigáveis, em nada se parecia com as fúteis damas da corte.
— Estava ansiosa para conhecê-la, Elizabeth. Fitzwilliam nos contou sobre a longa jornada que enfrentaram.
— Você viu Fitzwilliam? — Oh, céus, angustiava-a pensar que ele pudesse estar tão perto, e tão longe.
— Sim. — Camille riu. — Nossa casa tem recebido muitos visitantes, amigos de meu sogro e de meu marido também.
— Logo você ficará livre de todos nós, minha querida — o marquês se dirigiu à nora, brincando. — Partiremos para Arundel em breve.
— Quando você partirá para Arundel? — Lizzy perguntou interessada.
— Amanhã.
— Fitzwilliam irá também?
— Sim. Sir Fitzwilliam nos acompanhará. Farei questão de lhe dar notícias suas.
Lizzy sentiu-se desolada. Embora não houvesse mais visto Darcy desde que chegara ao palácio, gostava de pensar que o tinha por perto. Mas agora, ele partiria para longe. Longe demais.
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