Noiva Indomável
21 Pequeno Contratempo
Notas iniciais

Recapitulando
Olhos cinzentos. Cabelos loiros escuro. Conde legítimo.
De repente as palavras da velha começaram a fazer mais sentido diante da história que acabara de ouvir.
Seria possível que Darcy fosse filho de Bartholomew Wickham? Mas ele não dissera que os filhos do antigo conde tinham morrido há vinte anos?
— Diga-me, Fitzwilliam, quais eram os nomes dos filhos de Bartholomew Wickham? — Elizabeth indagou, controlando a tensão da voz.
— Os mais velhos chamavam-se John e Martin. O mais novo, Fitzwilliam.
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Logo antes do anoitecer, Darcy decidiu parar em uma pequena clareira. Não se sentia particularmente preocupado com a possibilidade de serem atacados, pois bandidos sempre haviam sido escassos na região. Os homens acenderam uma fogueira e prepararam uma refeição rápida, à base de pão e carne. Lizzy se alimentou pouco e, enrolando-se num cobertor, sentou-se perto do fogo. Terminando de comer, alguns dos soldados também procuraram lugares confortáveis onde se acomodarem, enquanto outros permaneciam vigilantes em seus postos.
Lizzy não foi capaz de dormir. Evitando pensar em Bridget, a dor da perda ainda recente, considerou as implicações da história que ouvira, sobre o conde Bartholomew e o anel roubado. Apesar de seu contato com George haver sido breve, podia muito bem acreditar que o atual conde tivesse algo a ver com o desaparecimento do brasão. Pena que Caroline não fora mais específica em seus comentários.
Entretanto, agora não alimentava nenhuma dúvida de que Fitzwilliam Darcy fosse o legítimo conde de Pemberley, o único filho sobrevivente de Bartholomew Wickham e que, por algum motivo, necessitava manter segredo sobre sua identidade.
Talvez por que George continuasse representando uma ameaça?
Quantas outras propriedades ainda iriam visitar antes de alcançar Londres... e William? Tinha a impressão de que tanto tempo se passara desde que o vira pela última vez. Depois de apenas três anos de ausência, mal podia lembrar-se do rosto do noivo. Evidentemente recordava-se da cor dos cabelos e dos olhos claros, mas os detalhes das feições bonitas haviam se apagado em sua memória. A questão é que William jamais a excitara da maneira como Darcy fora capaz. Quase desejava que aquela viagem durasse para sempre.
De repente, tudo ficou muito quieto. Lizzy notou que Darcy, Charles e Hugh já não conversavam entre si e mantinham-se imóveis, o olhar fixo no fogo. Contudo, não pareciam relaxados. Aliás, nenhum dos soldados se mostrava à vontade. De fato, davam a impressão de estar apanhando as armas.
Um arrepio a percorreu de alto a baixo, uma sensação de perigo iminente inexplicável. Dali a instantes, homens desconhecidos começaram a se mover pelo acampamento, no meio da escuridão. Lizzy levantou-se rapidamente e correu para junto dos cavalos, os sons de luta explodindo no ar. Pelas suas contas, o número de bandidos excedia ao dos soldados do rei.
Obrigando-se a manter a calma, tentou lembrar-se onde havia guardado o estilingue e as pedras que costumava carregar consigo. Se seu padrasto estivesse ali, com certeza iria surrá-la por interferir no desenrolar dos acontecimentos, mas tinha esperança de que Darcy apreciaria seus esforços para ajudar a todos numa hora difícil.
Por fim, remexendo na bagagem, conseguiu encontrar a arma. Em geral o estilingue servia para caçar pequenos animais, porém, se sua mira fosse boa, talvez acertasse algo maior.
Depois de guardar as pedras no bolso, Lizzy montou na égua que George lhe dera de presente. Daquela posição elevada teria uma visão melhor dos assaltantes.
A batalha rugia. Os cavaleiros do rei lutavam com bravura contra os bandidos, mesmo sendo em maior número. Com destreza, conseguiu acertar muitos deles, sem que soubessem de onde vinha o ataque.
Tão concentrada estava ela em usar o estilingue com habilidade, que não percebeu um dos bandidos aproximar-se por trás. Com um arranco, foi puxada de cima da égua e arrastada para longe do local de combate.
— Tem uma faca pressionando sua garganta, milady. Se eu fosse você, não tentaria pedir socorro.
Quando por fim chegaram junto ao riacho, o bandido a jogou no chão e rasgou-lhe as roupas.
Desesperada, Lizzy gritou.
— Cale-se! — Enfurecido, o agressor a esbofeteou. — Ou vou cortá-la antes de tê-la.
Com todas as suas forças, Lizzy resistiu. Se aquele monstro pretendia matá-la, que diferença faria resistir, ou não? Certamente não pretendia morrer sem lutar.
Todavia ao sentir as roupas sendo arrancadas de seu corpo com selvageria, entrou em pânico, pondo-se a gritar e espernear.
De súbito, ouviu a voz de Darcy, chamando-a.
— Maldito seja! — O bandido murmurou entre dentes, segurando-a ainda mais violentamente, tornando a esbofeteá-la.
Quando o cavaleiro os alcançou, tudo estava terminado em questão de segundos. Logo o criminoso caía morto no chão e Darcy a carregava no colo, para longe do local onde fora atacada. E, pela segunda vez em menos de vinte e quatro horas, Lizzy descobriu-se chorando feito uma criança nos braços fortes do guerreiro.
Apenas um dos soldados do rei tinha ficado ferido e todos os assaltantes mortos, à exceção de dois, que conseguiram fugir ao compreender não haver chances de vitória contra os experientes guerreiros.
Incrivelmente a sorte virara em favor de Darcy por causa da interferência de Lizzy. Ele a vira manejar o estilingue com destreza, desnorteando o inimigo e ajudando-os a vencer a batalha.
Outra vez ela o surpreendera, agindo de forma totalmente inesperada. O estranho é que essas atitudes imprevistas não mais o irritavam.
Paciente, aguardou-a parar de chorar e, levado por um impulso, beijou-a de leve na testa, aspirando o perfume de rosas.
— Você acha que consegue andar de volta para o acampamento? — perguntou, apertando-a junto ao peito ao senti-la estremecer. A ideia de que poderia tê-la perdido o angustiava de um modo que não conseguia entender.
— Claro. — Devagar, Lizzy saiu do colo de Darcy, segurando a túnica rasgada com ambas ás mãos. Porém seus joelhos se vergaram imediatamente e teria caído se Darcy não a amparasse, tomando-a nos braços outra vez. Por um instante ele hesitou, então a beijou na boca, exultando diante da reação feminina, tão imediata quanto intensa.
Lizzy gemeu baixinho quando as línguas de ambos se encontraram, entregando-se ao momento de paixão com absoluto abandono.
Oh, como aquele homem podia afetá-la tanto? Como tinha coragem de deixar isso acontecer?
Com as costas apoiadas no tronco de uma árvore, Darcy puxou-a ainda mais para perto e massageou um dos mamilos enrijecidos, primeiro com aponta dos dedos, depois com a língua. Lizzy gritou de prazer, enterrando as mãos nos cabelos negros e macios enquanto o beijava no pescoço.
— Doce Lizzy... tão incrivelmente bela.
As palavras ditas em voz baixa e profunda a arrancaram da espécie de torpor em que cairá.
— Oh, não. William. Eu traí William — exclamou aflita, desvencilhando-se dos braços musculosos e escondendo o rosto nas mãos. Não podia encará-lo agora, não depois que ele a tocara de forma tão íntima.
— Você não traiu William. — Apesar da calma aparente, Darcy sentia-se profundamente abalado pela cena entre os dois. — Isso é natural... depois do que aconteceu hoje. No calor após a batalha, é fácil descontrolar-se.
— Sim, compreendo. — Porém Lizzy ainda acreditava ter traído William.
Pelo Senhor, bastara alguns beijos de Darcy para perder a cabeça e ansiar por muito mais. William, todavia, a aguardava em Londres, enquanto Darcy, filho de conde e neto de um príncipe alemão, tinha uma noiva Anna-qualquer-coisa, o esperando em algum lugar do país.
Sentindo-se humilhada, seguiu Fitzwilliam de volta ao acampamento agarrando a frente da túnica, sem coragem olhar em voltar, nem notara quando ele jogou um cobertor em seus ombros.
— Dê uma olhada, primo — Charles falou, mostrando uma bolsa de couro que fora encontrada perto do corpo de um dos bandidos.
— Havia um mercador vendendo esse tipo de bolsa na Feira de Pemberley — Lizzy comentou, enrolando-se num cobertor para esconder a túnica rasgada. — Robert Cross era o nome dele. Veja, aqui estão as iniciais.
— Você tem mesmo certeza de ter visto essas bolsas na feira?
— Sim. Lembro-me de que a esposa do barão Edward comprou uma delas.
— Os criminosos carregavam muitas moedas de ouro para nos atacarem de maneira tão desesperada em busca de mais dinheiro — Hugh observou pensativo. — De fato, não acredito que estivessem atrás de dinheiro.
— George Wickham mandou-os atrás de nós — Darcy afirmou convicto. —Você se lembra de como ele tentou nos convencer a aceitar a escolta de alguns de seus homens, Lizzy?
— Sim.
— Com certeza para nos eliminar enquanto dormíamos.
— Mas por quê? Porque você tem agora o anel de sinete? Ou o documento? Como poderia o conde adivinhar?
— Ele sabe que você viu Caroline, mas tem dúvidas quanto ao que a velha possa ter lhe dito. Provavelmente Caroline fez parte da conspiração contra Bartholomew, e George já não confia nela.
— Você está dizendo que o conde mandou aquela gente para me matar?
Embora odiasse assustá-la, Darcy não tinha outra alternativa a não ser confirmar as suspeitas horríveis.
— O homem que me arrastou para a beira do lago me chamou de milady — Lizzy confessou, a voz quase sumida. — Como poderia adivinhar quem eu era, se estava vestida coma um rapaz?
— Porém ele sabia — Charles falou baixinho.
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