Noiva Indomável
22 Revendo Um Grande Aliado
Notas iniciais

[Recapitulando]
— Ele sabe que você viu Caroline, mas tem dúvidas quanto ao que a velha possa ter lhe dito. Provavelmente Caroline fez parte da conspiração contra Bartholomew, e George já não confia nela.
— Você está dizendo que o conde mandou aquela gente para me matar?
Embora odiasse assustá-la, Darcy não tinha outra alternativa a não ser confirmar as suspeitas horríveis.
— O homem que me arrastou para a beira do lago me chamou de milady — Lizzy confessou, a voz quase sumida. — Como poderia adivinhar quem eu era, se estava vestida coma um rapaz?
— Porém ele sabia — Charles falou baixinho.
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Enrolada no cobertor, Lizzy tentou dormir, porém tremia tanto que os dentes batiam uns contra os outros. Sem dizer uma palavra, Darcy sentou-se ao seu lado e abraçou-a. Segura junto ao peito musculoso, como se fosse ali seu lugar, ela fechou os olhos e adormeceu.
Lentamente, Lizzy foi tomando consciência de que pássaros cantavam há algum tempo. Obrigando-se a despertar afinal, permaneceu imóvel, apreciando a paz do momento e o calor do corpo masculino abraçado ao seu.
Um homem? Abraçando-a?
Afastando as pernas rapidamente, sentou-se depressa e encarou Darcy, que continuava deitado de lado na grama, parecendo muito confortável como braço flexionado e a cabeça apoiada na mão.
— Bom dia, minha lady — ele falou sem se alterar. — Espero que tenha dormido bem. — Os olhos cinzentos fixaram-se em seus lábios um instante antes de demorarem-se em suas curvas suaves.
Enrubescendo, Lizzy notou que a túnica rasgada tinha se aberto durante a noite, expondo parte dos seios. Nervosa, procurou se recompor da melhor maneira possível. Fitzwilliam engoliu em seco e sentou-se, colocando o cobertor sobre os ombros delicados.
— Encontre algo decente para vestir. Partiremos dentro em breve.
Fazendo uma careta com tais palavras, Lizzy lhe deu as costas e foi atrás de suas coisas.
Durante os três dias seguintes da viagem, Lizzy usou vestidos, tendo o cuidado adicional de cobrir-se com a capa ainda manchada de lama. Darcy permaneceu muito quieto durante toda a jornada, mal se dando ao trabalho de responder as poucas perguntas que lhe eram feitas.
Lizzy não conseguia entender a razão dessa mudança brusca de comportamento. Desde que haviam se beijado, depois do terrível embate com os bandidos, ele passara a tratá-la quase com aspereza, ignorando todas as suas tentativas de iniciar uma conversa.
Homens! Como poderia um dia entendê-los?
Logo antes da partida, Darcy lhe havia informado que fariam apenas mais uma única parada, antes de alcançarem Londres, no castelo de John Philips, marquês de Maguire. Porém ele não mencionara ter sido o marquês o maior amigo de Bartholomew Wickham que, após a tragédia, fizera várias tentativas junto ao rei Henrique IV para que uma investigação minuciosa fosse conduzida com o objetivo de esclarecer as mortes de Bartholomew e dos filhos. Na ocasião, reinava na corte um clima de suspeitas e desconfianças.
Assim, o rei não se sentira inclinado a reconsiderar as graves acusações lançadas sobre o conde. A intenção de Darcy, com essa visita, era ganhar a confiança do marquês, além de obter apoio e assistência, duas coisas de valor inestimável quando fosse à presença do rei para acusar George. Talvez esse Henrique aceitasse reabrir o caso e julgá-lo por si mesmo.
Sufocada estava a preocupação de que não tardariam a chegar a Westminster e seria obrigado a entregar Elizabeth ao rei. E a William Collins. A ideia não o agradava nem um pouco. O fato de aquela dama ter tanto efeito sobre seus sentidos o perturbava profundamente. Não, não era possível. Devia ser apenas imaginação.
Afinal, mulher alguma jamais ocupara seus pensamentos além de um brevíssimo espaço de tempo. Tampouco costumava se preocupar com quem quer que fosse como se preocupava com Lizzy. Tal insanidade precisava ter um fim.
Que será que o rei queria com ela?
Talvez permitisse que se casasse com William, embora existisse a possibilidade, remota, de lady Bennet possuir certas conexões políticas, ainda que obscuras. Talvez o rei a quisesse casada por razões diplomáticas.
O fato é que, tão logo alcançassem Londres, Elizabeth passaria a estar à mercê da benevolência real, não importando o quanto ele desejasse o contrário.
Os pensamentos de Darcy voltaram-se para Annegret, filha de um nobre alemão com quem seu avô buscava uma aliança. Até então, conseguira evitar o noivado com aquela criatura pálida e dócil, completamente diferente de Lizzy. Todavia, as duas famílias o pressionavam para que assumisse o compromisso. Sabia que seria obrigado a tomar uma posição em breve.
Enquanto se dirigiam ao castelo Maguire, Darcy procurava definir um plano de ação. Pediria a John Philips que fosse a Londres e fizesse uma pesquisa discreta sobre a existência de provas contra Bartholomew Wickham. Talvez agora o filho de Henrique Hereford consideraria a possibilidade de investigar o papel de Bartholomew na alegada tentativa de assassinato do pai. Afinal, a situação mudara um pouco desde então.
Estava de posse do antigo anel de sinete, além do pergaminho onde figurava o nome de Clarence e um misterioso brasão.
Darcy também esperava conseguir localizar Tommy Tuttle, de quem Caroline falara. Seria esse um nome muito comum? Comprovaria ser uma tarefa impossível achar alguém ligado, embora de maneira obscura, a um crime cometido vinte anos atrás? Na última das hipóteses, voltaria para buscar Caroline e a faria testemunhar diante do rei.
Por último, Darcy decidiu que, a qualquer custo, precisava se afastar de Lizzy. Ela era uma verdadeira ameaça à sua paz de espírito. Seria loucura cair prisioneiro de uma paixão absurda.
Eles chegaram ao castelo Maguire logo antes do anoitecer e foram recebidos por uma mulher rechonchuda, ricamente vestida. Darcy a reconheceu de imediato, como a marquesa Mary Philips.
— Bem-vindos a Maguire — a dama os cumprimentou efusiva, as palavras se atropelando umas às outras. — E um prazer receber hóspedes em casa, pois são raras essas ocasiões. Vocês me parecem exaustos. Com certeza viajaram o dia inteiro. Também devem estar famintos e sedentos, ansiosos para descansar. Vamos ver o que pode ser feito. Oh, céus, aqui estou eu outra vez, falando pelos cotovelos. — Tomando Elizabeth pelo braço, afastou-a dos cavaleiros. — Sou lady Mary, esposa de Maguire. E tão bom tê-la comigo. Se ao menos Camille, minha nora, estivesse aqui também.
Lizzy sorriu diante da recepção calorosa. Era agradável escapar da companhia sombria de Darcy por alguns momentos, embora tivesse dúvidas de que lady Maguire fosse lhe dar uma única oportunidade e falar.
— Você é lady Elizabeth, não é? Foi o que os me informaram. Venha, deixe-me levá-la o seu quarto.
Charles e Darcy atravessaram o salão principal e seguiram um dos cavaleiros do marquês, que os conduziu até um escritório pequeno, numa das torres. O marquês de Maguire não era um homem muito alto, porém o corpo sólido, de músculos ainda bem definidos, guardava vestígios do guerreiro exímio da juventude. Os cabelos estavam grisalhos nas têmporas e o brilho penetrante dos olhos azuis era exatamente o mesmo do qual Darcy se lembrava. Enquanto tentava se decidir qual a melhor maneira de abordar o assunto que o levara até ali, o marquês rompeu o silêncio.
Olhando diretamente para Darcy, indagou apenas:
— Você me tomou por um velho tolo e senil, menino, ao pensar que eu não reconheceria o nome Darcy?
Nunca Darcy considerara a possibilidade de lorde Maguire lembrar-se do nome alemão e desgostava-o pensar que o marquês pudesse se sentir ofendido pela sua pequena falta de franqueza. Queria o homem do seu lado, não na oposição.
— Você seria John ou Fitzwilliam? Evidentemente alguém escapou ao ataque no caminho para Bremen com vida. Suponho que seja Fitzwilliam, embora todos os meninos se parecessem muito com o pai. — Maguire recostou-se na cadeira e o observou bem. — Se não me falha a memória, você é um pouco jovem demais para ser John.
— John morreu com meu pai.
Apesar de ter sabido e aceito o fato há vinte anos, as palavras ditas em voz grave perturbaram o marquês.
— Por que está aqui agora? Quais são suas intenções?
— Eu esperava convencê-lo a me ajudar a recuperar Pemberley e a limpar o nome de meu pai. Só não tinha muita certeza de como pedir-lhe auxílio.
— Irei ajudá-lo — lorde Maguire afirmou sem vacilar. — Sempre acreditei que Bartholomew havia sido traído de alguma forma. Não tenho dúvidas de que Clarence, e o filho George, planejaram o ataque de sua família na Alemanha. Ambos também foram os responsáveis por aquela história do envolvimento de seu pai na tentativa de assassinato do rei Henrique Hereford.
— Você tem alguma prova disso? — Darcy indagou, atônito diante das palavras do velho marquês.
— Não. Mas eu conhecia seu pai e Clarence muito bem, em nossos anos de juventude. Clarence cobiçava Pemberley e o título de conde. Não podia suportar a ideia de que nada daquilo lhe pertenceria. Jamais duvidei de que Clarence era capaz de qualquer coisa, inclusive de assassinato, para obter o que desejava.
— Acabamos de chegar de Pemberley.
— É mesmo? Você deve ter cuidado ao lidar com seu primo George. Ele é tão perverso quanto o pai. Clarence sempre agiu motivado por um ciúme e inveja doentios do irmão, a quem odiava. George, porém, consegue ter uma mente ainda mais doentia. Muitos incidentes estranhos ocorreram na região, embora tenham sido sufocados, é claro.
— Meu lorde, Caroline Wickham ainda está viva.
— Ouvimos dizer que ela havia morrido anos atrás. — Maguire levantou-se, intrigado.
— A velha condessa entregou isso a lady Elizabeth e pediu-lhe que o desse apenas a mim. — Darcy colocou o anel de sinete e o pergaminho manchado sobre a mesa.
— Como as duas se encontraram?
Em breves palavras, Darcy explicou como Caroline procurara Lizzy e o que se passara entre ambas.
— Ela devia estar envolvida no complô contra meu pai desde o início. Todavia não consigo entender por que deseja trair George agora.
— Talvez porque tenha se transformado numa verdadeira prisioneira no castelo, a mando de George. Assim, quando o viu chegar a Pemberley, aproveitou a chance de vingar-se.
— Mas como a condessa soube quem era eu?
— Porque você é a imagem perfeita de seu pai, meu filho.
— Se é assim, por que George não o reconheceu também? — Charles indagou curioso.
— Talvez, depois de vinte anos, George não acreditaria ser possível um dos filhos de Bart Wickham retomar dos mortos. — Atentamente, o marquês examinou o anel de sinete. — Trata-se mesmo do brasão de Bartholomew. Caroline o tinha guardado?
— Sim. Escondido num nicho, na parede do quarto.
— Nossa missão será ridiculamente fácil — Maguire exclamou sorrindo, depois de ler partes do pergaminho manchado. — Quando partiremos para Londres?
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