Noiva Indomável

16 Homem Desagradável


Notas iniciais
Olá meninas como estão? Aqui vai mais um capítulo, espero que gostem. Obrigada pelos comentário.

[RECAPITULANDO]

— É o melhor que posso fazer, lady Elizabeth — o garoto murmurou tímido, afastando-se para contemplar o trabalho. Embora a mancha não houvesse saído de todo, a capa não tinha mais uma aparência tão feia.

— Bom trabalho, Victor. — Quase não podia respirar, sentindo Darcy tão perto. Se ao menos ele tornasse a tocá-la... a beijá-la. Estremecendo de leve, Lizzy afastou o pensamento absurdo. Porém, fitando os olhos cinzentos, pela primeira vez já não conseguia se lembrar da cor dos olhos de William.

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Orgulhosamente, o conde mostrou a aldeia como se fosse ele o responsável direto pela beleza que o cercava, incluindo-se pontes, muralhas e construções em geral. Lizzy não tardou a fartar-se da companhia maçante. Aliás, logo na noite anterior, tivera péssima impressão de George. Julgara-o não apenas vaidoso ao extremo, mas de uma frieza que beirava a crueldade.

Adoraria poder partir imediatamente, todavia o estado de Bridget exigia cuidados. Também precisava considerar Darcy, que só partiria depois de finalizar os negócios que o tinham levado até ali.

Não lhe passou despercebido o interesse do cavaleiro em conversar com os aldeões e mercadores, sempre que possível. Aquela gente simples parecia gostar dele e o respeitar naturalmente.

Irritada, Lizzy notou que várias damas, convidadas do conde, lançavam olhares sedutores na direção de Darcy e que, uma vez ou outra, ele recompensava a atenção de que era alvo com sorrisos fascinantes. Porém, o mais difícil de aguentar era a simpatia especial que Darcy demonstrava ter por lady Kitty Gardiner, filha de um barão vizinho. Loira, de olhos azuis e covinhas nas faces, Kitty se sobressaía também pela elegância dos trajes. Sempre que Darcy sorria para ela, Lizzy tinha vontade de matar a mulher.

[Kitty]

Mas por quê? Afinal, era a primeira a admitir não possuir nenhum direito sobre sir Fitzwilliam e tinha consciência de não poder se comparar à bela lady Anne. Então, como explicar a dor na alma sempre que os via juntos? Mal podia esperar até chegarem a Londres. Quando estivesse junto de William tudo voltaria ao normal.

Ao regressarem ao castelo, George não permitiu que Elizabeth entrasse. Tomando-a pelo braço, praticamente arrastou-a para os jardins.

— Você está tão quieta, minha cara — o conde falou, fazendo-a sentar-se num banco de pedra, junto ao lago.

— E porque estou um pouco cansada. Tem sido um dia longo e fatigante — mentiu, ansiosa para ficar só. — Além do mais, minha prima está doente e...

— Há um assunto que eu gostaria de tratar, embora não tenha muita certeza a quem devo me dirigir. Quem é seu tutor?

Além de apreciar rodeios, o homem não demonstrava a menor sensibilidade quanto a sua preocupação com o estado de Bridget.

— Seu pai, barão Bennet? Ou o rei, como os boatos sugerem?

— Desculpe-me, sir, mas eu mesma não sei. Ninguém me disse uma palavra sobre isso, apesar de sir Fitzwilliam afirmar que estou agora sob a proteção real.

— Hum. — George acariciou a barbicha pontuda com a ponta dos dedos. — Estou precisando de uma esposa.

Ela quase engasgou.

— Como você sabe, lady Clarisse faleceu alguns meses atrás.

— Meu lorde, você me pegou de surpresa. Eu não fazia idéia...

— Sim, sim, entendo. A quem devo fazer o pedido? Ao rei? Ao seu pai?

Pelo senhor, o conde era mesmo pomposo e rude. Pobre Clarisse. A coitada nem mesmo esfriara na sepultura e o marido já tentava colocar alguém em seu lugar.

Furiosa, Lizzy levantou-se. Em vista de tamanha indelicadeza, não havia razão para se comportar com diplomacia. George agira com extrema grosseria durante todo o dia. Primeiro com o menino, depois com alguns camponeses que tentaram lhe falar. Essa fora a gota d’água. Não suportaria mais um segundo sequer ao lado daquela criatura asquerosa.

Todavia, antes que pudesse dizer algo, um grupo de homens surgiu perto do lago, rindo alto como se um dos três tivesse acabado de contar uma piada. Imediatamente Lizzy os reconheceu. Hugh, Edward e Douglas, todos os soldados de Darcy.

Nem um pouco satisfeito com a interrupção, George resmungou violentamente e puxou Elizabeth pela mão, tomando o caminho de volta para o castelo.

Darcy estava no pátio interno, perto da porta principal, aparentemente entretido em ajustar um alforje de couro na sela. Ele mal ergueu os olhos ao vê-los passar, contudo a expressão do rosto viril revelava imensa satisfação, como a de um gato que houvesse acabado de engolir um rato.

Catherine De Bourgh, bastante desassossegada, aguardava o conde à entrada do salão.

— Sim, sim, Catherine. Estamos de volta — George resmungou.

— Eu gostaria de lhe falar um momento, meu lorde. E um assunto de certa importância sobre um de seus convidados.

Percebendo o nervosismo da governanta, George soltou o braço de Lizzy, embora vacilante. Mas não sem antes beijar-lhe a mão.

— Até a hora do jantar, milady.

Grata por ver-se livre de companhia tão indesejada, ela subiu a escada quase correndo, ansiosa para abrigar-se no refúgio de seus aposentos.

Passara o dia inteiro preocupada com Bridget e sentia-se culpada por tê-la deixado entregue aos cuidados das servas.

Ao se aproximar do quarto, parou de súbito. Darcy parecia aguardá-la do lado de fora, os braços cruzados sobre o peito largo, o alforje de couro jogado sobre o ombro. Desnecessário dizer que a figura viril dominava todo o corredor.

— Acho que devo lhe agradecer por me salvar novamente, meu lorde.

— Pelas minhas contas, agora são três vezes.

— Quando partiremos de Pemberley, sir Fitzwilliam? — Lizzy indagou, ignorando o comentário provocador.

— Cansada do lugar?

— Não. E nosso anfitrião quem me esgota a paciência. Pemberley é uma propriedade maravilhosa e a aldeia a mais bela que jamais vi.

Satisfeito com a resposta, Darcy avisou-a de que partiriam dentro de dois dias.

O estado de Bridget havia piorado bastante nas últimas horas. Sentada na beirada da cama, Elizabeth tocou-a de leve na testa, agora fria e úmida.

— Não vou negar a verdade. — A velha babá murmurou ofegante... — Sinto-me mal. Sei que não tenho apenas uma gripe.

De repente, a pobre senhora foi sacudida por um acesso de tosse, o sangue escorrendo da boca trêmula. Alarmada, Lizzy puxou a coberta para o lado, descobrindo os pés, tornozelos e pernas da serva terrivelmente inchados. Então auscultou-lhe o peito, como frei Theodore a ensinara. Os sintomas indicavam sérios problemas de coração.

— Vilma, vá buscar Will Rose, o jardineiro. Depressa! Se não for capaz de encontrá-lo, tente achar alguém que possa me trazer um pouco de pó de dedaleira.

A babá caíra num estado de letargia profunda, que logo poderia resvalar para a inconsciência.

— Há quanto tempo seus pés estão inchando? Lizzy perguntou aflita, esforçando-se para esconder o pânico. Sabia que somente um milagre poderia salvar a prima querida.

— Oh... Já faz alguns meses. Frei Theodore me deu um remédio para ajudar a diminuir o inchaço. — Bridget fechou os olhos por um instante, às pálpebras quase translúcidas. — Você gostou da feira?

— Sim, foi uma beleza. — Oh, Senhor, como pudera passar o dia inteiro fora, enquanto a babá jazia sobre a cama, tão doente?

— E o conde? Que tipo de homem ele é?

— Você deve guardar suas forças, velha amiga. Contarei sobre a feira e o conde depois, quando estiver se sentindo melhor.

Bridget concordou com um aceno e tornou a dormir. Quando o jardineiro chegou, bastou um exame rápido das condições da doente para que chegasse à mesma conclusão de Lizzy.

— Como você bem sabe, pó de dedaleira é veneno, milady. Dê-lhe apenas essa dose e nada mais, ou o coração da coitada irá parar de bater. Creio que é melhor eu ir buscar o padre Fowler também. Para ministrar a extrema-unção.

Durante toda a noite, Elizabeth esteve ao lado de Bridget, segurando-lhe a mão, acalmando-a nos poucos momentos em que recuperava a lucidez. Um lacaio veio buscá-la para o jantar, porém Lizzy mandou-o dizer ao conde que seria impossível comparecer à refeição diante do estado grave em que se encontrava a prima.