Noiva Indomável
17 Momentos Difíceis
Notas iniciais
[RECAPITULANDO]
Durante toda a noite, Elizabeth esteve ao lado de Bridget, segurando-lhe a mão, acalmando-a nos poucos momentos em que recuperava a lucidez. Um lacaio veio buscá-la para o jantar, porém Lizzy mandou-o dizer ao conde que seria impossível comparecer à refeição diante do estado grave em que se encontrava a prima.
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Tendo percebido a ausência de lady Bennet no salão principal, Darcy foi procurá-la. Ao descobri-la debruçada sobre a moribunda, tocou-a de leve no ombro, indagando baixinho:
— Como está ela?
Bastou ouvir a voz profunda para Elizabeth sentir-se à beira das lágrimas. Conseguira manter o controle das emoções até agora, mas começava a fraquejar.
Por um breve instante Bridget acordou, e vendo Darcy, de pé perto da cama, sorriu debilmente.
— Ah, é você... Cuide de minha Lizzy.
— Eu o farei. — A resposta era tão simples. Tão definitiva.
— Não a permita voltar para a casa do terrível barão. Ele a matará, tenho certeza de que acabará matando-a.
— Não permitirei que isso aconteça — Darcy a tranquilizou.
— Minha Lizzy tentou fugir uma vez.
— Fique quieta agora, velha amiga. Poupe o fôlego.
Acatando o pedido, Bridget ficou calada e pouco tempo depois acabou adormecendo.
Passado algum tempo, Darcy saiu do aposento, as deixando sozinha.
Por volta da meia-noite, Bridget tornou a recuperar a consciência. Somente Elizabeth estava ao seu lado.
— Preciso falar com você. — As palavras saiam entrecortadas do peito magro e ofegante. — Sei por que o rei Henrique mandou buscá-la. O segredo... tão bem guardado durante todos esses anos. Era a vontade de Meghan, mas agora você deve saber.
— Descanse, por favor. Deixe para me contar amanhã, quando se sentir melhor.
— Agora. — A urgência do tom silenciou Lizzy. — Sua mãe conheceu Henrique Hereford, pai de Henrique V, em Londres. Ela era uma moça bonita, inexperiente e exótica. Hereford se encantou... — Bridget respirava com tanta dificuldade, que Elizabeth desejava fazê-la parar, porém a babá insistia. — Eles... eles...
— Que aconteceu? O que eu preciso saber?
— Hereford mandou-a para Meryton, para que se casasse com lorde Thomas. Era um lugar remoto e longe o bastante para manter-se distante dos ataques dos escoceses. Ele sabia que assim ambas ficariam seguras.
— Quem? Minha mãe e eu?
Apesar de se esforçar para falar, Bridget não conseguiu emitir mais som algum, as forças se esvaindo.
Pela primeira vez na vida Lizzy sentiu-se perdida. Completamente. Segurando a mão enrugada entre as suas, abaixou a cabeça e chorou em silêncio.
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Darcy não conseguia entender por que se preocupava tanto com lady Bennet, sozinha à cabeceira da prima doente num quarto frio e escuro. Ali estava em Pemberley pela primeira vez, depois de vinte anos, o inimigo ao alcance da mão. Seus pensamentos insistiam em voltarem-se para Elizabeth, apesar de saber da necessidade de se concentrar em George. Nada deveria distraí-lo de seus planos.
Por volta da meia-noite, quando todas as damas já haviam se retirado,os homens se reuniram junto ao fogo para um último copo de vinho. Darcy aproveitou a chance para induzir George a recontar a história do ‘traidor’, Bartholomew Wickham.
— Meu caro tio Bart foi idiota o bastante para contratar assassinos profissionais que dessem cabo do rei Henrique IV. Oh, sim, havia outros nobres envolvidos na conspiração, todavia ninguém se comportou de maneira tão estúpida quanto meu tio.
— Não estou a par dos detalhes da história, meu lorde — Charles falou. — Como foi provado que Bartholomew contratou assassinos? Afinal, o conde e os filhos não morreram no exterior por ocasião do ataque ao rei?
— O plano falhou, claro.
— Se me lembro bem, o matador deixou cair a bolsa que trazia presa ao cinto, com as moedas de ouro que recebera para executar o serviço e um documento, assinado e autenticado com o brasão de Bartholomew, contendo as ordens que deveria seguir. — O barão de Bourgh balançou a cabeça tristemente. — Nunca consegui entender o que se passou. Nada para mim fez muito sentido na época.
Então essa era a prova do envolvimento de seu pai no complô contra o rei, Darcy pensou. Um documento selado com o brasão da família.
— Ouvi dizer que o anel de sinete de Bartholomew tinha sido roubado alguns meses antes do ataque — Charles insistiu.
— Natural que meu tio fizesse circular essa história — George apressou-se a retrucar, pois sabia que logo o brasão dos Wickham seria usado para fins ilegais.
Um barão idoso, de pé junto à lareira, cerrou o cenho como se estivesse se esforçando para lembrar-se de algo.
— Creio que Bartholomew mandou fazer um novo brasão. Diferente do anterior.
— Nunca pude entender por que Bart preferiu não usar o novo anel de sinete para autorizar o ataque ao rei — disse outro convidado.
— Sim, sim. Mas esse novo anel também foi perdido. — George parecia nervoso.
— Ficou provada a identidade dos assassinos contratados? — Darcy manteve a voz controlada, apesar da emoção que o consumia.
— Bandidos. Assaltantes. Ninguém sabe.
— Seu pai, lorde Clarence, investigou o caso, não é? — Wellesley perguntou a George.
— Foi impossível encontrar respostas para as dúvidas levantadas. Ninguém sobreviveu ao massacre na Alemanha. — George esvaziou o copo de vinho num único gole.
— Tenho a impressão de que invocamos todos os velhos fantasmas do passado essa noite. Vamos falar de assuntos mais alegres.
Quando a conversa começou a girar em torno da caçada planejada para o dia seguinte, Darcy deixou Charles na companhia do conde e saiu em busca de comida. Sabia que Lizzy havia perdido o jantar e imaginava que necessitasse se alimentar um pouco para enfrentar o que seria uma longa noite.
Ao bater na porta do quarto, não obteve resposta. Assim, entrou sem fazer barulho e colocou a bandeja com pão e queijo sobre a mesa. Ao vê-la ajoelhada no chão, debruçada sobre a babá, chorando silenciosamente, sentiu um aperto no coração, uma sensação nunca experimentada antes. Bridget jazia inconsciente, a respiração difícil.
Darcy sabia que a velha senhora não passaria daquela noite. Notando que o fogo apagara na lareira, reacendeu-o. Então se aproximou de Lizzy e, tomando-a pelo braço, ajudou-a a levantar-se.
— Você não quer comer alguma coisa?
Exausta, física e emocionalmente, Elizabeth apoiou a cabeça no braço forte do cavaleiro.
— A pobre serva recuperou a consciência?
— Apenas uma vez.
— Você fez tudo o que estava ao seu alcance. — Vendo-a tão vulnerável, tão abatida, Darcy se deu conta de que lady Bennet encontrava-se ainda mais só no mundo do que ele próprio.
De repente foi tomado por uma urgência incontrolável de protegê-la, de guardá-la do sofrimento que a perda de Bridget lhe causaria. Conhecia muito bem a dor da perda, embora não tivesse experiência em oferecer conforto.
— Você tentará descansar agora?
— Lembro-me de quando minha mãe morreu — Lizzy murmurou, ignorando a pergunta. — Bridget ficou ao lado dela horas e horas. Pensei que deveria amar apenas minha mãe, não a mim.
— Venha comer alguma coisa.
Sem apetite algum, ela recusou o oferecimento. Então se lembrou de algo e abriu uma das gavetas da cômoda, retirando um pequeno objeto embrulhado numa meia de lã marrom.
— Uma mulher estranha me deu isso hoje. Disse-me para entregá-lo somente a você.
Quando Darcy deparou-se com o anel de sinete do pai, o que havia sido roubado, surpreendeu-se com a própria reação, quase de indiferença. Tudo parecia de pouca importância agora. No momento, desejava apenas ser capaz de oferecer conforto e apoio àquela mulher que estava para perder uma velha amiga, provavelmente a única amiga que conhecera a vida toda.
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