Notas iniciais
Olá eu aqui, obrigada pelos comentários e por estarem lendo a fic, espero que gostem do capítulo, bjs

[RECAPITULANDO]

— O rei foi bastante enfático e específico. Ele a queria sob meus cuidados o mais breve possível.

— Por quê?

— Tente dormir um pouco.

— Mas sir Fitzwilliam — ela insistiu, sabendo que o cavaleiro queria pôr um ponto final na conversa.

Porém, a expressão severa do rosto másculo a advertiu de que era melhor deixar as perguntas para depois.

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A noite se aproximava e ainda não haviam chegado ao castelo de Pemberley. A chuva persistia fina e gelada. Sabendo que a velha criada estava no limite de suas forças, Darcy decidiu pernoitar nos arredores de uma pequena vila, na única hospedaria local.

Lizzy sentiu-se um pouco mais animada. Talvez uma boa refeição quente ajudasse Bridget a recuperar-se. Após o jantar, ela amparou à serva enquanto subiam a escada até um dos três quartos disponíveis e ajudou-a a deitar-se.

— Vá lavar o rosto — Bridget falou, respirando com dificuldade. — É impensável para uma lady de sua estirpe se apresentar com as faces sujas.

— Não quero parecer uma lady.

— E por que não?

— Quanto menos souberem a meu respeito, melhor.

— Suponho que seja por causa do neto do príncipe alemão.

— Neto de príncipe ou não, William está me esperando em Londres.

— Não estou lhe pedindo para colocar um de seus vestidos. — Bridget fez uma pausa, o corpo sacudido por um acesso de tosse. — Apenas que lave o rosto e me deixe ver o estado dos ferimentos do olho e da boca. Essa sujeira é capaz de fazê-los infeccionar.

De má vontade, Lizzy lavou o rosto, usando a bacia e o jarro colocados sobre a cômoda. O corte no lábio quase não a incomodava mais, entretanto o olho continuava a doer, embora o inchaço houvesse diminuído.

— Você não imagina como estou feliz de termos escapado das garras do barão Bennet e esposa. Aquela mulher...

— É verdade — Lizzy respondeu distraída. O que queria mesmo era conversar sobre a inesperada viagem a Londres. O instinto lhe dizia que Bridget sabia mais do que imaginava — Por que será que o rei mandou me chamar?

— Não sei — a criada respondeu após breve hesitação.

— Talvez ele conhecesse seus pais.

— Por que tenho a impressão de que você não está me dizendo tudo o que sabe?

— Talvez por causa de sua natureza desconfiada, minha lady.

Aquela não era a primeira vez que fazia perguntas sobre seus pais sem que obtivesse respostas satisfatórias. Pelo visto continuaria cheia de dúvidas.

Embora houvesse parado de chover na manhã seguinte, a garoa insistente mantinha o ar úmido e frio. Bridget não teria condições de continuar a viagem enquanto não melhorasse, Lizzy decidiu. A coitada passara a noite inteira tossindo e parecia exausta. Depois de trançar os cabelos e escondê-los sob o velho gorro marrom, saiu do quarto em busca de algo para comer, não sem antes ordenar que a serva continuasse deitada, descansando.

Depois de alimentar-se e pedir à dona da hospedaria para levar um prato de mingau até o quarto, perguntou por Darcy.

— Sir Darcy está num dos estábulos — a mulher respondeu de maus modos, convencida de que não precisava ser educada ao lidar com uma jovem de aparência tão rústica.

Darcy terminou de arrear Janus e ao erguer a cabeça notou que lady Elizabeth se aproximava. Bem, supunha que fosse Elizabeth, agora que a via pela primeira vez com o rosto limpo.

A exceção do hematoma ao redor de um dos olhos e do pequeno corte no lábio inferior, tratava-se de um rosto impressionante. Não de uma beleza delicada, mas fascinante. Enfeitados por cílios escuros e espessos, os olhos castanhos magníficos o fitaram de igual para igual, algo raro numa mulher. A boca carnuda e sensual parecia hipnotizá-lo de forma inquietante.

Ao perceber que a encarava, desviou o olhar e inspirou fundo.

Que diabos acontecera com a criatura maltrapilha que deixara dormindo na estalagem? Por que Elizabeth Bennet não pudera ser a criança que esperara encontrar, ou então como as damas que conhecera na corte?

Teria sido mais fácil lidar com qualquer uma daquelas duas alternativas do que com essa criatura teimosa, impulsiva e imprevisível. Nunca tinha certeza do que esperar e agora, com o rosto lavado...

Sim, ela o perturbava. E irritava também.

— Fitzwilliam. — A voz soava tão firme e direta quanto o olhar. — Não podemos seguir viagem hoje. — Outra vez a mesma entonação imperiosa.

— É mesmo? — Darcy se recusou a perder o controle diante do que julgava uma provocação. Impossível ignorar o efeito que lady Elizabeth parecia ter sobre seus sentidos sempre que lhe dirigia a palavra, todavia já havia resolvido manter-se indiferente às tentativas femininas de desafiá-lo, ou ao poder de um possível charme sedutor.

— Bridget está doente. Não tem condições de viajar.

— Partiremos em meia hora. Vários de meus homens já se puseram a caminho e se você ainda não tomou o desjejum, sugiro que o faça agora porque não terá outra oportunidade de comer.

O grosseirão certamente não a tinha ouvido.

— Mas Bridget está doente! Não pode viajar na chuva.

— Pode e o fará — Darcy retrucou com calma, embora irritado. — Ela cavalgará com Charles. A outra alternativa é que permaneça aqui.

— Você não entende. Sou responsável por ela.

— Você? Pensei que fosse o contrário. Pensei que sua babá a estivesse acompanhando para servi-la.

— Claro que não! Bridget não tem sido capaz de fazer nada nesses últimos anos. Está ficando velha e não pode mais trabalhar como antes. Além de tudo, é mais do que uma criada. E uma prima distante de minha mãe que...

— Chega! De acordo com o dono da estalagem, Pemberley fica apenas há duas horas daqui. Verei a mulher e eu mesmo decidirei se tem, ou não, condições de viajar. A propósito, você faria bem se controlasse essa sua natureza inclinada a discussões. A vida seria bem mais simples.

O comentário fez o sangue de Lizzy ferver e por pouco não deu um chute na canela do homem que ousava tratá-la daquela maneira impensável. Para completar, ele deu-lhe um tapinha na cabeça, como o faria com um cachorro.

— Você deveria lavar as faces com mais frequência também, garota. Não possui um rosto tão feio que seja preciso escondê-lo.

— Seu insuportável, arrogante, cabeça-dura...

Darcy, porém, seguiu em frente sem se importar com a explosão de fúria que acabara de desencadear.

Bridget estava sentada na cama, uma bandeja com um prato de mingau fumegante a sua frente. Andando de um lado para o outro do quarto, Darcy lhe fazia perguntas sobre a saúde. De fato, a coitada lhe parecia muito pálida, além de tossir quase sem parar. Por um momento ele pensou em atender ao pedido de Elizabeth. Não queria causar à criada maiores desconfortos e ainda culpar-se por uma possível piora. Contudo, Bridget insistia em seguir viagem, dizendo-se em perfeitas condições de enfrentar uma boa cavalgada. Isto é, se dividisse a sela com um dos soldados. Considerando a brevidade da jornada, Darcy concordou, amaldiçoando o destino que o tornara responsável por duas mulheres.

O que sabia a respeito dessas criaturas tolas? Afinal, era um guerreiro, não enfermeiro.

— Sir Fitzwilliam — Bridget o chamou vacilante, vendo-o caminhar para aporta. Ele parou e virou-se para ouvi-la. Só esperava que o assunto fosse rápido para que pudessem partir. Pemberley ficava apenas há duas horas dali. — É sobre minha Lizzy. Ela é uma boa menina. Nunca quis causar problemas a ninguém.

— Não — Darcy concordou apressado, preparando-se para sair. As palavras da serva, entretanto, eram opostas à sua experiência.

— Você não compreende — Bridget insistiu. — Lizzy sempre foi obrigada a ser forte. Independente. Jamais teve quem a protegesse e os momentos difíceis não foram poucos.

— Bennet?

— Sim. O barão esteve perto de matá-la duas vezes. O que o impediu foi à certeza de que não conseguiria administrar o castelo sem Lizzy. E também porque nunca sabia quando um dos cavaleiros do rei poderia aparecer para vê-la.

— Cavaleiros enviados por Henrique IV?

— Sim. O barão Bennet, entretanto, jamais conseguiu entender a razão desse interesse pela enteada. Sempre suspeitou haver algo por trás de visitas aparentemente sociais.

— Quando foi à última vez que um dos cavaleiros foi vê-la?

— Bem, há vários anos. Não creio que nosso novo rei tenha mandado alguém até agora.

— Você disse que lady Elizabeth ajuda o barão a administrar Meryton. É verdade?

— Não exatamente. De fato, ela faz tudo sozinha. O barão Bennet não toma conhecimento do que acontece em sua propriedade.