Noite das Abóboras Vivas
1 Noite das Abóboras Vivas
O Santuário estava irreconhecível naquela noite de Halloween. As doze casas zodiacais haviam sido enfeitadas com teias de aranha falsas, abóboras esculpidas com símbolos estelares e lanternas que piscavam em tons de cosmos. A Grande Escadaria, normalmente silenciosa, ecoava com risadas, música eletrônica medieval e o tilintar de taças de hidromel encantado.
Genbu de Libra, o cavaleiro mais velho e teoricamente mais sábio, usava uma fantasia improvisada: uma armadura de papelão pintada de preto, com duas toneladas falsas de metal coladas nas costas. “É uma homenagem à minha própria armadura”, justificou, enquanto ajustava o elmo de isopor que não parava de escorregar para o lado.
Ao seu lado, Kiki de Áries — o jovem aprendiz que todos ainda chamavam de “o menino das ferramentas” — vestia-se de fantasma high-tech: um lençol branco com circuitos LED costurados, que piscavam em sincronia com seu batimento cardíaco. “É funcional e assustador”, explicou, orgulhoso. “Se eu morrer de susto, pelo menos vão saber a hora exata.”
Eles eram um casal há três meses. Três meses de olhares furtivos durante treinamentos, de Genbu fingindo que precisava de consertos na armadura só para ver Kiki de joelhos com uma chave de fenda, de Kiki deixando bilhetinhos dentro das toneladas de Libra com frases como “Sua armadura pesa 100 toneladas, mas meu coração pesa mais quando você não tá por perto”.
A festa estava no auge quando aconteceu.
Uma das abóboras esculpidas na Casa de Áries — aquela que Kiki jurava ter apenas colocado uma vela dentro — começou a... roncar.
— Genbu-senpai, olha isso — Kiki cutucou o cavaleiro com o cotovelo. — A abóbora tá respirando.
Genbu, que já estava no terceiro copo de hidromel de pêssego, riu.
— É o vento, Kiki. Ou o Seiya passou por aqui e soltou um Pegasus Ryu Sei Ken de brincadeira.
Mas a abóbora piscou. Um olho amarelo, brilhante, surgiu no buraco da boca esculpida. Depois outro. E então, com um som úmido de ploc, ela se levantou sobre raízes que não deveriam existir.
— TRICK OR TREAT, SEUS IDIOTAS — a abóbora falou com uma voz que parecia um liquidificador cheio de pregos.
A música parou. Os cavaleiros congelaram. Até Shiryu, que estava fantasiado de dragão (literalmente, ele trouxe o dragão), deu um passo atrás.
Kiki foi o primeiro a reagir.
— É... é uma abóbora possuída! — gritou, e imediatamente começou a fuçar na sua bolsa de ferramentas. — Calma, eu trouxe um exorcismo de emergência! É só apertar aqui e—
A abóbora cuspiu uma semente. A semente voou, acertou a testa de Hyoga (fantasiado de Elsa de Frozen, porque sim) e explodiu em uma nuvem de purpurina negra. Hyoga congelou. Literalmente. Virou uma estátua de gelo com glitter.
— VOCÊS ME ESCULPIRAM. AGORA EU ESCULPO VOCÊS. — A abóbora rolou em direção ao casal.
Genbu, finalmente percebendo que não era brincadeira, assumiu pose de combate.
— Kiki, atrás de mim!
— Eu não sou uma donzela, Genbu-senpai! — Kiki protestou, mas já estava atrás dele, segurando uma chave-inglesa como se fosse uma espada sagrada.
A abóbora abriu a boca. Dela saiu um tentáculo de cipó podre, que se enrolou na perna de Genbu. O cavaleiro tentou usar as toneladas, mas o tentáculo era escorregadio. Como quiabo.
— Kiki! Ideia!
— Já sei! — O aprendiz girou a chave-inglesa e cravou na abóbora. — EXORCISMO MECÂNICO!
A abóbora gritou. Um som que era metade vegetal, metade demônio. As luzes LED do lençol de Kiki piscaram em vermelho.
— VOCÊS NÃO PODEM ME MATAR! EU SOU O ESPÍRITO DE TODAS AS ABÓBORAS QUE FORAM TRANSFORMADAS EM TORTA!
Genbu, ainda preso, olhou para Kiki.
— Amor, lembra do plano B que a gente nunca planejou?
— Improvisar?
— Improvisar.
Kiki respirou fundo. Então, com uma calma assustadora, tirou do bolso um pacotinho de sal grosso (porque todo aprendiz de Áries carrega sal grosso, né?) e jogou na abóbora.
— PELO PODER DO CLoreto de Sódio, EU TE BANHO!
A abóbora chiou. O tentáculo se dissolveu. Ela começou a murchar, encolhendo como um balão furado. Mas antes de sumir, sussurrou:
— Vocês... vão virar... purê...
E puf. Virou uma poça laranja no chão.
Silêncio.
Então, de repente, a música voltou. Alguém gritou “É SÓ UMA BRINCADEIRA DO MU!” e todos riram. Hyoga descongelou e começou a reclamar do glitter no cabelo.
Genbu e Kiki se olharam.
— ...A gente quase morreu por uma abóbora — Genbu disse, ofegante.
— Mas a gente sobreviveu. Juntos. — Kiki sorriu, sujo de purê de abóbora. — Isso é tipo... um marco no relacionamento?
Genbu riu. Um riso rouco, cansado, mas feliz.
— Quer dançar, fantasma high-tech?
— Só se você tirar esse elmo ridículo.
Eles dançaram. No meio da poça de abóbora, com glitter no chão e cavaleiros bêbados ao redor.
Mas, no canto da sala, uma outra abóbora piscou.
E ninguém notou.
Fim... ou não?
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