Abro os olhos e a escuridão me golpeia. Não é um vazio comum, mas uma névoa densa que parece pesar sobre minhas pálpebras. O ar é espesso, carregado com um cheiro de mofo úmido e algo estranhamente adocicado, como flores apodrecendo em um vaso. Uma inquietação borbulha em meu estômago; é o prenúncio de uma tempestade que eu ainda não consigo ver.

​— Hã? O que... o que aconteceu? — Minha voz sai como um fio, tremendo na solidão do espaço.

​Tento tatear ao redor, buscando o conforto familiar do meu edredom, mas minhas mãos encontram apenas algo rígido e frio. Eu não estou no meu quarto.

​O pânico sobe pela minha garganta como uma onda gelada. Fecho os olhos com força, respirando fundo até que o som do meu coração — um tambor frenético ecoando no silêncio ensurdecedor — comece a desacelerar. Aos poucos, a visão se ajusta. A escuridão vai se dissolvendo em contornos cinzentos e sombras projetadas.

​Onde eu estou? Um calafrio percorre minha espinha. O lugar é estranho, mas há um eco de familiaridade nele que me assusta. Minha última lembrança é de ter pegado no sono na sala de estar...

​Tento me virar de lado e meu corpo congela.

​A poucos centímetros de mim, uma silhueta masculina repousa. Meu coração dispara. Há um olhar invisível sobre mim, mesmo que ele pareça estar mergulhado em um sono profundo. Aproximo-me com cautela, a curiosidade lutando contra o medo. Sob a luz fraca, ele parece quase angelical. Sua respiração é um ritmo sereno, um som suave que contrasta com o caos dentro de mim.

​— E-ei... — sussurro. Ele não se move. — Ei!

​Nenhuma resposta. Talvez eu devesse deixá-lo em paz, penso, começando a me levantar. Mas o movimento faz o chão ranger.

​— Mmnngg... — Um murmúrio baixo escapa dos lábios dele. As pálpebras se abrem lentamente, revelando um olhar nublado pelo sono.

​— Onde nós estamos? — pergunto, sentando-me para encará-lo de frente.

​O rapaz levanta o rosto e sinto o mundo girar por um instante. Seus olhos... um é de um azul profundo, como o oceano à noite; o outro, um vermelho ardente, como uma brasa moribunda. São magníficos e terríveis.

​— Lindo... — as palavras escapam antes que eu possa detê-las. — Seus olhos são muito lindos.

​Ele arregala as orbes heterocromáticas e, num gesto brusco, cobre o rosto com as mãos, as pontas das orelhas ficando vermelhas.

​— Não olhe! — ele exclama, a voz carregada de uma timidez defensiva.

​— Me desculpe! Eu não queria... — Estendo a mão, mas ele se encolhe.

​— Fica longe!

​— Mas eu só—

​— Cara, você é barulhenta pra caramba.

​O comentário corta o ar como uma lâmina. Olho para trás e vejo uma figura imponente emergindo das sombras. É um homem alto, de ombros largos, com olhos que parecem abismos de hostilidade.

​— Por que diabos você está gritando logo cedo? — Sua voz é um trovão grave.

​— Me desculpe... — murmuro, sentindo-me encolher.

​Antes que a tensão exploda, um bocejo teatral corta o ambiente, ecoando como o rugido de um animal preguiçoso. No canto da sala, uma moça se espreguiça com os braços para o alto.

​— Que horas são? Humm? Ainda está escuro... — Ela para no meio do movimento, seus olhos focando em nós. — Espera. Onde eu estou?! Quem são vocês?!

​O caos se instala. Somos quatro. Quatro estranhos jogados em um enigma de concreto.

​— Ei, ei, vamos baixar a temperatura aqui — intervém um rapaz de jaqueta esportiva, levantando as mãos em um gesto pacificador. Seu sorriso é a primeira coisa reconfortante que vejo. — Acho que estamos todos no mesmo barco.

​— Mas por que estamos aqui?! — Minha voz sobe uma oitava. — Eu não posso estar aqui, tenho um encontro amanhã! Preciso ir para casa! — a moça de antes completa, sua voz beirando o desespero.

​— Todos vocês, acomodem-se primeiro — ordena o homem alto com uma autoridade que não admite réplicas. Ele se move para o centro do espaço. — Alguém faz ideia de onde estamos?

​O homem da jaqueta suspira, tentando disfarçar a própria insegurança com um tom leve. — Credo, por que começar com perguntas difíceis? Não deveríamos nos conhecer primeiro? Olhem só, a tensão está matando a gente.

​Ele faz uma pequena reverência. — Meu nome é Jin.

​— Eu sou... Soohyun — digo, sentindo um pouco mais de chão sob meus pés.

​— Prazer, Soohyun! — Jin pisca para mim.

​— Minha vez! Oi, pessoal, eu sou a Minnie! — A moça se levanta com uma energia quase infantil. — Estudo Design de Moda e tenho um namorado incrível. Ai, eu só queria que ele estivesse aqui para me proteger!

​A espontaneidade de Minnie traz um brilho estranho ao lugar. Quase sorrio.

​— Taehyung — o homem alto pronuncia, curto e grosso, mantendo os braços cruzados sobre o peito robusto. Ele não oferece sorrisos, apenas um olhar avaliativo que parece ler minha alma.

​— Só isso? — acabo soltando, surpresa pela falta de pompa.

​Taehyung vira o rosto rapidamente para mim. Seus olhos fixam-se nos meus com uma intensidade sufocante.

​— O quê? Quanto mais cedo você parar de me encarar e começarmos a planejar, mais rápido saímos daqui — ele rebate, impaciente.

​Atrás de mim, o rapaz dos olhos bicolores finalmente se levanta. Sob a luz fraca que entra por uma fresta no alto, o halo vermelho de seu olho parece brilhar com luz própria.

​— Meu nome é Jimin — ele diz, a voz tão suave que me causa um formigamento na nuca.

​Jimin... O nome ecoa dentro de mim. Uma onda de memórias distorcidas tenta subir à superfície, como algo enterrado na areia que a maré insiste em revelar. Há algo terrivelmente familiar naquele brilho vermelho, um pressentimento que faz meus pelos se arrepiam.

​— Viu só? — Jin sorri, tentando dissipar as sombras que voltavam a se fechar sobre nós. — Agora que sabemos os nomes, não parece mais um filme de terror, certo?

​Eu tento retribuir o sorriso, mas a pergunta continua suspensa no ar, invisível e pesada: o que, ou quem, nos escolheu para estarmos aqui?