​Todos nos entreolhamos, compartilhando o mesmo pensamento gélido.

​— Certo, vamos dar uma olhada — Taehyung murmurou. Prendemos a respiração em uníssono, aproximando-nos para confirmar o que todos já suspeitávamos.

​— Está parado... — Jimin exclamou, o desapontamento nítido em sua voz.

​Os ponteiros no relógio de pulso de Taehyung pareciam gritar uma verdade impossível: o tempo havia congelado exatamente às dez.

​— Ah, não. Agora não temos absolutamente nenhuma noção de quanto tempo se passou — desabafei. Era como se nosso último fio de esperança tivesse sido cortado com uma lâmina cega. Um silêncio súbito e pesado tomou conta do lugar, e o pavor começou a rastejar pela minha espinha.

​— Estou tentando encontrar lógica nisso — ponderou Jin, franzindo o cenho. — Todos nós estávamos dormindo, então... isso é um sonho? Ou estamos em um universo diferente?

​— Universo diferente? — repeti, a palavra soando estranha em minha boca.

​— O tempo é uma construção — explicou Jin, a voz assumindo um tom analítico. — É fisicamente impossível pará-lo dadas as leis da física da Terra. Teoricamente, a única forma de o tempo parar seria em um lugar onde as leis científicas fossem outras. Mas a falta de um relógio funcionando não significa que o tempo parou; pode significar apenas que perdemos a capacidade de medi-lo.

​— Essa é a coisa mais sensata que você disse desde que acordamos — comentou Taehyung, impressionado.

​— Ei, eu posso não ser tão aplicado quanto você, mas entendo de ciência — Jin retrucou, com um leve traço de orgulho.

​— Você está chegando a algum lugar, mas... — Taehyung começou.

​— Apenas estamos aqui — completou Jimin, a voz baixa.

​Taehyung cruzou os braços, bufando levemente. — Eu ia dizer exatamente isso.

​— O que vocês querem dizer com isso? — perguntei. À medida que eles explicavam, minha confusão só aumentava.

​— Mudar de dimensão exigiria um ato deliberado — continuou Taehyung. — Nós não fizemos nada.

​— Exato — concordou Jin. — Precisaríamos rasgar o tecido do espaço-tempo, criar uma fenda e passar por ela como se fosse um portal.

​Soltei um riso nervoso. — Nossa... eu mal consigo resolver minha lição de casa de física. Rasgar o espaço e flexionar o tempo definitivamente não são minhas especialidades.

​Jin soltou uma gargalhada genuína, aliviando a tensão por um segundo. — Você é engraçada! Gostei de você.

​— Esperem, então vocês estão dizendo que estamos na Terra, mas não na Terra? — Minha cabeça girava. — Estou confusa. Eu só quero ir para casa... Isso tudo parece um pesadelo.

​O silêncio dominou o ambiente novamente. Eu estava prestes a dizer algo para quebrá-lo, quando um som cortou o ar:

​— Ehehehehee!

​Uma risada infantil, aguda e deslocada, ecoou pelas paredes. O terror foi instantâneo. Meu corpo congelou, como se o sangue tivesse virado gelo nas veias.

​— O q-que foi isso? — exclamei, a voz falhando.

​— Ehehehehee!

​O eco ficava cada vez mais alto, parecendo ressoar dentro do meu próprio crânio.

​— Eu não estou gostando disso. Nem um pouco! — Minnie exclamou, agarrando-se ao braço de Jimin em busca de proteção.

​Eu lutava desesperadamente contra o pânico. Sabia que, se eu perdesse o controle, Minnie desabaria completamente. Cerrei os punhos com tanta força que as unhas cravaram na palma da mão. No instante em que fiz isso, a risada parou.

​Virei-me para a única porta do lugar. Todos ficaram imóveis, os olhos fixos na madeira desgastada. Meu coração martelava contra as costelas. Então, o som que todos temíamos: a porta rangeu.

​Uma garotinha de cabelos loiros surgiu no batente. Ela tinha um sorriso fixo, largo demais, estranho demais. Conforme ela se aproximava, a atmosfera parecia ficar mais densa.

​— Ah, cara... isso está começando a me dar medo — Jin confessou, tremendo visivelmente.

​A porta se escancarou e a gargalhada da menina subiu de tom, tornando-se quase ensurdecedora.

​— EhehEE! Vocês querem vir?

​"É só uma criança", eu repetia para mim mesma, num mantra inútil. "É apenas uma criança". Mas o instinto gritava que algo estava muito errado.

​— Quem é você? — Taehyung perguntou, a voz firme apesar da palidez.

​A menina apenas riu novamente.

​— Talvez ela queira que a gente a siga? — Minnie soltou lentamente o braço de Jimin. Seus olhos pareciam distantes, como se estivesse em transe.

​— M-Minnie, espera! — gritei, mas ela não pareceu me ouvir.

​— Você sabe onde estamos? — Minnie perguntou à garotinha.

​A menina sorriu ainda mais e deu meia-volta, sumindo no corredor escuro.

​— Não, espera! — Antes que qualquer um de nós pudesse reagir, Minnie correu em direção à porta.

​— Minnie! — Minha voz saiu em um grito desesperado.

​Ela desapareceu na escuridão. Ficamos paralisados por um segundo de puro choque. Ela não deveria ter saído sozinha. Eu ia correr atrás dela, mas, antes que eu pudesse dar o primeiro passo...

​— AAAAAAAAHHHHH!

​Um grito esganiçado de puro horror cortou a noite.

​— Foi a Minnie! — Tentei me soltar para correr, mas Jin segurou meu braço com força.

​— Não vamos fazer nada imprudente! — ele ordenou.

​— Mas ela está em perigo! Eu preciso...

​— Não seja imprudente! — Jin me repreendeu, os olhos injetados.

​— Não fazemos ideia do que estamos enfrentando — Taehyung interveio, a voz tensa. — A melhor coisa que podemos fazer agora é ficarmos juntos. Se nos separarmos, estaremos mortos.

​Engoli em seco, o peito subindo e descendo com força. Ele estava certo, mas o som daquele grito ainda ecoava em meus ouvidos, como uma promessa de que o pior ainda estava por vir.