​Jin soltou meu braço enquanto Taehyung assumia a liderança, sua voz soando estranhamente firme para alguém naquela situação.

​— Todos viemos parar aqui assustados e confusos. O mínimo que podemos fazer é cuidar uns dos outros — disse ele. Meus olhos se arregalaram. Eu não esperava que Taehyung pudesse ser tão encorajador em um momento de crise.

​— Tudo bem... — sussurrei, tentando controlar o tremor no queixo. — Eu só espero que a Minnie esteja bem.

​— Certo. Vamos investigar. Peguem o que puderem para se proteger. Qualquer coisa que sirva de arma.

​Saímos cautelosamente da sala. Eu segurava um bastão de beisebol que encontrara em um canto, enquanto os rapazes se armavam com o que o destino oferecia.

​— O que eu vou fazer com este livro? Matar alguém de tédio ou bater na cabeça de alguém com o peso do conhecimento? — Jin resmungou, erguendo um volume grosso e empoeirado.

​— Pode usar em si mesmo, se ajudar a parar de falar — Taehyung retrucou, sem desviar os olhos do corredor.

​— Jimin, você está bem? — Perguntei, notando que ele empunhava um desentupidor de borracha com uma seriedade invejável. Ele apenas acenou com a cabeça, pálido demais para falar.

​— Fiquem em fila — ordenou Taehyung.

​Caminhamos pela escuridão densa, onde o único som era o das nossas respirações descompassadas. Pouco tempo depois, um som horrendo nos paralisou: um ruído úmido de trituração, como ossos sendo esmagados e carne sendo rasgada.

​Trocamos olhares apreensivos e, milímetro a milímetro, dobramos a esquina do corredor. O ar fugiu dos meus pulmões.

​No chão, uma perna humana, decepada e banhada em sangue, ainda sofria espasmos. Logo adiante, uma criatura medonha se curvava sobre algo.

​— Fome... — a voz do monstro era um lamento gutural.

​— Mas que diabos é aquilo? — Jin recuou, a voz falhando.

​— Mamãe... tô com fome... — O monstro resmungava enquanto mastigava. A perna no chão foi puxada para trás, arrastada por uma força invisível. — Me ajuda, mamãe...

​A sombra se moveu, revelando o que restava do corpo de Minnie. O vestido que ela usava estava encharcado de um vermelho escuro e viscoso.

​(Ah, meu Deus... não...)

​Cobri a boca com a mão livre para abafar um grito que insistia em escapar. Minhas pernas perderam as forças.

​— Essa é a... — Taehyung não conseguiu terminar a frase.

​Diante de nós, a criatura ergueu a cabeça, revelando fileiras de dentes afiados e sujos de restos mortais. Minnie estava morta. Há poucos minutos ela sorria, falava do namorado, planejava o futuro... e agora era apenas um resto de banquete para um pesadelo.

​O som dos dentes do monstro voltando a triturar os ossos dela ecoava pelo corredor silencioso. Estávamos em choque, incapazes de processar a brutalidade da cena.

​De repente, uma névoa fria começou a serpentear perto do corpo massacrado. No meio do horror, a figura de uma garotinha se materializou.

​— Heehee! — Era a mesma menina de antes. Ela corria, rindo, para os braços de um homem que surgiu do nada. — Pai! Heehee!

​— Minnie, você parece ótima hoje — o homem respondeu, acariciando o cabelo da menina.

​— Minnie? O que está acontecendo? — Olhei para Taehyung, sentindo que minha sanidade estava por um fio.

​— São memórias — Taehyung sussurrou, os olhos fixos na projeção. — Aquilo ali é a infância dela. Estamos vendo o que ela viveu enquanto o corpo dela está sendo devorado.

​O contraste era insuportável: a alegria da memória contra a tragédia do chão.

​— Estamos vendo as memórias dela? — Minha voz saiu num fio.

​— Talvez. Mas agora... — Taehyung olhou para o monstro, que parou de comer e rosnou para nós, como se fôssemos o próximo prato.

​— A gente devia sair daqui agora! — Jimin exclamou, já girando nos calcanhares.

​— Ei, essa frase é minha! Vamos! — gritou Taehyung.

​Eles começaram a correr, mas meus pés pareciam colados ao chão. Minhas pernas tremiam tanto que eu não conseguia dar um passo.

​(Corre, Sohyun! Corre agora!)

​O monstro se impulsionou em minha direção.

​— GRAAAHHHH! — O berro da criatura fez o corredor vibrar.

​— O que você está fazendo?! — Alguém gritou. — Temos que ir!

​Cerrei os dentes com tanta força que senti minha mandíbula estalar. Reuni cada grama de força para não desabar em lágrimas e comecei a correr atrás deles.

​— Depressa, Sohyun! — Taehyung esticou a mão para trás, tentando me alcançar.

​Eu corri como nunca na vida. Estava quase lá. Meus dedos estavam prestes a tocar os dele quando, de repente, um som de sinos começou a tocar dentro da minha cabeça. Uma sonolência avassaladora, pesada como chumbo, tomou conta de mim.

​(Não... espera... agora não...)

​O tilintar dos sinos ficou ensurdecedor. Meus olhos pesaram. A última coisa que senti antes da escuridão total foi o roçar da pele quente de Taehyung na ponta dos meus dedos frios.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.