​Saí da universidade sob o abraço morno do final de tarde. O cheiro de grama recém-cortada flutuava no ar, misturando-se à voz de Anne, que reclamava com uma frustração tão clara quanto o tilintar de um sino de cristal.

​— Ah, por que o professor tinha que passar lição de casa logo hoje? Eu planejei o final de semana inteiro para fazer compras, não para responder questionários intermináveis! — Ela bufou, embora seus olhos ainda brilhassem com a energia de quem já estava mentalmente provando roupas novas.

​— Eu também queria colocar minhas séries em dia — concordei, sentindo a brisa suave trazer o aroma adocicado das flores de hibisco das casas vizinhas.

​Conversamos sobre planos banais até chegarmos ao cruzamento onde o sinal vermelho brilhava como um farol solitário, marcando a fronteira de nossos caminhos.

​— Bem, minha rota é por aqui! — disse ela, acenando com um sorriso vibrante.

​— Beleza, até mais! — Respondi, retribuindo o gesto.

​Mas, assim que dobrei a esquina, um leve aperto atingiu meu peito. O som distante das risadas de outros estudantes começou a desaparecer, e a liberdade que a universidade prometia parecia se transformar em um labirinto silencioso. Às vezes, a solidão não era o vazio de pessoas, mas o peso de não pertencer a lugar nenhum.

​Caminhando em direção a casa, fragmentos da infância surgiram na minha mente como cenas de um filme queimado. Eu tentava buscar rostos, brincadeiras ou o som de uma risada antiga, mas encontrava apenas uma névoa densa. Eu tinha amigos? Tinha brinquedos favoritos? Não saber quem eu fui antes de agora me dava um nó na garganta, uma sensação de estar flutuando em um mar sem âncora.

​Ao chegar em casa, o ranger familiar da porta foi o meu primeiro consolo. A luz suave da sala parecia expulsar a névoa das minhas lembranças.

​— Cheguei! — anunciei para as paredes acolhedoras.

​— Bem-vinda de volta! — As vozes dos meus pais ressoaram em harmonia de diferentes cômodos, um bálsamo que eu sempre esperava ansiosamente.

​— Que cheiro maravilhoso é esse? — perguntei, deixando o aroma quente de curry me envolver como um abraço.

​— Sua mãe está inspirada hoje — meu pai comentou, esparramado no sofá de forma casual.

​Minha mãe apareceu na porta da cozinha, segurando uma concha. O vapor quente subia ao redor dela como uma aura.

​— O banho já está pronto, Sohyun. Vá se limpar antes que o jantar esfrie! — Ela sorriu, aquele sorriso que parecia organizar tudo o que estava fora do lugar em mim.

​— Estou indo! — Respirei fundo, deixando que a fome e o conforto guiassem meus passos até o quarto.

​Após o banho revigorante, vesti meu pijama favorito. Era como se eu estivesse envolta em uma nuvem macia. O vazio persistia em algum canto da minha mente, mas ver meus pais ali embaixo era o lembrete de que eu não estava completamente à deriva.

​— O jantar está na mesa! — o chamado veio lá de baixo.

​— Já vou! — gritei de volta, sentindo o coração finalmente leve.

​Comemos e conversamos sobre as trivialidades do dia. Era um cotidiano comum, mas para mim, era um tesouro. Quando meus pais se retiraram para descansar, a casa mergulhou em um silêncio confortável, quebrado apenas pelo tique-taque rítmico do relógio de parede.

​Lavei a louça e me joguei no sofá, deixando as almofadas me abraçarem. Olhei para o relógio: 21:45.

​— Só mais um pouco, Sohyun... — bati levemente nas bochechas para espantar o cansaço. — Você esperou a semana toda por essa atualização!

​A TV exibia comerciais genéricos que dançavam como sombras coloridas diante de mim. Lentamente, minhas pálpebras começaram a pesar. O sono não era um convite, era uma imposição.

​Não... agora não...

​Pisquei com força, mas a imagem da televisão começou a se contorcer, as cores derretendo como vapor em um dia de calor extremo.

​Então, o som veio.

​Não era o som da TV, nem do relógio. Um barulho de sinos, cristalino e ensurdecedor, ecoou dentro dos meus ouvidos, ressoando nos ossos do meu crânio. Uma luz branca, impossivelmente brilhante, irrompeu de um ponto cego da sala.

​O que é... isso...?

​Minha mente tentou lutar, mas o chamado era irresistível. Eu não estava apenas caindo no sono; eu estava caindo para fora do mundo. Senti meu corpo perder o peso, como uma folha levada por um vento invisível. O descanso profundo se aproximou com a suavidade de um sussurro mortal.

​As sombras da sala se esticaram, devorando as paredes, devorando a luz, devorando a mim. Meus olhos se fecharam por completo, e eu mergulhei no abismo frio, pronta para o desconhecido.