No time to die
1 I Wish you could be Honest
Notas iniciais
The Neighbourhood-Honest
Sirene, som de sirenes. Mexi de um lado para o outro na cama, achando que aquele som era dos meus sonhos, abri os olhos rapidamente quando percebi que não. Era real.
Levantei-me da cama em um pulo, olhei para o lado de fora, pela janela e vi policiais arrastando meu pai para fora.
— ANNELIESE, ANNELIESE EU TE AMO FILHA- Vi ele se virar para a casa e gritar. Desci as escadas correndo e saí pela porta que estava aberta. Os policiais empurravam meu pai para dentro da parte de trás da viatura.
— Pai? O que está acontecendo?- Perguntei passando a mão nos meus cabelos atordoada. Tentei alcançá-lo, mas um policial me puxou para trás, tudo estava acontecendo tão rápido...
-Você é Anneliese? — Perguntou um homem que surgiu ao meu lado, ele tinha um sorriso gentil nos lábios. Afirmei com a cabeça e olhei para a traseira do carro que meu pai estava. Ao contrario de mim, ele estava calmo, me sacudi tentando me soltar, mas o policial segurou minhas duas mãos atrás do corpo, quando escutei o motor do carro, sacudi-me com mais força.
-PAI- Gritei, consegui me soltar enquanto o carro dava a partida. Corri atrás da viatura que o levava para longe de mim, da nossa casa. Por que estavam o levando? Ele não havia feito nada. Ele é tão amável e bom comigo. Eu corri até perder o carro de vista, senti meus joelhos fraquejarem, o ar faltando nos meus pulmões, caí de joelhos no chão e desabei a chorar. Não, minha vida não podia estar tomando esse rumo.
-Tudo vai ficar bem, eu prometo!- Escutei uma voz falar, enquanto braços quentes me envolviam, chorei naquele ombro sem nem saber a quem pertencia, apenas chorei, de alguma forma eu sabia que aquela era a ultima vez em que eu estava vendo o meu pai.
— Precisamos voltar para a casa, querida, temos muito que conversar-Disse o homem me ajudando a levantar, o sol estava quente, limpei as lágrimas com as costas das mãos e vi que os vizinhos estavam na rua. Andamos em silêncio até a casa, com aquele homem fazendo pequenos círculos nas minhas costas tentando me confortar. Minha cabeça estava girando.
— Senhor Steves, a policia já fez seu serviço, precisamos levar a garota-Disse um policial assim que pisamos na varanda da minha casa, arregalei os olhos assustada e abracei o homem por segurança.
— Não, não. Levar-me para onde? Por que estão acabando com a minha vida?- Perguntei, sem conter a raiva que eu sentia daqueles fardados, apertei mais os meus braços no corpo daquele homem que eu nem sequer conhecia. Como se ele fosse meu porto seguro.
— Calma sargento!Deixa comigo, eu cuido da garota, em breve nos falaremos- Argumentou o rapaz me abraçando de volta. O sargento olhou para mim com frieza profissional e depois olhou para o rapaz, confirmou com a cabeça e saiu sem dizer nada.
— O que está acontecendo?- Perguntei quando a ultima viatura já havia partido, eu sentia meu corpo todo tremer, soltei-me do rapaz.
—Vem, você precisa comer alguma coisa- Disse caminhando para a cozinha. Fechei os olhos e respirei fundo para não dizer palavras rudes para aquele homem, meu pai acabou de ser levado pela polícia, estou sozinha e com um cara estranho na minha casa, a ultima coisa que penso é em comida. Andei até a cozinha, atrás daquele homem.
— Me Desculpe, mas acho que não consigo comer com tudo o que está acontecendo, por falar nisso... O QUE ESTÁ ACONTECENDO? QUEM É VOCÊ? — Surtei, batendo a mão na bancada de mármore que ficava no meio da cozinha. O homem parou de mexer na minha geladeira e virou-se para mim.
— Quem deve pedir desculpas sou eu, sente-se, vou explicar tudo- Falou com uma tranqüilidade absurda, apontando para o banco que estava na minha frente, sentei-me e esperei. Eu continuava tremendo.
— Seu pai foi preso sob a acusação de ser um Serial killer, ao todo, ele matou mais de 15 mulheres- Explicou bem devagar, mas sendo bem direto. Soltei uma risada nervosa.
— Uma acusação? Só pode ser piada, meu pai jamais faria isso, eles têm prova?- Perguntei, eu balançava os pés freneticamente. O homem segurou uma das minhas mãos que estavam em cima da bancada.
—Sim Anneliese, eles tem provas, seu pai vai ficar preso até o julgamento, onde sua pena será sentenciada- Argumentou segurando firme em minha mão. Senti tudo rodar, respirei fundo e lembrei-me das vezes em que meu pai me ensinou a ter controle das minhas emoções. Respirei fundo.
— E quanto a você? — Questionei olhando dentro dos olhos castanhos. O homem soltou minha mão e ajeitou a postura.
— Bem, eu sou Jack Steves, psicólogo e assistente social, estou aqui para cuidar do seu caso, já que tem apenas 16 anos — Respondeu. Uma lágrima ainda teimava em descer pelo meu rosto, olhei ao repor para a casa em que eu sempre vivi, provavelmente teria que deixá-la e morar em algum abrigo até que conseguisse um emprego.
— Vou morar em algum abrigo? — Perguntei. Jack coçou a cabeça, pensativo.
— Você vai ficar na minha casa até o julgamento, sob custódia judicial, mas depois estará livre para fazer o que quiser- Respondeu. Respirei fundo, era isso, o fim de tudo! Mordi a minha bochecha, eu precisava ficar calma.
— Posso ter um tempo sozinha, preciso arrumar as minhas coisas — Pedi, o assistente social afirmou com a cabeça.
— Volto para buscá-la em meia hora, e Anneliese, sugiro que não faça nenhuma besteira, eles vão tomar seu depoimento diversas vezes até encontrar uma contradição, então não minta e não fuja- Aconselhou Jack antes de sair da cozinha. Revirei os olhos e esperei escutar a porta bater.
Subi correndo as escadas e fui direção ao quarto do meu pai, abri a porta e entrei.
— Está na hora da limpeza- Murmurei, amarrando meu cabelo em um coque.
— Família, CHEGAMOS- Avisou Jack enquanto abria a porta da sua casa, comigo em seu encalço.
— WILL, PAOLA! QUERO VOCÊS NA SALA IMEDIATAMENTE- Ouvi uma voz feminina estridente gritar. Jack abriu mais a porta para que eu pudesse entrar, senti um cheiro de pão fresco no ar. Assim que entrei, entendi o por quê. Em pé na sala, estava uma mulher com os cabelos tingidos de loiro bem amarelado, ela era alta e magra, usava saltos vermelhos, um batom na boca do mesmo tom e estava com um avental de cozinha sujo de farinha de trigo. É normal mães usarem salto alto e batom vermelho em casa? Ao lado dela estava uma menina mais baixa, parecia à cópia da mãe, usava roupas caras e o cabelo também era tingido de loiro, a menina sorriu para mim de um jeito tão maligno que me arrepiou toda, do lado dela tinha um rapaz muito alto, mas não havia nada demais nele, o que me fez suspirar de alivio, ele usava camisa de um time de futebol e calça Jeans simples, seu cabelo era castanho escuro igual o do Jack e estava completamente bagunçado.
-Bem, Anneliese essa é a minha esposa Soraya, aqueles são meus filhos, Paola de 16 anos e Jack de 15. Pessoal, essa é a Anneliese, a nossa hóspede da vez, espero que a façam sentir –se em casa- Anunciou Jack colocando sua mão em meu ombro, enquanto todos nós entreolhávamos a Soraya não tirava o sorriso falso do rosto. Não a julgo, imagina toda vez ter que receber algum adolescente esquisito dentro de casa por causa do trabalho do marido.
— Muito obrigado por me receberem- Agradeci, tentando ser educada. Paola soltou uma risada horripilante para uma garota de 16 anos.
—Não é como se tivéssemos escolha, tente não matar nossos vizinhos e nem a nós enquanto dormirmos vai saber o que se passa na cabeça dessa gente- Criticou Paola enquanto se jogava no sofá.
— Paola!- Repreenderam três vozes juntas, respirei fundo e revirei os olhos, claro que essa patricinha não iria gostar de mim.
— Desculpe os modos da Paola, Will mostra o quarto em que a Anne vai ficar, por favor — Pediu Soraya tentando ser Legal, porém eu detestei o modo doce como ela pronunciou “Anne” . Will sorriu levemente para mim e apontou para a escada.
—Isso mesmo, aquele quarto onde outras aberrações já se hospedaram e, provavelmente daqui a duas semanas se hospedará outra. Sim queridinha, isso aqui é apenas um abrigo para gente doida como você, não vá pensando que é da família ou algo assim- Falou Paola me lançando o seu olhar mais venenoso, imaginei se ela lançaria esse olhar para mim enquanto eu apertava o seu pescoço.
— Paola, pare imediatamente com isso! Está insuportável, já passou da fase de adolescente irritada — Repreendeu Jack, preferi continuar subindo os degraus. Nas paredes havia diversas fotos em família, na maioria delas havia somente os quatro.
— Peço desculpas por Paola, ela gosta de ser venenosa- Murmurou Will quando já estávamos no andar de cima, mal reparei que ele estava carregando a minha mala que antes estava com Jack.
—Tudo bem, no fim das contas, essa casa é dela também e tudo isso não passa de um procedimento da polícia, logo meu pai vai ser julgado e eu poderei viver minha vida sem incomodar ninguém- Respondi tranquilamente, passamos por três portas que julguei serem os quartos dos donos da casa e no fim do corredor havia uma porta branca. A casa inteira era coberta por metade papel de parede estampado e um carpete verde escuro, tudo parecia estranhamente aconchegante, as portas dos outros quartos eram marrons com arabescos desenhados, mas aquela porta no fim do corredor era muito diferente, apenas pintada de branco, sem nada de especial, como se de fato dissesse que aquilo não fazia parte da casa e da família.
Will abriu a porta com cuidado e entrou primeiro do que eu e colocou a mala em um canto. Assim que entrei no quarto senti a imensa vontade de chorar, era assim que começava a minha nova vida? Um quarto branco com uma cama simples e um armário velho do outro lado do quarto? A única coisa que se salvava no quarto era a grande janela que dava para ver a rua, de resto parecia um quarto de hospital.
— Paola estava certa quando disse "Gente Doida" parece um quarto de hospício " Resmunguei, passando as mãos pelo lençol branco, tudo era tão claro que me enjoava.
— Meus pais preferem manter o quarto neutro para que qualquer pessoa possa ocupá-lo- Respondeu Wiil, mas não havia tom de reprovação da minha queixa. Levantei a cabeça e olhei em sua direção, respirei fundo para segurar a emoção.
— E estão certos, me desculpe se pareço ingrata. Mas, é errado eu dizer que prefiro meu quarto antigo?- Perguntei com a voz embargada de emoção.
— Não, não é errado, é perfeitamente normal- Tranqüilizou-me, não sei em que momento exato comecei a chorar desesperadamente, só sei que senti os braços de Will a minha volta. Abracei aquele rapaz com força e desabei toda a emoção que eu estava tentando segurar.
— Crianças, o pão já está pronto, desçam para lanchar!- Ordenou Soraya do andar de baixo, eu estava ainda abraçada a Will pelo o que pareceu uns cinco minutos, ele não protestou em nenhum momento, e gentilmente alisava as minhas costas enquanto eu botava tudo para fora.
— Acho que preciso de uns minutos sozinha, se importa de avisar a sua mãe que não descerei?- Pedi me afastando do rapaz, meus olhos estavam inchados e pesados, acho que eu precisava descansar e digerir tudo.
— Tem certeza?- Afirmei com a cabeça. — Tudo bem, eu aviso a ela, é muita coisa para processar, realmente precisa de um momento, mas se precisar de qualquer outra coisa, pode falar comigo- Falou segurando as minhas duas mãos. Afirmei com a cabeça outra vez. Will soltou minhas mãos e saiu do quarto fechando a porta em seguida, sentei-me na cama e olhei para a grande janela, de onde entrava toda a luz solar que iluminava ainda mais o quarto, precisaria de cortinas. Suspirei ao ver meu novo habitat temporário.
— Ah, pai, o que fez para te pegarem?- Perguntei retoricamente, olhando ainda para a janela. Eu teria muito trabalho pela frente.
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