No teu olhar
9 Capítulo 09 - Grite ao mundo
Notas iniciais
— Está gostando da história? – Bella saltou, ao ouvir a voz atrás dela.
— Eu não queria.... Ele estava aqui e eu apenas....
— Não tem problema, menina. – O avô a tranqüilizou. – Eu tenho esse livro faz muito tempo. Minha mãe lia para mim e a avó dela lia para minha avó, que lia para ela.
— É bonito. – Respondeu, passando os dedos no veludo da capa. – Eu só li algumas páginas. Qual a história? – Questionou.
— Conta a história de um príncipe, que se apaixonou por uma criada. A dama de companhia da irmã. A mãe dele é muito má e os separou, obrigando que ele se casasse com uma princesa.
— E ele se casou? –Indagou, curiosa, fazendo seu avô sorrir.
— Por que não lê e descobre, querida? Pode leva-lo para casa se quiser. – Declarou, fazendo com que ela sorrisse, ao começar a folhear as páginas. – Eu estarei na varanda se precisar desse velho. – Acrescentou, beijando sua testa e saindo.
Bella se sentou no chão da biblioteca, ainda admirada pelo veludo verde da capa, ainda passando seus dedos pelas gravuras, quando começou a ler.
~*~*~*~*~*~**~*~*
A buzina soou, fazendo com que ela pulasse, assustada.
— Vamos, Isabella! – Ouvi a mãe gritar, enquanto a menina, corria com o livro nas mãos.
— Até outro dia, vovô. – Se despediu, ainda agarrada ao livro. Estava apenas no começo da história, mas já não era capaz de largar.
— Até, querida. Embora eu não saiba quando sua mãe deixará que volte aqui. Sabe que ela não gosta...
— Não é verdade, vovô. Ela apenas...
— Isabella! – A chamou novamente, impaciente.
— Olá, Renée. – Anthony a cumprimentou, fazendo com que ela revirasse os olhos, olhando para o relógio.
— Vamos de uma vez, Isabella. Nessa velocidade, você se atrasará para a aula de piano e eu para minha reunião. – Resmungou, fazendo a menina caminhar até o carro.
— Ela vai voltar semana que vem? – Anthony questionou, fazendo Renée suspirar.
— Sim, ela vem, papai. Com o novo contrato da empresa, preciso que ela fique aqui pelo menos uma vez na semana. Será bom, assim não tenho que me preocupar com você aqui sozinho.
— Claro, isso seria um grande incomodo para você, não é? – Ironizou, cruzando o braços.
— Eu não tenho tempo para isso agora, papai. Vejo você semana que vem. Tem meu número se precisar de alguma coisa. – Respondeu acelerando e carro e, saindo pela estrada.
— Não precisa falar com ele assim. – Bella ralhou, brincando com o veludo da capa.
— E ele não precisava morar nesse fim de mundo. Poderia ficar em uma confortável casa de repouso no centro, onde haveriam pessoas para lhe fazer companhia.
Ao ouvir aquilo, Bella pensou em retrucar, mas de que adiantaria? Ela conhecia a mãe e sabia que sempre tinha uma resposta para tudo. Então, suspirando, abriu o livro e retomou a leitura.
Elas haviam andado há mais de meia hora, quando o carro parou, e Renée estalou os dedos a sua frente, assustando-a.
— O que? – Perguntou, olhando ao redor, se dando conta que estavam em casa.
— Chegamos. Não ouviu te chamar? O que está lendo aí? – Indagou, puxando o livro sem cuidados.
— Cuidado! É do vovô. – Explicou.
— É claro que é. Esse livro velho... Fazia tanto tempo...- Murmurou.
— Você o conhece? – Indagou curiosa.
— Seu avô viva insistindo para que eu lesse. Nunca me interessei e acho que você também não devia. – Respondeu o fechando e jogando no banco de trás.
— Ei! – Respondeu, descendo do carro e correndo para o banco de trás, o pegando e deixando longe das mãos de sua mãe.
— O que? – Questionou, colocando os óculos de sol. – É uma história boba.
— É uma história de amor! – Retrucou, agarrada ao livro.
— É fantasia, Isabella. Não existe isso de amor verdadeiro, príncipes encantados que quebram as regras por um menina pobre! É isso que é, Isabella. Apenas fantasia. Não vai te agregar em nada.
— E o que quer eu leia? Física, química? Grego, latim? Tudo o que eu faço é estudar, mamãe. E para que? – Questionou batendo a porta do carro, chamando a atenção dos vizinhos. – Eu nunca saio dessa casa. Não conheço pessoas.
— Não tem que se preparar ou estudar para os outros. Quero que seja bem educada para si própria, Isabella. Agora já chega. – Ordenou, olhando pelo vidro. – Sabe que detesto escândalos e estão todos olhando. Entre e espere pelo senhor Cullen. Eu tenho uma reunião.
— Sim, senhora. – Resmungou se virando e entrando na casa.
Ainda era cedo para a aula de piano, então Bella voltou para o livro, encantada como a história deles havia começado.
Isabella, a criada, foi encontrada ainda pequena nas margens do rio, próximo ao castelo. Havia sido abandonada e uma das criadas havia a encontrado e adotado.
Nesse castelo havia um rei, que diziam ser bom e generoso, uma rainha que apesar de parecer fria, diziam ser justa. Os soberanos haviam tido dois filho. A mais nova, se chamava Alice, enquanto o príncipe herdeiro, .... – Bella fechou o livro, ao ouvir as batidas da porta.
Correndo para abrir, encontrou ali, seu próprio príncipe.
Ela sabia que era errado nutrir qualquer sentimento por ele. Afinal, ele era mais velho e seu professor. Como poderia acabar bem? Mas nada a impedia de admira-lo.
— Hoje não está chovendo. – Comentou, fazendo com que ele sorrisse, entrando na casa.
— Não. Hoje nada de chuva. – Respondeu divertidamente. – Podemos começar?
— Claro. – Retrucou, se dirigindo ao piano e se sentando com ele ao seu lado. Antes que começassem a tocar, o livro que estava em cima do piano, chamou a atenção de Edward.
— Posso? – Questionou e ela assentiu. Sua intenção era apenas tira-lo de cima do piano, mas as gravuras da capa, chamaram sua atenção, porque ele já havia visto as mesmas gravuras antes. Em seus sonhos.
— É bonito, não é? – Bella perguntou, observando, enquanto ele admirava a capa feita de veludo.
— Sim, muito bonito. Sobre o que é? – Questionou, ainda em transe.
— Uma história de amor. Um amor proibido. – Explicou. – Eu ainda não li muito. Pelo que entendi, um príncipe se apaixonou pela criada, mas a rainha não aprovava.
— Um clássico então? – Indagou, sorrindo. – Parece... Interessante.
— É do meu avô, mas posso te emprestar. – Respondeu, se arrependendo. Talvez ele estivesse apenas sendo educado. Homens não costumavam gostar daquele tipo de história. – É claro que se não quiser, não pré...
— Eu quero. – Declarou sem hesitação. – Eu estive pensando, Isabella.
— Bella. – O corrigiu. – Pode me chamar de Bella.
— Bella. – Se corrigiu, sorrindo. – Estive pensando em nossa aulas e...
— Não diga que vai desistir. Olha, eu sei que não sou muito boa, mas eu aprendo rápido.
— Ei! Não é nada disso. – Explicou rapidamente. – Acho que você tem potencial. Eu só ia dizer que normalmente, gosto de conhecer meus alunos melhor e ...- Acrescentou, mas ao olhar para seu rosto, pôde ver a confusão. – Não é nada disso! Não conhecer desse jeito. Apenas... conhecer. Gosto de me tornar amigo dos meu alunos.
— Por que? – Indagou.
— Porque descobri que é muito mais fácil de ensinar um amigo do que um estranho. – Respondeu simplesmente. – Então? O que acha?
— Eu não sou boa em fazer amigou. – Murmurou, brincando com as mechas de cabelo.
— Bom, para começar, ajuda quando se conhece a pessoa. Eu não sei nada sobre você. As coisas que gosta e do que não gosta. Podemos começar por aí.
— Está bem. – Respondeu. – E como vai ser? – Questionou.
— Conhece o jogo das vinte perguntas? – Respondeu com uma pergunta. – Eu faço uma pergunta e você responde. O mesmo para você. Eu respondo minha pergunta, assim como você responde a sua.
— Parece... divertido. – Sorriu.
— E é. Por que não começa? – Declarou e ela sorriu pensando.
— Tudo bem... Deixe me pensar. Hum, que tal isso, você é uma pessoa da manhã ou da noite? – Perguntou, o observando, esperando a resposta.
— Está bem. Acho que esperava algo um pouco mais pessoa, mas posso lidar com isso. Eu sou músico, então aderindo aos clichês mais famosos, sou um cara totalmente da noite. Embora eu não tenha problemas em acordar cedo algumas vezes. Mas só algumas vezes. Sua vez.- Apontou para ela, que pensou para responder.
— Acho que sou da noite também. Embora eu não seja mais. – Acrescentou.
— Não é mais? – Edward perguntou e ela negou. – E por que não? O que você fazia nas noites que não faz mais? – Indagou, curioso. – Bem, se não quiser responder, tudo bem.
Bella estava sentada no sofá e ele na poltrona. Edward se levantou, se sentando ao seu lado.
— Quer dizer, as regras dizem que você só tem que responder uma... – Ele explicou, quando ela o interrompeu.
— Pintura. Eu pintava. A noite costumava ser o melhor horário. Sabe, silencioso, tranqüilo. Sem me preocupar se alguem entraria no quarto ou algo assim. Só eu e os quadros.
— Mas não mais. – Afirmou e ela negou. – Por que? Eu vejo como você fica quando fala dos quadro. Você parece... Feliz. – Explicou.
— Mamãe acha que a pintura não vai me ajudar em nada. A música por outro lado, é um passatempo melhor. – Declarou, repetindo o discurso de Renée. Tentando convencer Edward e talvez ela mesma.
— E o que você acha? – Questionou, a pegando de surpresa. Nunca perguntavam a Bella o que ela queria. Apenas lhe davam ordens e ela as seguia. Sem questionar. – Sabe, Bella, os pais são muito mais experientes do que nós, isso é verdade. Então é bom ouvi-los. Mas no final das contas, somos nós que conviveremos com nossas escolhas. Então somos nós que devemos faze-las.
Ela ouviu cada palavra com atenção, pensando em tudo que havia aberto mão, apenas porque sua mãe queria.
— Eu gosto da sua aula. – Explicou. – Mas as outras. Eu não... quero isso.
— Vamos lá, diga. – Pediu, se levantando e a puxando pela mão. – Diga como se sente, esse é o primeiro passo.
— Eu odeio latim e química e física. É cansativo e faz minha cabeça doer. Eu adorava, não, eu amava meus quadros e ela fez com que eu me desfizesse de todos eles.
— São quadros, Bella. – Explicou. – Você pode pintar outros, porque o que realmente importa, seu talento, ainda está com você. O dom do conhecimento, seja para a música, — disse apontando para o piano, — ou arte, é uma das coisas mais poderosas do mundo. Sabe por que? – Indagou.
— Por que?
— Porque ninguém pode tirar isso de você. Então diga. – Pediu, sorrindo. – Diga como se sente. Acredite, vai se sentir melhor depois disso.
Bella o observou por alguns segundos, esperando, mas ele se manteve calado, apenas esperando que ela começasse.
— Eu odeio como ela me sufoca. – Murmurou.
— Mais alto. – Pediu. – Isso tem que sair de você.
— Eu odeio como ela me sufoca! – Declarou, dessa vez alto e claro. – Odeio como ela controla cada aspecto da minha vida e como diz o que eu devo fazer e vestir como se eu fosse uma garotinha de cinco anos!
— Isso! Continue. – A incentivou.
— Odeio como ela trata meu avô, que é uma das poucas pessoas que se importam realmente comigo. Eu odeio que ela escolha como vou cortar ou usar o meu cabelo e odeio o jeito que ela fala comigo, como seu eu fosse estúpida demais para entender. – Bella respirava fundo, conforme as palavras deixavam sua boca.
— Eu odeio o jeito que ela me encara, sempre que não tem argumentos para ganhar uma discussão, então ela simplesmente me ignora e eu odeio o fato dela me afastar do meu pai. Ele é um bom pai e...
— O que é que está acontecendo aqui, Isabella? – Questionou, olhando ao redor. – Consigo ouvir seu tom de voz do lado de fora.
— Nós só estávamos... – Começou a dizer, soltando a mão de Edward e esfregando na lateral do vestido.
— Aquecimento vocal. Essa é uma parte importante das aulas. – Edward explicou, enquanto Renée o analisava.
— Pensei que você fosse professor de piano e não de canto.
— Com todo respeito, senhora, é preciso muito mais do que usar as mãos para tocar. A música é um conjunto de fatores. – Explicou, deixando Renée sem palavras. – Bom, acho que já terminamos a aula de hoje, senhorita Swan. – Acrescentou, piscando para ela, sem que Renée viesse. Isso fez com que Bella sorrisse.
Edward apanhou suas coisas e caminhou até a porta.
— Até nossa próxima aula e quando terminar de ler, adoraria levar o livro.
— Está bem. – Respondeu, incapaz de dizer outra coisa.
Assim que a porta se bateu, Renée começou o interrogatório.
— Então? Vai m dizer o que estava acontecendo? – Questionou, batendo o pé, impaciente.
— Você ouviu, nós estávamos fazendo aquecimento. Eu vou subir. – Respondeu apanhando o livro e correndo, antes que ela fosse capaz de retrucar.
A casa estava silenciosa, quando Renne havia terminado seu banho e descido em busca de uma taça de vinho. Então caminhou pela sala, observando seu tão adorado piano.
Edward era definitivamente o tipo de pessoa que Renée não aprovava. Um anarquista. Alguem que não prezava a ordem e a paz. Que adorava questionar as coisas e os sistemas.
Ela passou os dedos pelas teclas, pensando naquilo, então, com força, fechou a tampa que protegiam as teclas.
— Talvez essas aulas tenham sido um erro.. – Murmurou para si, sentindo uma perturbação interna, porque afinal, era perfeita e não cometia erros.
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