No teu olhar
3 Capítulo 03 - Você não sabe o que é amor
Notas iniciais
— Princesa? – Bella ouviu seu pai chama-la e se levantou, correndo em direção a ele.
— Você trouxe, papai? – Perguntou, ainda segurando uma de suas bonecas.
— E alguma vez eu te decepcionei, querida? – Charlie declarou, tirando das costas uma sacola com tintas, pinceis e folhas em branco.
Ao olhar para o material, os olhos de Bella se encheram de brilho, enquanto ela espalhava tudo pela sala.
— Nada disso, querida. – Renne interrompeu. – O combinado foi, nada de tinta no tapete.
— Sim, mamãe. – Bella respondeu, apanhando tudo e correndo em direção ao seu quarto. Nada poderia impedi-la agora.
— Por que a menina não pode ficar aqui, Renée? – Charlie perguntou. – São só algumas tintas.
— Porque temos um acordo. Se eu permitir que ela fique e pinte em qualquer lugar, logo as paredes estarão cheias de rabiscos. – Retrucou, passando as mãos em seu avental, perfeitamente alinhado.
— E as paredes da sua casa estarem sujas com os desenhos da sua filha, seria um erro imperdoável, não é? – Questionou, trincando os dentes.
— Não há motivo para cena, Charlie. Bella conhece e entende as regras. Agora, se já acabou...
— Sim. Eu só trouxe o material e não vou mais tomar seu tempo. Diga a Bella que eu a amo e lhe dei tchau.
— Ela sabe dessas coisas.
— Mas ainda sim, quero que diga. Isso é claro, se não for demais para o seu coração frio.
— Foi você que nos deixou. Não aja como se eu fosse a megera frívola. – Rosnou, voltando a se recompor em segundos.
— Não, claro que não. A culpa foi minha, não é? Sempre que eu chegava em casa e você mal olhava para mim, sempre que não respondia quando eu dizia o quanto eu te amava, e sempre que não correspondia aos abraços da sua filha e aos meus beijos, aquilo era sempre minha culpa.
— Isso não tem mais importância. O que está no passado, deve ficar onde está. – Respondeu, indicando a porta.
— As vezes, eu queria ter tido coragem de ter pedido a guarda dela. Imaginar como ela tem crescido aqui com você, tira meu sono de noite.
— Mas ainda sim, tudo que você tem feito são visitas esporádicas, freqüentes o suficientes para me deixar no papel de uma mãe ruim.
— Talvez eu devesse...
— Você não vai tira-la de mim, Charlie. Esqueça isso. – O interrompeu, com os olhos começando a demonstrar uma centelha de raiva.
— E o que você faria se eu tentasse? – Indagou
— Você sabe o que eu faria. – Respondeu.
— Eu cometi erros. – Murmurou. – Isso não quer...
— Sim, você cometeu erros. E o maior deles foi deixar rastros. Agora eu quero você fora da minha casa. – O interrompeu, apontando para a saída.
E a olhou, pensando na possibilidade de enfrentá-la, mas logo desconsiderou a ideia. A vida toda fora um covarde e não ia mudar agora. E com essa linha de raciocínio, partiu.
~*~*~*~*~*~*
Dias haviam se passado desde a ultima visita de seu pai, mas Bella continuava a desenhar e a pintar.
Ela estava terminando o primeiro retrato, quando ouviu a porta se abrindo.
— Esse é diferente. – Renée declarou, se aproximando.
— É uma coisa que eu queria tentar. – Respondeu, lavando os pinceis.
— E quem é? – Perguntou, analisando os traços do rosto desconhecido.
Aquela pergunta fez com que Bella perdesse a voz. O que poderia dizer? Dos seus sonhos? Aquilo sim pareceria loucura.
— Eu não tenho certeza. Apenas veio na minha cabeça. Talvez nem mesmo exista. – Respondeu, desviando o olhar. – Você pode comprar mais tintas? E talvez um cavalete?
— Eu posso pensar. Você realmente leva jeito e talvez não seja um completo desperdício.
— Obrigada.
~*~*~*~*~*~*~*~~*~*~*~*~*~
Três meses depois.
— Bella? Bella? – Renée a chamou, mas não houve resposta. Ela subiu as escadas, passando pela porta do quarto, que estava vazio. – Onde foi que essa menina se meteu? – Questionou, parando ao ouvir um barulho.
Ao abrir a porta do antigo escritório, Renée arfou de surpresa.
— O que é isso? – Questionou, olhando para a bagunça de tintas e quadros espalhados.
— Meu ateliê particular. – Bella respondeu, prendendo o cabelo e voltando a pintar.
— E quem autorizou essa mudança? – Indagou.
— Meu quarto não é grande o bastante e eu preciso de um lugar para os meus quadros.
— Então decidiu invadir o meu escritório? – Questionou.
— Eu não invadi o seu escritório. Esse é o escritório do papai.
— Charlie não tem nada dentro dessa casa e você deveria saber disso. Ele foi embora e está na hora de aceitar. Não é mais uma criança.
— Ele não teve escolha! Você não lhe deu escolha — Ela gritou.
— É nisso que você prefere acreditar? Que eu não deixei escolha? Se ele fosse ao menos um bom pai...
— Ele é um bom pai! – Respondeu.
— Ele é mesmo? E qual foi a ultima vez que ele deu o ar da graça? Faz mais de três meses.
— Você não sabe o que diz. – Retrucou.
— Não sei? Então me diga você, Isabella? Se ele é um pai tão bom, por que não pediu sua guarda quando teve a chance? Por que se limitar a fazer algumas visitas? Por que aparecer apenas para me deixar como a vilã?
— Você não precisa dele para isso. – Gritou.
— Você diz essas coisas porque não conhece a verdade. E a única razão pela qual eu permito que você continue com essa estupidez que é a pintura, é porque você tem talento, mas isso está fora de controle. – Declarou, dando as costas.
— E o que você vai fazer? Jogar tudo fora? Me prender no quarto? Eu realmente gosto de pintar. Eu amo meus quadros e não há nada que você possa fazer. E mesmo que você jogue tudo fora, o papai vai me comprar outros e ... – Respondeu, fazendo Renée se virar.
— Você tem se encontrado com ele? – Questionou, fazendo as palavras ficarem presas na garganta de Bella. – Responda, Isabella!
— Ele pelo menos me ama. – Foi tudo que ela respondeu.
— E eu não? Eu te dou um teto, comida, estudos e tudo que seus caprichos desejam. O que ele te da? Um pincel e um espírito rebelde? Você diz que ele te ama. Quando amamos alguem, não conseguimos deixa-lo. Você diz que ele a ama. Acha que ele seria capaz de ficar meses longe de você se isso fosse verdade? Você usa essa palavra, mas não faz ideia do que significa. – Respondeu, se aproximando. – Você diz que o ama, como se eu não amasse o bastante.
— Bem, — começou a dizer, olhando direto nos olhos de Renée, eu não acho que ame de verdade, já que precisaria de um coração para isso e você não tem nenhum. – Respondeu. – Sabe o que eu acho? Você me sufoca e me prende porque não conseguiu segurar o papai.
Ao ouvir essas palavras, Renée perdeu o controle, erguendo sua mão, parando apenas quando ouviu um estalo e sentiu seus dedos formigarem, enquanto Bella continuava caída.
— Bella? – A chamou, se aproximando, mas ela se encolheu para longe.
— Não toque em mim! – Ela gritou, agarrando as pernas, enquanto ainda atônita, Renée saiu do escritório.
Ao perceber que estava sozinha, Bella se levantou, olhando para seu quadro. E lá estava ele. O rapaz de cabelos ruivos e olhos verdes, ainda a encarava e ela continuava sem ter ideia de onde ela o conhecia, alem dos seus sonhos é claro.
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