No coração do inverno
2 O réquiem do fim do outono
Notas iniciais
Chovia na noite de outono.
“Onde estou?”, ela pensou. Sua cabeça doía, suas lembranças pareciam ter sumido. Tentava se lembrar do ocorrido, mas quanto mais forçava sua mente, mas sua cabeça latejava. O corpo estava estranhamente leve, como se tivesse acabado de acordar de um longo sono, mas sua cabeça pesava e a visão estava embaçada, ofuscada por um clarão que ela vira alguns minutos antes — disso ela se lembrava.
A garota de pele branca e cabelos negros e lisos estava confusa, e não podia estar diferente. Estava escuro, e a única coisa que rompia as trevas da noite do fim do outono era a lua cheia no céu sem estrelas, e o seu reflexo nas poças d’água que se formavam na grama por causa da chuva. Seus olhos castanhos claros tinham um aspecto triste e ao mesmo tempo cansado. Percebeu que vestia as mesmas roupas da última vez que tinha saído de casa. Uma camisa branca, uma calça jeans azul justa, que exaltava suas pernas e seus quadris, um tênis all star e uma pulseira marrom, presente de sua mãe. Com dificuldade, ela levantou-se, olhou em volta, e o que viu deixou-a horrorizada.
...
Era 29 de outubro, e o outono aos poucos morria com o nascer do inverno, fechando mais um ciclo. De dia o alaranjado da queda das folhas aos poucos dava lugar ao branco da neve fina, que ainda não havia tomado o lugar das chuvas, recorrentes na transição do outono para o inverno.
Mas de noite, As trevas do céu nublado, quase sem estrelas, se misturavam ao clima gélido e ao orvalho, Dando um ar melancólico ao ambiente. Soturno, mórbido.
As lágrimas escorriam na face pálida da garota de olhos castanhos. Ela tentava ir em direção à imagem que acabara de ver, mas seu corpo parecia estar paralisado pelo pânico. Ela juntou todas as suas forças, e em passos lentos foi em direção ao que parecia ser a coisa mais surreal que já tinha visto: seu próprio corpo, que estava estendido no chão, ensanguentado, alguns metros à sua frente.
“Ai meu deus!” – Ela disse com as mãos no rosto. Parecia ter tentado gritar, mas o desespero não deixou sair mais do que um mero sussurro. Ao ver seu corpo caído, estirado ao chão, ensanguentado, sua primeira reação foi caminhar em direção à ele, tentar de alguma forma socorrê-lo. Chegando nele, a garota abaixou-se, mas ao tocá-lo, suas mãos o atravessaram. Subitamente, como que em busca de respostas, ela olhou para suas próprias mãos, que estavam levemente transparentes, com um brilho incomum, como um... Fantasma.
Ela inclinou-se para trás e encostou em uma árvore. Apertou as mãos contra a cabeça, tampando os ouvidos, e fechou os olhos com força. Com um rápido movimento nas pernas, ela encostou seus joelhos nos seios pequenos e firmes. Queria, de alguma forma, se desligar do mundo... em vão.
Passaram-se 5 minutos. Ela levantou-se, foi de novo em direção ao seu corpo — ainda sem muita coragem de olhá-lo — e viu que do seu lado havia outro corpo, de um homem. Logo, uma dúvida cruel consumiu-a. Ela foi em direção ao outro corpo, que estava deitado de bruços, e ao abaixar-se para ver seu rosto, constatou que tudo aquilo que ela temia era verdade, uma verdade aterradora.
...
–AMOR!
O gritou saiu seco. O rapaz que ela tanto amara estava caído, à sua frente, ensanguentado, do lado de seu próprio corpo. Ela percebeu alguns movimentos nos dedos da mão esquerda do rapaz. Frágeis, mas eram movimentos. Porém, o corpo dela continuava lá, frio, deitado, sem movimento algum.
Era de noite, estava frio, e os corpos estavam caídos à beira de uma estrada. A escuridão era quase total, a única coisa que ainda cintilava na noite sem estrelas eram as janelas de algumas casas que haviam por ali. Uma mulher saiu de uma das casas e viu os corpos estirados no chão, cobertos de sangue, a moto destroçada, e imediatamente correu em direção ao local do acidente.
A mulher era morena, de estatura média, devia ter uns 40 e poucos anos. Ela correu para casa, parecia atordoada, mas não mais atordoada do que a garota que via o próprio corpo ensanguentado à sua frente. Pouco depois a mulher retornou com pressa. a garota tentava falar com ela, gritava ao seu ouvido, e ela parecia não se importar. Era como se a mulher não estivesse a vendo, e nem a ouvindo.
A garota tentou agarra-la pelos ombros, mas suas mãos atravessaram o corpo da mulher, que naquele momento sentiu um calafrio. Passou-se meia hora, até que duas ambulâncias chegaram ao local. Os paramédicos saíram de dentro das ambulâncias rapidamente e foram na direção dos corpos. Eles tinham pressa, sabiam da gravidade do acidente. Um homem de branco, que parecia ser o líder da equipe, falava com a mulher, que explicava o pouco que viu, e a cada palavra que ela dizia ele anotava algo em um bloco que tinha em mãos. A garota tentava falar com o homem, mas não adiantava, ninguém a via ou ouvia, e quando ela tocava alguém, o máximo que ela conseguia era causar um estranho calafrio na pessoa.
Aproveitando sua invisibilidade, a garota entrou em uma das ambulâncias sem ser vista. A garota percebeu que apesar de não conseguir tocar nada nem ninguém, ela conseguia sentar e deitar onde quisesse. As ambulâncias seguiram em direção ao centro de NY. A garota entrou na que carregava o corpo do rapaz. O alívio por perceber que o rapaz ainda estava com vida se misturava à tensão e ao mau pressentimento em relação ao seu próprio corpo, que estava na outra ambulância.
Ao longe, um prédio enorme, devia ter um pouco mais de 20 andares. Na entrada, uma placa com a inscrição “Zacary Brown Hospital”. Os enfermeiros tiraram as macas das ambulâncias, e foram apressados em direção à UTI. A garota acompanhou a maca que carregava o corpo do rapaz. Os médicos botaram vários tubos no rosto dele, e começaram a fazer curativos, mas o alívio só veio quando um homem negro, alto, de óculos, vestido de branco e com um crachá escrito Doutor A. Woodley disse que o rapaz não corria risco de vida.
O alívio da garota durou pouco tempo. Após fechar os olhos e respirar fundo, ela foi tomada pela tensão, pois sabia que o seu corpo corria perigo. A garota procurou desesperada o quarto onde seu próprio corpo estava. até tentou pedir informação à alguém, mas ninguém conseguia vê-la ou ouvi-la. Uma voz feminina do serviço de rádio falou "Dr. John Matthews, comparecer ao quarto 503 URGENTE". "Ninguém deve estar em situação mais urgente do que a minha", ela pensou, e foi em direção ao quarto 503.
...
503 O quarto estava trancado, mas isso não era problema para quem podia atravessar paredes. Ela também percebeu que conseguia se mover muito rapidamente, como num tele transporte, mas só em curtas distâncias. O relógio no quarto indicava 23:42, e o alvoroço na sala de cirurgia era grande, mas não podia ser maior do que a confusão mental da fantasma que via a si mesma deitada na sala de cirurgia.
O médico tentava administrar a operação com frieza.
–Bisturi... — e um bisturi era entregue a ele por uma de suas enfermeiras — pinça... — e uma pinça era entregue — agulha... — e a cena se repetia.
Segundos se transformavam em minutos, minutos em horas, e o tempo não era aliado dela naquele momento. sua vida estava em jogo. Eram 3:26. Já faziam quase 4 horas desde que o médico começou o procedimento cirúrgico. A sala de cirurgia era escura. Havia sete pessoas, um médico e seis enfermeiros e enfermeiras. A sala era escura, a única iluminação era uma lâmpada pendurada acima do corpo da garota que estava sendo operada.
O silêncio da sala era desesperador. Os únicos sons que podiam ser ouvidos eram o do médico pedindo os aparelhos cirúrgicos, o dos enfermeiros recebendo e passando instruções e o do aparelho que apitava ao lado do corpo, no rítmo dos batimentos cardíacos da garota.
piii... piii... piii... piii... piii... piii...
A garota estava inquieta, ofegante, desesperada. Ela andava de um lado para outro da sala de cirurgia, tentava falar com os médicos, mas era tudo em vão. Ela tinha plena consciência de que seu corpo estava na mesa de cirurgia e que, de alguma forma, ela era um fantasma. Às vezes ela sentia seu corpo a atraindo para ele, às vezes ela sentia seu corpo a repelindo... era como se ela estivesse em coma, entre a vida e a morte, e quanto mais vivo seu corpo ficava, mais ele o atraía.
O aparelho do lado da cama continuava a apitar, mas dessa vez, ele fez um som diferente, irritante, mortal.
piii... piii... piii... piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii...
Os piii, que antes eram pausados e ritmados, passaram a ser contínuos, num apito frenético. Os médicos se olharam assustados, e o desespero começou na sala de cirurgia.
Ela tentava se acalmar, imaginar que tudo acabaria bem, mas era pura ilusão. Seus problemas só estavam começando, e o que aconteceria naquela noite seria muito pior do que tudo que já havia acontecido em toda a sua vida.
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