No coração do inverno
3 O coro dos anjos de inverno
Notas iniciais
Setembro de 2009, outono de New York.
...
Acordou cedo.
Edward tomou um banho gelado, vestiu uma das suas inúmeras camisas pretas e foi para o metrô, pois ia haver ensaio da banda.
Eram duas quadras do metrô para o apartamento em que vivia. Parecia ser mais um dia como todos os outros dias de outono em NY. O clima gélido, não muito frio, mas o suficiente para dar um ar de melancolia ao ambiente, a mescla entre o cinza das nuvens chuvosas e o branco discreto da luz do sol, as folhas secas caídas ao chão.
As pessoas eram sempre as mesmas. Não direi que ele era próximo de cada uma delas, pois nunca foi muito sociável — apenas sociável o suficiente para sobreviver na selva de concreto que era NY — mas conhecia a maioria.
Chegando na central, como de costume, sentou em um dos bancos esperando seu metrô, e ficou observando as pessoas e seus mais diversos olhares vazios e sorrisos falsos, pessoas presas ao inferno cotidiano que era a rotina de uma metrópole como NY em seus momentos de menor glamour.
Distraído por causa da música em seus fones de ouvido, Edward não viu quando seu metrô chegou. Ele andou depressa e sem querer trombou em uma garota, derrubando os livros que ela carregava.
–M... Me desculpe...
–Tudo bem. eu é que sou desastrada... — Ela respondeu.
Ele estava no ponto todos os dias, então haviam muitas pessoas que ele sempre via, e ela era uma delas. Ele ajudou ela a recolher as coisas, mais por extinto do que por cavalheirismo. — Seu pai sempre dizia "Um homem deve honrar o que carrega entre as pernas", coisa que ele nunca entendera, pois seu pai era extremamente rude com todos à sua volta, inclusive com sua mulher, mãe de Edward. — Ela correu para o ônibus, e só então Edward percebeu que ela havia esquecido sua pulseira.
–EEEEEIIII!!
Ele gritou, mas ela estava apressada e não consegiu ouvir. Ele levantou, botou a pulseira no bolso e foi para o metrô.
O Ensaio acabou e ele voltou para o apartamento. Chegando lá, botou a mão no bolso direito para pegar a chave, mas quando tirou, junto das chaves estava a pulseira da garota. Isso foi o suficiente para ele não tirar ela da cabeça.
Edward passou a noite pensando nela. Sobre quem ela podia ser, o que ela fazia, sobre ele ver ela todos os dias e eles nunca terem falado nem um "oi" um para o outro... No fundo tudo aquilo era estranho. "Como é que logo eu, um homem frio e isolado vindo dos confins de Pittsburgh posso estar com uma pessoa que eu nem ao menos conheço presa em minha mente?", ele pensava consigo mesmo.
Ele botou a pulseira em cima do violão, ao lado da cama, virou e foi dormir.
...
Como sempre, o despertador tocou 7:00.
Edward tomou seu banho, comeu em um café que havia perto do apartamento e foi para o ponto. Chegando lá, sentou-se em um dos bancos, botou sua mochila -onde carregava microfones, cabos e mais toda a parafernalha que usava na banda — no chão, entre as duas pernas, e ergueu a cabeça pra olhar o movimento. quando virou sua cabeça para a direita, viu a imagem que quase havia tirado sua noite de sono.
Lá estava ela. A garota do metrô tinha a pele impecavelmente branca. Era magra, não muito, mas o suficiente para dar-lhe um aspecto delicado. Tinha cabelos negros quase totalmente lisos, emoldurando um rosto fino, com bochechas levemente rosadas e uma boca sem muita cor. Mas os olhos... os olhos cor-de-mel era o que mais atraía Edward no aspecto suave daquele rosto. havia um ar melancólico naquele olhar. Ela estava com uma calça jeans justa e uma camisa azul que, apesar do casaco preto por cima, exaltava os seios pequenos. Carregava alguns livros — deve ser universitária–, pensava Edward.
Ele chegou por trás dela e tocou em seu ombro, inseguro quanto a reação que ela poderia demonstrar. Ela tomou um leve susto e virou-se subitamente. Então ele tirou a pulseira do bolso e deu a ela.
–Eu acho que isso é seu.
–Ah... obrigada! — ela respondeu tímida
– Você deixou cair ontem quando nos esbarramos.
– É que o fecho dela está com problema...
De repente a conversa começou a fluir. Ele próprio não se entendia. Como é que o rapaz isolado que não acreditava no amor e odiava a maioria das pessoas com quem convivia estava conversando com uma pessoa com quem nunca havia conversado antes? Mas algo nela o atraía, e por mais que tudo aquilo parecesse "estranho", ele estava adorando aquela conversa.
–Eu sempre te vejo por aqui. — Ele falou — Qual é seu nome?
–Lana, Lana Winter. E o seu?
– Edward Fallen.
–Também te vejo sempre por aqui...
– É que eu tenho uma banda. Ensaiamos todos os dias... e você, o que você faz?
–Sou estudante de direito, mas trabalho como garçonete para pagar a faculdade.
– Hã? você mora só?
– Sim. Meus pais moram no interior... -naquele momento ela percebeu que seu ônibus havia chegado.- Meu ônibus chegou. eu preciso ir...
–Tudo bem. Até amanhã!
–Até!
Por impulso, antes de ela ir embora ele a chamou e disse:
–Talvez a gente possa sair qualquer dia...
"Onde você está com a cabeça??", a consciência dele gritou. Só então ele percebeu a besteira que tinha feito. Que tipo de mulher aceitaria sair com um músico - Edward sabia da fama de rebeldes sem futuro que a maioria dos músicos sofriam por lá - que nunca tinha visto na vida e que só havia conversado com ela uma vez? ainda mais uma tão tímida como ela... Mas, por algum motivo, ela o olhou e disse:
–Tudo bem!
Ela anotou um número de telefone em um pedaço de papel que ela arrancou do caderno, deu a ele e disse:
– Me ligue!
Ela deu um sorriso tímido e olhou para baixo. Suas bochechas brancas ficaram rosadas. Ela virou as costas e correu para o ônibus.
Depois daquele momento, Edward fez uma coisa que não fazia há um bom tempo... ele deu um sorriso sincero.
...
Lana não sabia muito sobre Edward.
Na verdade, não sabia quase nada. Depois da conversa que tiveram no metrô, ela sabia que ele se chamava Edward Fallen e que tinha 23 anos. Sabia que ele gostava de café e que amava a cor preta. Também sabia que ele era apaixonado por literatura, e que seu livro preferido era o Drácula, de Bram Stoker. Mas ela também sabia, desde a primeira vez que o vira, que Edward era um dos rapazes mais belos que ela já tinha visto, e que tinha 1.85m de um corpo relativamente bem definido. Cabelos negros, raros olhos azuis escuros e uma barba bem aparada, todo isso em um aspecto bem delineado na pele branca.
Eles haviam conversado apenas uma vez, mas foi o suficiente para ela sentir algo por ele, algo que ela própria não sabia discernir o que era. A personalidade levemente tímida, o jeito de olhar para baixo quando sorri , o olhar com um ar misterioso, que parecia esconder uma série de segredos... Cada detalhe nele o prendia cada vez mais em sua mente.
Ele tem o meu número. Tudo o que ele precisa é me ligar... — Ela pensava. Três motivos faziam ela não tomar a iniciativa de ligar para ele. O primeiro era a timidez, que foi um obstáculo para ela durante toda a sua vida. O segundo era o pensamento de que "o homem sempre tem que tomar a iniciativa, nunca a mulher", a qual foi instruída por suas amigas desde a infância, e o terceiro era o desejo de não querer ser incoveniente, característica de sua personalidade.
Estava escuro. Eram umas seis, sete horas. quando Edward chegou em casa. Ele ligou o celular — que praticamente só usava para os assuntos da banda e nada mais -, pegou o número dela que estava no bolso e ligou. O telefone chamava, mas ela não atendia. Esperar ela atender parecia aguardar por algo que nunca viria (Na verdade ela nem estava demorando tanto. Mas aquilo parecia uma eternidade).
Lana estava deitada no sofá, ouvindo um CD do Paramore, com um certo pessimismo em relação ao fato de Edward ligar. "é melhor pensar que as coisas nunca darão certo. pois se elas não derem, eu estarei conformada, e se derem, eu me surpreenderei", era o que ela pensava em situações como essa. Até que então, "finalmente", ele ligou. Ela ficou com o celular nas mãos, não queria atender de imediato. Aprendeu desde cedo que uma mulher nunca deve parecer "fácil" demais, até que a vontade falou mais alto e ela atendeu.
–Al... alô?
–Lana? — Ele disse por reflexo.
–Sim. -Ela respondeu meio espantada- Quem é?
–Sou eu, Edward. Nós nos falamos no ponto de ônibus...
–Ah, sim, Edward! Estava esperando você ligar! -Ela falou sem conseguir esconder a empolgação.
–Hehe! Bom... É que... achei que a gente podia sair qualquer dia...
– Eu... adoraria! -Ela respondeu tentando disfarçar a timidez.
– Bom... abriu um restaurante novo na cidade. Se chama "Le Crevet". Talvez a gente pudesse ir...
–Ah, sim! Já ouvi falar. É aquele de frutos do mar?
–É ele mesmo! Podemos ir na segunda?
–Por mim tudo bem!
–Então a gente se vê lá!
–Tomara!
Lana desligou com um sorriso no rosto.
Lana não se lembrava da última vez que havia ficado tão feliz! Ela havia saído com rapazes algumas vezes, mas todos os seus romances não passaram de pura ilusão. Ela conseguia contar mais decepções do que alegrias em seus relacionamentos. Era sexta, e não tinha aula na faculdade aos finais de semana. Isso queria dizer que Lana ia ficar 2 dias sem ir para o ponto, ou seja, dois dias sem vê-lo. Só de pensar nisso sua ansiedade aumentava, mas ela sabia que não podia comer no "Le Crevet"...
...
Eles mantiveram contato por telefone, até que o dia chegou.
Ele chegou lá primeiro e pegou a mesa. Uns dez minutos depois ela chegou.
–Hã... oi! -Ela disse com aquele sorriso tímido de sempre.
–Você está... tão... linda!
–Ob... Obrigada! -E seu rosto branco começava a ficar rosado de vergonha.
Então eles se sentaram. Eles começaram a conversar sobre as suas respectivas vidas. Sobre a banda, a faculdade, o emprego dela como garçonete... E só meia hora depois se deram conta de que estavam em um RESTAURANTE e não haviam pedido nada. Edward chamou o garçom e pediu o cardápio.
Ao ver o cardápio, Edward quase infartou. O preço de um prato simples era o cachê de três shows da banda. Era um absurdo! Mas ele não podia dizer isso a ela (ele não podia simplesmente chegar nela e dizer "Tô sem grana, vamo embora?"). Eles fizeram os pedidos e continuaram conversando.
Ele suava frio. quanto mais o tempo passava mais Edward me sentia próximo de passar maior vergonha da sua vida. Até que meia hora depois ele viu o garçom vindo na direção de sua mesa.
"Admitir que não tenho o dinheiro deve ser melhor do que descobrirem", pensou.
–EU PRECISO CONTAR ALGO!- Falaram simultaneamente.
–PRIMEIRO VOCÊ!- Falaram simultaneamente de novo.
–ENTÃO EU FALO!- Idem.
Então Lana olhou para Edward e disse:
–Tenho alergia a frutos do mar. — falou subitamente- Só aceitei vir aqui porque queria muito me encontrar com você. desculpa...
Então ela abaixou a cabeça com um olhar triste. Naquele momento ele começou a rir e ela, sem entender o motivo do riso, replicou com uma mistura de vergonha e irritação:
–M... mas, o que foi? -Ela perguntou com estranheza...
–Também tenho algo para confessar...
–o quê?
–Bom... O cachê de uma banda gótica desconhecida não é tão alto assim...
Aquele olhar triste no rosto dela se transformou em um sorriso, e aquele sorriso se transformou em uma risada. Eles se abraçaram, e abraçados saíram do restaurante. Foram para o apartamento de Edward, pediram umas pizzas, assistiram uns DVD's e deitaram juntos.
Na cama, estavam deitados de frente um para o outro. Edward botou sua mão no rosto dela, olhou para ela e disse:
–Essa está sendo a melhor noite da minha vida.
–A minha também!
Ela disse com aquele sorriso doce.
Naquele momento, como por extinto, ela ignorou todos os "ensinamentos" de suas amigas sobre o quanto uma mulher deveria se fazer de difícil e o beijou nos lábios. Foi algo natural, mútuo e essencial. Por um momento o coração gelado de Edward amoleceu, e sua vida ganhou um sentido.
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