MARCELA

Marcela estava inquieta. O rapaz com a qual ela estava saindo tentava a todo custo excitá-la e trazê-la de volta para realidade, mas ela acabava não correspondendo. Sua mente estava a mil por hora desde o momento que recebera uma mensagem de um desconhecido afirmando que sabia da existência de seu poder. Como isso é possível? Perguntava-se. Ninguém sabia. Nem mesmo o seu pai, para quem tinha a mania de contar tudo. As chances de que o desconhecido estivesse mentindo eram baixas. Ele não tinha o porquê fazer isso e nem motivos para fazer uma brincadeira de mau gosto com ela.

Gabriel parou de beijá-la no pescoço.

— Eu desisto. — Ele falou, saindo de cima dela.

Marcela ajeitou-se na cama, se sentando.

— Me desculpa, Gabi. Sei que te chamei aqui pra isso, mas... não consigo.

Ele deu de ombros.

— Tudo bem. Você pode ao menos me contar o que está acontecendo?

No escuro, Marcela encarou os olhos castanhos de Gabriel.

— Não.

Ele fingiu não estar abatido, apenas soltando um riso abafado, mas Marcela percebeu que no fundo ele tinha se ofendido com sua resposta.

— Então acho que é o meu momento de ir embora.

Gabriel se levantou e arrumou a calça que estava vestindo.

— Eu poderia te contar qualquer coisa, Gabi. Menos isso. É um assunto muito particular meu. Espero que você entenda.

Ele deu um meio sorriso, encarando-a.

— Claro, não se preocupe. — Sua feição demonstrava que ele estava chateado.

Marcela respirou fundo. Não deveria tê-lo chamado aquela noite. Mais cedo quando não conseguia parar de pensar sobre a mensagem do desconhecido, decidira que ter uma noite de sexo com Gabriel talvez fosse a melhor forma de continuar em casa, não fazer nenhuma burrice e principalmente, parar de pensar sobre a mensagem.
Agora percebia que estava prestes a desrespeitar tudo o que esperava que não fosse acontecer naquela noite.

— Você pode me dar uma carona?

Ela se levantou, acendendo a luz do quarto logo em seguida.

— Você vai sair essa hora? — Gabriel perguntou, parecendo preocupado e surpreso.

O relógio marcava meia noite e dez.

— Sim, e preciso me apressar.

Marcela pegou sua mochila da escola e abriu, jogando os materiais que estavam ali dentro no tapete. Após, abriu as suas gavetas de roupas e pegou o que julgou importante para uma viagem.

— É algum compromisso importante?

— Não, eu só não posso perder o ônibus.

— Pra onde você vai?

— Itajaí.

— Agora?

— Exatamente. — Ela respondeu, parando reta e de frente para Gabriel, com as sobrancelhas erguidas. — Mais alguma pergunta?

— Não, tudo bem. Eu te dou uma carona.

Marcela fechou o zíper de sua bolsa. Parou em frente ao espelho e deu uma última olhada em seu rosto, ajeitando seus cabelos loiros para frente. Sua expressão estava como a de uma pessoa que passara dias em claro. No momento, não tinha o que fazer para melhorar.

Abriu a porta do quarto.

— Vamos?

Eles saíram de casa direto para o carro de Gabriel.

— Seu pai não está? — Ele perguntou, colocando a chave na ignição e dando partida.

— Ele quase nunca está. — Marcela respondeu, olhando para a janela. — Pra ele, ser o dono de uma empresa importante é diretamente proporcional a ser sempre a última pessoa a sair do escritório.

— Mas já passou da meia noite.

— Então ele só deve estar comendo a gerente do departamento de marketing. Às vezes tem dessas também.

— Deve ser difícil pra você.

— Eu não me importo com quem ele está dormindo. Meus pais são divorciados há anos. Fazem o que quiserem.

Gabriel riu com a sua sinceridade.

— Eu estava me referindo a ficar sozinha por muito tempo.

— Ah.

Ela retomou o seu olhar para Gabriel. Ele continha uma beleza padrão europeia ou apenas blumenauensce. Seus cabelos eram tão loiros quanto os de Marcela e, se não fossem os olhos, poder-se-ia dizer que eram suas versões de sexo oposto. Mas, ao mesmo tempo, era engraçado como ele se interessava por ela. O rapaz era extremamente bonito e atencioso. Praticamente algo inédito para a lista de homens que Marcela já havia se envolvido. Os dois estavam saindo há pouco menos de um mês e parecia que ele queria algo a mais. Talvez fosse até por isso que ele havia ficado um pouco chateado com as suas palavras naquela noite.
Os olhos dele desviaram da estrada para os dela.

— Se te reconforta, meus pais também são divorciados e basicamente toda a atenção que eu ganho é da minha avó.

— Eu não tenho problema com a atenção que meus pais me dão. O bom é que eles competem sobre quem vai me dar o bem material mais inútil e caro para tentar me agradar.

Gabriel riu. Marcela não tinha certeza se suas últimas palavras estavam carregadas de honestidade.

— Mas então, você vai se encontrar com alguém agora?

— Você quer saber se eu vou me encontrar com algum outro menino?

— Eu não queria perguntar diretamente...

Marcela riu.

— Eu vou pra casa da minha mãe.

— Ah, é verdade. — Seus ombros pareceram relaxar. — Você tinha me dito mesmo que ela mora em Itajaí..., mas por que a pressa?

— É que eu estou com muitas saudades — ela mentiu. Gabriel pareceu acreditar, ou pelo menos foi o que demonstrou.

O carro parou em frente ao terminal rodoviário de Blumenau. Marcela colocou a sua mochila em suas costas e abriu a porta.

— Muito obrigada, Gabi. — Ela se aproximou para dar-lhe um selinho.
Ao sair, Gabriel puxou-a pela nuca, com cuidado, fazendo-a voltar para um beijo mais longo.

— Só para que você possa pensar sobre o que perdeu essa noite.

Marcela riu. Saiu por completo do carro e foi em direção às agências de ônibus. Parou em frente a Catarinense – que já não tinha nenhuma pessoa na fila – e comprou a passagem. Para seu azar, o próximo ônibus saiu só uma da manhã.



A viagem foi mais longa do que ela esperava. Não tinha visto que o ônibus que comprara a passagem iria passar nos terminais das cidades próximas. Isso fez com que a viagem demorasse mais quarenta e cinco minutos além do esperado.

Contudo, tivera tempo de sobra para refletir sobre o que faria no momento que seus pés pisassem no solo de Itajaí. Não sabia o que esperar.

Seu celular vibrou e a mensagem de seu pai dizendo “ok” apareceu na tela. Durante a viagem, tivera tempo para avisá-lo de que estaria indo para a casa da mãe. Essa já estava avisada de que Marcela iria para lá e tinha lhe dito que deixaria a chave embaixo do tapete, para que ela pudesse entrar assim que chegasse, pois ela e seu marido já estariam dormindo.

Ao descer no terminal rodoviário de Itajaí, o local parecia ainda mais macabro do que o normal. As falhas de iluminação em alguns pontos, a luz meio amarelada, ou mesmo a falta de pessoas, deixavam o clima estranho. Marcela apertou sua mochila em suas costas, saindo da plataforma e passando pela fileira de bancos, em que se encontravam apenas homens com aspecto de bêbados, prestes a puxar alguma briga ou assediá-la de alguma forma.

Quando saiu do radar das pessoas e deixou de ser novidade ali no local, seus olhos vasculharam todas os garotos que poderiam ser o responsável pela mensagem enviada. O relógio marcava exatamente três horas e quinze minutos e ele havia dito que estaria por ali às três, pontualmente.

Seus olhos pousaram sobre um garoto alto e magro, de cabelos escuros e lisos. Ele vestia um conjunto todo preto e tinha uma mochila nas costas. No entanto, ele não estava sozinho. Ao seu lado encontrava-se uma garota, cerca de vinte centímetros mais baixa, com os cabelos tão escuros e lisos quanto os do garoto. Marcela não sabia quem era a garota, mas tinha quase certeza de que o rapaz ao seu lado era quem procurava.

No instante em que deu o primeiro passo na direção dos dois, os olhos azuis profundos do rapaz vieram de encontro com os de Marcela. Ela se aproximou e, perto o suficiente para ouvi-los, o rapaz disse:

— Sim, é isso mesmo que você está pensando: somos nós.

Notas finais
Oie, tem alguém aqui?