Notas iniciais
Oie, espero que goste ;)


BRUNA

Dentro do terminal rodoviário de Itajaí, Bruna aguardava sentada, observando os cantos do local. Tinha avistado o rapaz que havia lhe mandado mensagem. Ao menos era a pessoa que mais se parecia com o homem da conversa. Ele era incrivelmente alto e magro, tanto sua calça quanto sua camiseta eram pretas e o cabelo era meio caído e grande. Bruna poderia jurar que ele tinha saído de algum clipe emo dos anos 2000.

No entanto, ela permanecia quieta em seu lugar, esperando para ver quais seriam seus próximos movimentos. Ele parecia impaciente. A garota em seu lado, que também era um pouco estranha, olhava o relógio em seu pulso com frequência. Pouco tempo depois os dois pareciam estar discutindo, mas quando Bruna achou que as coisas iriam ficar boas, a conversa cessou.

Ainda sentada, ela mexia os pés com frequência, tendo como forma de expor a sua ansiedade. Não sabia o que esperar e não sabia se esperar estava sendo o mais correto. A verdade é que estava com medo.

Passaram-se aproximadamente cinco minutos até que eles começaram a andar na direção de uma mulher loira. Ela era tão branca quanto um papel e carregava uma mochila nas costas. Ela deu dois passos para trás, quando os dois apareceram na sua frente.

Bruna levantou-se da cadeira, imaginando que esse seria o momento perfeito para ir até eles.

Ao se aproximar, o garoto virou-se em sua direção.

— Ah, olha só. Ótimo que as duas chegaram. Vocês preferem conversar aqui ou querem ir para outro lugar?

— Aqui está bom — respondeu Bruna.

— Concordo — disse a loira.

— Primeiramente, meu nome é Daniela — a outra garota se manifestou, estendendo sua mão para cumprimentá-las. — Estamos aqui de boas e não queremos causar nenhuma confusão.

— Exatamente — complementou o rapaz. — Como eu disse a vocês, meu nome é Filipe. Não as chamaria se não fosse extremamente necessário.

— Bruna — apresentou-se, olhando na direção da loira.

— Marcela — disse ela. — Há mais alguém ou nós duas fomos as únicas que os dois manipularam para vir até aqui?

— Nesse momento, vocês são as únicas — Daniela respondeu.

— E podemos saber o que é esse “extremamente necessário”? — Bruna perguntou, cruzando seus braços. — Quero detalhes de como você descobriu o que descobriu.

— É claro, vocês têm esse direito. — O rapaz mexeu em seus cabelos pretos. — Só não poderei contá-las agora.

— E o porquê disso? — Marcela questionou.

— Porque é uma questão muito mais ampla do que parece. Além disso, não estamos no lugar certo e na hora certa. Se vocês quiserem vir com a gente, poderemos contar tudo o que quiserem saber.
Bruna riu de forma debochada da resposta de Filipe. Seu corpo estava tremendo por dentro, com um misto de raiva e nervosismo.

— Você está brincando, não é? Eu tive que sair do conforto da minha cama, que inclusive é em outra cidade, para vir até aqui e você me dizer isso?! Há-há-há. Engraçado. Agora diz logo o que você quer comigo antes que as coisas comecem a ficar estranhas.

— O que você sequer está querendo dizer com isso? — Daniela perguntou-a, com sua postura reta, semicerrando seus olhos na direção de Bruna.

— Eu concordo com ela — Marcela apontou para Bruna. — Digam logo o que vocês querem.

— Bom, — Filipe deu um leve riso, incrédulo — eu ia chegar lá.

— Então se apresse — Marcela disse.

Bruna voltou a cruzar seus braços.

— Há seis meses eu fui sequestrado. — Filipe começou a dizer.

Marcela ergueu suas sobrancelhas e Bruna permaneceu no lugar, sem se mexer ou expressar qualquer sentimento ou comoção com o início da história.

— Foram os piores três meses da minha vida. Eu fui torturado de diversas formas. Tanto fisicamente quanto mentalmente. Eu ainda tenho as marcas das chicotadas que levei. — Ele ergueu um pedaço de sua camiseta e uma parte de sua pele tinha uma grande cicatriz que vinha desde perto do seu umbigo até a calça, onde não conseguiam mais ver.

Daniela abaixou a cabeça, mordendo o lábio inferior.

— Eu sei que é horrível e não quero que vocês achem que isso é vitimismo. — Filipe encarou-as, sério. — A questão é que eles não vão parar de sequestrar e torturar pessoas. Precisamos acabar com eles antes que nos encontrem. Todos sabemos qual é o fator comum aqui entre nós quatro. Eles conseguiram me encontrar e faltava pouco para que encontrassem vocês também. Não buscaram por minha irmã — ele olhou na direção de Dani — porque fiz um acordo com eles. E foi só, ou ela teria sido torturada comigo.

— Você o quê?! — Daniela bateu no braço do irmão. — Você não tinha esse direito!

— Dani, por favor. Depois conversamos sobre isso.

Ela enxugou uma lágrima que havia caído de seus olhos. Bruna encarou Marcela. Ela demonstrava estar acreditando fielmente na história que estava sendo contada.

— Você está querendo nos dizer que eles estão procurando por pessoas com... poderes? — Marcela perguntou, abaixando o tom de voz na última palavra.

— Exatamente. Ontem foi eu e amanhã pode ser vocês. É apenas questão de tempo.

— Mas você está deixando uma parte importante de fora. — Bruna começou a dizer e o olhar de Filipe encontrou com o seu. — Como conseguiu escapar? De onde têm todas essas informações?

— Posso te contar como escapei se resolver se juntar a nós. Não estamos sozinhos. Não somos apenas Daniela e eu. Temos mais pessoas. Pessoas com poderes. Agora de onde eu retirei as informações? Eu consegui dar uma olhada nos arquivos deles antes de fugir. O nome de vocês estava lá.

— E por qual motivo foi tão fácil para você nos encontrar e eles não? — Questionou Marcela.

— Essa resposta nós ainda não sabemos — respondeu Daniela.

— Sinto muito pelo que você está me contando, Filipe. — Começou a dizer Bruna. — Mas eu tenho um trabalho aqui e não posso largar tudo do nada. Eu tenho a minha avó e não quero deixá-la sozinha por isso.

Daniela ergueu o olhar.

— Espero que ela não saiba como é ter alguém de sua família sequestrado.

Bruna respirou fundo.

— Não deixarei que isso aconteça. Vocês me alertaram, ficarei esperta.

— E quanto a você, Marcela? — Filipe perguntou, encarando-a.

— Também não acho que seja tão simples. Vocês me deram informações sobre o motivo, mas preciso de mais. Preciso saber como...

— Vamos te dar isso também, se vier conosco — respondeu Filipe.

— Eu preciso pensar melhor. Espero que vocês entendam.

— Não entendo — retrucou Daniela.

— É uma escolha sua.

— Bom... receio que não podemos fazer nada — Filipe finalizou a conversa. — Vamos, Dani. Teremos que voltar para casa hoje. Não era o planejado, mas...

Os dois se viraram na direção da saída do terminal e começaram a ir embora.

— Que loucura — comentou Marcela.

— Loucura é eles nos pedirem para lutar com eles.

— Apesar disso, o motivo até é plausível. Estamos na reta também.

— Infelizmente.

As duas encararam o nada e o silêncio tomou conta do local.

— Você mora onde? — Marcela perguntou.

— Em Balneário. E você? Vi que chegou de um ônibus.

— Em Blumenau. Mas minha mãe mora aqui em Itajaí. — Respondeu ela.

— Você tem como voltar para casa?

— Tenho sim. — Bruna abriu o aplicativo do Uber no celular.

— Bom, as circunstâncias não foram boas, mas é um prazer finalmente conhecer outras pessoas com poderes. Até por aí. — Marcela se despediu, começando a andar até a saída também.

— É, isso realmente foi importante.

Marcela sorriu.

— Pois é.


Depois de se revirar mais de uma hora na cama tentando dormir, Bruna levantou-se. Estava destinada a ir até a casa de Ana e sabia que, apesar de serem praticamente cinco da manhã, ela estaria acordada.

Ana nunca havia se incomodado de receber visitas surpresas de Bruna e as duas saberiam bem como aproveitar o tempo que usariam tentando dormir. Além do mais, precisava urgentemente conversar com alguém. Talvez fosse até mesmo o momento de contá-la sobre seu poder e pedir algum tipo de orientação de fora.

Pegou um casaco leve em seu guarda-roupa, escovou os dentes, colocou a mochila nas costas e saiu de casa, sem fazer qualquer barulho que pudesse acordar sua avó. Bruna nem conseguia acreditar na sorte que tinha de sua insônia estar batendo justamente no dia da sua folga.

Depois de dez minutos andando, ela já estava na frente do condomínio de Ana. Era um condomínio bem classe média alta, com uma portaria eletrônica e um sistema de jardinagem na frente do prédio branco e tecnológico. O único barulho presente era o do jardim sendo irrigado por uma máquina automática.

Discou o número do apartamento de Ana e apertou. Essa era, com certeza, uma das maiores vantagens de estar saindo com uma mulher já independente e que morava sozinha. Ana já estava quase se formando no curso de Publicidade e Propaganda e trabalhava em casa como freelancer. Fora isso, Ana era parecida com Bruna em diversos sentidos e ela era apaixonada nisso.

Demorou cerca de dez segundos para que Ana atendesse o interfone.

— Alô? — a voz dela demonstrava confusão.

— Oi, Ana. Sou eu.

— Bruna?

— Isso.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não, eu só queria te ver.

Ana ficou em silêncio alguns segundos.

— Certo... estou indo aí.

— Tá bom — respondeu Bruna.

No momento em que Ana desligou o interfone, Bruna sabia que havia algo errado. Não era comum que Ana viesse buscá-la diretamente no portão, mas sim que abrisse o portão de dentro do apartamento. A ansiedade tomou conta de seu peito, que se apertou.

Na estrada de pedra do jardim, surgiu a figura de Ana. Ela estava vestindo um roupão verde claro e seus cabelos cacheados estavam amarrados em um coque. Ela vinha segurando um cigarro entre os dedos e alternava entre tragar e olhar em sua direção.

— Oi, cheiro — disse Bruna, assim que ela se aproximou o suficiente para abrir o portão.

— Oi, meu amor. — Falou Ana, abraçando-a.

— Posso entrar?

Ana tragou seu cigarro mais uma vez.

— Não.

— Perdão?

— Eu vou ser direta com você, Bruna. Eu estou com outra pessoa lá em cima.

As sobrancelhas de Bruna se ergueram.
— Nossa.

— Eu realmente não estava esperando a sua visita hoje.

— É, notei.

— Você está chateada?

— Claro que não, Ana! Eu adoro ter na minha mente a ideia de que você está sendo fodida por outra mulher. A ideia não, a certeza agora.

— Por favor, não faça isso.

— Isso o quê?

— Isso mesmo. — Ana falou, com seriedade. — Esse seu tom de voz me repreendendo como se eu estivesse fazendo algo errado.

— Eu não estou repreendendo nada, Ana. Você é uma mulher solteira, faça o que quiser.

Bruna deu três passos para trás e começou a andar de volta para casa.

— Me manda uma mensagem para conversarmos, depois que você esfriar a cabeça.

— Vai se foder.

O céu relampejou e o barulho foi estrondeante.

Bruna sabia que estava errada e não tinha motivos suficiente para estar braba com Ana, pois ela estava em sua razão. As duas eram mulheres solteiras e independentes, portanto faziam o que queriam. No entanto, não conseguia se livrar da sensação de que havia sido traída.

— Para com isso, Bruna — murmurou para si mesma.

A primeira gota de chuva tocou sua testa e, depois dessa, milhares de outras despencaram do céu. A chuva daquela noite foi forte e Bruna não tinha a menor intenção de tornar o clima um pouco diferente, apesar de poder.



No dia seguinte, Bruna acordou com uma ligação. Depois de uma longa conversa com o seu chefe e tentando entender os motivos, descobriu que fazia parte da mais nova estatística brasileira de desempregados. Sob o chuveiro, não conseguiu conter as lágrimas e chorou por tudo que já havia um dia chorado. Tanto por Ana, tanto por seu emprego e tanto por seus pais que agora estavam longe e a não queriam perto.

Sua demora foi tanta que foi preciso que sua avó batesse na porta para que ela se lembrasse que não podia enrolar tanto assim. Fechou o registro e se secou, se enrolando na toalha logo em seguida.

Ao abrir a porta, sua avó lhe encarava. Seus cabelos grisalhos estavam bagunçados e ela tinha uma vassoura na mão.

— O que aconteceu? — Perguntou sua avó.

— Nada.

— Você sabe que é pecado mentir para sua vó. Além disso, deu pra ouvir você chorando no chuveiro. Você chora muito alto.

— Perdi o emprego — respondeu Bruna, cabisbaixa. — E perdi a menina que eu gosto.

— Aquela que veio aqui?

— Sim, essa mesma.

— Poxa, que pena. Achei que dessa vez você se ajeitaria com uma só.

— Que isso, vó — ela riu.

— E por que perdeu o emprego?

— Corte de gastos.

— Que filhos da puta — xingou ela.

— E o que você vai fazer agora?

Bruna levou cerca de vinte segundos para responder:

— Acho que uma viagem.

Sua avó deu um sorriso.

— É disso que você precisa.

— A senhora acha que ficará bem sozinha?

— Eu estive sozinha nos últimos dez anos desde o falecimento do seu avô. Além disso, eu nunca estou realmente sozinha. Eu faço aquela piranha da Lurdes me visitar todo dia.

— A senhora é incrível, sabia?

Bruna se aproximou para beijá-la na cabeça.

— Eu sei.

Notas finais
É isso. Obrigada a quem leu :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.