No amanhecer
1 Primeiro
Notas iniciais
Sentada à mesa de jantar, admirando os olhos azuis e cansados de seu irmão, a Albuquerque mais nova repassava em sua mente três meses de sofrimento constante que esteve desde o momento que o irmão dera como desaparecido até o momento que ele retornou.
Daniela ainda não acreditava que ele estava ali. Presente em carne e osso e não apenas em sua imaginação. Já não era mais fruto do seu desejo de revê-lo.
Ela se lembrava até mesmo dos detalhes do dia que o irmão voltara:
Era uma noite de inverno e, prestes a se deitar para ir dormir, Dani se enrolou nas cobertas e, segurando-as junto ao corpo, desceu as escadas que levavam do corredor dos quartos para a sala e a cozinha. A casa estava totalmente escura e o som do vento batendo nas janelas se fazia presente. Era a noite mais fria do inverno de Itajaí.
Prestes a virar para a cozinha, ouviu uma batida na porta. Deu a volta e olhou para fora através do olho mágico, em que não conseguiu ver ninguém. Para tentar pegar o engraçadinho que batera na porta e saíra, ela a abriu e foi quando se deparou com o irmão caído de joelhos ao chão, de modo a esquentar seu corpo que trajava apenas uma camiseta regata e uma bermuda. A reação instintiva de Dani foi soltar um grito, acordando os pais que já dormiam.
“Filipe?” Ela perguntou e ele olhou para cima. Dani não pôde deixar de reparar que o irmão tinha emagrecido muito, dando para ver os ossos de seus ombros. Mas nada mais importava. Ela se agachou e abraçou o irmão, com lágrimas lhe escorrendo dos olhos, passou as cobertas para cima do corpo dele. Não demorou muito para os pais descerem assustados e se juntarem ao abraço.
Era inegável que o irmão tinha mudado desde então. Ele sempre havia sido extremamente alto astral, popular e brincalhão em casa e na universidade. Mas desde que colocou os pés de volta em casa, ele tinha se tornado uma pessoa mais fria, introspectiva e se recusava a contar detalhes sobre o que tinham feito com ele durante os seus três meses de cativeiro.
A psicóloga que tratava de Filipe tinha passado à família que era normal que isso acontecesse, devido ao período traumático que ele havia passado. Mas no fundo, Dani desejava que o irmão voltasse logo como era para que pudessem conversar como antes.
— Se você continuar me olhando, a comida vai esfriar.
Dani concordou com a cabeça.
— É só que eu ainda não acredito que você está mesmo aqui.
Filipe esboçou um meio sorriso.
— Nem eu.
— Você não tem ideia de como eu senti a sua falta. Nem eu achei que conseguiria sentir tanto sua falta assim.
— Agora está tudo bem, Dani.
— É verdade, eu...
— Mas logo não vai mais estar e preciso que você tente não se acostumar comigo aqui novamente — Filipe a interrompeu no meio da fala.
O corpo de Daniela entrou em estado de emergência.
— O que você quer dizer com isso?
Filipe passou os dedos entre seus cabelos, respirou fundo e disse:
— Eu encontrei as pessoas que faltavam. E vou convencê-las a me ajudar a destruir aqueles filhos da puta que me prenderam. — Sua voz tinha raiva e ódio.
— Filipe, você está louco? — Dani se exaltou.
— Acho que nunca estive tão sã em toda a minha vida, Dani.
— Você tinha dito aos policiais que não sabia quem era que tinha te sequestrado.
— Eu menti.
— Por quê?
— Porque eles são perigosos. Apenas pessoas como você e eu... pessoas diferentes, vão conseguir combatê-los. Eu não quero arriscar a vida de quem eu sei que não consegue.
— Você não sabe se eles não conseguem! Essas pessoas são policiais e detetives... e eles são treinados para isso.
— Não seja ingênua, Dani. Você sabe o porquê vieram atrás de mim. — Ele deu um breve sorriso — E se eu não resolver esse problema, virão atrás de você também.
— Você não tem certeza.
— Eu tenho. Eu estive lá.
— E o que você pretende fazer? O que acha que vai ser diferente? — Perguntou Dani, com o coração pesado. — Eles vão acabar te mantendo em cativeiro novamente!
— É uma possibilidade, eu sei disso. Mas dessa vez eu não estarei sozinho, tenho certeza.
— Eu não quero perder o meu irmão de novo — finalizou Dani, com a raiva de sua voz dando lugar a tristeza.
Filipe não respondeu mais.
Já passava da meia noite e Daniela, sentada à frente de uma mesa, com seu caderno de poesias aberto e a caneta à mão, tentava pensar em um novo trecho para sua nova poesia.
Não conseguia.
A conversa com o seu irmão no café da manhã ainda não havia saído de sua mente e ela torturava-se a pensar se deveria ou não dedurar o irmão aos seus pais. O ponto positivo e inegável é que seu irmão continuaria em segurança, contudo, ele nunca a perdoaria. Tinha certeza.
Não sabia o que fazer.
Voltou algumas páginas de suas poesias e releu uma da época que ele estava sumido. A dor em suas palavras eram duras. Por muito tempo havia pensando em acabar com essa dor, mas sabia que geraria uma maior que seus pais não poderiam aguentar.
Prestes a riscar mais uma palavra em seu caderno, ouviu o barulho do ranger do portão da garagem. Rapidamente, levantou-se para olhar. Seu irmão, com uma mochila nas costas, estava o fechado e saindo de casa.
Foi quando Dani tomou sua decisão.
Encarou a figura do irmão saindo pela rua e, alguns instantes depois, encontrava-se de frente para ele. A reação de Filipe foi a esperada: assustou-se e de assustado sua expressão passou para raiva.
— Dani, já conversei com você que não podemos sair por aí utilizando nossos poderes. E se alguém vir?
— Não tem essa, Filipe. Para onde você está indo?
— Eu não vou te contar e você não vai me impedir de ir. Eu confio em você, por favor.
— Eu não falei em momento algum que vou te impedir.
— Então...?
— Eu vou com você.
— Não, claro que não. Você não pode.
— Por que não? Você mesmo falou que precisa de pessoas diferentes para combater quem foi que te sequestrou e você sabe que eu tenho motivo para também ter raiva.
— Mas Dani, e os nossos pais?
— Eu mando uma mensagem avisando que vamos viajar.
— Eles vão surtar.
— E não surtariam se você sumisse sem avisá-los?
— Sim, mas...
— Estou indo com você, Filipe. E não pode me impedir também.
— Certo, e sua bolsa já está pronta?
— Eu não esperava ter que fugir hoje, mas é rápido. Vamos voltar, você me ajuda e já saímos.
Filipe abaixou a cabeça, passando a mão em seus cabelos pretos. Ele estava pensativo.
— Certo, mas depois você vai voltar pra casa e eu vou seguir luta. Em nenhuma hipótese levarei você para lutar contra alguém.
— Combinado — respondeu Dani, já sabendo que não cumpriria com o acordo.
— Agora vamos logo que eu marquei com as outras duas às 03h.
Eles voltaram a caminhar para dentro da casa.
— E elas vão?
— Com certeza sim.
— Eu não me encontraria com um homem desconhecido às três da manhã.
— Digamos que... eu falei que sabia dos poderes delas.
Eles entraram em casa e Dani fechou a porta.
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