No Tempo Delicado do Amor
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Capítulo 4
Pov Elisa
O carro foi parando próximo a uma casa entre uma floresta e um pequeno lago, era linda, deslumbrante. Descemos e fomos recebidos por uma Susana animada.
-Filho, Elisa. Vocês chegaram! — disse Susana abraçando a Sam e vindo em minha direção. — Vocês devem ser Olivia e Nicolas, amigos da Lisa, estou certa? — eles concordaram. — Sejam bem vindos queridos.
— Obrigada Susana. — disse Liv.
Ela sorriu, eu e Livia entramos com ela enquanto os meninos pegavam as coisas no porta malas, Susana nos apresentou a casa e o quarto para cada um.
-Lisa, seu quarto, meu bem. — disse Susana animada abrindo a porta do quarto a frente.
-Não precisava Susie, eu poderia dividir com a Beca.
-Meu bem, o que essa casa mais tem é quartos. — disse rindo. — Bert é exagerado por natureza. Quero que fique bem à vontade, você é da família. — sorriu dando uma piscadinha.
— Obrigada Susie! — abracei e ela saiu para terminar algumas coisas pela casa.
Não consegui discutir com Susana. Ela tinha uma facilidade quase sobrenatural para me convencer do que queria. Quando entrei no quarto que ela havia preparado para mim, respirei fundo. A primeira coisa que chamou minha atenção foi a sacada: dali eu via o lago, calmo, refletindo o céu, cercado por árvores altas que balançavam devagar. Um pequeno paraíso escondido.
Estava apreciando a vista quando ouvi duas batidas gentis na porta.
— Entra — respondi, ainda voltada para a sacada.
— Licença, Lisa — disse Sam, entrando devagar. — Vim deixar suas coisas.
Virei-me para ele e sorri de leve.
— Obrigada, Sam. Pode deixar ali na cama.
Ele assentiu e colocou minha bolsa sobre o colchão. Percebi, por um instante breve, que havia algo diferente em seu olhar — uma espécie de intensidade silenciosa que fez meu estômago revirar. Sam caminhou até a sacada e parou ao meu lado, observando a paisagem como se ela guardasse respostas.
— Eu amo essa vista — murmurou, com a voz baixa e rouca. — Esse lugar me traz uma paz… é aqui que eu consigo sentir tudo o que carrego no coração.
— É realmente especial — concordei, aproximando-me sem perceber.
Antes que eu pudesse dizer algo mais, senti seus braços me envolverem. Um abraço inesperado, firme, quente. Meu corpo reagiu primeiro com surpresa; tentei recuar, mas a intensidade do toque dele fez minhas defesas caírem. Acabei cedendo, deixando minha cabeça repousar contra seu peito. Sam pousou um beijo suave na minha testa — um gesto tão terno que me tirou o ar — e então se afastou devagar, como se tivesse medo de ter ultrapassado algum limite.
Fiquei ali, imóvel, tentando entender o que aquele abraço significava… e o que significava para mim.
Depois que ele saiu, permaneci olhando a paisagem, mas já não enxergava nada além do turbilhão dentro de mim. Sentei-me na cama com o coração acelerado. Eu não conseguia compreender o que estava acontecendo. Tudo entre nós parecia… mais. Mais intenso, mais confuso, mais profundo.
As palavras de Liv ecoaram como se estivessem sendo sussurradas ao meu lado:
“Tem certeza que o que sente por Samuel é só amizade?”
Um nó se formou na minha garganta.
— Não sei o que é… mas eu vou descobrir — murmurei para mim mesma, abraçando meus próprios joelhos enquanto tentava acalmar a tempestade dentro de mim.
Levantei, fui para sala e Roberto estava conversando com os rapazes.
-Pequena Elisa! — disse Rob vindo me abraçar.
-Oi Roberto, tudo bem? — perguntei retribuindo o abraço.
-Mas que bem com minha família reunida. — ele disse voltando a se sentar. — E você? Como está o trabalho? Lucas não anda te sobrecarregando?
-Estou bem Roberto. — ri da cara que Luc estava com o comentário do próprio pai. — Luke é um chefe maravilhoso.
-Viu, sou o chefe do ano. — caímos na gargalhada.
Ficamos conversando sobre diversos assuntos até o almoço estar pronto. Me sentei ao lado de Beca e de frente para Luc e Sam. A comida estava uma delícia e o papo da mesa era sobre o passeio até as Cataratas Multnomah.
-Olivia, como você e Nico se conheceram? — perguntou Susie.
-Bom, — disse Liv — foi na faculdade e…
Flashback ON
Era o primeiro dia de aula, Nico e eu estávamos chegando no campus da faculdade, eu cursaria economia e ele publicidade. Estávamos animados com a novidade de morar em Portland.
-Lis, vou para minhas aulas. Boa sorte. — disse me abraçando.
-Pra você também Nick. Nos vemos no refeitório mais tarde. — sorri.
Fomos cada um para sua direção, minhas aulas foram interessantes, estava animada com o curso. No horário do intervalo, estava indo em direção ao refeitório quando esbarro em alguém saindo de uma sala, meus livros caem se misturando com os da pessoa em questão.
-Perdão, estava distraída. — disse uma voz feminina.
-Tudo bem. — disse pegando meus livros e os dela. — tome seus livros. — olhei em seus olhos e comecei a reparar na garota à minha frente. Baixinha, morena, bem vestida e o rosto mais fofo que eu havia visto.
-Obrigada! — disse ela pegando — como é seu nome?
— Elisa, mas pode me chamar de Lisa. E o seu? — perguntei.
— Olivia, Olivia Seent. — disse sorrindo.
-Bom Olivia foi muito bom te conhecer, tenho que ir para o refeitório agora, se me der licença. — disse me virando.
-Espera, posso ir com você? — perguntou — estou indo pra lá também.
-Ok, vou encontrar meu amigo. Vamos?
Ela concordou e fomos até o refeitório, procurei Nico por toda parte e avistei ele no fundo do refeitório, perto das janelas. Me aproximei com Olivia atrás de mim
-Oi amigo, desculpe a demora. — disse colocando minhas coisas na mesa. — Deixa eu te apresentar, essa é a Olivia. — disse olhando para uma possível nova amiga — Livia, esse é Nicolas, meu melhor amigo.
-Oi! — disseram os dois juntos.
Sentamos e começamos a conversar. Havia reparado nos olhares que eles trocavam.
Flashback OFF
— E assim nós três nos conhecemos! — disse Liv, finalizando a história com um sorriso que iluminava o rosto inteiro.
Enquanto ela falava, uma lembrança suave passou pela minha mente: o dia em que apresentei Olivia ao Nicolas. Eu e Nico já éramos amigos, e quando conheci Liv, senti imediatamente que os dois combinariam. Só não imaginava que combinariam tanto. Hoje, vendo os dois lado a lado, tudo fazia sentido… mais do que eu estava preparada para admitir.
— Mas quando vocês dois começaram a namorar? — perguntou Susie, empolgada. — Eu amo histórias românticas.
— Bom… — Nico começou, dando uma apertadinha carinhosa na cintura de Liv — depois da apresentação da Lisa, nós três viramos amigos rápido. Eu me apaixonei por ela — ele disse, beijando a bochecha da Liv — mas fiquei um ano guardando isso em segredo.
Um ano.
Senti um aperto inesperado no peito. Como se aquela informação tivesse batido em um lugar mais profundo do que deveria.
— E depois? — perguntou Beca, quase inclinada pra frente.
— Eu também estava apaixonada há um ano, mas não tinha percebido meus sentimentos — respondeu Olivia, olhando diretamente para mim de um jeito quase significativo. — Um dia, o Nico sentou e contou tudo o que sentia. E então eu percebi que amava ele também.
O ar pareceu mudar.
Ou talvez fosse só dentro de mim.
Enquanto eles falavam, algo se remexia no meu estômago. A história deles era linda… mas o que mais me tocava era a coragem — e o tempo. Um ano em silêncio. Um ano sentindo e não dizendo. Um ano esperando o momento certo, mas sofrendo no caminho.
E antes que eu pudesse organizar esse turbilhão, ouvi Luc resmungar baixo para o Sam, quase como se não quisesse que ninguém escutasse:
— Tá vendo, cara? Um ano. E você aí sem dizer o que sente por ela.
Meu coração parou.
Ouvi aquilo com tanta clareza que parecia que o mundo inteiro tinha se calado só para me permitir escutar.
— Eu? — Sam respondeu no mesmo tom baixo, mas não baixo o suficiente. — E você, que desde o ensino médio não diz o que sente a ela.
Senti minha respiração vacilar. Eu e Beca trocamos um olhar discreto, cheio de perguntas sem nome. Era impossível fingir que não tínhamos ouvido… ainda que eu quisesse muito fingir.
Uma sensação estranha, incômoda, tomou conta de mim. Não sabia se era curiosidade, medo… ou outra coisa que eu não queria nem considerar.
Aquela conversa estava estranha. Estranha demais.
E, de algum jeito, perigosa para a paz que eu fingia ter dentro de mim.
Liv e Nico continuaram a contar sua história para todos a mesa, depois do almoço Roberto e Susana se propuseram a lavar a louça, Luke e Sam até protestaram, mas os dois disseram que aquele era o momento deles ficarem os dois a sós. Cada um foi para um lugar da casa, e enquanto meus pensamentos insistiam em voltar para aquela conversa estranha entre Lucas e Samuel, senti meu peito apertar. Por que aquilo me afetou tanto? Talvez porque sempre que o Sam dizia algo enigmático, ou quando o nome dele era colocado no meio de alguma insinuação, meu coração parecia perder o compasso. E eu odiava não saber explicar o motivo.
Se era só amizade… por que eu estava tão inquieta?
Decidi ir atrás do Lucas, precisava entender aquilo. Ou talvez eu só quisesse fugir um pouco de pensar no que eu estava sentindo.
Subi as escadas e encontrei Luc em seu quarto.
— Precisamos conversar! — falei assim que o vi. — Posso entrar? — perguntei, parada na porta aberta.
— Oi, Lisa, entra. — disse ele, sentado na beira da cama. — O que quer conversar?
Fechei a porta com cuidado e me aproximei, ainda com aquela confusão martelando dentro de mim.
— Amigo, que conversa doida era aquela com o Sam? E o principal: de quem ele estava falando quando disse que você gosta de alguém? — questionei, sentando ao lado dele.
— Rebeca. — respondeu sem drama, como se fosse óbvio. — Ele estava falando dela. Sou apaixonado por ela desde o Ensino Médio, mas acho que ela gosta mesmo é do Sam.
Revirei os olhos.
— Mas é tapado! — ri, levando a mão ao peito. — Beca não gosta do Sam, ela gosta é de você.
Assim que falei, meu coração travou.
Eu disse demais.
Ai meu Deus…
Levei as mãos à boca. Ela ia me matar, com toda a certeza do mundo.
— Espera! — Lucas arregalou os olhos. — Tem certeza?
— Sim… ela me disse. — suspirei, derrotada. — Não era pra eu estar dizendo nada. Mas vocês dois, viu? Dois cegos.
Lucas se levantou na mesma hora.
— Preciso conversar com ela.
Assenti e o segui. Descemos as escadas procurando Beca, e enquanto caminhávamos pela casa, meu olhar correu instintivamente para a porta que dava para o jardim.
Pov Samuel
Eu estava perto do lago, deixando o vento frio da noite bater no rosto, tentando organizar a bagunça que estava dentro de mim. O reflexo da lua na água tremulava, e por um segundo me perguntei quando as coisas tinham ficado tão confusas. Quando exatamente eu comecei a sentir mais do que deveria pela Elisa? Quando percebi, já era tarde. Ela já tinha tomado um espaço dentro de mim que eu não sabia como lidar.
Ou talvez eu só estivesse com medo de admitir.
Foi então que ouvi passos leves atrás de mim. Virei o rosto e vi a Becca se aproximando.
— Oi, amigo. — disse ela com um sorriso pequeno. — Posso te perguntar uma coisa?
— Pode sim. — concordei, ajeitando a postura, embora meu peito estivesse pesado.
— De quem o Luke estava se referindo quando disse que você gosta de alguém? — perguntou direto, como se estivesse puxando um curativo de uma vez.
Suspirei. Não adiantava mentir.
— Da Lisa. — respondi, encarando a água. — Quem mais poderia ser?
Falar em voz alta sempre tornava tudo mais real… e mais doloroso.
— Entendi. — murmurou. — E por que não disse o que sente?
Soltei um leve riso sem humor e chutei uma pedrinha, vendo ela pular duas vezes sobre a superfície do lago antes de afundar.
— Beca, é complicado. — respondi com sinceridade. — Você também não diz o que sente ao meu irmão.
Ela abaixou a cabeça.
— Mas é que o Luke só tem olhos pra Lis. Não quero ser um empecilho. — disse triste.
Aquilo me apertou o peito, porque… eu entendia. Entendia melhor do que gostaria.
— Ele não gosta da Lisa desse jeito que você está pensando. — falei, olhando para ela. — São só amigos.
Ela franziu a testa.
— Como pode saber?
Soltei o ar devagar.
— Ele me contou que ama você. — falei antes que pudesse me segurar.
Os olhos dela se arregalaram.
— Ele o quê? — ela perguntou, espantada. — Ele me ama?
Antes que eu respondesse, uma voz atrás de nós completou:
— Sim. — disse Luke, firme, mas nervoso. — Desde quando éramos adolescentes.
Eu e Becca nos viramos ao mesmo tempo.
Luke vinha caminhando em nossa direção, e ao lado dele… estava a Lisa.
Ela.
Com aquele olhar doce que sempre me desmontava.
No instante em que nossos olhos se cruzaram, senti meu coração tropeçar no peito — como sempre fazia quando ela aparecia sem avisar.
Pov Elisa
Luc e Beca se fundiram em um abraço tão apertado que parecia que estavam tentando recuperar todos os anos que perderam dançando um ao redor do outro. Afastei-me alguns passos, observando os dois com um sorriso bobo que simplesmente surgiu. A felicidade deles… era quente, bonita, quase luminosa. Difícil não ser contagiada.
— Mas como? — exclamou Beca, os olhos brilhando como se o mundo tivesse acabado de fazer sentido. — Por que não me disse antes?
— Tinha medo — confessou Luke, a voz rouca, embargada. — Não sabia se você sentia o mesmo. A Lisa me contou.
Ah, pronto. Lá vinha.
Beca virou para mim com um olhar que alternava entre “vou te matar” e “obrigada” em meio segundo.
— Não era para contar, amiga! — disse, mas o tom era mais de brincadeira do que bronca. — Mas estou feliz que contou. Sim, Luc, eu te amo desde a adolescência.
Pronto. Perdi completamente.
Luke soltou um suspiro aliviado, segurou o rosto dela entre as mãos e a beijou. Um beijo apaixonado, daqueles que parecem marcar um antes e depois na vida de alguém. Senti meu peito aquecer com a cena. Fiquei tão feliz por eles que o sorriso simplesmente permaneceu ali, firme.
Quando virei o rosto, meus olhos encontraram os dele.
Samuel.
Ele estava me olhando com um sorriso tão lindo e tão… sincero, que meu coração simplesmente tropeçou dentro do peito. Do nada. Sem minha autorização. O pior é que eu senti aquele impacto estranho e bom ao mesmo tempo, como se algo dentro de mim despertasse e eu ainda não soubesse o nome daquilo.
Era esquisito. Era suave. Era forte.
E eu não estava preparada.
— Vamos deixar os dois em paz? — perguntou Sam, com a voz baixa, leve, quase cúmplice.
Assenti imediatamente, talvez rápido demais. Saí com ele de fininho, quase em silêncio. Parte de mim sabia que precisávamos deixar os dois se resolverem; a outra parte… a outra estava tentando entender por que ficar perto do Samuel deixava tudo mais confuso. E por que, mesmo confusa, eu queria ficar ali.
Com ele.
Sam parecia estranho e um pouco distante. Não daquele jeito bruto ou mau-humorado… era mais como se estivesse preso nos próprios pensamentos, lutando com algo que não queria mostrar. Eu até senti vontade de perguntar o que estava acontecendo, mas travei. Talvez por receio da resposta. Talvez por medo de parecer que me importava demais.
Seguimos para a sala sem mencionar nada, e lá encontramos Liv e Nico esparramados no sofá, assistindo a um filme qualquer. Sentei-me ao lado deles e Sam se acomodou perto também. A tarde passou assim: risadas dos dois, comentários aleatórios do filme, e eu tentando fingir que não estava notando o silêncio diferente de Samuel… ou o fato de que, mesmo quieto, eu sentia sua presença ao meu lado de forma quase elétrica.
Mais tarde…
Quando chegou a hora do jantar, fui ajudar Susie na cozinha. Colocamos tudo na mesa e logo a casa se encheu de vozes, passos e aquela sensação boa de família reunida.
Beca sentou-se ao lado de Lucas, já com aquele sorriso apaixonado estampado no rosto, e Emm puxou a cadeira ao meu lado.
— Família, preciso contar algo. — disse Luke, com aquele ar de quem está prestes a explodir de felicidade.
Todos se viraram para ele.
— Eu e Beca estamos namorando. — Luc selou a frase com um beijo na bochecha dela.
— Ahh que alegria! — exclamou Susie, emocionada. — Meus filhos. Beca, minha filha querida. Estou tão feliz por vocês. — Ela abraçou os dois como se estivesse protegendo um tesouro.
— Parabéns, filho! — acrescentou Bert. — Estou feliz por vocês.
A mesa inteira se encheu de cumprimentos, risadas e felicitações. Eu estava genuinamente feliz — de verdade. Eles mereciam isso.
— Luke, Beca, estou tão feliz por vocês! — disse Emm, puxando Luc para um abraço. — Vê se cuida dela, seu maluco.
— Pode deixar, cara — disse Luc rindo.
— Amigos, eu estou imensamente feliz por vocês. — abracei cada um deles. — Luc, se fizer minha amiga sofrer, já sabe…
— Sei. — ele riu. — Mas vai ser difícil.
Rimos juntos. A conversa à mesa girava em torno deles, da história toda, da confusão que finalmente tinha se resolvido.
— Bom, Lis e Sam deram um empurrãozinho sem querer. — comentou Beca, toda orgulhosa.
— Sou o Sr. Cupido, não sabe? — brincou Sam, rindo. — Ajudo casais desesperados. Principalmente os que são tapados.
Todos gargalharam — inclusive eu, embora meu riso tenha saído um pouco fraco. Talvez porque, quando olhei para Samuel, vi aquele olhar rápido… um brilho quase escondido. E aquilo mexeu comigo. De novo. Como sempre.
Depois do jantar, fui para o quarto. Deitei na cama, no silêncio confortável do meu próprio espaço. Mas a paz não veio.
Fiquei olhando para o teto, revivendo cada detalhe do dia, cada olhar, cada pequeno gesto… tentando entender o que estava acontecendo comigo. Esse sentimento estranho que crescia sempre que ele estava perto — e que, hoje, parecia ainda mais forte.
Era confuso. Era intenso. E eu não sabia dar nome.
Só sabia que estava sentindo. E que isso me deixava completamente perdida.
Lembrei-me de algo que não vinha à minha mente havia muito tempo — como se essa memória tivesse ficado guardada em alguma gaveta esquecida do meu coração.
Flashback ON
O relógio marcava o fim de mais um dia de trabalho. Um ano e alguns meses ao lado de Lucas, e eu já conhecia cada passo da nossa rotina, cada jeito dele chamar meu nome, cada papel que eu deveria revisar. Era confortável… talvez até previsível. Mas de alguma forma, naquele dia, algo fugiu do que era habitual.
Ao me levantar da cadeira, meus olhos encontraram Samuel, encostado à porta da sala de reuniões. Ele estava concentrado no celular, levemente inclinado para a frente, como se estivesse lendo algo muito importante. A luz da tela iluminava seus traços fortes — e, sem querer, eu parei por dois segundos só para observar.
— Oi, Samuel — cumprimentei com um sorriso que saiu mais suave do que eu pretendia.
— Oi, Elisa. Tudo bem? — respondeu ele, levantando o olhar para mim. Aquele sorriso dele… sempre tão fácil, tão sincero, sempre me pegava desprevenida.
— Tudo ótimo. Está esperando o Lucas?
— Sim, temos algumas coisas para resolver. — Antes que eu pudesse comentar algo, Luke saiu da sala, e Samuel o acompanhou com passos firmes.
— Lisa, você pode ir para casa. Nos vemos amanhã — avisou Lucas.
— Ótimo, obrigada — respondi. Mas, por algum motivo, um aperto pequeno e incômodo se formou no peito. Não fazia sentido, mas estava lá.
— Tchau, Elisa — disse Samuel antes de seguir com Luke. A forma como ele falou meu nome… não sei. Tinha algo ali. Ou talvez eu só estivesse imaginando.
Os dois se afastaram pelo corredor, conversando baixo. Eu estava prestes a pegar minha bolsa quando a voz de Lucas ecoou, alta o suficiente para que eu ouvisse:
— Cara, depois da loja a gente podia ir naquele restaurante, sabe que tem a Alice…
Parei imediatamente. Meu corpo inteiro reagiu antes mesmo da minha mente entender.
Alice?
Tentei me convencer de que era só curiosidade. Só isso. Apenas… curiosidade. Mas a verdade é que senti o estômago revirar.
Quem era Alice? Por que eles iam até lá? E por que o nome dela me atingiu como se tivesse sido atirado diretamente contra mim?
Aquela sensação estranha subiu pela minha garganta — uma mistura de desconforto, irritação e algo que eu não ousava nomear. Não fazia sentido sentir aquilo. Não era para fazer. Mas fez.
E, naquele momento, percebi que Samuel conseguia mexer comigo de formas que eu não conseguia controlar.
Flashback OFF
Aquele comentário do Lucas me perseguia como uma sombra insistente. Por mais que eu tentasse ignorá-lo, ele ecoava na minha mente sem piedade, voltando em ondas que me deixavam inquieta. Havia algo ali, algo que tentava emergir, mas que eu teimava em empurrar de volta para o fundo. Tentei racionalizar, tentei entender por que aquilo tinha me afetado tanto… mas as peças simplesmente não se encaixavam.
Por que aquilo mexia tanto comigo? Por que aquele incômodo tão específico?
A verdade é que o Samuel sempre me pareceu… fascinante. Um homem que preenche o espaço apenas por existir ali. Forte, divertido, carinhoso nos detalhes, gentil na forma como observa o mundo, e com uma presença que… me tocava de um jeito que eu nunca entendi. Mas a ideia de algo além da amizade? Algo mais profundo, mais íntimo, mais nosso… isso era território desconhecido. Nunca tinha me permitido sequer cogitar.
E agora, aqui estava eu, deitada na minha cama, debatendo comigo mesma como se estivesse analisando um caso complicado.
— Que loucura! — pensei, pressionando as mãos no rosto, tentando abafar o turbilhão dentro de mim. — Eu, apaixonada pelo Samuel?
Mas só o pensamento… aquele único pensamento… fez meu coração disparar como se tivesse levado um choque. Meu peito bateu descompassado, quente, quase dolorido. Aquilo não era normal. Não era racional. Não era tranquilo.
Eu estava enlouquecendo. Só podia estar.
— Você não está enlouquecendo, Lisa! — ouvi a voz de Olivia, que abriu a porta sem cerimônia e entrou no quarto.
Levei a mão ao peito, assustada.
— Que susto, Olivia! — resmunguei, tentando recuperar o fôlego. — Acho que devo estar enlouquecendo sim.
Ela veio até mim com aquele olhar sagaz, cheio de certeza, como quem enxerga tudo que a gente tenta esconder.
— Amiga… você está exatamente igual a mim quando percebi que estava apaixonada pelo Nico. — sentou ao meu lado, como se tivesse sido chamada telepaticamente. — Eu fiquei super confusa no começo. Não entendia nada do que sentia. Mas quando vi outra garota dando em cima dele… eu vi estrelas, e não das boas.
Suspirei, encostando a cabeça na cabeceira.
— Mas, Olivia…
— Me escuta. — ela apertou meu braço. — Eu ouvi o que aconteceu no carro.
Arregalei os olhos, incrédula.
— O quê? Como?!
— Amiga, vocês são dois desastrados emocionais, qualquer um ouviria aquilo. — riu. — E você ficou mexida. Claramente mexida. E não sei o que aconteceu depois, mas isso também te deixou abalada.
Contei a ela tudo. A sacada. O silêncio carregado. O olhar do Sam. A proximidade. O jeito como minhas emoções ficaram todas bagunçadas. E depois o flash da memória: aquele dia na empresa, a menção da tal Alice, o ciúme que eu nem tinha percebido que era ciúme.
Olivia ouviu tudo sem interromper, apenas segurando minha mão, como sempre fazia quando queria me ancorar.
— É como eu disse, amiga… — falou por fim, suave. — Você precisa perceber o que está sentindo. Precisa ser sincera com você mesma. Porque de fora… tudo já está tão óbvio.
Ela me deu um beijo na testa e saiu, me deixando sozinha.
E então o silêncio caiu… e com ele, a verdade que eu vinha evitando por tanto tempo.
Eu estava tão distraída tentando não sentir, que não percebia minhas próprias atitudes. Como eu sempre procurava o olhar dele. Como meu corpo reagia ao toque dele, por mínimo que fosse. Como eu me sentia completa quando estava ao lado dele. Como tudo entre nós parecia tão natural… tão certo.
Era como se nossa conexão sempre tivesse existido, mas eu só agora estivesse tendo coragem de olhar para ela de frente.
E quando Luke disse que a Beca talvez gostasse do Samuel, mesmo eu sabendo que aquilo não era verdade… aquilo me incomodou. Incomodou de um jeito que queimou lá dentro.
Por quê?
Porque a simples ideia de alguém gostar dele… alguém além de mim…
Doeu.
Senti uma onda de calor subir pelo rosto. O coração acelerou como se estivesse correndo.
Eu me sentei na cama, atônita, a respiração curta, como se tivesse levado um tapa da realidade.
— Ah, meu Deus… — murmurei, levando a mão à boca. — Eu estou apaixonada pelo Samuel.
A confissão saiu baixa, rouca, mas verdadeira. Tão verdadeira que reverberou dentro de mim como um sussurro libertador.
E naquele momento, tudo fez sentido.
Tudo.
E agora? Apaixonada pelo irmão do meu chefe… e amigo.
A vida realmente sabia como me surpreender — às vezes de formas absurdas.
Eu me joguei na cama, afundando no travesseiro, como se ele pudesse aliviar o peso repentino que se instalara no meu peito.
Será que ele sente o mesmo?
A pergunta parecia ter ganhado vida própria. Ela ecoava, se repetia, se espalhava em cada canto da minha cabeça, insistente, teimosa, impossível de ignorar.
Tentei respirar fundo, fechar os olhos, me convencer de que precisava dormir… mas bastava o silêncio preencher o quarto para que meus pensamentos corressem de volta para ele. Para aquele olhar atento, gentil, sempre tão cheio de significado. Para aquele sorriso leve que fazia meu coração tropeçar. Para o toque no carro, para o abraço na sacada…
E cada lembrança trazia um novo fio de esperança.
Um brilho quente, suave, que se espalhava dentro de mim como se dissesse: “Talvez… talvez ele também sinta.”
Mas junto dela vinha a dúvida.
Aquela dúvida incômoda, que cutucava a borda das minhas certezas, sussurrando:
“E se não? E se for só você? E se ele te enxergar apenas como a amiga do Lucas?”
Eu me virava de um lado para o outro, tomada por esse misto de alegria e medo. Era tão estranho, tão intenso.
Quando finalmente o sono veio, foi como cair em um redemoinho doce.
A noite passou em um piscar de olhos, embalada por sonhos que eu nem ousaria confessar. Sonhos onde não havia dúvidas, nem receio, nem confusão — apenas nós dois.
Eu e Samuel.
Como se um futuro juntos fosse algo simples, natural… inevitável.
Pov Olivia
Assim que saí do quarto da Lisa, fechei a porta devagar e encostei as costas nela, soltando um suspiro longo. A coitada estava um caos ambulante — coração disparado, pensamentos embaralhados, tentando negar algo que já estava escrito no rosto dela. E quanto mais eu pensava, mais sentia aquela certeza se formando dentro de mim: Lisa estava apaixonada por Samuel. E profundamente. Só precisava admitir primeiro para si mesma, depois para ele.
E se ela estava em negação, ele então… Samuel conseguia ser ainda pior. Sempre olhando para ela como se o mundo inteiro sumisse, mas nunca dando um passo porque achava que não tinha chance. Meu Deus, pensei, apertando as têmporas. Esses dois vão morrer de saudade um do outro sem nunca terem nem tentado se eu não fizer alguma coisa.
Então, endireitei a postura. Era agora.
É isso. Ou eu ajudo aqueles dois, ou não me chamo Olivia Seent. Já tinha passado da hora. Esses dois vivem se olhando como se estivesse escrito “te amo” na testa um do outro e ainda assim são incapazes de admitir. Chega! Chega! Se a Lisa finalmente está percebendo o que sente, então agora é a minha vez de ajudar o Samuel a perceber o que aquilo tudo significa.
Desci as escadas já com a determinação queimando no peito. Encontrei Luc, Beca e Nico na sala, todos espalhados pelo sofá como se o mundo estivesse tranquilo demais para eles — e eu, bom, eu estava prestes a virar tudo do avesso.
– Seguinte pessoal, preciso da ajuda de vocês! – anunciei, parando bem na frente deles, como uma general chamando o exército.
– Fala, fadinha, o que houve? – brincou o Luc.
Eu respirei fundo. Ok, Olivia, agora vai.
– A Lisa... – comecei, mas a Beca me interrompeu:
– O que tem ela? Está tudo bem?
A preocupação genuína dos três quase me fez rir. Se eles soubessem o drama que a amiga deles está vivendo dentro da própria cabeça…
– Ela vai ficar ótima, não se preocupem. – garanti, levantando as mãos. Eles me olhavam com aquela cara de “então fala logo!”. – Como vocês sabem, a Lisa… bom, ela praticamente foi a grande responsável pela história de amor de todos nós acontecer.
Eles se entreolharam e concordaram.
– Quando me apresentou ao Nico, quando ajudou vocês dois, revelando o que cada um sentia… – continuei, olhando para Luc e Beca.
Mais acenos. Eles sabiam.
– Pois é… agora ela está apaixonada. Só não percebeu completamente.
– Como assim? – perguntou Nico, franzindo a testa.
Antes que eu respondesse, Beca abriu um sorriso que entregou tudo:
– É o que eu estou pensando?
– É, Bec. Isso mesmo. – confirmei, sorrindo também. – Mas pra fazer tudo funcionar, eu preciso saber sobre ele.
Me virei para Luke. Ele já estava me olhando como se entendesse exatamente o que eu estava prestes a perguntar.
– O que ele realmente sente?
Luc suspirou, apoiou os cotovelos nos joelhos e disse, sem qualquer enrolação:
– Bom… aquele abobalhado é apaixonado pela Lisa desde a primeira vez que viu ela no meu escritório.
Meu coração deu um salto triunfante. Aí está. O que eu precisava.
– Ok. – sorri ainda mais. Agora sim, as peças estavam todas no lugar. – Porque ela também é apaixonada por ele desde essa época. Só… nunca tinha caído a ficha.
Os três arregalaram os olhos, como se eu tivesse acabado de abrir um portal com a mente.
– Mas como a gente vai fazer pra eles ficarem juntos? – perguntou Nico, já entrando cem por cento na missão.
Eu ergui o queixo com orgulho.
– É aí que entra a nossa equipe de cupidos! – declarei. – A gente só precisa dar um jeito de fazer o Samuel tomar coragem e se declarar… e aí pronto. Ela vai dizer o que sente.
No fundo, eu sabia: aqueles dois só precisavam de um empurrãozinho. Um só. E nós quatro? Bom… já tínhamos levantado a bandeira da guerra romântica. E eu, Olivia Seent, não perco uma batalha dessas.
Sentei-me à frente de Lucas, Beca e Nico, cruzando os braços e dando aquele ar de “tenho um plano infalível”.
– Escutem – comecei, animada –, amanhã vamos sair para almoçar, só nós seis. Quero que todo mundo participe de um joguinho que vai ser divertido, mas também muito estratégico. É como um jogo de memória… cada um vai contar uma lembrança favorita com um de nós seis. Nada de enrolar, tem que ser sincero.
Os três me olharam curiosos, com aquele brilho nos olhos que denunciava que estavam se perguntando se eu tinha enlouquecido de vez.
– Mas… e o que isso tem a ver? – perguntou Nico, franzindo a testa.
– Tudo! – respondi, sorrindo. – É um jeito leve de fazer a Lisa e o Samuel perceberem o que cada um sente. Sem pressão, só lembranças, risadas… e quem sabe, um empurrãozinho amoroso. Vocês ajudam a criar o clima.
Beca sorriu, animada:
– Entendi, fadinha. Então é tipo… cupido disfarçada de jogo?
– Exatamente! – confirmei, dando um tapinha no ar. – Amanhã será o dia, e quero que todos estejam prontos.
Rimos juntos, e logo nos despedimos para dormir. Cada um foi para seu quarto, mas a empolgação era palpável. O clima estava leve, mas cheio de expectativa. Mal podia esperar pelo almoço do dia seguinte, imaginando o efeito que aquele pequeno jogo poderia ter sobre Lisa e Samuel. Até deitar na cama, meu coração batia acelerado só de pensar.
Continua…
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