Notas iniciais
Oii, não esqueça de favoritar a história e comentar sobre o que acha!!! Beijinhos

Capitulo 5

Pov Elisa

Acordei com alguém batendo na porta. Ainda meio sonolenta, arrastei os pés até a maçaneta, e assim que abri dei de cara com Olivia — radiante, enérgica, já arrumada como se estivesse acordada há horas.

— Bom dia, flor do dia! — ela cantarolou, sorrindo daquele jeito que iluminava qualquer corredor. — Vamos tomar café? A galera estava pensando em sair para almoçar antes de ir para as cataratas à tarde, o que acha?

Apesar da minha mente ainda ecoar pequenos resquícios das dúvidas da noite anterior, o entusiasmo dela era contagiante.

— Bom dia, amiga. — sorri de volta. — Já desço para o café. E sobre o almoço… se querem, por que não? Vamos sim.

— Ótimo! Te encontro lá embaixo! — disse, já descendo as escadas com passos leves, como se dançasse.

Fechei a porta e respirei fundo. A noite havia sido um turbilhão silencioso dentro de mim — pensamentos, lembranças, aquele sorriso do Samuel insistindo em reaparecer sem ser convidado. Mas agora… agora era um novo dia. E talvez… talvez eu conseguisse apenas aproveitar.

Tomei um banho mais longo do que o necessário, deixando a água quente tentar organizar meus pensamentos. Escolhi um vestido florido — algo leve, alegre… talvez até mais alegre do que eu realmente estava. Mas o dia estava lindo, com o sol entrando pela janela como um convite. E, para minha surpresa, eu também estava animada com a ideia do almoço. Um pouco nervosa? Sim. Mas animada.

Desci as escadas e encontrei todos reunidos na mesa. O cheiro de café fresco e pão quentinho parecia abraçar o ambiente. Cumprimentei cada um com um sorriso, tentando ignorar a aceleração leve que meu coração deu quando vi o Samuel ali — tranquilo, conversando, bonito como sempre.

— Sam, o que acha de um almoço? — perguntou Olivia, como quem lança um anzol sabendo exatamente o que quer fisgar.

— Hoje? Claro, por que não? Vamos todos? — ele respondeu animado, e alguém dentro de mim suspirou de alívio.

— Vocês podem ir — disse Susana, rindo baixinho. — Eu e o Roberto vamos aproveitar o dia aqui mesmo. Faz tempo que não temos a casa só pra nós.

Todos concordaram, e seguimos o café conversando sobre o dia. Eu sorria, eu participava… mas ao fundo, minha mente ainda revisava cada detalhe de ontem: o olhar dele, a aproximação, a maneira como minha respiração sempre parecia errar o ritmo perto dele.

Mais tarde, nos arrumamos para o almoço. Ao sairmos, nos encontramos todos no jardim. A luz do sol fazia o verde parecer ainda mais vivo, e por um instante tudo pareceu sair de um filme.

— Samuel, você leva a Lisa? — perguntou Luke, com um sorriso carregado de intenções que só quem convive com ele percebe. — Vamos todos no meu carro, mas pra você não ir sozinho pensei em você levar a Lisa!

Ele sorria daquele jeito malandro. E eu senti o calor subir pelas minhas bochechas.

— Claro! — respondeu Samuel com naturalidade. — Vamos, Lisa?

Assenti, tentando parecer indiferente, mas por dentro meu estômago deu um pequeno mortal.

Os outros entraram nos carros e seguimos. No caminho, eu e Samuel conversamos sobre o dia, sobre a expectativa de todos em ver as cataratas… e, graças a Deus, não houve nenhum clima estranho. Pelo contrário — era confortável. Leve. Como se aquele silêncio que ontem teria sido constrangedor hoje se tornasse acolhedor.

Mas, mesmo assim, no fundo do meu peito, os pensamentos da noite anterior ainda rondavam… suaves, insistentes… lembrando que eu não estava simplesmente indo almoçar com amigos. Eu estava entrando no carro ao lado do homem que, talvez, estivesse começando a ganhar um espaço que eu não sabia mais esconder.

Chegamos ao restaurante e fomos conduzidos até uma mesa mais ao fundo, um canto agradável e um pouco afastado, perfeito para conversarmos com privacidade. O ambiente tinha aquele burburinho leve de vozes misturadas com talheres e risadas distantes, criando um clima aconchegante. Todos pareciam animados — talvez mais do que eu, que ainda tentava decifrar meus próprios pensamentos.

Sentei-me ao lado do Samuel, o que fez meu coração dar uma leve disparada, aquela que eu tentei esconder ajeitando o guardanapo no colo. Do outro lado dele ficaram Luke e Beca; e entre mim e Beca, Olivia e Nico, como um pequeno círculo de amigos que parecia encaixar perfeitamente.

Escolhemos nossos pratos enquanto o papo seguia leve, cheio de piadas internas, provocações e pequenas histórias da viagem. Era natural, confortável… mas cada vez que o braço do Samuel roçava no meu sem querer, eu sentia um arrepio discreto subir pela pele. Tentei ignorar, mas meu corpo parecia mais consciente da presença dele do que eu gostaria de admitir.

Quando nossos pratos chegaram, o aroma delicioso tomou a mesa, e o som de talheres começou a preencher o espaço. A conversa continuou animada — comentários sobre a comida, sobre as cataratas, sobre fotos que pretendíamos tirar. Eu me esforçava para parecer totalmente tranquila, mas por dentro meu coração alternava entre euforia e nervosismo.

Foi então que Olivia, com aquele brilho travesso nos olhos, interrompeu a conversa:

— Pessoal, vamos jogar um jogo? — perguntou animada, como se mal conseguisse conter a própria empolgação.

Todos olharam para ela com curiosidade. Luke arqueou a sobrancelha, Samuel largou o garfo por um instante e até Nico se endireitou na cadeira.

— Jogo? Aqui? — Luke riu. — Lá vem você com suas ideias, fadinha.

— É divertido, eu juro! — disse ela, juntando as mãos como quem estava prestes a anunciar uma grande revelação.

— Eu topo — falou Beca, animada como sempre. — Que tipo de jogo?

— Nada complicado — garantiu Olivia. — É um jogo de… lembranças. Cada um vai contar uma memória marcante que viveu com alguém da mesa. Pode ser engraçada, emocionante, constrangedora… qualquer coisa que envolva vocês dois. A ideia é relembrar momentos, fortalecer laços, essas coisas fofas.

Ela olhou ao redor com um sorriso inocente demais para ser verdade, e por dentro eu senti um frio na barriga. Era tão típico da Olivia criar situações que puxassem emoções à tona. Meu coração já começou a acelerar, como se previsse que aquilo poderia me colocar em evidência de algum jeito.

— Ah, gostei! — disse Nico. — Tô dentro.

— Eu também — falou Luke, cruzando os braços, sempre competitivo até em jogos sentimentais.

Samuel riu baixinho ao meu lado, e o som fez meu estômago dar um salto.

— Parece legal — ele disse. — Vamos jogar.

— Ótimo! — comemorou Olivia, quase batendo palmas. — Então… eu vou escolher quem começa.

Ela olhou cada rosto ao redor da mesa com uma expressão calculada. Um segundo. Outro. Ela estava analisando… planejando… e, claramente, se divertindo com isso.

Até que abriu um sorriso satisfeito.

— Beca! Você começa.

E foi assim que o jogo de lembranças começou — e com ele, a certeza de que aquele almoço seria tudo, menos simples.

Beca sorriu, um pouco envergonhada, mexendo no guardanapo como quem se prepara para abrir um capítulo antigo.

— Tá… eu vou contar aquela vez em que eu caí — disse ela, já rindo.

Samuel, ao meu lado, soltou um “meu Deus…” abafado e Lucas imediatamente fechou os olhos, inclinando a cabeça para trás.

— Não… essa não — reclamou ele, mas com um sorrisinho entregando que adorava essa lembrança.

— Como assim caiu? — perguntou Nico, intrigado.

— Caiu não — corrigiu Samuel com humor. — Ela despencou.

Beca fez uma careta, mas continuou:

— Isso aconteceu quando a gente era adolescente. Só nós três sabemos dessa história porque ela foi… marcante. De várias formas.

Todos ficaram atentos.

— Eu estava descendo as escadas da escola — começou Beca — e acho que pisei no cadarço solto. Só senti meu corpo indo pra frente e…

Ela fez um gesto dramático com as mãos.

— …PLOFT. Eu me esparramei igual um boneco sem articulação.

A mesa inteira riu, eu inclusa — era impossível não imaginar a cena.

— Gente… — Beca levou a mão à testa. — Eu ralei o joelho, bati o cotovelo, parecia que eu tinha brigado com um rinoceronte.

— E quem fez o maior show não foi ela — entrou Lucas, cruzando os braços. — Fui eu.

Samuel concordou com um aceno, segurando o riso.

— Vocês não estão entendendo — continuou Lucas, olhando para os outros com expressão solene. — A gente só ouviu o barulho. E quando chegamos lá… tinha uma Beca caída no chão, chorando, e eu jurei que ela tinha quebrado a perna.

Beca riu, lembrando.

— Ele ficou tão desesperado que saiu correndo pelo corredor gritando “ALGUÉM CHAMA UM ADULTO!!!”.

Todos ao redor da mesa explodiram em risadas —conseguia imaginar a cena.

— Eu achei que tinha acontecido algo sério! — disse Lucas, se defendendo. — Eu… — a expressão dele suavizou, como se mergulhasse de volta na memória. — Eu fiquei com medo de verdade.

Beca o olhou com carinho, aquele tipo de carinho que só existe entre quem cresceu junto.

— Ele ficou pálido, parecia que ia passar mal — complementou ela. — E não saiu do meu lado nenhum segundo, nem quando chegaram os professores.

Lucas respirou fundo, a voz mais baixa agora.

— Eu só… — ele encarou Beca com um olhar tão doce que fez meu coração derreter. — Eu não conseguia parar de pensar que podia ter sido pior. E eu… eu só queria te levar pra casa logo, ver você bem.

O silêncio suave que tomou a mesa não era desconfortável.

Era… bonito.

Beca sorriu, tímida, e sem nem perceber, colocou a mão sobre a de Lucas. Ele virou a mão e entrelaçou os dedos aos dela, o gesto mais natural do mundo — como se ainda fossem aqueles adolescentes assustados, mas inseparáveis.

— Isso é tão fofo — comentou Olivia, completamente encantada.

— Fofo e desesperador — brincou Samuel, fazendo todos rirem novamente. — Eu achei que o Lucas ia cair duro antes da Beca chegar na enfermaria.

As risadas voltaram, leves, sinceras.

Enquanto observava os dois trocando aquele olhar cheio de história — um olhar que dizia “eu sempre estive com você” — uma sensação quente se espalhou pelo meu peito.

Amor verdadeiro sempre deixa o ar diferente.

Depois das risadas pela história da Beca e do Lucas, Olivia bateu palminhas, animada, praticamente vibrando na cadeira.

— Agora é a nossa vez! — disse ela, virando-se para Nico com um sorriso travesso. — Vai, amor, é a sua vez de contar uma lembrança!

Nico soltou um gemido dramático.

— Ah, pronto… já sei que vou passar vergonha.

— Vergonha? — Olivia ergueu a sobrancelha, provocando. — Você é quem começou esse namoro sem me avisar!

— Eu não comecei namoro nenhum! — protestou Nico, rindo. — Eu só… tomei uma atitude preventiva.

— Preventiva? — Olivia arregalou os olhos. — Isso eu quero ouvir.

Ele deu uma olhada para a mesa inteira, respirou fundo e se rendeu.

— Tá, então… essa história começa na faculdade. O Rafael — um amigo meu — estava doido pra chamar a Olivia pra sair.

Olivia arregalou os olhos.

— O Rafael? Aquele que estudava com você?

— Esse mesmo — confirmou Nico, fazendo todos prenderem o riso. — Ele vivia falando de você. Um dia, chegou todo decidido, dizendo: “Cara, vou chamar ela hoje. Ela é um encanto… imagina se ela topa?”

O rosto da Olivia se contraiu num misto de surpresa e indignação.

— E você nunca me contou isso!? Eu só sabia que era um amigo, antes que perguntem — disse ela se defendendo — a parte que era o Rafael não sabia.

— Calma — disse ele com as mãos levantadas. — Eu… entrei em pânico.

A mesa explodiu em risadinhas, inclusive eu — porque eu lembrava muito bem daquele caos.

— Pânico por quê? — provocou Olivia.

Nico passou a mão pelos cabelos, olhando para ela daquele jeito apaixonado que ainda fazia Olivia ficar sem graça.

— Porque… naquele momento eu percebi. Tipo um soco no estômago. Eu gostava de você. Gostava muito. E a ideia de você sair com outro cara… eu quase tive um troço.

Ele riu, mas o riso veio acompanhado de um brilho nos olhos, como se estivesse revivendo exatamente a sensação.

— Então eu virei pro Rafael e falei: “Cara, não rola. A Olivia… já está namorando”.

Olivia abriu a boca, meio chocada, meio rindo, ela sabia da história mas não os detalhes sórdidos.

— NICO!

— Eu sei! — ele ergueu os braços. — Eu sei, tá? Eu pirei! Mas foi na hora, automático. Eu nem pensei.

— E eu? — Olivia apontou pra si. — Eu estava namorando sem saber!?

— Tecnicamente… — começou ele, mas ela o atingiu com um olhar mortal. — Tá bom, tá bom! Não estava! Mas na minha cabeça… eu só conseguia pensar que você era… minha.

Aquilo silenciou Olivia.

E por um instante, o olhar dela suavizou — e a mesa inteira pareceu se emocionar um pouquinho.

Nico continuou:

— Só que aí… eu percebi o tamanho da burrada. Eu tinha que te contar. Então eu fui te procurar. — Ele riu, balançando a cabeça. — E você estava sentada no gramado, lendo um livro de romance que sempre dormia no teu colo.

— Eu lembro desse dia — murmurou Olivia.

— Eu sentei do teu lado e… disse tudo. Que eu gostava de você. Que eu não queria te ver com outro cara. Que só a ideia me deixava doente.

O rosto de Olivia ficou rosado, quase tímido.

— E eu… — ela desviou o olhar — eu não sabia o que fazer. Foi tão… inesperado. Eu senti um frio na barriga tão forte que parecia... medo. Eu fiquei tão confusa… que saí correndo.

A mesa inteira riu — inclusive Samuel, que parecia se divertir genuinamente.

— Ela levantou do nada — continuou Nico — e saiu correndo pelo pátio como se tivesse visto um fantasma.

— Eu estava em choque! — Olivia rebateu, rindo. — Eu fiquei horas tentando entender o que estava sentindo.

Nico a olhou com ternura, um sorriso pequeno e apaixonado no canto dos lábios.

— E eu achei que tinha estragado tudo — confessou ele. — Voltei pra casa arrasado. Eu só pensava: “Pronto, agora ela nunca mais vai olhar na minha cara”.

Eu me ajeitei na cadeira, sorrindo ao lembrar.

— Foi aí que eu entrei na história — disse eu.

Todos voltaram o olhar para mim, e eu senti meu peito aquecer com aquela lembrança de amizade.

— A Olivia apareceu no meu apartamento batendo na porta como uma louca, ela não sabia que o Nico estava lá. — contei, rindo. — Dizia que estava “morrendo, passando mal, sem ar, com febre emocional”.

A mesa virou uma sinfonia de risadas.

— E o pior — continuei, rindo junto — é que o Nico estava trancado no quarto porque… — olhei para ele de propósito — ele estava surtando também.

Nico ergueu as mãos, rendido.

— Eu tava. Eu admito. — E riu, envergonhado. — Eu não sabia se ia embora, se esperava, se fingia que estava dormindo… eu só fiquei lá andando de um lado pro outro, achando que ia falar besteira se visse ela.

— Ele estava em pânico real — acrescentei. — Ouvia passos no corredor e eu achava que ele ia pular pela janela.

Todos riram mais alto.

— E eu tive que sentar ela no sofá e fazer ela respirar. E quando ela finalmente conseguiu falar… — sorri para Olivia — eu percebi na hora: ela estava apaixonada. Só não sabia reconhecer.

Olivia baixou o olhar, sorrindo de forma doce, emocionada.

— Eu estava tão perdida — admitiu ela. — Eu não sabia que gostava dele. Ou sabia… mas não queria admitir.

— Então eu fiz meu papel — continuei. — Peguei o celular e mandei mensagem pro Nico, que estava no quarto rodando igual um leão preso: “Você tem meia hora para descer e conversar com ela. Agora.”

Nico riu, cruzando os braços.

— Quando eu li aquilo, eu saí correndo. Nem pensei. — Ele sacudiu a cabeça, lembrando. — Só ouvi meu coração gritar “vai ou perde”.

— E quando ele chegou… — Olivia suspirou, sorrindo de um jeito que derrete qualquer um — eu parei de fugir. E disse o que sentia.

Os dois se olharam de um jeito que fez meu coração apertar — aquele amor tranquilo, maduro, que nasce depois de um caos emocional que só quem já sentiu entende.

Um amor que me fez lembrar, dolorosamente… de Samuel.

Porque enquanto Olivia e Nico terminavam de reviver aquele início doce e bagunçado, meus olhos — sem que eu quisesse — buscaram os de Sam.

E ele já estava olhando pra mim.

Com aquele sorriso de canto, suave, atento… que sempre me desmontava.

Senti meu peito apertar, um misto de esperança, medo e aquela sensação quente de que a história deles… talvez estivesse prestes a se repetir comigo.

E com ele.

Luke levantou a mão como quem estava numa sala de aula.

— Minha vez! — anunciou, já sorrindo daquele jeito travesso que dizia que vinha história boa por aí. — Já sei qual contar, a lembrança do baile de formatura!

Samuel se remexeu na cadeira, rindo.

— Meu irmão era um desastre ambulante naquele dia. Nunca vi ele tão nervoso.

— Cala a boca, Sam — resmungou Luke, mas sem raiva. — Eu estava… sei lá… apavorado. Era o baile de formatura. E eu tinha prometido levar a Beca.

Beca apertou os lábios para segurar o riso.

— Você parecia que ia desmaiar — comentou ela.

— Eu quase desmaiei — confessou Lucas, fazendo todos rirem. — E aí… aconteceu.

Ele olhou para Beca como se estivesse vendo a cena outra vez.

— Eu estava na sala da sua casa, tentando não suar, arrumando a gravata pela décima vez… quando você apareceu no topo da escada.

Minha respiração prendeu por um instante.

Essas eram as lembranças que faziam o jogo valer a pena — aquelas que mudaram vidas.

Lucas continuou, a voz mais baixa, mais sincera:

— Você desceu devagar… com aquele vestido púrpura que parecia ter sido feito só pra você. E seu cabelo… — ele riu, balançando a cabeça — castanho claro, solto, brilhando. Parecia cena de filme. Juro que eu pensei que ia tropeçar no tapete.

Beca corou, cobrindo a boca com a mão.

— Luke… — murmurou ela, emocionada.

— Naquele momento eu entendi — prosseguiu ele, com o coração na voz — que eu estava completamente ferrado. Totalmente apaixonado. E que eu nunca ia amar outra pessoa na minha vida. Nunca.

A mesa ficou em silêncio por alguns segundos. Aquele silêncio bonito que nasce quando alguém diz uma verdade funda demais.

— Mas… — completou ele, rindo sem humor — eu também estava morrendo de medo. Então fui idiota o baile inteiro. Não tomei atitude nenhuma. Dancei com você, segurando a sua mão como se fosse vidro… e não falei nada.

Beca ergueu o rosto, os olhos brilhando.

— E eu achando que você só estava tímido demais pra chegar perto — disse ela, sorrindo. — Porque… naquele dia… eu senti algo também. Algo diferente. Não era só amizade.

Mas você ficou tenso o baile inteiro, parecia que estava fugindo de mim.

— Eu estava fugindo de mim mesmo — corrigiu Lucas. — Eu tinha medo de estragar tudo. Medo de perder você.

Samuel gargalhou alto.

— Vocês dois eram dois idiotas românticos. O bailinho adolescente mais cheio de tensão não resolvida da história.

Beca jogou um guardanapo nele.

— Cala a boca, Sam.

Rimos.

Eu, especialmente, senti meu peito aquecer.

Era tão puro.

Tão doce.

Aquelas lembranças adolescentes que só ganham sentido anos depois… quando a vida costura tudo no lugar certo.

— Essa memória é muito fofa — murmurei sem conseguir evitar o sorriso. — Vocês sempre foram destinados um ao outro.

Lucas e Beca se olharam daquele jeito que só eles conseguiam — como se falassem uma língua que ninguém mais entendia. Um amor que começou lá atrás, tímido, despretensioso… e cresceu até se tornar essa coisa linda que tínhamos ali na nossa frente.

E mais uma vez, sem querer, meus olhos correram até Samuel.

Ele também me olhava — e havia tanta ternura, tanta história não contada naquele olhar — que meu coração deu um salto involuntário.

Eu não sabia qual lembrança viria a seguir…

Mas sabia que a minha história com ele estava prestes a encontrar seu próprio baile, sua própria escada, seu próprio momento de revelação.

E isso me deixava nervosa exatamente como Lucas naquele dia.

Olivia bateu palminhas, interrompendo o silêncio tenso que Lucas estava criando com sua lembrança.

— Tá bom, tá bom, já deu! — ela riu. — Agora é a vez do Samuel.

— O quê? — Samuel franziu as sobrancelhas. — Por que eu?

— Porque eu decidi — respondeu Olivia, cruzando os braços. — Vai, conta uma lembrança sua.

Samuel respirou fundo, pensou por um segundo… e então olhou diretamente para Elisa.

Elisa sentiu o coração bater mais forte, sem saber o motivo.

— Tá. Então… vou contar uma lembrança com a Elisa.

Todos na mesa fizeram a mesma cara: ESPANTO!

Lucas foi o primeiro a reagir.

— O quê? Com a Elisa?

— Ué — Beca falou, apoiando o queixo na mão. — Agora eu tô curiosa.

— Eu também — Luke completou. — E, sinceramente, surpreso.

Elisa engoliu seco, sem entender onde aquilo ia dar.

Samuel ajeitou o relógio no pulso e começou:

— Foi no dia em que você entrou correndo na sala do Lucas.

Lucas apontou pra si mesmo.

— Minha sala?

— Sua — Samuel confirmou. — Você estava no computador e eu estava sentado na sua frente, estavamos trabalhando em algo juntos, não me lembro ao certo.

Elisa arregalou os olhos.

— Eu… entrei correndo?

— Entrou — Samuel disse, com uma leve curva de sorriso. — Você abriu a porta com tanta pressa que ela bateu na parede. Parecia que tinha atravessado o prédio inteiro num sprint.

A mesa inteira riu.

— Isso é muito ela — Beca disse, balançando a cabeça.

— É o estilo “me atrasei mas venho com charme” — Luke comentou, arrancando risadas.

Samuel continuou, sem perder o fio:

— Você estava toda esbaforida. O cabelo meio bagunçado, a bolsa caindo do ombro… mas sorrindo.

Ele fez outra pausa.

— Muito sorrindo.

Elisa sentiu o rosto quente.

Sorrindo? Ela?

Ela não lembrava daquele dia assim.

— Você pediu desculpa umas três vezes — Samuel completou — e ficou olhando para o Lucas com a expressão perfeita de “meu Deus, eu vou ser demitida”.

Lucas levantou o dedo.

— Eu nunca teria demitido ela.

— Mas você fez AQUELA cara — Samuel lembrou.

— Que cara? — Lucas perguntou, ofendido.

Beca respondeu por ele:

— A cara de nojo, Lucas. Aquela que aparece quando você está com fome.

— Ei! — ele protestou, mas riu logo em seguida.

Samuel voltou à história:

— Aí você explicou que tinha ido buscar seu carro novo.

Elisa piscou.

— Meu carro?

— Seu primeiro carro — ele confirmou. — E você contou toda empolgada. Fiquei até com medo de você começar a pular no meio da sala.

A mesa inteira explodiu numa gargalhada, inclusive Elisa — mas o riso dela saiu meio trêmulo.

Porque agora ela lembrava.

Mas só por causa dele.

Um detalhe aqui, outro ali.

E aquilo tocou nela de um jeito inesperado.

— Você parecia uma criança com um brinquedo novo — Samuel disse, sem ironia. — Animada, orgulhosa… e com medo de ter complicado tudo por causa do atraso.

Luke acenou com a cabeça.

— Isso é tão ela que chega a ser fofo.

— Extremamente fofo — Beca completou, sorrindo para Elisa.

Samuel respirou fundo antes de concluir:

— Naquele dia…

Outra pausa curta.

— …eu percebi que você era diferente.

A mesa ficou em silêncio por meio segundo.

Depois:

— Oooopa. — Luke foi o primeiro a reagir, com a sobrancelha levantada.

— Diferente como? — Olivia perguntou, inclinando-se para frente.

— Calma aí — Lucas entrou no meio. — Achei peculiar você ter escolhido ESSA lembrança entre tantas.

— Eu também — Beca murmurou. — Muito peculiar.

Olivia arregalou os olhos, interessadíssima.

Lucas fez o clássico “Hmmm?” levantando uma sobrancelha.

Elisa sentiu um frio subir pelas costas.

Aquela frase…

Como assim diferente?

Samuel logo desviou o olhar, como se tivesse percebido que talvez tivesse falado demais.

Ou de menos.

Ou exatamente o suficiente para deixá-la confusa.

— É só isso. — Ele concluiu, seco, como se quisesse encerrar a conversa antes que alguém perguntasse mais.

Mas ninguém ali comprava esse encerramento. Especialmente Elisa, que ficou olhando para as próprias mãos, lembrando do medo, da empolgação… e da gentileza dele naquele dia.

Ela nem lembrava que Samuel tinha prestado tanta atenção.

Nem que aquele sorriso nervoso dela tinha marcado alguém assim.

Lucas quebrou o silêncio do jeito mais Lucas possível:

— Tá, agora eu quero saber:

— Você reparou nela assim, logo naquele dia?

— Lucas — Samuel advertiu.

— Não, sério. Eu só tô tentando entender. Porque EU lembro que nesse mesmo dia você ficou olhando para ela como quem olha para um…

— Lucas. — Samuel repetiu, agora firme.

— Tá bom, tá bom — Lucas levantou as mãos. — Só achei interessante que você escolheu essa lembrança, sendo que podia escolher qualquer outra.

Elisa sentiu o ar ao redor mudar.

E dentro dela, algo se abriu — uma expectativa nova, desconhecida.

Porque agora ela estava se perguntando:

Por que essa?

Por que aquele dia?

Por que ela?

E Samuel…

Samuel não respondeu.

Só observou seu prato recém finalizado, como se escondesse um segredo muito antigo.

Olivia cruzou os braços, sorrindo.

— Agora só falta você, Elisa.

Tentei pensar em algo leve, engraçado, simples.

Mas a lembrança que veio não pediu licença — simplesmente me puxou para dentro dela.

FLASHBACK

Eu estava na entrada do prédio do Lucas.

Era fim da tarde, e o calor grudava na pele.

Eu segurava minha bolsa firme, tentando ignorar o homem à minha frente.

— Me dá seu número, vai.

— Não. — tentei me afastar. — Não estou interessada.

O homem insistia.

Se aproximava demais.

Falava alto.

Ignorava meu desconforto.

Meu corpo inteiro estava tenso.

Até que senti… uma mão na minha cintura.

E ouvi uma voz que me fez soltar o ar preso:

— Amor, desculpa a demora. Vamos?

Virei o rosto — era Samuel.

Calmo.

Firme.

Presente.

O cara recuou na hora.

— Ah… desculpa aí. Não sabia que tinha namorado.

— Tem — Samuel respondeu, com um sorriso frio que eu nunca tinha visto nele. — E ela não anda sozinha.

O homem sumiu.

E então Samuel tirou a mão devagar, como se tivesse medo de ter passado do limite.

— Você tá bem? — perguntou.

Eu só consegui assentir.

Ele abriu a porta do prédio e entrou ao meu lado, como se fosse parte da minha rotina.

Como se sempre tivesse estado ali.

FIM DO FLASHBACK

Voltei ao presente com um leve sorriso melancólico.

— Eu tenho uma lembrança — anunciei. — Mas é meio boba.

— As melhores são — Luke disse, sorrindo.

Olhei discretamente para Samuel, que já me observava com aquela expressão calma, atenta… e que sempre me fazia esquecer como se respira por dois segundos.

— Foi um dia em que vocês dois — apontei para Samuel e Lucas — estavam indo resolver alguma coisa na empresa do Lucas.

Lucas franziu a testa.

— O quê? Eu e o Sam resolvendo pepino? Impossível.

— Impossível vocês ficarem quietos, né — Beca provocou.

Eles riram, e continuei:

— Eu estava na entrada do prédio, estava tentando entrar. E… tinha um cara lá. Um maluco insistindo para pegar meu número.

— O quê? — Beca se ajeitou na cadeira. — Como assim um maluco?

Senti o rosto esquentar.

— Era um cara inconveniente — esclareci. — Ficou me chamando pra sair, perguntando meu telefone, insistindo mesmo quando eu já tinha deixado claro que não estava interessada. Eu estava ficando visivelmente irritada.

— Eu lembro disso — Samuel disse, baixinho.

O som da voz dele falando “eu lembro” fez meu coração bater estranho.

Continuei:

— Aí… do nada, o Samuel apareceu. Ele viu a situação de longe e…

Soltei um riso suave.

— …chegou de fininho fingindo que era meu namorado.

Pronto.

A mesa virou um festival de reações.

— O QUÊ? — Lucas quase derrubou o copo.

— Você fingiu ser o namorado dela? — Beca falou, chocada.

— Eu não creio — Olivia apontou para Samuel. — VOCÊ???

— Gênio — Nico comentou, dando um tapinha imaginário no ombro de Sam.

Samuel riu, coçando a nuca.

— O cara tava sendo um idiota — justificou. — Fiz o que precisava.

— Ele colocou a mão na minha cintura — acrescentei, sentindo minhas bochechas queimarem. — E disse: “Amor, desculpa a demora.”

A mesa explodiu em gargalhadas.

— Você chamou ela de amor? — Olivia perguntou, quase pulando da cadeira.

— Foi espontâneo — ele disse, levantando as mãos. — Funcionou, não funcionou?

— Funcionou — admiti. — O cara foi embora na mesma hora.

E então Samuel finalizou o teatro dizendo que eu não andava sozinha.

Luke assobiou, impressionado.

— Ele mandou essa?

— Mandou — confirmei. — Depois a gente entrou no prédio e eu agradeci… e ele agiu como se não fosse nada demais.

Olhei para minhas mãos, tentando disfarçar o calor no peito.

— Mas pra mim foi. Ele foi gentil. Foi… — procurei a palavra. — …cavalheiro.

Um silêncio breve se fez, quente, significativo.

— Claro que foi — Beca disse, sorrindo para Samuel. — O Sam sempre foi assim.

— Nem sempre — Lucas murmurou. — Mas com certas pessoas, sim.

Samuel abaixou o olhar, como se estivesse desconfortável com o elogio.

Ou com outra coisa.

E então, a mesa inteira ficou estranhamente quieta.

Não um silêncio desconfortável — mas carregado.

Como se todos, até os mais lerdinhos, tivessem captado algo ali.

Inclusive eu.

E foi nesse silêncio que percebi:

Essa história…

Eu e Samuel…

Isso não podia ficar assim.

Eu ia ter que falar com ele depois.

Mesmo que fosse para ouvir algo que eu não estava preparada.

Depois da minha lembrança, a mesa inteira ficou em um silêncio estranho — não desconfortável, mas reflexivo. Era como se cada um estivesse processando não apenas as histórias contadas, mas tudo o que estava acontecendo ali, no meio daquele almoço que começou tão inocente.

Beca foi a primeira a quebrar o clima, batendo palmas baixinho.

— Gente… que almoço! — ela riu. — Acho que nunca tivemos uma roda de histórias tão intensa.

— Nem tão reveladora — acrescentou Luke, arqueando uma sobrancelha em nossa direção, como quem sabia exatamente o que estava fazendo.

Senti minhas bochechas queimarem.

Olivia, animada como sempre, se levantou um pouco da cadeira.

— Bom, meus amores, acho que nossa sessão de terapia em grupo acabou! — ela declarou. — E se quisermos aproveitar as cataratas, é melhor irmos logo, porque o sol está maravilhoso.

— Concordo. — Nico se soltou de Olivia por um segundo — E eu tô ansioso pra tirar umas fotos. Dizem que a luz da tarde lá é perfeita.

— Eu vou amar! — Beca sorriu, empolgada.

— Então vamos? — perguntou Samuel, olhando para todos… mas quando seus olhos passaram pelos meus, por um instante tudo pareceu parar. — Ainda temos um longo dia pela frente.

Meu coração bateu rápido demais.

— Vamos, sim — respondi, tentando manter a voz estável.

As cadeiras arrastaram, bolsas foram recolhidas, e de repente todos falavam ao mesmo tempo, rindo, comentando das histórias, fazendo piada de quem tinha chorado, de quem tinha corado, de quem tinha se entregado demais.

— Eu ainda acho que a Lisa devia trabalhar como cupido profissional — brincou Luke enquanto caminhávamos para o balcão. — Você une mais casal que aplicativo de relacionamento.

— Engraçadinho — empurrei o braço dele, rindo.

— Eu concordo com o Luke — afirmou Beca. — Ela junta todo mundo, mas quando chega a vez dela…

Ela parou propositalmente, arqueando a sobrancelha para mim.

Fiz uma careta.

— Nem começa! Vocês tem sorte, quem sabe um dia eu tenha também?

Eles caíram na risada, mas Samuel ficou quieto.

Pagamos a conta e saímos do restaurante em direção ao estacionamento. O ar quente da tarde me atingiu o rosto, e enquanto o vento mexia meu vestido florido eu sentia uma mistura estranha — felicidade, ansiedade, um frio gostoso na barriga.

Algo tinha mudado naquele almoço.

Algo que eu ainda não conseguia nomear… mas sentia.

— Lisa, vamos? — ouvi a voz de Samuel atrás de mim.

Olhei para ele, parado ao lado do carro, com aquele sorriso suave.

Um arrepio percorreu minha espinha.

— Vamos.

Continua…