No Quarto ao Lado
9 Capítulo 09
Notas iniciais
Grimmjow ficou incrédulo, mas não mostrou. Sua única reação foi soltar uma risadinha, além de ter parado de tomar o chá de imediato. Era uma brincadeira, só pode.
“Que tipo de brincadeira é essa, Ichigo?”
“Não é brincadeira. Por que eu brincaria com você, Grimmjow?”
“Você é meu. Como pode dizer algo assim?”
“Seu o caralho. É simples, você não pode me oferecer o que eu quero. E nunca vai poder fazer isso. Nunca.”
Silêncio.
Grimmjow parou para raciocinar. Por que Ichigo teria feito aquilo? Ele não conseguia encontrar um motivo. Mas um flash tomou sua mente. Era mais do que óbvio o porquê daquilo.
“Você quer que eu te ame, Ichigo?”
“Não.”
“Então o porquê disso?”
“Eu não quero que você me ame. Outra pessoa vai se encarregar disso, no lugar que antes era seu.” Ichigo estava decidido. Grimmjow soltou mais uma risadinha, até tomou um gole do chá, quente o suficiente para queimar sua garganta. Se levantou da banqueta e foi na direção do ruivo.
“Sério mesmo isso?” Grimmjow colocou seus braços sobre o balcão, cercando Ichigo, que ainda estava sentado na banqueta. Aproximou sua boca ao lado esquerdo do pescoço de Ichigo, e mordeu. O ruivo não mostrou nenhuma reação. Não arfou, não tremeu. Nada.
“Por que você faz isso, Grimmjow?”
“Vou ter que repetir? Você é meu. E faço questão de marcar o que é meu por direito.”
“Direito? Você é engraçado.” O ruivo tirou o corpo de Grimmjow sobre o seu, e soltou um longo suspiro. “Saia. Não quero mais você aqui.”
“Viu? Esse tal de amor é um filho da puta mesmo. O mundo seria bem melhor se ele não existisse.”
Às vezes, o caçador vira a caça.
“O que você fez, desgraçado?” Grimmjow acariciava a bochecha, tal bochecha que Ichigo tinha acabado de socar.
“Você não recebe amor da sua família? Deveria pensar antes de falar.” Após Ichigo ter dito tal coisa, Grimmjow seguiu em direção à porta.
“Minha família está bem distante de mim. E tem muita coisa sobre mim que você não sabe, deveria calar a boca se for pra falar besteira. Eu vou embora, já que você quer isso. Mas depois não reclame. Quando eu desisto de algo, não volto atrás.”
“Já ouvi muito mimimi hoje. Chega, Grimmjow. Vai logo.”
“Você vai se arrepender depois.” O espanhol foi embora, fechando a porta com violência. Ichigo respirou fundo e sorriu. Aquilo foi um peso tirado de suas costas. E por mais que o remorso possa dar as caras a qualquer hora, antes você se arrepender de algo que fez, do que algo que não fez.
03h32.
Grimmjow se encontrava numa boate, dançando–ao menos tentando– como se fosse seu último dia de vida. Não sabia mais quais bebidas iam pra sua boca e sua visão ficava mais turva a cada minuto que passava. Sentou por alguns minutos para ao menos ‘tentar’ normalizar seu estado. Sua camisa nem tão impecável cheirava a vodca e seu cabelo azul estava parecido com o de alguém que acabou de acordar. Sua cabeça latejava demais, e a música alta do local apenas piorava sua situação. Seus pés acabaram ficando doloridos de tanto dançar. E como tudo pode ficar pior, ainda estava sem óculos. Céus. Faziam mais de dois anos que Grimmjow não fazia algo assim. Procurou alguns colegas da faculdade que lhe acompanharam até a boate; simplesmente sumiram de seu raio de vista. Estaria tudo ótimo caso Riku, uma de suas colegas de faculdade, não tivesse sumido. Afinal, a garota tinha oferecido carona para ele e mais duas pessoas. O jeito era improvisar.
Grimmjow se direcionou ao barman. Pagou uma garrafa de água e perguntou onde ficava o ponto de taxi mais próximo. E recebeu uma resposta bem insatisfatória, pois teria que dar uma boa caminhada para achar o maldito taxi. Definitivamente, o espanhol não estava em sua melhor noite, e a bebida talvez não o fizesse conseguir andar até o ponto de taxi. Mas ou era isso, ou sua cabeça acabaria explodindo. Tentar não custa nada, certo?
Talvez não.
“Droga!” Grimmjow saiu da boate gritando, chutando o ar e qualquer coisa que visse pela frente. Não estava completamente bêbado, ainda tinha algum senso da situação. Ainda conseguia se locomover, mesmo com o corpo mole. Ok, era só ter calma que tudo acabaria bem.
E a última coisa que Grimmjow viu foi um feixe forte de luz. Que se transformou na mais repleta escuridão alguns instantes depois.
—
14h58.
“Ele vai ficar bem?”
“Sim. Seu amigo teve sorte e apenas torceu o braço.”
“Obrigado.”
Grimmjow ouviu uma voz ligeiramente conhecida. Não sabia onde estava e mantinha os olhos bem fechados. A única coisa que sentia no momento era talvez a pior dor de cabeça em sua vida. Lentamente, abriu os olhos. Não que fosse tão útil ver alguma coisa, afinal estava sem óculos e o semblante desanimado de Ichigo parecia mais um borrão. O ruivo fitava os orbes azulados de Grimmjow com raiva.
“Onde eu estou Ichigo?”
“No hospital.” Ichigo controlava a voz. Queria gritar, mas seu bom senso o impedia. Sua voz era a mais calma possível.
“O que aconteceu?”
“Aparentemente você foi atropelado.” Só então Grimmjow se deu conta de seu braço direito, que estava enfaixado. Observou o quarto com cortinas brancas impecáveis e lençóis azuis, que eram borrões um tanto monocromáticos. Sua mente resumiu os acontecimentos da noite passada em três palavras, sendo elas ‘taxi’, ‘dor’ e ‘bebida’. Precisava do copo enorme de café que lhe fazia companhia quase todas as manhãs, caso contrário, não melhoraria da dor de cabeça. Definitivamente, não foi uma noite boa para sair sem óculos.
“Não tem motivo pra você ter vindo aqui, Ichigo.”
“Olha, esse hospital filho da puta me ligou as oito horas da manhã de um domingo pra avisar que você sofreu um acidente. Inicialmente eu não iria vir, mas me contaram que você estava sem óculos e que teria dificuldade para voltar pra casa.”
“Como eles sabem disso?”
“Viram uma receita de óculos na sua carteira. Se eu não me engano, é a daquele dia.” Sim, aquele dia. O dia que Ichigo deu o primeiro beijo no vizinho. Era impossível de esquecer.
“Eu não pedi sua ajuda.”
“Enfia esse orgulho no cu, você não tem moral nenhuma pra negar ajuda nesse estado. Sossega essa bunda e vê se toma um banho, eu trouxe uma troca de roupa pra você.”
Xeque-mate.
“Como você entrou no meu apartamento?”
“Você deixou a porta aberta.”
Droga.
Mil vezes droga.
“Vê se vai logo. Daqui a meia hora eu passo aqui de novo.” Ichigo levantou da cadeira ao lado da cama de Grimmjow e seguiu para a porta. Grimmjow nunca sentiu tanta raiva de Ichigo como estava sentindo no momento. O ruivo não era ninguém importante para ficar todo mandão daquele jeito. Mas não era hora de reclamar. Grimmjow respirou fundo e levantou da cama, com o máximo de cuidado possível para não machucar mais o braço. Foi até a porta na qual Ichigo não se direcionou antes, e começou a pensar na grande porcaria que fez na última noite.
—
Ichigo assinou alguns papeis e seguiu para um ponto de taxi próximo. Grimmjow, agora vestido com um conjunto de moletom cinza, cabelo propositalmente arrepiado e um sorrisinho sacana no rosto, apenas seguia o grande borrão que era Ichigo. Sentia-se contente, apesar de tudo. Ver que o vizinho ainda era submisso o suficiente para vir correndo quando ele precisasse era ótimo.
Na verdade, era exatamente o contrário.
A viagem de taxi demorou aproximadamente meia hora. Ichigo pediu para que o taxista parasse o carro três quarteirões antes de casa, precisava comprar algumas coisas que o problemático de cabelos azuis praticamente lhe obrigaria a comprar. Pagou o taxista e desceu do carro com Grimmjow.
“Aonde nós vamos?”
“Na farmácia.” Grimmjow ficou encabulado. Sua ‘pose’ de macho alfa e moço comportado foi para o ralo. Naquele momento, parecia uma criança briguenta, impaciente e curiosa. Não que ele não fosse uma, mas aquilo não entrava em cogitação. Voltou a seguir Ichigo, e parou na frente da farmácia, aguardando o ruivo comprar os remédios. Após aquilo, voltaram para casa em silêncio.
Chegando à entrada do apartamento, logo observaram Kumi conversando com Yoshida. A mulher os cumprimentou animadamente, em especial, Grimmjow.
“Grimm-kun! O que aconteceu com seu braço?”
“Eu o torci. Fui atropelado essa noite.”
“Ah. Se cuida, moço. Você é bonito demais pra se machucar, certo? E Ichi, cuide bem dele, viu?” Ichigo apenas fez que sim com a cabeça. Despediram-se de Kumi e do porteiro e logo se encontravam a caminho do apartamento 6-6.
Ichigo parecia uma mãe cuidando do filho.
Ou um namorado cuidando do parceiro.
Em silêncio, os dois adentraram o apartamento. Grimmjow olhou para o relógio, que marcava pouco mais de dezessete horas.
“Tem café aqui?” O silêncio do local foi interrompido por Ichigo. Grimmjow soltou um suspiro antes de responder.
“Segunda porta no armário de cima.” O ruivo assentiu e Grimmjow foi em busca de seu óculos, que estava numa mesinha de canto da sala. Era tão bom enxergar de novo. Aproveitou para sentar e ver como o ex-borrão de nome Kurosaki Ichigo se encontrava no momento: colocando água na cafeteira e passando o olho na bula de um dos remédios. Ah. Pelo menos ali, por uma última vez, ele poderia provocar o vizinho. Mas com a pose de bom moço, claro.
“Ichigo, quanto eu tenho que te pagar?”
“4200¹ ienes.”
“Tudo isso?”
“Eu tenho uma lista dos gastos, se você quiser ver.”
“Tudo bem. Obrigado. A propósito, eu ganhei algum atestado?”
“Sim, você pode ficar dois dias em casa.” Ichigo voltou toda a sua atenção para a cafeteira, mesmo que ele não tenha tirado os olhos do café quando Grimmjow o chamou. Na verdade, sua ‘missão’ já tinha acabado ao ter chegado à porta do apartamento. Mas Ichigo era bom demais para sair assim. Nunca abandonaria uma pessoa doente, por mais que Grimmjow não estivesse doente de verdade. Mesmo ‘cuidando’ do vizinho, ainda estava indiferente em relação a ele como um... Amigo com benefícios. Aquilo tinha acabado. Mas tirando a parte dos benefícios, eles ainda poderiam ser amigos, certo?
Quem sabe.
O tempo cuidaria daquilo.
“Tome.” Ichigo entregou um pratinho com um comprimido e um copo de água. “É pra sua dor de cabeça. Quando você sentir dor no braço, tome também.”
“Como você sabe disso?”
“Disso o que?”
“Minha dor de cabeça.”
“É mais do que óbvio. Você passou a noite bebendo e sem óculos.”
Era tudo sempre tão óbvio vindo dele.
Grimmjow tomou o remédio e Ichigo logo seguiu para a cozinha, voltando para a interessante atividade de olhar o café cair aos poucos na jarra da cafeteira. Ah, o silêncio. Fora o tique-taque do relógio e alguns movimentos de Grimmjow no sofá de couro, nada mais era ouvido. Com o café pronto já na xícara com o mínimo de açúcar, Ichigo logo foi em direção do espanhol, dando de cara com o vizinho dormindo. Não parecia estar fingindo, muito pelo contrário, aparentava ser alguém que não dormia a eras. Ichigo arrastou a mesa de centro para o lado do sofá, pegou um papel qualquer e fez um forro para a xícara quente. Deixando a peça de porcelana na mesa, suspirou.
“O seu café vai esfriar, Grimmjow.” E assim, saiu do apartamento vizinho. Afinal, ele também tinha uma vida. Que era corrida demais para se dar ao luxo de cuidar de um vizinho bem mais do que problemático.
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