No Quarto ao Lado
10 Capítulo 10
Notas iniciais
“Isto mata?
Isto queima?
É doloroso saber?
Que sou eu quem tem todo o controle?”
Harder to Breathe — Maroon 5
Grimmjow abriu os olhos com certa sonolência, um tanto assustado por ter caído no sono, enquanto sentia sua cabeça destruir seu bem estar de pouco em pouco. Se revirou no sofá de couro e lembrou-se do braço. Teve sorte de não dormir por cima do braço machucado; porém de nada adiantou, pois suas costas doíam devido ao mau jeito que dormiu. Respirou fundo, criando forças para ao menos conseguir sentar no estofado. E viu uma xícara de café frio em cima da mesa de centro.
Suspirou.
— Adorável, Ichigo — Sem se importar com a temperatura, levou a xícara de café gelado à boca. Afinal, Grimmjow não era do tipo que ignorava possíveis “mimos”, ainda mais se fosse um mimo dele. Alguém que ele se interessou. Que esses dias, andava ousado demais na concepção de Grimmjow.
Já era fim de domingo. Mesmo querendo, Grimmjow não se sentia no direito de ligar para Ichigo. Muito menos de sair de casa e encarar o ruivo cara a cara. Discutir com Ichigo dava preguiça.
Talvez bem lá no fundo, Grimmjow se importasse com o vizinho.
Não.
O espanhol foi em busca de um remédio para dor de cabeça. Tomou um banho quente e foi para a cama, já que aproveitar o resto do dia era inútil.
Três meses depois.
Ichigo se encontrava no serviço, como sempre. Desde aquele dia não teve nenhuma conversa decente com Grimmjow, e nas poucas vezes em que se viam, trocavam poucas palavras, devido à correria do dia a dia e a falta de interesse do ruivo em manter uma conversa decente. Ichigo conheceu uma garota chamada Shion, e começou a criar um interesse na mesma. Era bonita, aparentava gostar do ruivo e ainda era uma companhia muito agradável. Pensava nos noventa dias afastado do vizinho. O que Grimmjow poderia estar fazendo agora?
Talvez não importasse mais.
Ichigo se perguntava o que iria fazer no seu aniversário, que não estava tão distante. Completaria 20 anos, com uma faculdade e emprego. Mas sua vida estava tão monótona. Acordar, trabalhar, estudar, dormir. Quando sobrava tempo, jogava videogame. Ou nem isso. Chegou a passar alguns dias inteiros dormindo. E isso o deixava com um pouco de arrependimento sobre a situação de três meses atrás. Não por ter largado o homem de cabelo azulado, mas sim, por ter começado uma situação que acabou impondo isso.
E o fato de ter dormido, beijado e ter pensado em se relacionar com alguém com um júnior nas partes íntimas era meio assustador. Afinal, do que Ichigo gostava? Sempre se sentiu 100% hétero. E do nada, um cara com olhos absurdamente azuis o arrasta pra uma armadilha tentadora, o fazendo duvidar de sentir atração somente por mulheres.
Se bem que, quem pensa muito, acaba não fazendo nada.
E era melhor não pensar naquilo.
•••
Ichigo estava chegando da faculdade com um cansaço absurdo. Era quase meia noite e a rua deserta lhe causava alguns arrepios, mesmo que tivesse a devida segurança. No caminho de casa, aproveitou para passar na loja de conveniência a três quarteirões de seu lar, sentia fome de doce e sentia necessidade de colocar algum pedaço de chocolate na boca.
A lei de Murphy diz que se algo pode dar errado, dará.
— Há quanto tempo, Kurosaki — Uma voz estridente e desafiadora veio do caixa da loja, aparentemente escolhendo a melhor marca das balas de menta presentes lá.
— Boa noite — Ichigo foi à procura dos seus amados chocolates e ignorou a presença do vizinho lá, apenas respondendo pela educação. Não demorou muito para que Ichigo encontrasse duas barras de KitKat e pagasse, saciando a vontade de comer. Só não esperava que um vizinho, atualmente com o cabelo desbotado, fosse lhe esperar na saída da loja.
— Não gosto de ser ignorado — Grimmjow falou aparentemente irritado enquanto Ichigo seguia para o apartamento, terminando sua primeira barra de chocolate.
— Pensei que não quisesse nada comigo. Agora me deixa ir, tenho mais coisa pra fazer, Grimmjow.
— Você mora a dois metros de distância de mim. E eu sei que você só vai tomar um banho e dormir, ruivinho. Larga de ser chato.
Ok, o que era aquilo?
Ichigo parou no meio da calçada e suspirou. O prédio em que ambos moravam estava a poucos metros, fazendo com que Grimmjow não compreendesse a parada repentina. Ichigo terminou sua barra de KitKat e jogou o plástico numa lixeira próxima. Após olhar em volta, voltou a andar, fazendo Grimmjow ficar um pouco desorientado sobre o pequeno acontecimento.
— Por que parou?
— Cara, me deixa em paz — Ichigo resmungou, ignorando novamente certo espanhol e apertando o passo. Logo encontrou com o porteiro da noite, Takumi, que era um cara forte, bonito, alto e sociável, completamente diferente de Yoshida.
Se bem que Ichigo nunca tinha dado a devida atenção a caras bonitos antes de certa pantera mostrar as suas garras.
— Boa noite, Takumi-san — O porteiro sorriu para Ichigo como resposta e abriu o portão para os dois. Grimmjow, observando a situação, não perdeu a chance de provocar o vizinho.
— Então quer dizer que o ruivinho está interessado em um porteiro? Interessante — Grimmjow abriu um sorriso enorme enquanto observava a reação de Ichigo sobre sua constatação; as bochechas do garoto coraram de forma absurda. Após retomar um pouco a noção e suspirar novamente, Ichigo retrucou aquele cara absurdamente folgado em sua constatação.
— Não te interessa — Ichigo seguia em direção ao elevador, pedindo internamente que Grimmjow não fosse inventar de tirar uma casquinha. Quando a porta do elevador abriu e os dois entraram, não demorou para que o espanhol começasse a encher o saco do ruivo.
— Ichigo, eu não entendo o porquê de você me tratar com pouco caso.
Imagina, Grimmjow, você nem faz ideia.
Apesar de tudo, disse sério, mesmo que o seu semblante não mostrasse a devida preocupação de sua voz.
— Ah, Grimmjow… Me dê motivo pra não fazer isso — As portas do elevador se abriram e Ichigo saiu na frente, com uma pantera de cabelos azuis acompanhando seus passos. Sentou no tapete que ficava na porta de seu apartamento enquanto procurava a chave de casa, que não estava no bolso da calça — Eu e você não temos futuro. E eu sou uma pessoa que quer um futuro com alguém.
— Que romântico — Ironizou a última frase do vizinho, sem deixar de soltar um riso.
— Kurosaki, eu definitivamente não sou o tipo de pessoa que pensa em ter um futuro com alguém. Por que pensar nele se eu posso viver o meu presente, aqui e agora? — Ichigo parou a procura pela chave e olhou diretamente naquela imensidão azul que eram os olhos de Grimmjow, que por sinal, não estavam cobertos pelos óculos.
— Grimmjow, as pessoas são diferentes umas das outras. E eu não entendi isso. Por acaso você quer alguma coisa a mais comigo?
Tá na cara, Ichigo. Para de ser lerdo.
— Mas que porra, viu? — Grimmjow estava quase gritando, sendo advertido pelo vizinho, que o mandou falar baixo com um gesto.
Certos hábitos nunca mudam.
— Nós não vamos viver pra sempre. Por que desgastar a juventude com uma pessoa só se a nossa vida é curta demais pra isso? — Após ter abaixado o tom de voz, foi a vez de Grimmjow encarar a figura abaixo, que finalmente encontrou a chave jogada no meio de tantas tralhas dentro da mochila. Ichigo levantou do chão e abriu o apartamento, que estava um pouco mais mobiliado desde a última vez em que Grimmjow apareceu por lá.
— Entendi Grimmjow, entendi. Faça o que quiser, boa noite — Com isso, Ichigo entrou no apartamento e basicamente fechou a porta na cara do espanhol. O último observou incrédulo o desfecho da situação.
Já tinha dado bandeira demais, não?
E com isso, Grimmjow soltou a terceira risadinha da noite. Estava irritado o suficiente consigo mesmo por não ter logo jogado Ichigo na parede e lhe arrancado uns beijos, mas também estava irritado com o ruivo pelo simples fato dele ter lhe forçado a pisar um pouco na sua pose de bom moço intocável.
Lá no fundo, ele sabia que essa pose de bom moço era uma farsa. E que a besta dentro de si só não encontrou a oportunidade certa pra ser solta por completo, como nos velhos tempos.
Ichigo trancou a porta do apartamento por ter sérias desconfianças de que um cara de cabelos azuis pudesse invadir seu apartamento e abusar da sua humilde pessoa. Jogou a mochila no canto da casa e foi tirando as roupas enquanto seguia em direção do banheiro. O tempo primaveril de Março era agradável, permitindo que um banho morno fosse a melhor pedida do momento. Com uma trilha de roupas conforme o banheiro ia se aproximando, Ichigo abriu o registro e enfiou a cabeça debaixo da água nem tão fria, nem tão quente.
Ensaboou o corpo pensando no quão azuis eram aqueles olhos que ele não se deu ao trabalho de apreciar pelos últimos três meses, mas não pôde evitar um sentimento de culpa devido à depravação que era pensar em alguém enquanto se banhava. Sentiu-se absurdamente sujo após a constatação e ficou mais tempo que o necessário no chuveiro, querendo que a água purificasse tudo aquilo.
Não que fosse a primeira vez que tivesse pensado nele enquanto se banhava. O que lhe fazia sentir ainda mais devasso.
E de fato, era.
Grimmjow assistia a sua amada televisão em seu costumeiro sofá de couro, enquanto Ichigo se perdia de tanto pensar em seu sagrado banho. Ainda não estava absorvendo os últimos acontecimentos, sempre foi uma pessoa impulsiva, mas aquilo já não era demais? Depois de três meses sem provocar o vizinho sobre qualquer coisa, até que bate uma saudade de um hábito que tinha sido recém-criado. O interesse de Grimmjow era mais regido por uma curiosidade do que por algum tipo de atração sexual ou até mesmo amorosa. Aquele garoto mexia com seu orgulho. Apareceu tão rapidamente, vulnerável e suscetível a se enroscar em sua teia de aranha, porém fugiu dela na mesma rapidez em que chegou. E passados três meses, quando finalmente tiveram uma oportunidade−mesmo que forçada por certo espanhol−de conversarem, Ichigo não se mostrou aquela bicha passiva das primeiras vezes. Mostrou firmeza e seriedade na voz. E aquilo deixou Grimmjow encabulado. Como as pessoas poderiam mudar em apenas 90 dias?
Grimmjow poderia fantasiar menos e colocar na cabeça que toda aquela seriedade é fruto de uma rotina cansativa.
Mas essa rotina poderia ficar interessante, não? Ainda mais com certo jornalista recém-formado usando de toda a sua capacidade de persuasão para atingir seu objetivo.
Após um banho encoberto por pensamentos conturbados sobre um vizinho seguido de uma noite profunda de sono, Ichigo acordou, procurando o celular do lado da cama e olhou o horário. Marcava exatamente onze horas e quinze minutos. O ruivo soltou um longo suspiro e criou coragem para levantar da cama. Estava pensando no quão importuno estava sendo viver sem qualquer tipo de “diversão”. Não via os amigos antigos há meses, só saía de casa para trabalhar e estudar e não sentia interesse algum na vida noturna tão comentada nas mensagens que seus colegas de faculdade lhe mandavam todo fim de semana.
Lavou o rosto e logo escovou os dentes, observando seu reflexo ligeiramente bronzeado. Seu cabelo havia crescido um pouco e os músculos de seu corpo aparentavam estar um pouco mais definidos devido ao último trabalho que exercia-que inclusive, seria finalizado em breve-. Gostou do que tinha visto e sorriu para si próprio, achando graça da própria situação. Mas teve que parar com a sessão de auto endeusamento devido ao toque da campainha de seu apartamento.
Ichigo nunca torceu tanto pra que fosse o seu pai invadindo a portaria e entrando sem permissão.
— Tudo isso é pra mim? — Grimmjow sorriu de canto, encarando o ruivo da cabeça aos pés descaradamente, que apenas utilizava uma calça de moletom xadrez que mostrava a barra da cueca, nada muito diferente do que o espanhol costumava utilizar para dormir. Não pode deixar de reparar nos músculos do abdômen do vizinho, que estavam aparentemente mais definidos desde o dia em que o viu desnudo pela primeira vez.
O dejavú foi inevitável.
Ichigo bufou de descontentamento da visita, mas dormiu absurdamente bem para se estressar com qualquer coisa. Como acordou com um humor excelente, encarou a situação com o máximo de calma que tinha no momento.
— Não vai me chamar pro café? — Grimmjow provocou o vizinho, agora com os olhos direcionados nos braços musculosos do ruivo. Seu semblante era de alguém que fazia pouco caso, afinal, Ichigo ainda teria que trabalhar para chegar ao corpo que o espanhol possuía no momento — Ainda tá fraquinho, tem que malhar esse braço aí.
— Só cala a boca e entra.
— Acho que alguém se deu por vencido muito facilmente — E assim, Grimmjow entrou no apartamento alheio, fechando a porta, sem antes de abrir um sorriso soberbo.
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