No Other
23 Capítulo 23 - Mama, I'm Coming Home
Notas iniciais
Assim que chegamos na casa de Kyle, o frio começou a mostrar seus efeitos sobre mim. Eu ainda tremia, e começava a sentir um incômodo na garganta. Provavelmente começava a inflamar. Ali não parecia muito melhor.
– Eu vou conseguir algumas roupas. – Kyu falou, nos levando até o quarto dele. Tudo continuava como eu lembrava. Sorri de novo, aliviada por não ser só mais um flash. – Acho que seria bom se vocês tomassem um banho. Vou deixar as roupas aqui.
– Valeu, Kyu. – Ele deu um sorriso e saiu do cômodo, indo buscar as roupas. Ali me olhou, esperando para ver quem tomava banho antes.
– Quer ir primeiro? – Ela falou, fungando. Provavelmente também ficaria gripada.
– Pode ir. Um prêmio por me salvar. – Ela riu, concordando. Me deitei na cama, me sentindo exausta.
– Ei, vai molhar a cama dele. Ainda está com as roupas molhadas. – Ela disse, cruzando os braços. O garoto entrou no quarto, com toalhas nas mãos e uma muda de roupas.
– Isso foi rápido. – Comentei, olhando as roupas que ele trouxera. – Não tem pra mim?
– As empregadas não tinham nada que te sirva. Pode pegar alguma roupa minha. – Ele disse, como se pedisse desculpas.
– Megs. A cama. – Ali falou de novo, pegando uma das toalhas.
– Valeu, Kyu.Você bem que podia fazer lámen pra gente, não? Sabe, pode me ensinar a comer de hashis hoje. – O empurrei porta afora. – Com licença.
Tranquei a porta, indo mexer nas roupas dele. Ali revirou os olhos e foi para o banheiro, cantarolando. Tirei as roupas molhadas, deixando-as num canto do chão. Me deitei de calcinha e sutiã, aproveitando que a porta estava trancada e cochilei enquanto Ali tomava banho.
– Megs. Megs. – Ali me acordou, secando o cabelo com a toalha. – Pode ir.
– Ah, valeu. – Me sentei, esfregando os olhos. Ainda ardiam e pesavam, mas já me sentia um pouco melhor. – Preciso pegar roupas.
– Como pretende conseguir uma calça que te sirva? – Ela me fitou, com o cenho franzido. – Ele é maior que você.
– Não vai ficar tão grande assim. Ele tem uns coxão. – Dei de ombros, olhando as camisas. – E talvez dê pra usar alguma blusa de vestido.
– Como assim você fica encarando as coxas do MEU homem, piranha? – Ela soava indignada, mas sabia que era apenas brincadeira. Ri, pegando uma bermuda branca que eu tinha quase certeza que devia ficar apertada nele.
– Você devia me agradecer, já que ele só é SEU homem porque eu te apresentei. – Mostrei minha língua pra Ali, rindo em seguida.
– Ainda assim, não justifica você ficar avaliando as coxas dele. – Ela estava um pouco mais séria agora.
– E nem preciso. Quero dizer, você nunca viu ele de terno? As coxas dele ficam marcando a calça, apertadas. Chama atenção, mesmo sem querer. – Dei de ombros, pegando as roupas e a toalha.
– Meu Deus, sua devassa.
– Devassa é a coxa dele. – Fui pro banheiro, rindo. Tomei um banho rápido, sem querer ficar muito tempo debaixo da água.
As roupas até que me serviram bem. Tive que apertar um pouco a bermuda com um cinto, mas ficou boa. E a camisa era um pouco larga, mas não me incomodou. Era bem confortável.
– Pronto, seca e vestida confortavelmente. – Sorri, saindo do banheiro. Ali já tinha destrancado a porta, Kyu estava na cama com a bandeja e as vasilhas fumegantes.
– Melhor? — Ele perguntou, ao que anui. – Bom. Aqui, vem comer.
Ele estava sentado no meio da cama. Com Ali do seu lado direito, me sobrou ir pro esquerdo. Me sentei, pegando a tigelinha e os hashis. Ali segurava os dela habilmente, enquanto Kyu me ajudava.
– Se você não aprender vai passar fome. – Ele falou sério, mas sorri.
– Precisa mesmo me ameaçar, depois de tudo o que passei? – Falei, sentindo a garganta me incomodar de novo.
– Se esforce, então. – Ele riu. – É só segurar firme e comer um pouco mais rápido do que com garfos.
Ele demonstrou, comendo um pouco do meu. Respirei fundo, pegando os hashis. Se comendo com garfo eu já era uma lerdeza, com hashis dava pra dormir me esperando.
– Meu Deus ,Megs, agiliza. – Ali falou, já tendo terminado o dela a muito tempo.
– Me deixa, credo. – Falei. Comi a última porçãozinha e sorri. – Pronto.
– Aee. – Kyu pegou as vasilhas, se levantando. Levou a bandeja até o criado mudo.
– Pingou na blusa. – Ali deu de ombros, deitando-se.
– Me desculpa, se eu não sou ótima em tudo que faço. – Falei, me deitando também.
– Eu te humilho mesmo. – Kyu limpou a garganta e voltou pro meio da cama.
– Então gente, tudo bom? – Parecia que ele estava assustado. Talvez achasse que estávamos brigando.
– Ai, ele me humilha. Ele é asiático, você não. Faz isso desde que nasceu. – Falei.
– Nossa, pouco racista. – Ele disse, me encarando.
Ficamos as duas rindo, deixando o assunto “hashis” de lado. Kyu olhou a roupa que eu tinha pegado, estudando a bermuda.
– A bermuda ficou meio larga, não?
– Você esperava que eu tivesse essas coxas suas? – Falei. – As minhas são grossas, mas não é isso tudo.
– Você fica olhando minhas coxas? – Foi um tom de completa surpresa. Ri, antes de dar um suspiro.
– Ai, isso de novo...Não tem como não olhar pro terno. Parece que vai rasgar. – Ri. Ele ficou um pouco envergonhado. – Não tenho interesse nenhum nas suas coxas. Você já é quase um irmão meu. Já a Ali...
Kyu já estava vermelho, a deixa serviu pra fazer Ali enrubescer. Revirei os olhos, estalando a língua pros dois.
– Pelo amor de Deus, parem com isso. – Falei.
– Porra, Megs, tanta sutileza numa pessoa. – Foi quase um berro esganiçado. Ali já estava no tom de vermelho “passou cinco horas seguidas no sol”.
– Sutil mesmo, né? Tipo vocês, na festa do Elijah. – Eu tinha me sentado, os braços cruzados e a cara de deboche. – Vocês que estão esquecendo agora?
– Pelo menos eu não sumi no meio da festa, feito alguém fez com o Duran. – Ela me mostrou um belo dedo do meio. Continuei com a cara de riso.
– Ah, vocês estão mesmo brigando? – Kyu perguntou, ficando sentado enquanto alternava o olhar entre Ali e eu.
– Só se ela estiver. – Dei de ombros, rindo. – Afinal, só comentei pequenas verdades.
– Pequenas. – Ela disse, sorrindo sarcasticamente.
– Quantas horas são agora? – Foi uma mudança de assunto tão abrupta que Ali custou um pouco para pegar o celular e olhar o visor.
– Já são quase 9. Meu pai vai me matar. – Ela falou, os olhos arregalados. – Megs,devem estar preocupados com você também.
– Ah, sim. – Peguei meu celular, deixando-os sozinhos e indo para a sala de estar.
Duran me ligara várias vezes, desde de manhã. Em algum ponto durante minha fuga, deixei o celular no silencioso. Fui para a varanda, enquanto o celular chamava o número dele.
– Oh, Deus, Megs. Você está bem? – Antes que eu conseguisse sequer dizer “Alô?” e pedir desculpas, a voz dele, um pouco trêmula, encheu meus ouvidos.
– Duran. Me perdoa por te preocupar tanto. – Falei, segurando o celular com uma mão e o pulso com a outra.
– Você está bem? – Sua voz ainda tremia. Respondi, me sentindo culpada.
– Sim.
– Deus, Megs, você não pode sair correndo assim. – Ele respirou fundo. – Não assim.
– Você está tremendo. – Falei, a voz baixa. Meus olhos começavam a ficar embaçados.
– Estava com medo de...sei lá, te perder. – Ele deu uma risada sem graça. – Não que seja minha.
– Duran. – Chamei-o, sorrindo de leve, como se ele fosse ver. – Você me disse que não queria se impor como meu namorado, certo?
– É, seria errado.
– Então, está tudo bem se eu me lembrar de você? – Perguntei.
– Como assim?
– Me lembro de você. – Falei, alegre mais uma vez. Era o oposto de como me senti quando não me lembrava de ninguém. – Não só você, todo mundo. Tudo.
– Sua memória voltou? – Ele parecia um pouco relutante em acreditar. Concordei, quase chorando de alegria. Acho que foi justamente o que ele fez. A risada se misturava com soluços.
– Sim. Então, quer dizer que tenho meu namorado de novo? – Falei, encarando o céu. As poucas estrelas que brilhavam me encaravam, ansiosas.
– Ah, Megs... – A magia da conversa acabou ali. O tom de voz dele agora era triste. – Eu realmente não sei se é uma boa ideia.
– Por que não? – Fechei meus olhos.
– Só me escuta. Já é bem óbvio que sou um péssimo namorado. Quer dizer, pergunta pra Ali. Ela chegou a me bater enquanto você estava em cirurgia.
– O que te faz dizer isso? –Algo parecido com raiva crescia dentro de mim. Não dele, mas da culpa que deixei pra ele sem motivo.
– Ah, você ter sido baleada?
– Duran, foi você quem atirou? Foi você quem puxou aquela merda de gatilho? – Falei, a voz dura. – Então a porra da culpa não foi e nem nunca será sua.
– Eu sei, mas... – A voz dele voltara a tremer. – Eu podia, sei lá, ter te levado para casa aquele dia.
– E se tivesse sido diferente? – Perguntei, quase chorando. – E se você tivesse sido baleado? E se você não sobrevivesse? Então quem não suportaria seria eu.
– E se eu tivesse te empurrado pro chão? E se você não tivesse que ter passado por uma cirurgia de horas, a dificuldade da amnésia?
– E se? – Repeti. – Duran, os “e se?” não existem. São tantos “e se?” e podia ter acabado do mesmo jeito. Se não, pior. – Respirei fundo. – Olha, não precisa me responder agora. Mas espero que se lembre que já ameacei te stalkear se você me largasse.
– Você se lembra mesmo. – Ele comentou, rindo fraco. Sorri, aliviada. – Ok, tudo bem. Sou seu de volta. Mas, onde você está?
– Ah, na casa do Kyle. – Falei. – Eu fui pra praia naquela correria, então Kyu me encontrou.
– Ele vai te levar em casa?
– Uhum, vou falar com ele agora. – Dei um espirro, sentindo a garganta doer. – Ai.
– O que foi?
– Minha garganta começou a inflamar.
– Ah, ok.
– Duran, então, é sério? Estamos juntos, tudo certo. – Confirmei, sorrindo.
– Não é o que você quase me matou pra fazer? – Ele riu. – Sim, estamos.
– Ok. Obrigada, por se preocupar tanto.
– Um beijo.
– Você também. – Respondi, desligando. Guardei o celular no bolso da bermuda, voltando pro quarto.
Abri a porta, fazendo Kyu e Ali se soltarem na mesma hora. Kyu parecia um pimentão, de tão vermelho. Revirei os olhos.
– Quanto tempo fiquei na varanda? Duas horas? – Apontei para a porta, rindo. – Controlem-se. Kyu, pode nos deixar em casa?
– Claro. – Ele deu um sorriso sem graça, pegando as chaves. – Posso devolver suas roupas depois, quando você me entregar as minhas. E as da empregada.
– Ok. – Falei, concordando por Alice também. – Vamos?
– Uhum. – Ali saiu correndo, passando direto por mim. Segui com Kyu até o carro, sentindo um pouco de frio.
Entrei atrás no carro, deixando o banco do carona para Ali. Kyu deu partida, colocando o cinto. Fiz o mesmo. Espirrei de novo, a garganta doendo de novo.
– Tudo bem? – Ele perguntou, ligando o som.
– Provavelmente gripe. – Dei de ombros.
– Ei, você me parecia bem feliz quando voltou pro quarto. – Ali se virou no banco, sorridente. – O que foi?
– Hum, liguei para Duran. Quero dizer, depois do pequeno incidente que me fez lembrar, tinha que falar com ele. – Vi Kyu me olhar pelo retrovisor, confuso. – E, voltamos.
– Sério? – Ali perguntou, mas não consegui responder por causa da freiada que Kyu deu.
– Que incidente? – O sinal vermelho explicava porque ele parara.
– Nada. – Ali e eu falamos ao mesmo tempo, deixando a situação mais suspeita.
– Ok, pode falar. – O sinal ficou verde, mas ele não fez menção de continuar o caminho. Pelo menos a rua estava deserta, então ele não atrapalhava ninguém.
– Kyu, o que você está fazendo? – Coloquei as mãos no banco dele.
– Não seu quase irmão? – Ele deu de ombros. – Eu quero saber do seu incidente.
– Não foi nada. – O sinal ficou vermelho de novo. Kyu nem se mexia, os braços cruzados.
– Então pode me dizer. – Ele rebateu, sério.
– Argh, ela quase se afogou, ok? – Ali falou, suspirando. – Eu a encontrei e a tirei da água. Foi quando ela disse que tinha se lembrado.
– Se afogou? Como você quase se afogou? – A cara de preocupado dele foi tão fofa que Ali quase deu um troço. – Era por isso que tinham se molhado e...
Foi quando ele começou a falar muito rápido, em coreano. Ali me olhou, como se eu estivesse entendendo tudo. Retribui o olhar, sacudindo a cabeça.
– Hum, Kyu. – Cutuquei o ombro dele. Foi como acordá-lo. Depois de piscar algumas vezes, como se acabasse de nos perceber ali, ele voltou a falar na nossa língua.
– Desculpa. É que quando fico nervoso falo rápido, e ainda tenho um pouco de dificuldade com o inglês. Como o coreano sai bem mais fácil...
– Não, tudo bem. – Dei de ombros. – Mas não precisava se preocupar tanto.
– Ah, fala sério. Você é minha única amiga por aqui. – Ele falou, sem graça. Sorri.
– Nossa, valeu a consideração. – Ali soltou o cinto, tentando abrir a porta.
– Você não é só amiga, tonta. – Ele a puxou pela blusa, fazendo com que ela deitasse a cabeça em seu ombro. – Saranghae.
– Quanta gayzisse. – Revirei os olhos, enquanto ele dava um beijo na testa dela. Ele só riu em resposta.
– Recalcada, mal amada. – Ela falou, prendendo o cinto de novo. – Isso é só porque você nunca ouviu um “saranghae”.
– E nem vou, né? Meu namorado ocorre de ser daqui mesmo, não é importado da Coréia não. – Dei de ombros. – A não ser que nosso lindo aqui decida falar pra mim.
– Ridícula. – Ela me mostrou a língua. Retribui o gesto.
– Então, podemos ir? – Falei, tamborilando os dedos no banco dele. – E podemos, assim, omitir a parte do mar pra minha mãe?
– Sim,senhora. – Kyu disse, arrancando com o carro, depois que o sinal ficou verde mais uma vez.
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Assim que abri a porta de casa, o chinelo acerto direitinho minha barriga. Fechei a porta atrás de mim, me curvando.
– Ai. – Peguei o chinelo. Era da minha mãe, com certeza. A dona saiu correndo da cozinha, provavelmente de onde atirara seu projétil, apenas um pé calçado. Ela me abraçou, chorosa.
– Você enlouqueceu? — Tomei um tapa no ombro. – Não sei pra quê celular, você não atende. E ainda some pelo dia inteiro. O garoto, Duran, quase teve um ataque cardíaco. No seu estado, meu bem...fiquei preocupada.
– Mãe. – Chamei-a, deixando o chinelo no chão de novo. – Elijah, desce aqui.
– Você anda tentando matar a mamãe? – Ele falou, as mãos na cintura. – Megs, você não pode sair explorando a cidade assim...
– Eu me lembrei. – Falei de uma vez, fazendo-o calar a boca. Minha mãe me soltou, surpresa. – Veio tudo de uma vez só, como se eu nunca tivesse me esquecido.
– Meu bem... – Ela riu, colocando as mãos nas bochechas. Junto ao sorriso, lágrimas começaram a brotar em seus olhos. – Oh, meu Deus.
– Estou de volta. – Os dois me abraçaram. Elijah ria também. – Me perdoem por abandoná-los por uns dias.
– Está melhor que nunca, tenho certeza. – Meu irmão me soltou. – Jack vai ficar louco ao ouvir isso.
– Meu bem, estou tão aliviada. E feliz.
– Eu sei, mãe. Também tive medo.
– Bem, agora tudo voltou ao normal. – Elijah disse.
– Bem, tirando o buraco no meu cabelo, sim. – Sorri, apontando para a cabeça.
– Onde esteve? – Minha mãe perguntou, agora mais calma. Suas mãos encostaram em minha testa, frias. – Meu bem, você está fervendo.
– Ah, sobre isso. Minha garganta está inflamando. – Sempre que minha garganta inflamava, eu dava febres horríveis e quase não conseguia comer. A garganta quase fechava, era ruim até mesmo tomar água.
– Eu estava prestes a dizer sem mais preocupações para o dia, mas já vi que não. – Tive que rir. – Ainda não me respondeu onde estava.
– Fui pra praia, de lá Kyu me levou pra casa de Kyle. – Falei, vendo minha mãe me olhando estranho. – Ali estava com ele. Ai, já sabe, né? Um agarramento só.
– Tipo você e o Duran Duran? – Elijah riu.
– Pior. – Dei de ombros, espirrando. – Ai. Vou pro meu quarto.
– Vou arrumar um anti-inflamatório e um chá. – Minha mãe disse, voltando pra cozinha. Subi as escadas, me lembrando cada centímetro cúbico da casa. Sorri.
Enfim, de volta.
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