No Other

24 Capítulo 24 - Beat Down


Notas iniciais
Gente, como eu já disse, as férias tem rendido :3 Mais um pra vocês ^~^ Quanto a música deixei essa pelas tretas .q E uma em especial pro Kyu :3 Beat Down do Steve Aoki com a Iggy Azalea (https://www.youtube.com/watch?v=A6IAFUzmgSU) e Blue, do Big Bang (https://www.youtube.com/watch?v=2GRP1rkE4O0) :3

O domingo passou no maior tédio possível. Acordei lá pras 9 da manhã, com garganta doendo tanto que mal conseguia engolir saliva. Me sentei na cama, a mão no pescoço.

– Bom dia, meu bem. – Minha mãe parou na porta, segurando uma vassoura. Domingo, dia de faxina. – Como está?

– Minha garganta... – A voz mal saia, soando rouca e baixa. Além de doer. Muito. – Ai.

– Não se esforça, ou vai ficar sem voz rapidinho. – Ela disse, suspirando. – Você e essas ideias de pular no mar, de roupa e tudo.

Não falei para minha mãe como as memórias voltaram. Não gostava de esconder nada, mas achei que aquilo seria apenas deixá-la preocupada sem razão.

– Aposto que está com febre também, hein? – Ela pregou a mão na minha testa, dando outro suspiro. – Vou comprar um remédio na farmácia e te dou, ok? Só me deixe acabar de varrer.

Concordei com a cabeça, ficando de pé. Desci até a cozinha, pensando que um pouco de água talvez diminuísse o desconforto. Só piorou. Subi de volta para o quarto, me deitando.

Passei o dia na cama, com uma febre que parecia não querer ceder nunca e uma dor de garganta quase insuportável. Eu quase queria que a segunda chegasse logo. Quase.

Apesar de ainda me sentir um pouco mal, fui para aula no dia seguinte com o remédio na mochila. Pelo menos, minha voz parecia fora de risco. Fiz questão de ir a pé, só para ter a sensação de ter todas as memórias de volta.

Quando cheguei na minha sala, Annie já estava lá. Ela me deu um abraço logo que deixei minha mochila sobre a carteira. Retribui o abraço, percebendo como o resto da turma nos fitava.

Pude ver alguns olhares bem indiferentes, mas alguns pareciam felizes, ou satisfeitos, não sei. Alguns sorrisos de colegas me deixaram feliz.

– Oi. – O sorriso de Annie também era tão sincero que me fez sorrir junto. – Ali me contou que você melhorou. Eu fiquei tão feliz.

– Fico feliz por estar de volta. – Me sentei, respirando fundo.

Vi que Annie acenou para um dos garotos no fundo da sala, Todd. O garoto costumava andar muito com Shaun nos meus primeiros dias de aula. Quase não o via mais, no entanto.

– Ei, Todd. – O garoto acenou também, sorrindo. – Então, como vão as coisas?

Annie deu de ombros, se sentando também antes de responder. Os cabelos deca tinham as pontas num azul mais escuro, provavelmente por retocar a tintura.

– Hum, bem tranquila na verdade. – Ela checou a sala antes de continuar. – Fora os ataques de Ali, chorando e dizendo que você nunca se lembraria.

– Ela chorou?

– Mas eu não disse nada. – A outra disse, pegando o celular para responder alguma mensagem. Ali chegou na sala, com uma super cara de sono e a mochila quase caindo de seu ombro.

– Bom dia, Ali. – Falei, sentindo a garganta incomodar de novo. – Tudo bem?

– Bom dia. Ei, An. – Ela sorriu para nós. – Na verdade eu estou muito bem. Eu até convenci meu pai a fazer um pôster do Big Bang, como retribuição por te salvar.

Annie tratou de explicar, depois de perceber a forma como olhei para Ali.

– Ela me contou, mas prometi não falar pra ninguém. – Ela deu um sorriso, como se para firmar o que acabara de dizer.

– Ok. E falando de posters, meu pai comprou alguns CDs para mim, na última viagem dele. O do G-Dragon vem com um pôster dele. Mas seu pai bem que podia me dar um também, né?

– Vou ver com ele. – Ali disse, dando de ombros. – Tinha algum dever?

– Tinha, mas estava imenso. E ele não vai olhar.

Assim que ela acabou a frase, o professor entrou em sala. Ali foi para seu lugar, sem desligar a música em seu Iphone. Ouvi uma batida de leve na porta e me virei. Louis chegara correndo, os livros quase caindo de seus braços.

– Entra logo. – O professor disse, revirando os olhos. Louis, muito agradecido, correu pro seu lugar.

Foi uma aula rápida. Quando o sinal tocou, vi Louis sair correndo de novo, agora com os livros na mochila. Peguei minhas coisas e sai com Ali e Annie da sala. Estávamos conversando alegremente, até que a vi. Jessica.

– Ei, vocês estão pensando em fazer algo? – Annie parecia mais curiosa do que preocupada.

– Eu? Com certeza vou acertar um chute na cara daquela vadia. – Respondi, deixando minha mochila com Annie. Ali fez a mesma coisa, cerrando os punhos e com o maxilar travado.

– Ei, Jessica. – Chamei-a, basicamente marchando pelo corredor. Ela se virou, jogando o cabelo sobre os ombros. Seu olhar se demorou um pouco em Ali depois de me perceber.

– Oi, amiga. – Ela colocou um sorriso no rosto enquanto se aproximava. Era incrível quão dissimulada ela ainda tinha coragem de ser. Vadia.

– Eu achei que já tinha deixado claro, mas parece que não funcionou muito. Amiga é o cacete. – O único som depois disso foi o da minha mão estalando no rosto dela. – Vadia.

– Agora, Megs, você ainda tem muito que aprender. – Ali me empurrou pro lado, mesmo sendo menor que eu, e ficou de frente para Jessica. – Deixa eu te ensinar. Em vadia assim você pode fechar a mão.

Sabia que Ali era bem diferente do que aparentava. Quero dizer, dá pra saber que ela não é a pessoa mais certa do mundo quando falta um bimestre inteiro de aulas. Mas vê-la socar Jessica na cara ainda foi chocante.

Jessica caiu no chão, atordoada pelo lábio inferior que sangrava e com uma mão sobre o olho. Imaginei que o corte podia ter sido pelo meu tapa, mas o soco de Ali pegara no olho? Uau.

– Que merda foi essa? – Jessica, ainda de quatro no meio do corredor, já tinha parado com o fingimento. Um círculo se formara ao nosso redor. Ainda tentando se levantar, Jessica xingava todo tipo de palavrão.

– Olha aqui, vadia. Isso é por você ter tentado se aproveitar da minha condição. E por que? Por causa de uma briguinha imbecil de vocês duas. Você merece bem mais que isso. – Puxei aquela peruca oxigenada que ela chamava de cabelo.

– Eu só te acho uma piranha. – Ali deu de ombros, dando um chute de leve num dos braços dela. A garota voltou a cair, o rosto acertando o chão.

O círculo se abriu de repente, revelando a presença do direto da escola. Ele tinha uma expressão séria, parado de frente para nós. Com um suspiro, indicou com o queixo uma direção.

– Bem, venham comigo, por favor. – Ele não precisou dizer duas vezes para que fossemos atrás dele. Pegamos nossas mochilas de volta com Annie, ouvindo-a murmurar baixinho um “Boa sorte.”

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– Fazia muito tempo que eu não te via, Alice. – Foi a primeira coisa que o homem de meia idade disse, se sentando em sua cadeira estofada. Com um gesto quase imperceptível, indicou as cadeiras opostas a ele.

– Tudo bem? – Ali basicamente se jogou na cadeira, completamente à vontade. Ainda sem acreditar muito, puxei a cadeira restante e me sentei.

– Achei que tinha tomado jeito.

– Desculpe por te dar tal ilusão. – Ela sorriu, sorrindo. O homem só suspirou.

– Então, foram vocês que partiram para cima dela, pelo que pude perceber. Confere?

– Olha, de verdade? Parti mesmo. Quero dizer, ela merece mais. – Ela deu de ombros. – Quem começou mesmo foi a Megs, você viu o estrago que ela conseguiu fazer na boca dela, só com um tapa?

– Ali... – Não que fosse mudar os fatos, mas não Ali também não precisava fazer tanta propaganda.

– Quer se defender, Megan? Dizer algo?

– Eu não tenho como, eu fiz mesmo. – Evitava contato visual, abraçada à minha mochila.

– Eu jamais esperaria isso de você, Stone. – Ele falou, enquanto digitava em seu computador. Provavelmente o meu “crime”.

– Nós nunca sabemos quando vamos morrer, certo? – Falei, dando de ombros. Ele me olhou confuso, os dedos um pouco acima da tecla enter. – Quero dizer, se eu demorasse a meter a mão na cara dela, eu podia morrer e não ter feito. E me arrepender.

– Você se arrepende?

– Nem um pouco. – O enter finalmente foi pressionado.

– Bem, não pode se arrepender de estar suspensa também. 3 dias longe daqui, Megan. – Concordei com a cabeça, minha garganta arranhando. E eu nem podia reclamar pela punição. – E para você, 4 dias, Alice.

– Por que eu ganho mais? – Ela disse.

– Por pôr os pés em cima da mesa. – Ele disse, ainda sério. Ela pensou um pouco e se inclinou para frente, os pés no chão.

– Se eu derrubar alguma coisa ganho 5 dias? – Ele digitou o 5, dispensando perder parte da decoração.

– Considere o quinto dia hoje. Junte suas coisas e saia da escola logo.

– Legal. – Ela ficou de pé, jogando a mochila sobre um dos ombros. – Vamos, Megs.

– Ela fica. – O diretor desviou os olhos do computador, cruzando as mãos sobre sua mesa.

– Fica por que? – Foi Ali quem perguntou, mas meus olhos deixavam bem nítida minha confusão.

– Pode ir. – Falei, fazendo com que Ali finalmente concordasse em deixar a sala. O diretor suspirou, enquanto a porta batia atrás de nós.

– Sabe, Megan, você deveria repensar suas amizades. – Ele desligou o monitor, esperando que eu tivesse alguma reação. Quando finalmente consegui falar, saiu num tom estridente.

– Desculpa, como é? – Franzi o cenho, sorrindo fraco.

– Ali não é uma boa companhia. Sei disso porque já decorei a ficha da garota. – Ele ficou de pé, andando até a janela. Dali, ele continuou. – Ela te influencia de uma péssima maneira.

– Acha mesmo que fiz isso por causa dela? – Minha boca ficou aberta. – Olha, eu realmente não sei qual é sua ideia sobre mim, mas isso foi um pouco ofensivo. Você me chamou de tonta, cabeça oca.

– Megan, me escute...

– Quem vai escutar é o senhor. – Não foi bem um grito porque minha garganta não permitia. Também fiquei de pé. – Olha, eu sei que o que fiz foi errado, e mesmo se levo em conta a opinião de amigos, eu ainda sei tomar decisões por conta própria.

Ele suspirou, parecendo cansado. Me senti mal por tentar gritar e baixei o tom de voz.

– Fiquei o senhor sabendo que ela me ajudou a ficar com meu namorado e que por ela que estou viva. Ela foi a primeira desse lugar a procurar saber se eu estava bem depois do tiroteio.

– Tudo bem, eu entendo, Megan. Pode realmente ser que uma faça bem para a outra, mas...

– Fiz uma coisa errada porque eu quis. – Completei, pegando minha mochila. – Tenho a impressão de que ela gosta de você. Devia se sentir mal por falar dela assim, pelas costas.

Deixei a sala, batendo a porta atrás de mim. Ali me esperava no corredor, brincando com a pokébola em sua mochila.

– O que ele queria?

– Algo sobre estar decepcionado e me dizer que espera que essa seja a primeira e única vez. – Dei de ombros, não querendo deixar Ali com raiva. – Minha garganta ficou dolorida de xingar Jessica.

– Culpa daquela água toda, gelada. – Ela deu um sorriso fraco, parecendo um pouco chateada. – Bem, eu tenho que ir. Te vejo semana que vem?

– Até antes. Tchau. – Ela me deu um abraço e foi embora. Fui para minha aula, suspirando.

Como já imaginava, cheguei na sala atrasada. O professor me deixou entrar, já informado sobre o ocorrido. Ainda assim, ele me lançou um olhar cortante de reprovação.

– E ai, o que aconteceu? – Annie me chamou assim que me sentei, sentada ao meu lado.

– Ali não te contou? Achei que ia ter ido atrás dela depois...

– Eu até fui, mas ai a gente brigou. – Ela já tinha os olhos cheios de lágrimas.

– Por que?

– Ela me chamou de uma menina que eu não gosto e eu a xinguei. – Ela deu de ombros. – E o pior é que fui me desculpar e ela me ignorou.

– An, só pra que você saiba, ninguém sabe mais do que eu o que é ter Ali te ignorando. Aliás, as coisas só aconteceram por isso. – Por coisas ela entendeu que fora o caso do afogamento. – E vocês brigam todo dia.

– Ai, isso não ajudou muito, a última parte.

– É verdade. E nós fomos suspensas. 3 dias pra mim, 5 pra ela. – Peguei meu livro. – Relaxa, ok? Ela sempre volta.

– Sei lá. – Ver Annie à beira das lágrimas me deixava mal, mas não consegui dizer mais nada. Fiquei um pouco frustrada pela falta de capacidade para consolar alguém.

– Podem formar duplas para fazerem esses exercícios. Andem. – O professor falou, tranquilo. Annie foi para perto de Mel, ainda chateada. Lólli surgiu ao meu lado, fitando An.

– O que há com ela?

– Ali, as duas brigaram. – Dei de ombros, abrindo meu livro. – Eu só espero que as duas se entendam logo. É horrível quando elas param de conversar.

– Por que a gente não sabe com qual falar? – Concordei, pegando minha lapiseira. – É, sei como. Bem, elas vão voltar a serem amigas logo.

– Bem, falando em amigas, você anda sumida Lólli.

– Hum, eu sei. E a propósito, desculpa. Queríamos te visitar no hospital, de verdade. Mas eu não me dou bem com aquele lugar, e Louis fica pior que eu. Ele quase desmaia.

– Vocês têm medo de hospital? – Falei, abrindo na página do exercício.

– É mais para trauma. – Ela deu de ombros, sem explicar mais. – Enfim, depois a gente até pensou em passar na sua casa, mas ai Ali disse que você estava com amnésia. Louis disse que não queria te ver assim. Eu ainda queria te visitar, mas ai meus pais começaram a organizar a viagem de negócios deles e tive que ajudá-los.

– Ei, Lólli, está tudo bem. Valeu a intenção. – Sorri, tirando os olhos do livro. – E vocês sumiram antes disso.

– Hum, não fala com Louis isso, ok? – Concordei. Ela falava sussurrando. – É por causa do Shaun. Louis anda muito preocupado com ele. Então, estamos passando os recreios com ele.

– E o que há com ele? Pra ter sumido assim? – Perguntei.

– Ele fala com Louis. Eu só fico junto do meu irmão. – Ela deu de ombros, finalmente dando atenção aos exercícios do livro. – Mas vamos começar isso logo, sim?

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– E ai? – Duran me abraçou por trás, enquanto eu guardava meus livros no armário. – Eu fiquei sabendo que você fez uma distribuição gratuita de tapas. Ela merecia.

– Obrigada, mas Ali me ajudou. Os créditos não são só meus. – Fechei o armário e me virei, ficando de frente para ele. Ele ainda me prendia num abraço. – Só que estou suspensa.

– Quantos dias? – Ele me soltou, pegando minha mochila e minha mão, entrelaçando seus dedos aos meus.

– 3 para mim, 5 pra Ali. Mas foi ela quem pediu o quinto. – Dei de ombros, rindo.

– Ah, mas aposto que valeu a pena. – Ele sorriu. – Quer companhia até sua casa, senhorita?

– Só se você aceitar passar a tarde comigo, senhor. – Fiz um biquinho que talvez fosse fofo para outras pessoas. Ele riu. – Sério, não vai ter ninguém lá em casa. E não quero ficar sozinha de novo.

– Posso aceitar, ficar sozinho com você numa casa vazia. – Ele respondeu, aparentemente satisfeito. Dei um empurrãozinho nele, que o fez rir. – Vamos logo?

– Claro. – Saímos da escola, ainda de mãos dadas.

– Ei, posso te perguntar uma coisa? – Ele falou, ajeitando as mochilas no ombro. Concordei com a cabeça. – Você tem falado com Shaun? Quero dizer, vocês ainda se veem?

– De verdade, não. Ele sumiu, tipo a Kim fez, sabe? – Abracei o braço dele, dando um sorrisinho. – Por que? Ciúmes?

– Não é bem isso, apesar de não ser falta de motivo. – Ele deu de ombros, sem graça. – Antes de eu te pedir em namoro ele não saia de perto de você.

– Por que então?

– É o Louis. Eu tenho alguns horários com ele, e parece que ele está cada vez mais distraído. Mais preocupado com Shaun.

Parei, abrindo a porta da casa, pensando em tudo que eu sabia sobre Shaun. Ele realmente fora um amigo bem próximo antes de Duran. A última vez que eu conversara com ele, foi no dia que dividimos um frozen.

Mas o que sempre me chamou atenção nele foi o jeito de tratar os outros. Mesmo sendo um cara um pouco rude, sabia que ele tinha bom coração. E tinha uma coisa nele bem particular. Contato físico. Ele parecia bem tranquilo com contato físico demais, mesmo dos outros garotos.

– Duran. – O garoto me olhou, fechando a porta atrás de si. – Existe alguma chance do Shaun ser gay? Quero dizer, nada contra ele abraçar os outros caras, mas...

– Ele já ficou com um cara. – Duran falou, deixando a mochila no chão do meu quarto. – Acho que podemos dizer que ele é quase cem por cento hetero. Quase.

– Não precisa ficar rindo dele. – Ele sorria de um jeito quase maldoso. Dei um beijo na bochecha dele. – Não quero irritar sua garganta, então...

– Eu arrumo um remédio. – Ele me puxou e me deu um beijo direito.

– Então. – Me sentei em seu colo, abraçando seu pescoço. – Louis é afim dele, sério?

– Do Shaun? É. – Duran deu de ombros. – A coisa é que, Shaun só pegou o cara para, sei lá, experimentar, talvez? Então ele confia muito em Louis, mas não gosta dele assim.

– Que coisa. E todo mundo sabe desse cara?

– Shaun evita falar disso com os outros, e eles se pegaram nos fundos do colégio.

– Então, e garotas?

– Também nunca o vi com muitas. Só Ali e...

– Ali? – Ele parecia surpreso que eu não soubesse.

– É, não sei porque eles terminaram, no entanto. – Ele sorriu. – Mas enfim, o que eu queria é que, sei lá, se você não ficar de castigo você podia procurá-lo.

– Acho que posso ir até a casa dele um dia desses.

– Ok. Mas depois você pensa nisso, porque agora você é minha. – Ganhei outro beijo. Sorri, passando os braços ao redor de seu pescoço.

Acabei fazendo-o se deitar, ficando por cima dele. Podia sentir as mãos de Duran sobre minha cintura, hesitantes. Imaginei se ele estaria pensando em algo. A resposta era um “lógico, imbecil” que minha mente gritou.

O celular dele tocou. Grunhi, um pouco aliviada. Eu não fazia por mal, começar a deixá-lo no clima pra alguma coisa a mais, mas acabava fazendo.

– Seu...celular... – Ele não parecia querer me soltar.

– Não sei se quero atender. – Disse, finalmente acabando de me beijar.

– Mas você precisa. – Me levantei, puxando um pouco minha blusa para baixo.

Com um suspiro, ele ficou de pé também, pegando o aparelho no bolso.

– Alô? – Não conseguia ouvir a conversa toda, então fiquei passando os olhos obre minha estante de livros, ainda sem graça. Fiquei olhando Duran de soslaio, vendo um sorriso formando-se em seus lábios.

Ele agradeceu à pessoa do outro lado da linha umas cinco vezes antes de desligar, ainda sorrindo. Me virei, curiosa.

– Você se lembra de uma entrevista de trabalho que fiz? Tem um tempo já.

– Sim, pra empresa do Kyle. – Falei, cruzando os braços. Ele levantou os braços para um abraço tão rapidamente que o celular quase caiu.

– Eu consegui o emprego. – Ele falou, depois de guardar o telefone no bolso e esperar o abraço.

– Sério? Isso é ótimo. – Abracei-o, enquanto ele ria alto. Ele nunca ficara tão feliz. – Ai.

Ele tinha me erguido um pouco do chão, ainda me abraçando forte. Ele foi parando de rir gradualmente, mas o aperto só aumentava.

– Isso é perfeito, Megs! – Ele falou, sério.

– Você está apertando demais.

– Desculpa. Machucou? – Ele me soltou, colocando as mãos nos bolsos. – É só que, isso é uma puta oportunidade.

– Fico feliz, de verdade. – Dei um selinho nele. – Mas espera, se você vai trabalhar para o Kyle, vai ter que andar atrás dele o dia todo? Tipo o Kyu?

– Não. – Ele falou, se sentando na cama de novo. – Preciso ir todos os dias no escritório, mas tenho o horário de aulas normal e posso fazer o trabalho em casa.

– Ótimo. – Ele sorriu de novo depois que me sentei ao seu lado. – Então, vou conseguir alguns livros agora?

– Nossa, interesseira. – Ele pôs uma mão na minha cara. – Eu posso pensar bem no seu caso.

– Eu sei que você me ama. – Ele revirou os olhos, como se não me suportasse. Ri. – Obrigada pela consideração.

– Sonsa. Mas eu preciso ir. – Ele olhou o relógio sobre meu criado mudo. – Eu tenho que passar na empresa ainda. Quer vir?

– Acho melhor não. Provavelmente estou de castigo. – Encolhi os ombros. Minha mãe ia me matar assim que ligassem da escola para ela.

– Tudo bem. Falo com você depois. – Ele me deu mais um beijo e pegou sua mochila. Levei-o até a porta. Ele mal saíra, o Jaguar preto parou em frente à casa. Cruzei os braços, escorada no portal.

Kyu se aproximava quase correndo. Franzi o cenho, preocupada, deixando-o entrar antes de trancar a porta. Ele me parecia muito desesperado, mais do que eu já vira.

– O que houve? – Segui-o cozinha adentro, vendo o copo d’água que ele segurava tremer. – Kyu.

– Minha vida acabou. É sério, vai virar um inferno. – Ele tomou a água de uma vez só e encheu o copo de novo. – Que merda!

Ele gritou alguma coisa em coreano depois disso, se sentando num dos bancos. Puxei um banco para mim mesma, antes de estalar os dedos na frente de seu rosto.

– Kyu, dá pra você explicar por favor? O que foi?

– Hey-In. – Ele disse, tomando mais água. Continuei esperando a explicação. – É minha mãe. Ela veio atrás de mim, quer me levar de volta.

– Sua mãe quer que você volte para a Coréia? Por que? – Falei, vendo-o terminar o segundo copo d’água.

– Ela me achou aqui, sabe-se lá como e quer me arrastar de volta. – Ele deu uma risada, mas com um tom triste e magoado. – Só que eu não gosto dela. Eu a odeio, Megs.

Pela segunda vez em menos de cinco minutos ele me surpreende. Primeiro pela preocupação. Segundo pelo choro. Era a primeira vez que eu o via chorar. Começou com um leve tremor nos ombros, mas que logo virou um soluço descontrolado acompanhado de lágrimas. Senti um nó se formar em minha garganta, vendo-o daquele jeito.

– Kyu... – Como sempre, eu não sabia o que fazer. O que eu poderia fazer? Eu não tinha ideia. Fiquei de pé, dando um passo hesitante em sua direção e dando-lhe um abraço. – Ei, você não vai embora. Eu chuto a cara dessa mulher pra você.

– Ela é minha mãe... – Ele murmurava, retribuindo o abraço ainda sentado.

– E daí? Kyu, você é maior de idade, tem uma casa, um emprego, uma namorada...

Percebi como ele coçou a ponta do nariz, um pouco sem graça com a parte da namorada. Parei de falar, apertando meus olhos pra ele.

– Eu nunca pedi nada pra Alice. – Ele esfregou um dos olhos, inchados pelo choro. – Ela é minha namorada?

– Não, imagina! Eu que sou. – Soltei-o, voltando a me sentar. – Acho que talvez seja uma boa ideia você ir para a Coréia, deve ter largado um neurônio por lá.

– Ahn, você nunca ficou com ninguém sem nada sério? – Ele falou, tentando se defender.

– É o que você pretende com a Ali?

– Não, mas não foge da pergunta, é sério.

– Não, Duran foi... – Parei de falar, olhando indignada para ele. – Quem fugiu do assunto foi você.

– Ai, que gracinha. Duran foi seu primeiro beijo? E primeiro namorado? E primeiro tudo, que fofa. – Ele disse, apertando uma das minhas bochechas. Imaginei que estava tão vermelha quanto os olhos dele.

– Para! – Afastei a mão dele. – E sim, Ali é sua namorada e ponto.

– Ele sabe que foi seu primeiro beijo?

– Kyu! Eu estou começando a considerar te entregar pra Hye-In. – Falei de um modo que provavelmente soaria raivoso, não fosse eu ainda estar corada.

– Não fala bobagem, idiota. – Ele riu. – E de novo, não foge da pergunta.

– Eu não comentei com ele, ponto. – Bufei. – E de volta ao assunto, o que vai fazer com Ali?

– Acho que seria legal oficializar o namoro, né? – Ele deu de ombros, sorrindo.

– Você devia aproveitar essa semana, a gente pegou suspensão. Bastante tempo pra você importuná-la. – Dei um sorriso falso para ele, fazendo-o rir mais.

– Deixo a parte de ser chato pra você. – Ele deu de ombros, passando um dedo pela ponta do meu nariz.– E não adianta ficar com raiva, foi fofo mesmo.

– Sorte sua que a Ali não te viu fazer isso. – Falei, relaxando um pouco. E daí que ele sabia que Duran fora meu primeiro beijo? Ele já sabia muita coisa de mim. Ele franziu o cenho, confuso com minha fala. – Ela sempre tem essa paranoia de que você é afim de mim.

– Por que eu ficaria com ela sendo afim de você? – Ele parecia não acreditar. – Ela é uma gracinha, né? Mas quem sabe?

– Sabe o que? – Olhei para ele.

– Kyle me disse que você era gatinha, pelo que ele tinha visto das fotos que sua mostrou. – Ele deu de ombros. – Ele até me mostrou uma. Eu não esperava conhecer a Ali, então...

– Você queria me pegar? – Falei, arregalando os olhos.

– Eu não disse isso. – Ele riu. – Mas cogitei.

– Você repete isso perto dela e ela nunca mais olha pra você. – Falei, ainda assustada. – Se sente melhor?

– É sempre bom rir da sua cara. – Ele disse. — Quase me esqueci porque tinha vindo aqui.

– Bem, deixa a zoação pra lá. – Falei, para ficar em silêncio mais alguns segundos depois. – Posso te perguntar uma coisa?

– Por que eu odeio ela? – Ele esfregou um olho, já desinchando. – Ela matou meu avô depois de dar pra um velho escroto.

– Ela...matou...? – Comecei a perguntar, mas ele me respondeu sem que eu nem terminasse.

– É, ela envenenou o próprio pai. A encontraram tentando fugir 2 horas depois. – Ele deu um suspiro. – Enfim, agora ela saiu da cadeia por bom comportamento e quer fingir que liga pra mim.

– Ah. – Ficamos em silêncio mais um tempo. – Bem, isso sana uma dúvida, mas não era isso que eu ia perguntar.

– Não? Mas era a pergunta mais óbvia. – Ele continuou indiferente, o que era estranho considerando o assunto. – O que era então?

– Por que veio até mim e não para Ali?

– Eu não sabia que ela era minha namorada. – Ele deu uma risada. – Não queria que ela me visse assim, chorando.

– Veio aqui por orgulho?

– Também. Eu sei que ela ia desesperar e tentar me consolar enquanto eu estivesse chorando. – Ele fungou. – Só não queria presenciar isso.

– Você me fez me sentir uma péssima amiga.

– Olha, seu silêncio foi melhor que palavras vazias. O abraço ficou mais...sei lá, confortável.

– Ah. Se você diz... – Silêncio mais uma vez. Ele olhou o relógio e ficou de pé, ajeitando o cabelo. – Já vai?

– Trabalho. Como você disse, eu tenho uma vida aqui e agora, vou cuidar dela. – Ele deu de ombros. – Kyle quer que eu conheça o novo funcionário.

– Você meio que já conhece. – Fiquei de pé também. – É o Duran.

– Sério?

– Uhum. Quero dizer, vocês não se conhecem direito, mas aposto que vão se dar bem.

– É, tomara. – Fui com ele até a porta, sorrindo. – E sobre Ali...

– Ela vai estar em casa a semana toda. E é bom contar logo pra ela. – Me segurei na porta, balançando com ela.

– É, pode deixar. – Ele me deu um abraço rápido e saiu, entrando no Jaguar. Fechei a porta, me preparando para o discurso de minha mãe.

Notas finais
Ficou grandinho, de novo, mas enfim :3 Aproveitem :)