No One Is Alone
3 O grande guerreiro.
Notas iniciais
A noite se fazia tarde e Kurt estava extremamente exausto naquele ponto, seu dia tinha sido extremamente corrido, entre o trabalho e visita ao hospital. Alfredo e o castanho, nem mesmo tiveram tempo de ir ao seu costumeiro passeio no parque, deixando o menino completamente desmotivado. Os exames e o tratamento de Alfredo estavam mais intensos já que a doença estava avançando. Os médicos disseram a Kurt que era preciso, para que eles conseguissem deixar o garoto instável.
Os dois estavam juntos debaixo do cobertor do garoto, os braços do castanho maior envolviam o menor em um abraço calmo. Se Kurt pudesse escolher um lugar para viver para sempre, com certeza aquele seria a sua escolha, com seu filho em seus braços.
– …e então, o pequeno príncipe estava tão cansado depois de lutar com todos os dragões e todos os monstros que assombravam seu reino, que ele simplesmente deitou em sua cama e mesmo sabendo que não iria mais acordar, ele não se importou, ele estava cansado demais, mas ele também estava feliz, pois tudo o que podia fazer por seu povo havia feito, ele poderia descansar em paz, porque agora seu povo estava feliz e em segurança. E fim. — Kurt sorria para seu filho satisfeito com a historia que acabara de contar, ele poderia ser um escritor. Mas o pequeno não lhe sorria de volta. — Qual é Fredo, a história foi boa.
– É, foi sim… — O garoto desviou os olhos do olhos do pai, suas mãozinhas brincavam nervosamente em seu colo e Kurt se prostrou frente a ele.
– Fredo, você está bem?
– Eu estou papai, é só que… essa história, é sobre mim não é? Todos os dragões e monstros, eles são o meu câncer não são?
– Eu acho, que de alguma maneira, eu contei os anos de forma errada, você não pode ter apenas oito anos.
– Papai… — O pequeno falou cansado. O castanho sempre fugia desse tema, quando o assunto era o seu câncer, o pai sempre desviava o assunto para outro rumo, para que o pequeno não se preocupasse com essas coisas.
– Quer dizer, é sério. Ou será que algum alien o abduziu e deixou você no lugar dele… quem é você e o que fez com meu filho?
– Eu estou falando sério, papai, nós temos que conversar sobre isso algum dia. Eu estou bem com isso, mas eu não sei se o senhor está. Eu sei que eu vou partir, mais cedo ou mais tarde e já aceitei isso. Mas e você papai? Como se sente?
– Fredo, eu tenho que ir dormir, é tarde e o trabalho esta me esgotando, tenho que descansar, vamos. — Kurt se levantou, ajeitou o travesseiro do filho e o cobriu com o cobertor. Quando o castanho estava prestes a apagar a luz, o menino segurou a sua mão e a puxou para que ele sentasse em sua cama. — Papai, você está bem?
– Eu só… — Seus ombros caíram, toda a fadiga do seu corpo estavam sobre eles. — Eu estou cansado Fredo, cansado de ver você passar por tudo isso, todos os exames, o tratamento e não poder fazer nada. Eu só… eu queria que tivessemos mais tempo. — Kurt suspirou, passou as mãos nos cabelos e franziu a testa para os lençóis, a ultima vez que ele se sentiu tão inútil, foi quando o filho lhe pediu para trazer o outro pai de volta. Para o castanho, saber que o filho estava o deixando aos poucos era o nêmesis, ele trocaria sua vida com o garoto, se fosse possivel. Daria tudo para que o filho tivesse uma oportunidade de se apaixonar, ter o coração partido, ir para festas com os amigos, quebrar alguma coisa na escola, ficar na detenção, casar, ter filhos, netos e finalmente morrer, no tempo certo, como a vida deve ser.
– Pai, o senhor está bravo comigo?
– Claro que não Alfredo. — Kurt fechou os olhos e segurou a mão do filho junto a sua. — Eu… estou bravo com Deus, se é que ele existe.
– Papai?
O maior não respondeu, apenas olhou para o pequeno, tentando desvendar o que aquela pequena cabecinha estava pensando, os olhos do filho levavam ele para outra dimensão, era como se ele ao olhar o filho nos olhos, mergulhasse no mar azul que eram e submergesse até o ponto mais profundo lavando sua alma.
– Eu entendo o que está sentindo, eu senti isso quando papai Sam foi embora. Eu me perguntava por que Deus havia deixado ele ir, porque não o trazia de volta, mesmo quando eu prometia não reclamar mais das suas historias sobre os musicais. — O maior riu sem conseguir segurar.
Suas emoções estavam a flor da pele, dentro dele as suas entranhas se remexiam enlouquecidamente, como fazer para isso parar? Era algo tão irrefreável quanto respirar. Aquela agonia e dor, estariam alí, talvez para sempre.
Seu filho se tornara um homem mesmo antes de deixar de ser uma criança, a dor e a doença o amadureceram, talvez até a fragilidade do castanho maior, no início de tudo ajudaram para tal feito. Não que fosse motivo de orgulho, Alfredo não teve tempo de passar por as melhores fases da sua vida e já era um homem. — Sabe pai, eu acho que sei o que Deus pretende com isso, ele me quer ao lado dele, para olhar e guiar o senhor. Já parou para pensar, em tudo o que pode realizar quando eu não estiver aqui? O senhor é um homem jovem, pode ir para a universidade, depois ainda ser uma grande estrela da Broadway, não faça essa cara de assustado, pensa que eu não vejo como os seus olhos brilham quando está falando sobre lá?
O menino foi até o pai, saindo do emaranhado de lençóis em que estava envolto, se enfiou debaixo dos braços do pai. Aquela posição fez Kurt se lembrar de quando Alfredo era só um bebe, todos os planos que ele fazia para o filho enquanto lhe cantava canções para dormir, toda a vida que planejava passar ao lado do seu filho, sobre os netos que teria e sobre como julgaria a roupa de cada namorada, ou, namorado do filho, como aquilo seria o motivo de boas risadas nos domingos em que a família estivesse reunida na mesa de jantar. O pensamento nessa altura da vida, ao invés de inspirador era torturante. — Eu não quero nada disso sem você Fredo…
– Mas eu vou estar aqui papai, eu prometo, mesmo que não me veja, eu vou estar.
O maior abraçou seu filho com força, tentando unir suas almas no mesmo instante, tentando curar. Quando Alfredo depois de um choro silencioso finalmente adormeceu, Kurt saiu debaixo das cobertas e deu uma ultima olhada no filho. Deitado alí, com aquela expressão tão serena, parecia mais um anjo. O pai então desligou a luz e deixou que a criança mergulhasse no mundo dos sonhos.
[♥♥]
Blaine tinha o aparelho celular no colo, conectado ao fone via bluetooth, enquanto esperava paciente que a outra pessoa atendesse a ligação. O telefone chamou mais duas vezes e então alguém atendeu.
– Casa de Kurt e Alfredo Hummel, quem fala?
Blaine pensou ter reconhecido a voz de Alfredo atendendo ao telefone. — Hey buddy, posso falar com o seu pai?
– Não é Alfredo. — O moreno ouviu um pequeno riso do outro lado da linha, o que seria tão engraçado? — É Kurt Hummel, pode falar.
– Kurt, aqui é Blaine Anderson, como vai?
– Para ser sincero? Eu estava bem melhor a um minuto atrás.
A hostilidade do homem não surpreendeu o moreno, depois de fazer algumas pesquisas, ele descobriu que Kurt comprou aquela casa a oito anos, logo depois que seu filho nasceu, ele e seu parceiro na época, deram todas as suas coisas como garantia para conseguir o um empréstimo para comprar aquela casa, certamente para ter espaço para o bebê. — Senhor Hummel, será que poderíamos conversar como dois homens adultos dessa vez? Agora eu vejo o seu ponto de vista, sei que a casa tem um significado emocional para você, mas compreenda, o progresso precisa de sacrifícios.
– Ótimo, para o SEU progresso, sacrifique a SUA vontade, não a MINHA casa. Procure outro lugar para colocar suas empresas. Passe bem, senhor Anderson. — O castanho quase cuspiu o nome do rapaz para fora.
– Senhor, não desligue, pense bem… com o dinheiro que estou disposto a pagar, Alfredo pode muito bem ter um tratamento melhor e em uma clínica com mais tecnologia.
– O senhor não entende que o dinheiro não é o que importa, não é? Do que me vai servir ganhar dinheiro com a venda da casa, para pagar o tratamento do Fredo numa clínica mais tecnológica, se essa clínica não vai impedir meu filho de morrer? — A voz do castanho, estava esganiçada do outro lado, Blaine podia ouvir os soluços do outro no pequeno silêncio que houve. — Eu lhe vendo a casa, você realiza seu desejo de crescer, Alfredo vai para outra clínica, continua sofrendo com o tratamento, contínuo inútil contra a sua doença, ele morre e eu fico sem nenhuma lembrança. — Kurt agora respirava pesado, seus soluços mais altos. — Agora senhor Anderson, me diga por que eu lhe venderia a casa onde eu passei os oito anos mais felizes da minha vida para que você satisfaça sua vontade?
– Papai? — O moreno ouviu uma voz baixinha vindo do telefone, seu coração se partiu ao imaginar aquela criança vendo o pai no estado em que provavelmente estava. — O senhor está chorando?
– Não Fredo, eu só… escute, eu preciso desligar senhor, passar bem.
O telefone saiu do ar e o moreno ficou parado ouvindo o som dos bips que saim do telefone. Mas logo ele foi arrancando do transe, quando um Maurice bem animado pulou em sua cama. — Tio B, o senhor não vai acreditar.
– O que Many?
– Hoje eu briguei na escola.
– Oi? — Blaine ergueu uma sobrancelha para o mais novo que agora se encolhia no seu lado da cama. — Maurice, por favor.
– Mas tio, ele era um pé no saco.
Blaine tentou segurar o riso de todas as maneiras, não queria incentivar aquele tipo de atitude do sobrinho, já que seu irmão viajava maior parte do tempo e ele era a única referência que o pequeno tinha, mas a forma como o menino falou foi engraçada. — De onde você tira essas coisas?
– Eu vi em um filme.
– Maurice, não pode sair brigando por ai.
– Ele disse que só porque eu sou seu sobrinho, eu quero ser mais importante. Mas não é verdade tio.
– Eu sei Many, mas você tem que ignorar, já imaginou se eu fosse brigar com qualquer um que dissesse algo de mim?
– Urhh, não seria amigo de ninguém.
– Au! Não é tanta gente assim.
Blaine fingiu estar indignado e deitou-se na cama com as costas viradas para o menino. O menor pulou nas costas do tio e começou a fazer cócegas, no moreno que se contorcia debaixo de seu corpo. — Maurice, esqueça sua mesa por os próximos dois anos. — O menino não cedeu, continuou com a tortura e a essa altura Blaine já estava vermelho de tanto rir. — Ok, você está pedindo, pelos próximos sete.
O menor foi parando gradativamente as cossegas no tio, que foi tentando deixar a sua respiração regular.
– Tio?
– Aqui não tem nenhum tio.
– Tio, é sério.
– Ok, pode dizer. — O moreno ajeitou seu corpo e se recompôs na cama, ficando de frente para o sobrinho.
– Eu queria falar sobre o Alfie.
– Estou ouvindo.
– Tio, ele é um garoto legal, eu queria poder ajudar. Será que… — O garoto mordeu o lábio pensando sobre o que falaria. — o senhor daria a minha mesada para ajudar a ele?
Aquilo era novo, Maurice nunca fez muito caso dos seus amiguinhos, Blaine e Cooper eram os únicos com quem o pequeno realmente se importava, ele sempre dizia que eles tinham que pensar um no outro antes de qualquer coisa. O moreno puxou o menor para seus braços, saber que o sobrinho estava se importando com outra pessoa que não fosse da sua família, o deixava muito orgulhoso — Many, eu prometo que vou fazer o possível para ajudar o Alfredo está bem?
– Eu posso chamar ele para vir brincar comigo?
– Claro, podemos ligar amanhã.
– Não tio, vamos ligar hoje.
Blaine revirou os olhos e nem contestou, no quesito teimosia, o garoto tinha com certeza herdado a sua, porque ninguém conseguia tirar algo da cabeça dele depois que estava cogitando algo, ele digitou o número da casa dos Hummel mais uma vez, dessa vez não precisou esperar tanto.
– Casa de Kurt e Alfredo Hummel. — A voz do rapaz estava da mesma forma de alguns minutos atrás, quando Kurt havia desligado o telefone, chorosa e sentida.
– Senhor Hummel, é Blaine Anderson eu…
– Meu senhor, por favor, eu tive um péssimo dia e gostaria de pedir, por favor para não perturbar meu sossego.
O tom frio que carregava a voz de Kurt naquele momento incomodou o moreno, será que ele tinha ofendido Kurt tanto assim? — Me desculpe é só que… — Alfredo tomou o celular da mão do tio que nem teve tempo de ficar surpreso.
– Senhor Hummel, sou eu, Maurice. Eu só… eu queria saber se o Alfie podia vir passar um tempo aqui comigo amanhã.
– Oh, bem… eu não sei pequeno, sabe ele não está muito bem ultimamente.
– Ele não precisa ficar muito e o senhor pode acompanhar ele. É que ele me prometeu de mostrar a coleção de panfletos.
O menor segurou a respiração enquanto Kurt mantinha silêncio do outro lado da linha. Seria legal ter alguém a mais para conversar, alguem da sua idade pelo menos. E assim, o tio poderia oferecer sua ajuda ao outro homem. — Tudo bem, eu vou falar com ele e se ele estiver se sentindo melhor, vamos amanhã a tarde está bem?
– Está bem senhor, obrigado.
O menino jogou o telefone em cima da cama e se levantou, assustando o tio. Ele começou a pular na cama animadamente enquanto o tio o olhava curioso. — Então, ele vem?
– Sim e o senhor Hummel também. — Blaine pegou o sobrinho por a cintura e o jogou em cima da cama. A alegria do mais novo era contagiante.
– É muito bom que esteja feliz, mas você tem que dormir para ir a escola.
– Mas tio…
– Não senhor, nada de "mas tio", vai dormir ou tiro a permissão para ele vir.
– Ok. — Ele revirou os olhos, mas não discutiu. Ele queria mesmo que o amigo viesse.
Blaine cobriu seu sobrinho com seus lençóis e o abraçou. Com o sobrinho ali, nos seus braços, o moreno começou a imaginar como seria se fosse Maurice o doente, se ele estivesse condenado a morrer tão jovem. Apenas o pensamento disso, fez o moreno fechar seus braços com força sobre o sobrinho. Era doloroso pensar em não ter mais o sobrinho por perto para brincar, abraçar, encrencar e até dar aquelas famosas broncas. O moreno se recusava a se deixar levar por aqueles pensamentos, mas estava sendo bem difícil, já que uma situação parecida estava tão próximo deles.
– Está me machucando tio. — Resmungou o menino de olhos fechados.
– Desculpe.
– Tio? O senhor está chorando?
– Não, eu não. — Mas Blaine estava mentindo, seus olhos estavam banhados por lagrimas que não deixavam de correr por seu rosto, pensar em perder o sobrinho fez ele ficar mais perto de entender a dor que Kurt carregava no coração.
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