A carruagem corria acelerada pelo deserto do Mindscape.

Dipper entrou no veículo ajudando Bauer a carregar Stanford. Pacífica e Bill carregavam Mabel. A situação das vítimas era crítica: Mabel e Ford haviam ficado presos na bolha de Time Baby por dois meses inteiros. Estavam fracos, mal nutridos.

— Rápido! — Pacífica apontou para o banco do cocheiro, enquanto deitava Mabel no sofá da sala. Dipper não deixava de se impressionar com a habilidade da carruagem de Tom em fazer o espaço interior ser maior do que o exterior. Haviam ido naquela expedição sem o demônio, para não arriscar serem rastreados pelo bracelete dele… o que se provou inútil, já que Time Baby os havia encontrado pela bolha e agora os perseguia com um exército inteiro. — Alguém avisa os cavalos que eles precisam ir mais depressa!

Bauer sentou Ford em uma cadeira no lounge gótico e correu para o assento de “motorista”. Algo explodiu logo atrás deles, uma chuva de areia e destroços esmagou o teto da carruagem. Todos gritaram.

— Dipper, faça alguma coisa! — gritou Bill.

— Estou muito cansado! Usei tudo de mim para sair da bolha. — Em pé e atrás da cadeira, curvou-se sobre o corpo de Ford, segurando-o como se o homem pudesse simplesmente desaparecer do seu alcance.

— Não consegue passar seus poderes para mim?! — Cipher correu até os dois.

— Eu não acho q…

— Parem de querer contra-atacar! São centenas contra nós seis! — Pacífica rugiu, sentada ao lado de Mabel no sofá, enquanto media seu pulso com os dedos. Ela estava preocupantemente pálida. — Temos que focar em chegar no Refúgio, estaremos seguros lá!

O veículo freou bruscamente e a carruagem se inclinou para trás, jogando algumas das decorações no chão. Lá fora, pedras eram pulverizadas e explosões abafavam todos os gritos. Os cavalos-esqueleto deram uma guinada violenta para o lado e pareciam, agora, cavalgar no ar. Dipper sentiu um frio na barriga.

— Eu não estou me sentind… — Ford balbuciou, mas não chegou a terminar. Tombou a cabeça para o lado e vomitou copiosamente. O conteúdo era esverdeado, bile pura.

“Meu deus do céu…”

Cipher estalou os dedos diante do rosto de Dipper. Pines nem percebera que estava travado de choque.

— Vamos levar ele para o quarto, precisa ficar deitado! — urgiu Charlie.

Com cada um segurando o homem por debaixo de cada ombro, levaram-no ao quarto ao lado. O posicionaram na cama. Dipper se ajoelhou no chão, ao lado de Ford, pegando-o pelo pulso.

— Ford?! — Deu-lhe um leve tapinha no rosto. O tio avô estava mole, com os olhos revirados. — Você está me escutando?!

Ford moveu os lábios de leve. Era tudo que ele conseguia fazer, mas era o suficiente para que Dipper entendesse que sim. Um pouco de paz no olho do furacão.

— Ele está fraco — adiantou Bill.

— Precisa comer algo. — Dipper o encarou.

— Sim, mas aos poucos. Senão vai voltar a vomitar.

— Quanto tempo eu estava lá dentro?

— Da bolha? Algumas horas.

Dipper ficou boquiaberto. Na sua cabeça, parecia que tinha vivido meses inteiros numa vida alternativa com Stanford, Mabel e Pacífica. Não podia imaginar o quão desorientado Ford e a irmã deveriam estar.

— Agora, eles precisam de água. — Cipher ficou de pé num pulo, segurando-se no batente da cama para não cair em meio aos solavancos. — Mantenha-o acordado!

E saiu do cômodo.

Dipper se viu sozinho com ele. Apertou a mão de Ford com força.

“Por favor, Ford, aguenta um pouco…”

— Estamos próximos! — anunciou Bauer num berro.

Algo ficou mais leve dentro do peito de Dipper. “Graças a deus!”

— Eles vão descobrir a entrada do Refúgio, não os despistamos o suficiente! — o troll continuou gritando para o grupo.

“Merda.”

— Não importa! Se continuarmos aqui, vamos morrer! — interpelou Northwest. — Sem falar que o Refúgio pode mudar de posição a qualquer momento assim que pressentir perigo.

— A entrada pode respawnar a quilômetros de distância, do outro lado do planeta! — gritou Dipper na direção da sala, apoiando Pacífica. — Tem que ser agora!

Houve o estalar de chicotes e os cavalos relincharam, o clarão de suas chamas penetrando a carruagem e deixando o interior vermelho por um segundo. Então, a carruagem deu um mergulho, inclinando tudo para baixo. Dipper passou o braço por cima de Ford, mantendo-o preso ao colchão. De repente, toda a luz do sol desapareceu. Escuridão completa. Então, luz novamente, mais fraca, mas presente junto de um calor escaldante. “A cascata de lava do Tom!” Os cavalos frearam com um solavanco. Todos os passageiros gritaram enquanto as rodas derrapavam em algo áspero até finalmente pararem bruscamente. As cabines foram jogadas para o lado com o impacto, sons de vidros e móveis se partindo por todos os lados.

Houve gritos surpresos de monstros do lado de fora do veículo. — O que é isso?!

Estavam dentro do Refúgio da Rebelião. Sãos e salvos.

— Alguém está ferido?! — chorou Pacífica.

— Dipper! — Bill irrompeu no quarto.

— Estamos bem! Me ajuda aqui.

Os dois arrastaram Ford para fora da carruagem. Bauer e Pacífica vieram atrás carregando Mabel.

— Abram caminho! Abram caminho! — gritava Thomas no meio do aglomerado de monstros que se aproximavam curiosos pela cena.

O garoto demônio saiu do meio da multidão, sua expressão suavizando um pouco ao ver Dipper e os resgatados bem… ou quase bem.

— O que aconteceu?!

— Time Baby nos pegou de surpresa na entrada do Nightmare Realm. Ele está com um exército inteiro atrás da gente! — Cipher anunciou, o que não ajudou em nada a manter a calma.

Lucitor arregalou os olhos.

— Eles estão aqui fora?! — grasnou um homem-águia na multidão, iniciando uma onda de pânico entre os monstros, que corriam para os quartos; outros para a cascata de lava, prontos para defenderem a entrada.

— Sem pânico! Sem pânico! — Thomas gritou, mas pouco serviu para apaziguar. O garoto-demônio foi ficando mais vermelho, as pupilas embranquecendo, os cabelos começando a soltar fumaça. Dipper sabia o que viria em seguida. Fechou os olhos, preparando para a dor de ouvido. — SILÊNCIOOOOO!!!!!!!

Lucitor havia virado uma bola de fogo de tanta fúria. O grito causou um leve terremoto no Refúgio. Imediatamente, todos congelaram na posição em que estavam, os pescoços torcidos para o líder.

Quando não se ouvia mais um pio no recinto, Thomas voltou à sua aparência normal, respirou fundo, limpou a garganta e estalou os dedos. Todo o cenário em volta dele mudou num passe de mágica, exatamente da forma que Dipper viu Tom fazer durante o banho deles nas crateras aquecidas. Todos os presentes na caverna agora estavam inseridos numa reprodução tridimensional e holográfica do exterior do Refúgio. A porta camuflada de pedra estava inclinada no meio do deserto. Não havia sinal de nenhum exército ao redor.

— Estamos salvos — disse Lucitor, desfazendo o feed mágico de transmissão. — O Refúgio pressentiu ameaça e fomos transportados para outro lugar do Mindscape.

Houve uma comoção de suspiros e sussurros. Tom se aproximou de Ford, Dipper e Bill. Ele tocou a bochecha do mais velho com uma mistura de pena e orgulho. Stanford, um dos maiores membros da Rebelião há trinta anos, estava de volta. Dipper imaginou o quão doído devia ser para Thomas ver um exemplo de bravura tão fraco. Em seguida, tocou a mão de seis dedos, inspecionando-a com os olhos semicerrados. — Levem-no para o meu quarto por enquanto. Serão capazes de revigorá-lo com a conexão Índigo.

Cipher e Dipper saíram com Ford sendo arrastado entre eles. Enquanto se afastava, ouviu Thomas guiando Pacífica para a enfermaria com Mabel. Pines olhou por sobre o ombro para elas. Mabel estava fraca, mas consciente. E ela olhava diretamente para ele. Dipper sentiu um arrepio frio no estômago. Mabel oscilava entre fraqueza e suspeita, os olhos indo dele até Ford. Meio confusos, meio sérios…

“Ela sabe. Ela sabe de tudo”, pensou Dipper, uma ansiedade começando a brotar na sua alma.

— Dipper! — Bill deu uma bronca. Dipper não havia reparado que estava aéreo. — Me ajuda aqui!

— Desculpa. — Dipper continuou o caminho até o quarto de Tom com Cipher e Ford pesando nos seus ombros. Enquanto se distanciava, ouviu Tom dizer para o troll: — Depois volte imediatamente, Bauer. Estarei te aguardando na sala de reunião. Precisamos debater estratégias de ataque e defesa com urgência!

Chegaram à porta medieval e entraram no aposento vazio, com archotes brilhantes, candelabros de rubi e chão polido de marfim. Bill afastou o mosquiteiro. Ele e Dipper deixaram Stanford de barriga para cima no colchão, soltando suspiros aliviados enquanto sentavam-se de cada lado do homem.

— E agora? — perguntou Cipher, apressado. — Como você fez para me curar daquela vez no Exílio?

— E-Eu não sei! Apenas aconteceu. — Então lembrou-se da forma com a qual Bill havia o resgatado da bolha. — Aquele fio que nos liga – como você fez para que ele aparecesse e entrasse na minha mente?

— Eu estava tão desesperado que comecei a sentir tudo muito profundamente. Não sabia se ia dar certo, também simplesmente funcionou.

Dipper massageou as têmporas. Ford estava cada vez mais pálido. “Ele pode morrer?!”

— Ei! — Cipher o sacudiu pelo ombro. — Mantenha a calma.

Dipper respirou fundo e segurou a mão de Bill. Lembrou-se das vezes em que aquela conexão aconteceu. Bill tinha razão. Aparecia com mais força em momentos extremos, com os nervos à flor da pele. Apareceu quando achou que Bill morreria, apareceu quando Bill pensou ter perdido Dipper, não poderia ser diferente agora. Também havia aparecido nos seus melhores momentos: quando Bill e Dipper ficaram íntimos, quando Dipper se lembrou de Bill e Ford na caverna e seu coração se aqueceu…

Estavam conectados.

Uma ideia surgiu na cabeça dele.

— Segure a mão dele — Dipper falou de modo tão sério, que Charlie obedeceu como se tivesse medo do que aconteceria caso negasse.

Ainda segurando a mão de Bill, Dipper segurou a outra mão do tio avô, criando uma corrente entre eles.

— Bill… — começou Dip, suave.

Bill o olhou com expectativa.

— Se lembra da vez que você nos criou?

— O que isso tem a ver?

— Por favor, confie em mim. — Deu um sorriso cansado para Charlie. — Me lembra daquela história que você me contou há uns meses. Sobre a inspiração dos seus Índigos.

Bill admirou Ford, com as bochechas avermelhando à medida que ele se lembrava.

— A constelação da Ursa Maior com uma estrela faltando… a única coisa que liga o Mindscape ao mundo real.

— O que te deu esperança de sair daqui um dia… — Dipper ajudou, sentindo um formigamento na testa, no local onde estava sua marca de nascença. “Está funcionando.”

— As seis estrelas… — Bill acariciou a mão de seis dedos de Ford, derretendo-se no sentimento. — Vocês dois…

Os dedos de Ford começaram a esquentar e a brilhar de leve com uma energia azulada. A testa de Dipper também se acendeu. Ele se virou para o tio-avô. Ford tinha aberto os olhos de leve, parecia lúcido.

— Ei, Ford. Lembra daquele dia em 2012, quando você me levou para conhecer o ovni escondido nas colinas? — disse Dipper, sentindo os olhos arderem com as lágrimas que começavam a se formar. Ford virou a cabeça de leve para Dipper. A energia entre eles havia passado para os antebraços, ficando mais forte. — E você me convidou para ser seu aprendiz, e eu disse sim imediatamente porque não havia outra coisa no mundo que eu mais quisesse do que ficar com você?

— Lobinh… — Ford deu um sorriso lânguido.

Dipper soluçou, assentindo. — Ou o presente que você me deu no meu aniversário de catorze anos, que eternizava a nossa memória daquele dia, nas colinas? E aquela vez durante o outono, que você me deu um banho na cabana – eu nunca tinha me sentido tão acolhido em toda minha vida.

Ford voltou a ficar fraco, os olhos fechando.

— Sixer! — Bill disse, desesperado. — E aquela vez em 83? Quando acabou a luz na cabana e ficamos sozinhos no quarto, à luz de velas? Você me olhava com tanta admiração, tanta curiosidade e carinho, que… — Perdeu a fala. — Nunca te contei isso, mas foi naquele momento que eu soube que você era mais especial para mim do que eu pensava. Foi quando eu descobri que amava você, Stanford. E que faria de tudo ao meu alcance para me livrar da posse do Time Baby e conseguir um dia ser feliz com você. — Dipper percebeu a dificuldade que ele tinha para prosseguir. Era notável o nó na garganta de Cipher. — Desculpa por ter quebrado o seu coração naquele dia em que jantamos juntos, em que em ficamos chorando e rindo ao mesmo tempo de tão bêbados — sorriu em meio ao choro — em que nós… você sabe. Eu me lembro disso todos os dias – eu me arrependo disso todos os dias da minha vida!

A luz brilhou mais intensamente e cresceu, envolvendo os três numa única aura.

De repente, Ford acordou tragando o ar com força! Ficou sentado na cama, levemente desorientado, mas consciente e revigorado.

Bill e Dipper se afastaram, espantados.

Permitiram que, por um momento, Ford recuperasse o fôlego.

— O que aconteceu? — disse Stanford, rouco e tateando o próprio corpo, como se tentasse verificar se ele mesmo era real.

Cipher acariciou o seu ombro. — Muita coisa.

— E-Eu estava no Oregon? Você era um adolescente, então de repente virou adulto?

— Também fiquei um pouco confuso — adiantou-se Dipper, aproximando-se e acariciando o joelho dele sob as calças surradas. — Mas você está bem, juro.

Ford o encarou, os olhos espremendo enquanto absorvia a barba cheia, o cabelo volumoso e sem corte e os ombros largos de Dipper. — Você… mudou.

Dipper sufocou um risinho e tocou a barba cheia e grisalha do tio. — Você também.

Ford levou os dedos no próprio rosto.

— Não se preocupe — maliciou Bill. — Prefiro assim do que a por fazer. Você fica bem mais gostoso.

Ford arquejou, surpreso com o elogio fora de hora. Dipper também. No fundo, havia sido mais pelo incômodo que aquele novo sentimento havia causado. Era algo completamente novo. Ao mesmo tempo, teve dois pensamentos simultâneos: “Como ele ousa flertar com o meu homem?!” e “Como meu namorado ousa flertar com outro homem na minha frente?”

O comentário do Bill tinha saído alto demais, cedo demais, num quarto que ainda cheirava a vômito e pânico. E, pior: acendeu no ar uma intimidade que Dipper não tinha certeza se queria presenciar ou se queria fingir que não existia.

“Acabei de sentir ciúmes de Ford e de Bill ao mesmo tempo? Isso faz sentido?”

Dipper engoliu em seco. A marca na testa havia apagado, mas o formigamento ficou, como a lembrança de uma queimadura boa demais para ser só dor.

Ford, ainda sentado, levou a mão ao peito, como quem procura o próprio ritmo por dentro das costelas. Ford olhou para ele. A pupila parecia tentar focar em duas linhas do tempo ao mesmo tempo.

— Você disse que ficou confuso também… — Ford apertou os olhos. — O que você viu lá dentro? Quer dizer… Houveram dois de nós? Ou… dois de todo mundo?

— Isso é o efeito das suas memórias da linha temporal anterior retornando — disse Bill. — Sem falar que você mal tinha as recuperado e Time Baby já foi metendo você e Mabel numa bolha de ilusões. Vocês ainda não tiveram tempo para processar tudo. Já já isso passa.

— Não se preocupe com isso. Acho melhor você descansar agora — falou Dipper, seco. — Talvez trocar essas roupas, tirar um cochilo…

— Pode crer, até porque, com todo respeito, você tá fedendo — emendou Cipher.

Ford deu um risinho e se reajustou na cama, sentando com as pernas para fora. Ele tirou o sobretudo marrom. Dipper sorriu. Por um mísero segundo, parecia que não havia nenhum caos acontecendo. Seu mundo estava em perfeito estado.

— Vejo que Thomas encontrou vocês — comentou Ford, observando a arquitetura gótica e pitoresca do quarto ao redor. — Esse lugar continua sendo incrível.

Dipper abriu a boca para responder. No entanto, Ford começou a puxar o suéter vermelho acima da cabeça e…

“Uau…”

A Conexão havia feito mais do que apenas revigorar Ford. Tinha restaurado seu corpo ao que era antes de ser sequestrado por Time Baby.

Dipper descia o olhar pelo torso enquanto um arrepio descia sua coluna. Os ombros largos e bem definidos… o peitoral ressaltado… com pêlos grisalhos semeados do meio dos peitos, para o meio da barriga, para abaixo do umbigo, para dentro…

Engoliu a saliva que se acumulava na boca e afastou o olhar imediatamente no que Ford começou a desafivelar a calça. Por algum motivo, seus olhos foram diretamente para o rosto de Bill, que estava levemente corado, mas com a atenção em Mason (como se já estivesse observando a sua reação bem antes).

— O que você tá olhando? — disse Dipper, meio constrangido, meio raivoso.

— O que você está olhando, né? — Cipher corrigiu.

Dipper foi atingido por um golpe de indignação e colocou a mão na cintura. — É você que está vermelho.

— Estão brigando como se fossem casados ou algo do tipo — retrucou Ford, encerrando a pseudo-briga.

“Algo do tipo”, respondeu Mason, quieto, percebendo o quão fora da realidade era aquela situação. Era sua primeira vez tendo que lidar com aquilo.

Ford ficou em pé e puxou o zíper da braguilha para baixo.

— S-Sixer, pode deixar que o Tom…

— Ah, tenham a santa paciência! Vocês dois já fizeram coisa pior comigo do que me ver pelado.

Sem aviso, Stanford empurrou o cós até o meio das coxas. Com cueca e tudo, a calça caiu embolada no piso.

Dipper prendeu a respiração.

Bill pareceu se engasgar, mas não se intimidar. Colocando a mão incrédula no queixo, ele admirou a vista com um sorriso malandro de canto de boca.

Ford deixou a roupa suja em cima de uma dobra na rocha ao lado da cama que servia de mesa de cabeceira improvisada. Tudo isso com a maior calma do mundo.

Dipper e Cipher simplesmente assistiam tudo sem reação quando a porta do aposento se abriu num solavanco. Dipper saltou de susto, como se tivesse sido pego fazendo algo de errado.

Thomas entrou no quarto carregando roupas novas para Ford.

— Ah, você está melhor! — disse ele, como se um humano de sessenta anos com a bunda de fora no seu quarto fosse algo corriqueiro. — Aqui, dei meu melhor para encontrar algo que te servisse. Sei que não são seu estilo, mas é temporário. — Entregou as vestes de couro e, em seguida, sacudiu as sandálias gladiadoras de couro na frente do rosto dele. — Use essas o tempo inteiro, senão seus pés vão derreter quando você pisar fora do mármore.

— Ainda me lembro de como era morar aqui — Ford se virou, pegando-as das mãos de Tom enquanto seu… membro… balançava. Era como o relógio em pêndulo nas mãos de um hipnotista. — Obrigado, Tom.

Tom recolheu a roupa suja e se virou para o público do espetáculo.

— Não temos tempo a perder. Time Baby nos atacou diretamente. Precisamos definir como vamos lutar o mais rápido possível, de preferência hoje.

Dipper sentiu um nó se fechar no estômago. Tom se aproximou dele.

— Quantos soldados você estipulou? Quantos conseguiria derrubar sozinho?

“Meu deus, está tudo acontecendo ao mesmo tempo.”

— E-Eu…

Bill segurou sua mão, mas a ansiedade não reduziu.

— Não podemos discutir isso mais tarde? — propôs.

Thomas olhou para o loiro. — Claro. Mas precisa ser hoje. — Enquanto saía, parou e se voltou a eles. — Aliás, Bill, você e seu namorado não preferem lavar as roupas nas crateras termais? Sabe, já aproveitar e tomar um banho, acalmar os ânimos… Aí eu aproveito para atualizar Stanford de tudo que aconteceu. Pacífica Northwest já está resolvendo isso com a irmã dele.

Dipper fechou os olhos de tanta vergonha.

Stanford virou-se imediatamente, com as sandálias vestidas pela metade, olhos arregalados para Bill e Mason.

Mesmo sem o tio avô dizer nada, por um segundo sua marca da Ursa Maior formigou e ele ouviu o seu pensamento espantado: “Namorado?!

Após um momento congelado no lugar, Ford voltou ao que estava fazendo e murmurou para si: — Muita coisa aconteceu mesmo.

Bill deu de ombros. — Bem, foram 3 meses desde que você e Mabel sumiram do mapa.

Dipper teve a impressão de que estava tendo um derrame.

— Vocês entenderam?! — pressionou Tom, desavisado de que uma batalha silenciosa ocorria ali.

— Sim. — Dipper assentiu.

Tom esticou o pescoço para Ford, que colocava o short de couro justo. — Stanford, quando o seu sobrinh…

— Noivo — Stanford corrigiu, ajeitando os óculos no nariz.

Lucitor arqueou uma sobrancelha de confusão e surpresa.

“Eu devia ter ficado lá no deserto para ser trucidado por Time Baby. Seria menos doloroso.”

— Eu pedi ele em casamento antes de morrer — elaborou, impaciente. — Dipper é o meu noivo.

— Tecnicamente não. Ele nunca disse “sim” pro seu pedido — sussurrou Bill, casualmente, com as mãos nas costas.

“E se eu invocar a minha katana mágica e enfiar no meu pescoço?”

Ford olhou confuso para o sobrinho-noivo. — Isso é verdade? A linha temporal original ainda está se encaixando no meu cérebro.

Dipper apenas assentiu porque era incapaz de responder em voz alta. “E aquela não era a linha temporal original, Time Baby já a modificou antes de mim”, pensou em dizer, mas achou melhor não confundir Stanford mais do que o necessário.

— Mas você ia dizer sim naquele dia, não ia?

Dipper não entendia mais se Ford estava indignado, enciumado ou desorientado. Talvez fossem todas essas opções. Antes que pudesse responder, Tom deu um suspiro longo e profundo, o mesmo que funcionários de loja dão quando querem inferir Eu não sou pago o bastante para aturar isso.

— Mason — disse ele, firme, para deixar claro que não tomava partido entre “noivo” e “sobrinho”. — Precisamos discutir estratégia. Hoje. — Olhava agora para o trio com um olhar perfurante e fumacinhas subindo das pontas as suas orelhas e chifres. — O que quer que esteja acontecendo aqui, preciso que vocês ponham os pingos nos i’s urgentemente! Sem querer botar pressão, mas estamos em guerra civil e provavelmente multidimensional. Preciso de todos em sintonia, contribuindo. E não quero ter que perder mais ninguém – ainda mais para picuinha.

O garoto demônio respirou fundo. As fumaças de estresse sumiram da sua cabeça. Ele deu as costas e caminhou para a saída com as roupas. — Ah, a propósito… — Na soleira, com a mão ainda na maçaneta, Tom se virou para Ford, com um sorriso sincero no rosto. — Bom ter você de volta, Ford.

Ford acenou de volta. E Tom saiu do quarto, mas o peso da bronca havia ficado.

“Tom está certo”, percebeu Dipper. “Chega de segredos. Chega de meias-palavras. Tá na hora de fazer o que eu já devia ter feito treze anos atrás.”

— Bill, fique aqui. Ponha Ford a par de tudo.

Charlie o encarou com um pouco de surpresa. — Onde você vai?

— Tomar um banho, esfriar a cabeça, e aí… — Seu coração voltou a bater forte. — E aí eu vou contar tudo para Mabel.