De banho tomado, Dipper percebeu que não tinha conseguido esfriar a cabeça. Passara o tempo inteiro no banheiro do seu quarto pensando em como Mabel reagiria, em quais palavras usar.

Havia trocado as roupas de batalha pelas roupas que havia trazido consigo quando chegou no Mindscape, as que usava na festa de Halloween antes do circo pegar fogo: uma camisa xadrez vermelha que mal o servia mais e um par de jeans. Manteve apenas as sandálias, não arriscaria usar um All-Star ali.

Assim que saiu do quarto, pronto para procurar por Mabel e Pacífica, topou com Bill esperando do lado de fora, no corredor.

— Ei… — disse ele, com doçura. — Organizou os pensamentos?

Dipper deu para ele uma cara de desprezo. Bill riu.

— Entendi — respondeu Cipher, aproximando-se. — Como está se sentindo? — Tocou o braço do namorado de leve.

— Não sei, Bill. Estou naqueles momentos em que já não tenho certeza de mais nada. Estou indo confrontar Mabel sobre nós e Stanford. Mas a questão é: não sei o que ela deve estar pensando sobre a pessoa que escondia um segredo desses. Sobre a pessoa que foi tão longe para protegê-lo que praticamente apagou a verdade da sua mente. Sobre o mentiroso e depravado com o qual ela conviveu nos últimos anos. — Abaixou a voz quando continuou com: — E a questão do incesto… — Foi difícil dizer a palavra. Incesto parecia um palavrão para ele. — Meu deus, ela deve estar me olhando sob uma ótica totalmente diferente. E deve ser pior ainda com Ford.

— Dipper…

— Eu sei o que vai falar, Charlie. Mas você vem de uma situação completamente diferente da deles. Foram eles, de fato, os mais afetados pela minha covardia.

— Eu ia falar que você está certo.

Dipper se calou, em choque.

— Não será fácil mesmo, não vou fingir que é simples — aprofundou Cipher. — Acho que você deve, sim, estar preparado para a reação dela. Pode não ser o que você gostaria de ouvir. É totalmente imprevisível. Mas sabe de uma coisa, Dipper?

Dipper aguardou ele terminar. Bill segurou sua mão com candura, meio inseguro, triste.

— Acho que você tem que, primeiro, reconhecer o que você quer de verdade para sua vida. É viver com uma boa relação com a Mabel, com seus pais? É seguir o script de uma vida humana tradicional? É viver aqui? Na Terra?

Dipper percebeu que nunca parara para pensar naquilo. Passara tanto tempo tentando fugir dos problemas e depois preocupado em resgatar Mabel e Ford…

— É viver com Ford? — Ele desviou o olhar, não conseguia encarar Pines. — É viver… comigo?

Dipper sentiu uma facada no peito. — É claro que eu quero você na minha vida! Já falamos disso.

— Eu sei, mas e quanto a Ford? Você também o quer na sua vida? Ter nós dois ou só um de nós te faria feliz?

Pines suspirou e abraçou Bill. Ficaram um bom tempo parados ali.

— Ser humano é tão confuso. Quanto mais tempo eu passo sendo, mais complicado fica. Achei que ficaria mais fácil com o tempo — Bill sussurrou, meio choroso. Dipper quis dar um risinho compassivo, pois aquilo era exatamente o que ele também sentia.

— É mesmo. E eu fiquei tanto tempo sendo triste que, agora que as coisas estão se ajeitando, tenho medo de não saber mais o que é ser feliz, o que é ter uma vida tranquila. Por treze anos, usei a dor de combustível para conduzir minhas escolhas. Antes eu queria só ter uma vida normal, mas agora…

— Shhh… — Charlie acariciou seus cabelos. — Não esquenta. Olha, eu vou à reunião com Tom e os outros, discutir como vamos acabar com Time Baby. Não se preocupe com isso agora, okay? Descanse. Estarei lá em seu nome e te atualizarei de tudo depois. Fique com o Ford hoje. Conversem, se entendam… vocês precisam disso. E, sendo sincero, não vou ligar para como vocês vão fazer isso, entende?

Mason entendeu. Bill deixava claro que ele tinha um passe livre para ter intimidade física com Stanford.

Bill se separou, encaixando o rosto de Dipper entre suas mãos. Olho no olho. — Quero te falar algo sério. Eu amo você e também amo Ford. Sou capaz de ter uma vida a três tranquilamente. Mas preciso que você e Stanford saibam se são capazes disso.

Ele contou para Dipper em qual quarto Pacífica e Mabel estavam, e que Ford tomaria um banho nas crateras termais e logo o encontraria no quarto deles. Antes de deixar que Pines partisse, fez um carinho no seu queixo e disse:

— Tá na hora de pensar em como ser feliz, carneirinho. E, independente do que você escolha, eu estarei feliz se você também estiver.

*

Dipper se pegou parado diante da porta fechada do aposento de Mabel e Pacífica. Havia batido primeiro e se anunciado, Pacífica havia gritado “um instante!” e o fez esperar. Havia algo bom naquilo, talvez o tempo o ajudasse a recolher a coragem que não conseguira encontrar no banho.

De repente, a porta se abriu e Dipper pulou no seu lugar, como se pressentisse perigo.

Pacífica saiu com um sorriso tímido, mas sincero.

— Ela está melhor agora para falar com você — explicou, fechando a porta atrás de si. — Vou deixar vocês a sós. Vou tomar um banho.

Enquanto passava por Dipper sem mal encará-lo, o garoto viu a necessidade de interrompê-la. No fundo, ele sabia que precisava de um “test drive” – alguém com quem falar sobre suas escolhas polêmicas e se preparar melhor para quando fosse se expor à irmã. E Pacífica era uma candidata perfeita. Além de ser próxima da gêmea, não era o tipo de pessoa que escondia o julgamento.

— Pacífica, espera!

Northwest voltou, olhando para ele com uma expressão neutra.

— Como foi para você fugir dos seus pais e abandonar Gravity Falls?

A fisionomia dela caiu. Havia cansaço ali, mas também compaixão.

— Difícil — respondeu, após um longo suspiro.

— Você… — encarou os próprios pés — se arrepende?

— Tá brincando? O que seria de vocês se eu não tivesse feito isso? Mabel e Ford provavelmente ainda estariam na bolha, ou pior.

— Tendi. Mas… vamos supor que seus pais não recuperem a memória, o que você vai fazer depois que voltar pra casa?

— Dar meus pulos. Tenho dinheiro, consigo me sustentar até terminar o Ensino Médio. — Ela olhou para longe, um leve brilho nas pupilas, como se estivesse perdida numa memória querida. — E quem sabe me mudar para a Califórnia, fazer faculdade mais perto de Mabel. O que quer que seja o futuro, estarei mais feliz, porque estarei vivendo a versão mais autêntica de mim mesma. Isso era algo que eu não me permitia antes, e vivia infeliz. Mesmo estando hoje nessa bagunça de guerras e problemas que tecnicamente não deveriam ser meus, me sinto bem melhor do que naquela mansão luxuosa no Oregon.

Pacífica presenteou Dipper com um olhar de quem te enxerga por dentro, de quem consegue ver as verdadeiras motivações de uma conversa. Mesmo com Dipper recuado nas entranhas de uma muralha, Pacífica o via como um raio-x. As paredes dele eram feitas de vidro para ela.

Ela estava prestes a se virar quando Pines soltou:

— Sabe, eu e o meu tio... — Dipper começou, mesmo sem ainda fazer ideia se era por ali onde deveria começar.

Pacífica levantou uma mão, silenciando-o educadamente, com um sorriso paciente no rosto. — Eu já sei, Dipper. Sua irmã me contou. As memórias dela da outra realidade já voltaram todas.

— …

— Olha, Pines, deixa eu te contar uma coisa. Eu sei como é ter medo de assumir para os outros sobre quem realmente ama. E... — travou, como se revivendo uma memória desagradável — sei mais ainda como dói esconder isso. Imagino como deva ter sido pra você esconder seus sentimentos até mesmo da própria pessoa amada por anos.

­­— Mas você não acha que…

— Honestamente, não importa o que eu acho. É a sua vida, suas escolhas.

Dipper estava sem palavras. — Quem é você? — exclamou, verdadeiramente estupefato.

Pacífica deu risada com a reação. — Sou a humana que estava se escondendo por debaixo da fantasia de Pacífica — respondeu bem humorada. — Sugiro que comece a fazer o mesmo por si. — Piscou para o garoto e, simples assim, deu as costas e caminhou até sumir de vista, deixando um Dipper abobado pra trás.

Após um momento se recompondo, o garoto virou-se para a porta e entrou no quarto.

Mabel estava sentada numa cama parecida com a dele – lençóis de seda vermelha e embutida na pedra magmática. Ela tinha as costas encostadas num enorme travesseiro apoiado contra a parede. Ela já havia tomado um banho, trocado as roupas pelas de couro, e não estava mais pálida, apesar de visivelmente fraca, com os olhos afundados no rosto e os ossos do rosto pontudos sob a pele.

Ela o aguardava sem nenhuma reação.

— Oi. — Dipper fechou a porta e se aproximou da beirada do colchão. Mabel não disse nada. — Posso sentar aqui?

Ela só assentiu.

Dipper sentou e apoiou os cotovelos nas coxas. Mesmo do lado dela, a distância entre eles era a mais longa da sua vida. O quarto era pequeno, mas sua culpa preenchia ele inteiro. As duas mãos entre as pernas estavam suadas quando ele as esfregou. — Como está se sentindo?

— Não sei explicar. Já senti todo tipo de emoção possível dentro da última hora.

A voz dela estava diferente. Mabel estava diferente. Isso ia além da aparência física. Era sua personalidade. Finalmente, Dipper realizou: ela havia voltado a ser um pouco mais como a Mabel da linha temporal anterior – com o comportamento fechado, o brilho limitado. O cheiro de tabaco no quarto não era à toa. Pacífica havia parado de fumar. Só podia ser obra da antiga Mabel, após três anos de abstinência que ela nem sabia que tinha.

Ficaram em silêncio por mais uns dez segundos. Nenhum dos dois sabendo como iniciar.

Quando Mabel finalmente abriu a boca, Dipper disparou na frente dela:

— Ele não abusou de mim. Nunca. Tudo que fizemos foi porque nós dois queríamos fazer. E, apesar de anos tentando superá-lo, ainda o amo.

Mabel não disse nada, mas continuou com a boca aberta.

— Só pra tirar isso do caminho — explicou ele. — Aliás, Bill está do nosso lado. Sempre esteve. Ele era Charlie, meu amigo “imaginário”. Time Baby o controlava como um procurador. Destruir a Terra era uma agenda do Governador do Tempo, não de Cipher. Sim, também estou apaixonado por ele.

Silêncio.

— Mabel, pelo amor de deus, diga alguma coisa!

Ela escarneceu. — Cristo amado, Mason. Eu sabia que você era estranho, mas não imaginava que fosse nesse nível.

Dipper riu, não com Mabel, nem dela. Algo desbloqueou dentro dele, uma inconformidade intensa.

— Sim! Sim, Mabel, eu sei. Sei que sou esquisito. Isso é o que mais sei sobre mim mesmo! O motivo de ter ignorado seu pedido de voltar no tempo apenas alguns segundos para salvar Ford e ter decidido reescrever minha vida inteira desde meus treze anos foi justamente por causa disso. Porque eu queria ser normal! Eu tentei. Eu juro que tentei muito, muito mesmo ter uma vida comum, ser alguém comum. Mas não funcionou!

Parecia que haviam girado uma chave no meio do seu coração, as comportas de uma represa que estava há anos transbordando, ameaçando se romper. As palavras simplesmente saíam numa enxurrada.

— Por um tempo eu achei que estava funcionando. Achei que eu estava feliz, mas não estava. Comecei um relacionamento com um garoto no Ensino Médio, que, aliás, é tecnicamente 10 anos mais novo do que a gente. Apesar da nossa aparência de 16, estamos com 26 – o que por si só já é mais zuado ainda. Depois tive que terminar porque não aguentava mais ter que mentir para ele sobre isso tudo! E por anos, Mabel, eu tive que aguentar tudo isso sozinho. Sozinho. Meu relacionamento com Bill, com Ford e o luto pelo assassinato dele, o fato de que eu era um adulto passando por uma segunda puberdade e não podia falar com ninguém, literalmente ninguém, sobre nada disso, porque nenhuma pessoa é capaz de chegar ao menos perto de passar pelo que eu passo todo santo dia!

Levantou-se.

— E o mais importante entre os motivos que me levaram a fazer tudo isso – além de perder Ford, de ver que o mundo estava prestes a acabar de novo, do meu casamento com ele, da reconciliação entre nós e da vida que levávamos – foi você. Você, Mabel, estava lá, me olhando exatamente com essa mesma cara de desdém e depressão que você tem agora! Eu sacrifiquei tudo, toda a linha temporal, por vo-cê. Para dizer “não” para o pedido de aprendiz do Ford, te fazer feliz e torcer para que você tivesse uma vida melhor. Uma segunda chance. — Riu, incrédulo. — E você teve. Estava bem mais feliz, bem mais você. Como sempre, Dipper tem que ficar infeliz para que a gêmea dele, que parece não ter nenhum pingo de autonomia sozinha, fique contente. Eu sacrifiquei tanto, tanto por você durante toda a minha vida. Desde quando éramos crianças, eu abandonava toda chance que eu tinha de uma boa oportunidade em nome da sua felicidade. E estou cansado. A questão é: é a minha vez de ser feliz. Porque eu mereço ser feliz, Mabel. E agora eu compreendo que não posso mudar o passado, não mais. Não adiantaria. Viajar no tempo sempre traz alguma consequência. A loucura me persegue, os meus sentimentos por Ford e Bill não deixam de existir. Se tudo isso que está acontecendo agora — abriu os braços para exemplificar algo maior do que pudesse botar em palavras — não for uma bronca do destino me dizendo “Dipper, pare de fugir de tudo e mexer com o tecido da realidade para evitar suas responsabilidades e aceite a porra da sua individualidade e o caos do planeta”, então eu não sei o que é! Mesmo se eu pudesse, não pretendo alterar a linha temporal mais uma vez. O que está feito, está feito. E é isto. Ah, e a propósito: se você espera um pedido de desculpas, desista!

Finalizado, Dipper sentou-se de novo na cama, um suspiro pesado deixando seu pulmão enquanto ele enfiava a mão entre os cabelos. Seu corpo estava leve como uma pluma.

Mabel ficou por um instante atônita, muda. Então, abaixou a cabeça, meio sem graça, e deu um suspiro. — Eu... eu entendo.

A guarda de Dipper evaporou. Girou o pescoço na direção dela.

— E-Entende?!

Mabel assentiu. — Isso não significa que eu aceite ou ache legal a situação. — Evitando contato visual, ela brincou com o lençol sobre as pernas, enrolando-o nos dedos. — Eu sempre vou amar o meu irmão gêmeo. Mas o irmão que eu aceitava, que eu achava conhecer,nunca existiu. Talvez um dia eu aceite o Dipper de verdade. Mas não hoje.

Dipper levou um tempo para processar as palavras. Ficou em choque. Não pelo conteúdo, mas pela razão delas não doerem, não o atravessarem como uma faca igual ele pensou que seria. Pelo contrário, teve vontade de sorrir, chorar de alívio.

— Okay — respondeu, simplesmente.

— Papai e mamãe também não vão ficar de boa com isso. Vocês precisam ter um plano se quiserem se assumir pro mundo.

— Eu sei.

— Obrigada por não desistir de mim e ter me resgatado. Obrigada também por, indiretamente, acabar unindo eu e a Pacífica. Estamos namorando, aliás. E, a partir de hoje, todos saberão.

— De nada. E felicidades para vocês duas.

Pausa.

— É só isso? — Mason perguntou.

— Só. Ainda estou montando todo o quebra-cabeça, mas acho que tenho todas as peças que preciso para completar a imagem sozinha.

— Okay. — Levantou-se, voltando para a porta. — Bom descanso.

— Igualmente.

E saiu do quarto.

Assim que a porta se fechou e ele se viu sozinho no corredor, Dipper começou a rir. Primeiro tentou conter o riso, mas aí virou uma gargalhada que deve ter durado um minuto inteiro. Não sabia do que tanto ria, mas, céus, como era bom rir.

Recuperado, ele ajeitou a postura, ajeitou as mangas da camisa xadrez e caminhou para o seu quarto.

Estava morrendo de saudade de Stanford.

Mal via a hora de passar a noite toda com ele.

E ia se certificar de que aquela seria a mais especial de todas.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.