No Limite
18 Forçada a sonhar
Notas iniciais
Hinata aprendeu cinco coisas que provavelmente todas as garotas aprendem quando são suspensas da escola:
5. Você fica entediada.
4. Sua mãe fica brava com você e sua babá fica ainda mais.
3. Você fica de castigo, coisa que nunca antes havia acontecido.
2. Você se tranca dentro do quarto e fica alheia ao resto do mundo, como se não fizesse mais parte dele.
Mas a lição número um que Hinata aprendeu depois de ter sido suspensa foi que:
1. Você se sente uma delinquente juvenil, sem futuro, sem expectativa de fazer algo acontecer.
Hinata olhou ao redor de si mesma pela milésima vez aquela tarde. Já fazia três dias que havia sido suspensa da escola e não aguentava mais. Passou todos os dias desenhando, o dia inteiro, parando apenas para comer.
Estava de castigo afinal. Sua mãe deixara claro que não passaria a semana de férias. Não assistiria televisão, não navegaria na internet, não passaria o dia inteiro no celular – que aliás fora confiscado – nem sairia para absolutamente lugar nenhum.
Estava sem falar com Ino ou Naruto há dias. Por Naruto, Hinata não reclamava tanto. Ela mesma deixara claro que não poderiam ser amigos. Mas ele havia sido tão incrivelmente maravilhoso quando se entregara junto a ela... Tão perfeito quanto um príncipe. Ele a tinha salvo e Hinata ficara boba demais com isso. Não conseguira agradecer devidamente e se martirizava todos os dias.
Mas, pensando bem... Talvez fosse melhor mesmo que ela não pudesse se comunicar com ninguém. Não poderia ir até ele toda derretida, como uma boba apaixonada. Não poderia fazer isso consigo mesma. Ela agradeceria a ele quando voltasse às aulas e pronto. Seguiria sua vida como antes. Devia isso a si mesma.
– Hinata-sama... você tem visita. – era Aia.
Ainda tinha mais essa. Aia agora a tratava friamente, como se estivesse muito decepcionada com ela. Também pudera... Hinata nunca havia se metido em brigas antes. Nunca havia sido castigada por ninguém. Mas tivera a audácia de invadir a escola e socar uma garota na frente de todos. E Aia não entendia isso de jeito nenhum.
Hinata estava desesperada para contar-lhe toda a verdade. Sobre como aquelas garotas a perseguiam todos os dias. Sobre como a espancaram. Mas não tinha coragem. Era humilhante demais.
– Já estou descendo. – disse a morena. Despiu o moletom e a blusa de flanela e vestiu algo decente, que não indicasse que passou o dia inteiro na cama desenhando.
Hinata abriu a porta devagar e observou o corredor. Nenhum sinal de Aia. Suspirou, perguntando-se quando aquele tratamento iria acabar.
Desceu as escadas rapidamente e dirigiu-se à porta, dando de cara com Ino. A loira vestia um vestido florido simples e elegante, uma sandália rasteira de couro. Tinha óculos escuros no rosto e mascava um chiclete despreocupadamente. Hinata perguntou-se como Ino poderia ser tão bonita vestindo-se tão simplesmente.
“Uma modelo, com toda certeza.” – foi o que veio a sua cabeça quando pensou sobre o assunto. Se fosse Hinata a usar aquele vestido provavelmente pareceria que estava vestindo um saco de batatas.
– Anda, otária. Nós vamos sair. – disse Ino com um sorrisinho forçado no rosto.
– Ótimo ver você também, Ino. Estou bem, obrigada. E você? – perguntou Hinata sarcasticamente.
– Estou sem paciência para isso, Hinata, anda logo. – Ino disse quase irritada. Hinata a olhou sem entender o porquê da raiva e suspirou.
– Não posso sair. Estou de castigo. — respondeu a morena.
– Eu já falei com a sua mãe. Disse que passava aqui para te buscar, porque temos prova na semana que vem e temos que estudar. Disse que ia passar o conteúdo para você. – Ino explicou.
– E ela caiu nessa? – Hinata perguntou incrédula.
– Aparentemente. – disse a loira. – Agora vai tomar um banho e vestir umas roupinhas melhores, por favor. – Ino disse, olhando a amiga de cima abaixo com cara de desaprovação. Hinata suspirou e subiu as escadas para fazer o que ela disse.
[...]
Já estavam no carro. Ino suspirou pela terceira vez seguida enquanto estavam paradas no semáforo e Hinata a olhou impaciente. Sabia que a amiga estava irritada por alguma razão, mas nem sequer desconfiava do motivo.
– Anda, desembucha logo. – a morena falou e virou-se para frente, passando uma das mãos na testa.
– O quê? – Ino perguntou cinicamente e Hinata a olhou novamente, sem paciência.
– O motivo de você estar tão irritadinha. – a morena respondeu e a amiga estreitou os olhos e fez um bico, completamente emburrada.
– Não é nada. – ela respondeu. Hinata suspirou.
– Que saco, Ino. Se for para você ficar assim, era melhor nem ter ido me chamar em casa. – a morena explodiu e olhou para frente.
As duas ficaram caladas por algum tempo. O semáforo abriu e Ino seguiu em frente. Hinata conhecia aquele caminho. Estavam indo ao shopping. Cruzou os braços irritada também.
Sentiu-se muito cansada de repente. Não podia brigar com Ino também. Ela era a única amiga que lhe restara, a sua melhor amiga. Mas não poderia pedir desculpas por algo que nem sabia o que era.
Quando chegaram ao shopping, Ino parou o carro no estacionamento e desligou o motor. Mas nenhuma das duas se moveu. Hinata continuou de baços cruzados e Ino continuou com as mãos no volante. Queriam dizer qualquer coisa uma a outra, mas parecia difícil demais.
– Tudo bem... Desculpa. – Ino pediu e suspirou, jogando todo o seu orgulho de lado. – Você não fez nada, Hinata, eu que estou meio irritada esses dias. – ela afirmou. Hinata descruzou os braços e olhou para a Uzumaki, sabendo que ela tinha alguma culpa sim e que Ino estava escondendo alguma coisa.
– Pode dizer. O que aconteceu? – a Hyuuga perguntou. Não queria ficar brigada também com ela. A loira suspirou resignada e olhou para a melhor amiga, que também a olhava, preocupada.
– Bom... O problema é que... Eu estou morrendo de ciúmes. – Ino confessou e Hinata a olhou surpresa.
– Ciúmes? – perguntou sem entender. – Como assim?
– Ciúmes. De você e do Naruto... Você está cheia de segredinhos com ele, foram até suspensos juntos. E eu estou completamente por fora. E você nem me contou nada. O idiota do Naruto também nem pensa em me dizer. Sinto-me deixada de fora. – Ino confessou e Hinata levantou a sobrancelha. Olhou para Ino por uns instantes, esperando que ela dissesse que era brincadeira ou algo do tipo, mas a amiga parecia séria demais.
– Você está falando sério. – Hinata disse surpresa. Não fazia sentido nenhum. Ino era a pessoa mais confiante que a morena conhecia, só perdia para o próprio Naruto. Não acreditava que a loira estava se sentindo deixada de lado por uma coisa como aquela. Hinata fez uma careta. Teria que contar tudo para a amiga. Era o que deveria ter feito desde o início, na verdade. Nunca tivera segredos com Ino. Hinata suspirou. – Tudo bem, eu vou te contar tudo...
E contou. Contou como as garotas ficaram furiosas com os desenhos que fez na festa que eles deram para os Raposas. Contou como elas lhe espancaram. De como Neji lhe ajudou a invadir a escola. E de quando Naruto se entregou com ela, mesmo sem ter culpa de nada, porque não queria que Hinata fosse expulsa da escola. Disse também que não contou antes para a amiga por medo do que ela poderia fazer com as outras.
E a cada palavra que Hinata dava, o queixo de Ino caia mais. Hinata não entendeu o porquê, mas os olhos da amiga pareciam ter brilhado quando contou a parte de Naruto ter se entregue para salvá-la.
Ino sorriu e mordeu a unha pintada de rosa e bem feita do dedo indicador. Aquele idiota. Até quando era burro conseguia ser fofo. Lembrou-se de como confrontou o irmão. De como o acusou de estar apaixonado por Hinata. Ela só jogara verde, mas agora não tinha mais dúvidas. Se algum dia pretendeu juntá-la com Kiba, Ino mudara totalmente de ideia agora. Naruto merecia Hinata sim. Talvez quase tanto ela o merecesse. Mas era muito idiota para notar que a amava.
“Nada que um empurrãozinho não resolva...” – Ino pensou e olhou para Hinata ainda sorridente.
– Bom, eu vou acabar com aquelas vadias, sim, mas não do jeito que você acha. – Ino disse ao fim da história. – Desculpe pela crise. Não vai mais acontecer... Eu acho. – comentou baixinho, na esperança que Hinata não escutasse.
– Como assim “eu acho”? – Hinata perguntou. Ino sorriu amarelo como quem se desculpava.
– Eu também preciso confessar uma coisa. – a loira afirmou envergonhada e a Hyuuga a olhou desconfiada.
– Ino... O que é que você aprontou?
[...]
Hinata estava boquiaberta. Completamente pasma.
Ino se recusara a dizer o que tinha de confessar dentro do carro e obrigou Hinata a segui-la dentro do shopping. Aparentemente, o que ela tinha para dizer estava dentro de uma das lojas.
Hinata estranhou no começo. Não via relação entre si mesma, uma loja de roupas e Ino aprontando algo. Mas parecia que sim.
Andaram por alguns minutos até que pararam em frente a uma vitrine. Hinata olhou para Ino sem entender nada, alternando o olhar entre ela e a loja. A loira apenas a olhava com um sorriso amarelo, provavelmente perguntando-se quando ela iria se tocar do que estava acontecendo. Mas Hinata não conseguia enxergar o que estava bem debaixo do seu nariz.
– Não entendo... O que eu deveria ver? – a Hyuuga perguntou. Ino suspirou e olhou para a amiga com um olhar desanimado agora.
– Olhe bem para a vitrine, Hinata. Não vê nada que lhe seja familiar? – Ino perguntou esperançosa. Hinata olhou mais atentamente para o vidro recém polido pela vendedora. Olhou. Olhou mais. Até que entendeu.
– Ma-mas... O quê...?! Mas... – Hinata começou a gaguejar, olhando de Ino para a vitrine e vice-versa. – INO! O QUE É ISSO?! – Hinata berrou. Algumas pessoas que passavam pelo local olharam desconfiadas para as duas. Ino agradeceu internamente que fosse quarta-feira e não tinha muita gente no shopping.
– Shh! Quer falar baixo? – a loira sussurrou e puxou Hinata para um corredor qualquer onde não passava muita gente.
– Você ficou maluca?! – Hinata sussurrou também, furiosa. – Aquelas roupas são minhas! São as roupas dos meus desenhos! Você... Você... Como você fez isso?!
– Hinata... Essa loja é a Comme des Garçons¹! Você entende o que isso quer dizer?! – Ino falou baixinho, os olhos arregalados, tentando mostrar a Hinata como aquilo era importante.
– Não! – Hinata disse, como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo. Ino suspirou impaciente.
– Você é uma mula quando se trata de moda. A Comme des Garçons é uma marca de moda japonesa da Rei Kawakubo, que é uma das maiores estilistas que esse país desse país. Sua roupa está na loja dela Hinata!
– Então... Quer dizer que isso é.... Tipo assim.... Importante no mundo de vocês? – Hinata perguntou sem entender muito.
– Deixa de ser anta! Isso é o acontecimento para alguém como você. – Ino disse muito séria.
– Mas... Espera aí. Como assim alguém como eu? – Hinata perguntou cerrando os olhos.
– Hinata, olha só como você se veste. – ela começou apontando para as roupas da amiga. – Você não sabe nada de moda. Isso é fato. Mas, de alguma maneira, você desenhou aquelas roupas maravilhosas. Tão boas, que eu consegui vender para a Comme des Garçons! – Ino disse completamente animada de repente.
– Então... São boas mesmo? – Hinata disse surpresa e com uma ponta de orgulho na voz.
– São ótimas! – Ino disse. Por um momento, ficou pensativa. Mordeu a unha longa do indicador novamente. Hinata sabia que ela só fazia isso quando tinha algo para contar mas estava receosa. – São tão boas que eu... Bem, eu... – ela estava hesitando.
Hinata estava com um mal pressentimento.
– Você fez o quê? – a Hyuuga perguntou com medo na voz.
– Bom, não é nada de ruim... Na verdade é ótimo. Tudo depende de você. – Ino começou. A voz estava mansa, como se quisesse acalmar a amiga.
– Ino... O que é dessa vez?!
– Bom, você se lembra do concurso de moda estadual, não é? – Hinata balançou a cabeça afirmativamente devagar, olhando Ino com cautela e com o coração acelerado. – Eu sempre quis participar, mas nunca consegui uma estilista com talento de verdade para me dar suporte nos desfiles. E você sabe que é o meu sonho... Ser modelo! Sem contar que o prêmio é uma bolsa de estudos completa no Bunka Fashion College, em Tokyo! Hinata, essa é a melhor faculdade de moda do país! E um contrato com a Miyake Design Studio²! Não que você saiba o que é isso, mas, bem, depois você pesquisa. – Ino tagarelou. Quando terminou de falar respirou fundo, pois havia perdido o fôlego. – O que eu quero dizer é que... Bem... As inscrições estavam prestes a terminar e num ato de desespero eu me inscrevi e coloquei... Bem, o seu nome como minha estilista pessoal. – Ino disse a última frase baixinho, com esperança de que Hinata não ouvisse.
A Hyuuga riu por um momento.
– Que estranho... Por um momento pensei ter ouvido você dizer que que me inscreveu como sua estilista. – Hinata riu mais um pouco fraquinho. Ino mostrou os dentes em um sorriso amarelo, fazendo uma careta.
O sorriso de Hinata morreu aos pouco.
– Você está brincando não é? – Hinata perguntou entredentes. Ino não poderia ter feito aquilo.
– Hinata... Desculpa... – ela pediu. Hinata suspirou e olhou para o lado, passando a mão na testa, completamente inconformada.
Estava boquiaberta. Completamente pasma.
– Eu vou te matar!
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